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Número 103 - Fevereiro 2006


AMERICA DO SUL

LUTAS LOCAIS E NOTÍCIAS

Argentina - Chile: jovem mapuche, opositor ao avanço de empresas florestais, pediu asilo político

Em 6 de dezembro, Pascual Pichún Collonao, de 23 anos de idade, membro da comunidade Antonio Ñirripil, do setor Temulemu na comuna Traiguén do sul do Chile, formalizou a petição de asilo político na Argentina. O jovem permanecia clandestino desde novembro de 2003, quando com seu irmão Rafael decidiram não apresentar-se perante a justiça em virtude da negação do direito à liberdade vigiada por não poder pagar uma multa imposta pelo tribunal. Os irmãos deviam cumprir 5 anos de prisão pelo incêndio de um caminhão da Forestal Mininco, ocorrido em março de 2002. Atualmente Rafael cumpre condena na prisão de Traiguén, depois de ser prendido em julho de 2005.

“Nós somos mapuches, filhos da terra e portanto sempre a temos defendido. Desde 1998 nossa comunidade tem mantido uma férrea defesa de nosso território ancestral perante o avanço das empresas florestais e temos denunciado os sérios danos que provocam as plantações industriais, utilizando todos os espaços públicos para fazer sentir nossa desconformidade”, sustentam o lonko (autoridade tradicional comunitária), Pascual Pichún Paillalao e seu filho Rafael em uma carta enviada ao secretariado do Comitê de Elegibilidade para o Estatuto dos Refugiados em Buenos Aires em aval à petição do jovem Pascual. “Isso tem provocado uma interminável campanha de persecução judiciária e política contra nossa família, bem como também contra outros membros de nossa comunidade, que é composta por aproximadamente 80 famílias camponesas de origem humilde.”

Em abril de 2004, o lonko Pichún Paillalao, pai do requerente, foi condenado a 5 anos de prisão pelo crime de “ameaça terrorista” junto com seu par Aniceto Norín, lonko da vizinha comunidade de Didaico.

“Nossa luta é a luta de um povo por seus direitos, é a luta de uma comunidade pelo bem de seus membros, pela defesa de nossa cultura, de nossa língua, pela medicina tradicional que vive em nossas florestas e pela água que hoje é escassa como nunca antes” - explicam o lonko Pichún Paillalao e seu filho. “Se isso constitui um ato de ‘terrorismo’, que assim seja, mas temos a convicção de que é uma luta legítima e que em nenhum caso representamos um ‘perigo para a sociedade’ como o governo chileno e os tribunais têm apontado e por cuja razão fomos condenados irregularmente, em ações que envergonham por seu racismo.”

De acordo com Juan Pichún Collonao, porta-voz da comunidade Antonio Ñirripil: “A monocultura de pinus e eucalipto produz a seca dos charcos, dos riachos, portanto, é difícil que as pessoas possam viver lá. De outro lado, temos a poluição do ar pela fumigação (aérea) com químicos para que haja uma produção mais rápida e também a fumigação terrestre para deixar apenas os pinus. Isso vai para os riachos ou para os poços onde grande parte das famílias mapuche extraem a água para consumo e traz como conseqüência problemas biológicos. Há crianças que têm seis dedos, crianças que ficam doentes bem cedo, que têm falecido sem saber-se a razão”.

Em 1997 os comuneiros mapuche iniciaram uma série de ‘recuperações produtivas’, isto é, ocuparam grandes plantações florestais, derrubaram as árvores e produziram alimentos. Desse jeito cumpriam o duplo objetivo de satisfazer sua demanda territorial e colocar um freio às monoculturas de árvores. A resposta estatal foi um crescente processo de criminalização das mobilizações com a aplicação das leis de Segurança Interior do Estado Nº 12.927 e Antiterrorista Nº 18.314, herdadas da ditadura.

