A
invisibilidade das mulheres e das plantações na CBD
A Convenção sobre
Diversidade Biológica (CBD) reconheceu em 1992 a "função
vital das mulheres na conservação e no uso sustentável
da diversidade biológica" e afirmou "a necessidade
de total participação das mulheres em todos os níveis
da elaboração e implementação de políticas
para a conservação da diversidade biológica"
(Preâmbulo; parágrafo 13).
Apesar disso, as mulheres têm
permanecido tão invisíveis como sempre dentro das deliberações
das conferências das partes da CBD.
Deve salientar-se que o assunto
das mulheres nas florestas não se limita a sua "função
vital" em sua conservação, mas também à
função vital que as florestas têm com relação
aos meios de vida das mulheres. O desmatamento e a degradação
das florestas afetam todos os membros das comunidades dependentes
das florestas, mas ao mesmo tempo resultam em impactos diferençados
em função do gênero, onde as mulheres são
as que mais sofrem.
Há evidência demais
desses impactos sobre as mulheres (1) o que significa
que elas claramente precisam ter uma "função vital"
na proteção da biodiversidade da que dependem. No entanto,
sua "participação total" não tem sido
garantida e as mulheres continuam sendo atores invisíveis na
CBD.
Um outro assunto que continua sendo invisível –com fortes
impactos negativos, principalmente nas mulheres- é o das plantações
de monoculturas de árvores. Elas são geralmente invisibilizadas
sob o termo "todos os tipos de florestas" o que –na
linguagem da CBD- inclui tanto as florestas "naturais" quanto
as chamadas "florestas plantadas". Toda vez que um representante
insiste na inclusão do temo "todos os tipos de florestas",
em vez de simplesmente "florestas", a razão é
que seu governo quer encobrir suas plantações de monoculturas
de árvores ("florestas plantadas") com ele.
Essas monoculturas de árvores
têm sido definidas adequadamente pelas comunidades locais como
"desertos verdes", "florestas mortas", "câncer
verde", "milicos plantados" e termos similares, o que
mostra às claras que não têm nada a ver com as
florestas, com exceção da presença de árvores.
Os muitos –e bem documentados- impactos sociais e ambientais
das plantações incluem seus impactos diferençados
em função do gênero e aqueles que afetam a biodiversidade
local. Aqui de novo as mulheres são as que mais sofrem (2).
Mas até agora, tanto os
impactos das plantações sobre a diversidade quanto seus
impactos diferençados sobre as mulheres têm permanecido
invisíveis dentro da CBD.
Para cumprir seu mandato –a
conservação da biodiversidade- a CBD deveria opor-se
fortemente à substituição da biodiversidade-florestas
ricas com biodiversidade-monoculturas de árvores pobres. Como
ponto de partida para fazer com que isso seja possível, deveria
excluir explicitamente as plantações de monoculturas
de árvores do termo "todos os tipos de florestas".
A invisibilidade das mulheres
e as plantações dentro da CBD deve cessar.
As mulheres devem ser bem visíveis
dentro da CBD. A convenção está incumbida para
garantir "a total participação das mulheres em
todos os níveis da elaboração e implementação
de políticas para a conservação da diversidade
biológica”. A conferência das partes deve portanto
cumprir esse compromisso.
Pela razão oposta, as
plantações também devem ser bem visibilizadas
na CBD. A convenção está incumbida para garantir
a conservação da diversidade biológica. A conversão
de florestas e outros ecossistemas nativos em monoculturas de árvores
em grande escala destrói a biodiversidade e a conferência
das partes deve portanto opor-se a sua expansão.
1 - World Rainforest
Movement.- Mujer, bosques y plantaciones Una dimensión de género.
WRM, 2005
http://www.wrm.org.uy/temas/mujer/libro.html
2 - Barcellos,
Gilsa e Ferreira, Simone- “Mulheres e Eucalipto: Historias de
vida e resistência” WRM, 2007
http://www.wrm.org.uy/paises/Brasil/Libro_Mulheres.html