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As organizações
que integram a Rede Latino-americana contra as Monoculturas de Árvores
julgam necessário comunicar ao FNUF a sua total discrepância
da insistência desse fórum em considerar monoculturas
de árvores como "florestas". Confundir umas e outras
não é simplesmente uma questão acadêmica;
isso determina ações que, de fato, vão de encontro
à missão encomendada a esse fórum: a proteção
das florestas.
A experiência acumulada
em matéria de monoculturas de árvores em grande escala
mostra com clareza os impactos sociais, ambientais e econômicos
por elas provocados, e, portanto, chama a atenção
que o FNUF persista em sua promoção. Entre os impactos
mais relevantes que esse fórum deveria considerar, é
imprescindível mencionar os seguintes:
- O desmatamento. Abundam
os exemplos em que esse tipo de monocultura se constitui em causa
direta de desmatamento. No nosso continente, é sabida a destruição
de vastas áreas de floresta nativa chilena, bem como da Mata
Atlântica e o Cerrado brasileiros. Porém, processos
de desmatamento semelhantes acontecem em quase todos os países
da região onde são plantadas monoculturas de árvores
em grande escala, quer para a produção de madeira,
celulose ou aceite de dendê. Portanto, resulta pouco sério
que se continue insistindo na falsidade de que plantações
desse tipo ajudam a reduzir a pressão sobre as florestas,
quando a realidade está mostrando o contrário.
- A destruição
dos ecossistemas de pradaria. As plantações com monoculturas
de árvores não só resultam em processos de
desmatamento, mas, também, destruem outros tipos de ecossistemas
igualmente valiosos, como, por exemplo, as pradarias. Nesse sentido,
os casos do Uruguai, da Argentina e do sul do Brasil são
paradigmáticos, visto que, com a substituição
de pradarias por monoculturas de eucalipto e pinheiro, é
gravemente afetada a biodiversidade desses ecossistemas.
- O impacto nos recursos
hídricos. É inadmissível que se continue insistindo
em que as plantações com monoculturas de árvores
em grande escala não afetam negativamente os recursos hídricos.
Basta percorrer as áreas ocupadas por monoculturas de árvores
em grande escala - quer de eucalipto ou pinheiro -, para constatar
a dessecação de cursos de água, banhados e
poços de que depende a população local.
- O impacto social. As plantações
em grande escala ocupam - legal ou ilegalmente - vastas áreas
de território no nosso continente. Essas áreas eram
ocupadas por populações locais - povos indígenas,
comunidades afro-americanas, camponeses - que foram deslocadas.
Isso implicou a perda de todos ou de grande parte dos recursos de
que dispunham até esse momento, forçando-as a migrar,
ou empurrando-as para a pobreza. A geração de emprego
pela atividade nas plantações não é
uma alternativa para as populações locais, nem quanto
à quantidade nem quanto à qualidade, sendo que o balanço
líquido, em matéria de ocupação, é
negativo no nível local.
- O impacto econômico.
As plantações de árvores em grande escala deslocam
a população rural, eliminam sua base produtiva e aumentam
sua dependência de recursos externos para a subsistência.
Além disso, operações desse tipo tendem a concentrar
recursos financeiros destinados para o desenvolvimento (provenientes
de fundos públicos, nacionais ou internacionais), privando
os pequenos produtores de acesso a esses fundos.
É lógico que
esse modelo de plantações em grande escala tem os
seus beneficiários. Grandes empresas - nacionais e/ou transnacionais
-, instaladas na Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Equador,
Paraguai, Uruguai, Venezuela, se beneficiam com esse modelo, e hoje
procuram se instalar em praticamente todos os países da região,
do México e a América Central à Guiana e o
Suriname.
É lógico,
também, que esse modelo é vantajoso para os interesses
da grande indústria mundial de celulose e papel, a indústria
da madeira e o setor de aceite de dendê, fornecendo abundantes
volumes de matéria-prima, homogênea e barata, para
a promoção do crescente consumo de seus produtos.
Ele também é
salutar para poderosos interesses envolvidos no negócio da
madeira, do papel e do aceite de dendê, como, por exemplo,
fabricantes de maquinário florestal, produtores de plantas
industriais, firmas consultoras e atacadistas.
Porém, nada disso
faz parte dos encargos do FNUF em matéria de conservação
de florestas.
É por isso que instamos
o FNUF a:
- fazer uma clara distinção
entre floresta e plantação
- centrar seus esforços
na conservação e restauração de florestas
- promover apenas aquelas
plantações cujo objetivo é a restauração
de florestas
- analisar os impactos negativos
das monoculturas de árvores em grande escala