De acordo com Juan Pichún Collonao, o incêndio pelo que foram condenados seus irmãos Pascual e Rafael foi uma montagem realizada por pessoas que trabalham na fazenda Nancahue, controlada por Juan Agustín Figueroa, um homem de muita influência na política chilena - que foi ministro da Agricultura, durante a presidência de Patricio Aylwin (1990- 94) e membro do Tribunal Constitucional até há muito pouco tempo– que os mapuche consideram um novo inquisidor.

A criminalização da demanda mapuche no Chile tem sido denunciada no âmbito internacional há quase uma década; inclusive, diferentes organismos internacionais têm recomendado às autoridades chilenas que introduzam mudanças em suas políticas com esse povo. Atualmente, uma dúzia de dirigentes mapuche está nas prisões chilenas cumprindo condenas que vão de 5 a 10 anos, enquanto um número similar passou para a clandestinidade. A repressão estatal também cobrou a vida do jovem Alex Lemún Saavedra, de 17 anos, assassinado pelas Forças Especiais de Carabineiros em novembro de 2003, durante o despejo de uma fazenda.

Em 1974, pouco tempo depois de impor-se a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-90) no Chile, promulgou-se o decreto 701 para a promoção da indústria florestal, que implica o subsídio de quase a totalidade dos custos, às empresas que investiram no setor. Essas normas e a contra-reforma agrária executada pelos militares acabou com a propriedade comunitária indígena e pulverizou a política de acesso à terra do governo socialista de Salvador Allende (1970-73).

“Depois dessa década -afirma Lorena Ojeda, da Associação de Jovens Profissionais Mapuche Konapuewman, de Temuco—, seguiram-se expandindo as empresas, abrangendo muitas hectares de território. Isso causou que as comunidades mapuche começaram a ficar cercadas pelas florestais, provocando a massiva migração dos camponeses para a cidade, com a perda de identidade cultural que isso ocasiona”. Como dado paradigmático, cabe apontar que o temu, árvore prevalecente no território da comunidade Antonio Ñirripil que está estreitamente relacionada com sua vida espiritual, tem desaparecido em decorrência do avanço das monoculturas.

Por Hernán Scandizzo, Colectivo Pueblos Originario - Indymedia Argentina, e-mail: herscan@yahoo.com.ar

Para mais informação: Comisión por el Refugio Político en Argentina a Pascual Pichun Collonao – COPP, libertad_pascualpichun@yahoo.com.ar; Carta modelo para enviar ao CEPARE em apoio à petição de asilo de Pascual Pichún Collonao, www.argentina.indymedia.org/news/2006/01/368597.php; também visite as páginas: www.nodo50.org/azkintuwe, www.argentina.indymedia.org/features/pueblos


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Brasil: quilombolas protestam contra a Aracruz Celulose

Em novembro de 2005, centenas de quilombolas marcharam pelas ruas de São Mateus no norte do Estado do Espírito Santo, para protestar contra a Aracruz Celulose, a maior produtora do mundo de pasta branqueada de eucalipto. “Aracruz Celulose: você está contra a vida, devolva-nos nossas terras para produzir alimentos”, “Trabalhadores Mutilados pela Aracruz Celulose exigem seus Direitos”, “Presidente Lula: o futuro dos povos indígenas é mais importante do que a exportação de pasta!” diziam alguns dos cartazes. Eu participei da passeata e caminhei com os quilombolas pela cidade, ao som dos tambores. Em direção ao rio, descemos para a praça onde os escravos eram descarregados durante a época colonial.

Quilombo foi o nome dado às comunidades de escravos fugidos durante o período colonial no Brasil. Para o século XVII, os colonos portugueses tinham trazido centenas de milhares de escravos africanos para o Brasil. Muitos deles fugiram. O quilombo mais famoso estava em uma área chamada Palmares, no nordeste do Brasil, chamada assim pelas palmeiras silvestres que cresciam nas colinas. Para a metade do século, aproximadamente 30.000 pessoas estavam morando em Palmares, em grandes cidades fortificadas, com capelas, estátuas e palácios. O primeiro líder de Palmares foi Ganga Zumba, o grande soberano.

Os portugueses enviaram expedição trás expedição para tentar destruir o Quilombo dos Palmares. Uma trás outra, as expedições falharam. Mas em 1678 Ganga Zumba aceitou chegar a um acordo com os portugueses. Os outros líderes do quilombo negaram-se a aceitar qualquer acordo enquanto houvesse africanos escravizados e fizeram do Zumbi, sobrinho de Ganga Zumba, seu novo líder.

Zumbi foi finalmente prendido e decapitado em novembro de 1695 e quase 100 anos de resistência do quilombo chegaram ao fim. Zumbi se transformou em um herói e em um símbolo da liberdade dos negros no Brasil.

Os colonos plantavam monoculturas de cana-de-açúcar para exportação. Os quilombolas plantavam milho, feijão, mandioca, batata doce, banana e vegetais. Criavam galinhas e porcos, pescavam nos rios e caçavam nas florestas.

Atualmente, outra monocultura ameaça os descendentes dos quilombos. A Aracruz tem plantado centenas de milhares de hectares de plantações de árvores com fins industriais nas terras dos quilombolas.

No dia seguinte à passeata em São Mateus, eu visitei alguns povoados quilombolas junto com ativistas da Rede Alerta contra o Deserto Verde. Os povoadores nos disseram como sua comunidade tinha sido completamente cercada por plantações de eucaliptos. “A Aracruz acabou com nossa terra” disse um homem. A companhia comprou a terra ou muito barata ou com fraude, utilizando um intermediário para que comprasse a terra para eles.

Duzentas pessoas que moravam em um povoado costumavam ser empregadas pela Aracruz como operadores de serras mecânicas, mas agora todas elas perderam seu emprego. “A maioria das pessoas se mudaram desde que a Aracruz chegou. Agora moram nas favelas de grandes cidades, como Vitória” disse um povoador.

A Aracruz apossou-se de todas as melhores terras e deixou para os quilombolas apenas as áreas nas que a companhia não pode plantar. “Não há espaço nem para pastar um cavalo” queixou-se um povoador. “Quando os jovens se casam, não têm aonde ir, portanto eles permanecem aqui. Isso significa que há ainda menos terras disponíveis” acrescentou outro homem.

Desde que a Aracruz estabeleceu suas plantações, os povoadores têm tido dificuldades em achar fontes seguras de água. “Receamos da água. Já ninguém a bebe."

Visitamos outro povoado quilombola onde os moradores locais não tinham vendido qualquer parte de suas terras para a Aracruz. Os moradores locais têm estabelecido uma horta orgânica onde produzem banana, jaca, mamão, açúcar, abacaxi, café, genipapo (utilizado pelos Povos Indígenas para pintar sua pele), tomate, maracujá, ervas e mandioca. Mas as plantações das monoculturas de eucaliptos da Aracruz estão imediatamente ao lado de sua horta. Apesar de que os povoadores não utilizam pesticidas em seus cultivos, eles não podem obter um certificado para evidenciar que sua produção é orgânica, por causa dos pesticidas que provêm das plantações da Aracruz.

O contraste entre as monoculturas da Aracruz e os diversos jardins quilombolas é dramático. De um lado há flores, árvores frutíferas, cultivos alimentares, casas e pessoas. Do outro há fileiras de árvores de eucalipto. Os povoadores nos disseram que eles podem cultivar mandioca perto das plantações apenas nos dois primeiros anos depois de que as árvores são plantadas. Depois desse período, as árvores são grandes demais e não á suficiente luz do sol para cultivar mandioca. Depois de apenas cinco meses, os eucaliptos da Aracruz têm mais de seis metros de altura.

Os povoadores descreveram de que forma ficaram isolados enquanto as plantações de eucaliptos ocuparam mais e mais terras. “A Aracruz tem estado aqui por mais de 30 anos. Antes disso tínhamos muitos amigos. Aos domingos, costumávamos visitá-los para realizar rituais e festas. Agora muitas pessoas se têm mudado e alguns dos rituais se têm perdido."

Um povoador quilombola explicou o que querem da companhia: “A Aracruz pode exportar sua pasta, isso está OK, mas as pessoas precisam empregos e recuperar suas próprias vidas. A Aracruz deve resolver todos esses problemas antes de que possa exportar”. Outro quilombola o explicou mais simplesmente. “Eu quero que a Aracruz desapareça daqui”, disse.

Por Chris Lang, e-mail: chrislang@t-online.de


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Brasil: acompanhamento da luta Tupinikim e Guarani contra a Aracruz Celulose

Depois do violento despejo das aldeias Tupinikim e Guarani por tratores da companhia de plantação e pasta Aracruz Celulose com o apoio da Polícia Federal em janeiro (vide Boletim do WRM Nº 102), centenas e centenas de cópias de mensagens internacionais de solidariedade com a luta dos povos indígenas para reaver suas terras legítimas foram enviadas às autoridades brasileiras.

A atenção no exterior pela violência policial e as diferentes irregularidades que envolvem a decisão do Juiz (investigado atualmente pelo Ministério Público Federal) que motivou a ação policial, levou à decisão da Casa Real da Suécia de retirar seus investimentos financeiros na companhia Aracruz (sócia da companhia finlandesa-sueca Stora Enso na fábrica de pasta Veracel no Estado da Bahia). A companhia de investimento privada da família real da Suécia, a Gluonen -que é propriedade da Princesa Herdeira Victoria e seus irmãos, o Príncipe Carl Phillip e a Princesa Madeleine- tinha valiosas ações na Aracruz. A família real decidiu vender suas ações depois de que as críticas da mídia aumentaram, uma decisão que foi bem recebida pelas ONGs ambientais suecas.

Em 28 de janeiro, os Tupinikim e Guarani, ajudados por grupos de apoio e movimentos de estudantes e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), reconstruíram durante um dia inteiro a arrasada aldeia indígena de Olho d’Água.

No plano legal, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo está preparando uma nova apelação na que exige que o Juiz Federal outorgue aos Tupinikim e Guarani o direito de ocupar a área até que uma decisão final sobre a demarcação seja proferida pelo governo federal.

Em 30 de janeiro, com o apoio de diferentes autoridades, uma delegação de 8 líderes indígenas teve uma reunião de 30 minutos com o Presidente da República, Luíz Inácio Lula Da Silva no Aeroporto de Vitória, no final de uma breve visita do Presidente ao Estado do Espírito Santo. Lula prometeu que enviaria o Ministro de Justiça Márcio Thomas Bastos para falar diretamente com os Povos Indígenas para resolver o assunto da demarcação.

Lula cumpriu sua promessa. Em 9 de fevereiro, uma comissão indígena de 20 chefes e líderes teve uma reunião de uma hora e meia com o Ministro da Justiça e o Presidente da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), Mércio Pereira Gomes, que prometeu publicar o novo estudo sobre a área indígena (levado a cabo em novembro/dezembro de 2005) que objetiva atualizar e complementar em alguns aspectos os estudos da FUNAI do período 1994-1998.

O estudo do Grupo de Trabalho (GT) da Fundação Nacional do Índio (Funai) realizado no Espírito Santo foi publicado no fim de fevereiro e comprova a legitimidade das terras indígenas, relata sua ocupação imemorial e destaca as "sucessivas subtrações de terras em seu território tradicional, em função de políticas equivocadas que vêm ao longo dos anos restringindo e em alguma medida inviabilizando os direitos e perspectivas dos povos indígenas". O estudo é a atualização de um primeiro trabalho feito pelo GT em 1997, que também reconheceu as terras no norte do Estado como indígenas. A confirmação de tal estudo representa um passo importante para que os 18.070 hectares de terras indígenas no norte do Estado sejam finalmente homologadas.

O estudo relata ainda a transformação do modo de vida tradicional para o que foi imposto depois da presença da Aracruz Celulose na região. Ao meio ambiente, a presença da monocultura do eucalipto introduzida e mantida pela Aracruz Celulose foi classificada como responsável por causar "profundas transformações, que a empresa insiste em negar". Para o GT, as comunidades indígenas enfrentam hoje uma conjuntura de degradação das condições ambientais, como a destruição das matas e fauna, córregos poluídos ou secos e terras empobrecidas.

Antes disso, a caça era abundante e variada (tatu, caititu, paca, cotia, veado, jacú, tamanduá, jacutinga, jacupemba, macuco, quati), porém, o desmatamento provocou a extinção quase total da fauna nativa. Atualmente, a criação de pequenos animais como galinha, porco, cabra e a criação de gado, ainda muito incipiente, complementam a alimentação e consistem numa alternativa de renda.

A escassez dos rios e córregos próximos às aldeias também são relatadas no estudo. Segundo o GT, os rios e córregos da região se encontram poluídos e há ainda a transposição das águas do Rio Doce para o rio Riacho, para abastecer a Aracruz Celulose, que fez desaparecer ou diminuir sensivelmente as espécies tradicionais utilizadas pelos índios, dando lugar a espécies predadoras e altamente competitivas como a piranha e o bagre- africano. Assim, os técnicos do GT não só reconhecem a legitimidade das terras indígenas, mas também o prejuízo cultural, ambiental e social, resultado da chegada da Aracruz Celulose na região.

As fases do acordo entre os índios e a multinacional também são relatados no estudo, com dados sobre a demarcação autorizada pelo então ministro da Justiça, Íris Resende - que apenas demarcou uma parte das terras indígenas -, ressaltando pontos de irregularidades, inclusive reconhecidos pela Procuradoria da República do Espírito Santo. Tal demarcação considerada ilegal pelos índios é responsável pelo uso das terras indígenas por terceiros e pelo desgaste do solo, que se encontra com baixa fertilidade.

Com a publicação do estudo, começa então a serem contados os 90 dias de prazo para que a multinacional o conteste, e envie seu parecer à Funai. Esta, por sua vez, tem 60 dias para analisar e firmar um parecer que será enviado ao Ministério da Justiça.

A luta dos Tupinikim e Guarani continua e eles pedem que continuemos a apoiá-la!

Artigo baseado em informação de: “Follow-up on the violent Federal Police action against the Tupinikim and Guarani indigenous peoples in Brazil”, Rede Alerta contra o Deserto Verde, 10 de fevereiro de 2006, enviado por Winfridus Overbeek, FASE – ES, E-mail: winnie.fase@terra.com.br; “Funai publica estudo que confirma ocupação de terras indígenas pela Aracruz Celulosa”, Flávia Bernardes; “Royal News Swedens Royals Sell Forestry Shares”, Femalefirst, http://www.femalefirst.co.uk/lost/132772004.htm


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Uruguai: fábricas de celulose e participação cidadã -o Banco Mundial no alvo

Membro, junto com o Fundo Monetário Internacional da “família” Bretton Woods, desde sua criação em 1944, o Banco Mundial tem sido e continua sendo um ator principal na redação e aplicação das políticas macroeconômicas dos países do Sul, financiando empresas públicas e privadas em empreendimentos que qualifica de “desenvolvimento” (desde construção de rodovias até instalação de fábricas de celulose).

Esses empréstimos são outorgados por ele sob condições, que têm sido traduzidas na aplicação de políticas econômicas que têm implicado desde a privatização dos serviços estatais ou públicos, até a desregulação das leis dos trabalho e ambientais. O objetivo tem sido deixar o Estado reduzido a funções mínimas para que seja a concorrência do mercado a que sirva ao “interesse público”. Na realidade, essas políticas de “desenvolvimento” têm servido para inserir os países do Sul na arquitetura mundial baseada em relações de dependência centro-periferia.

A respeito das plantações de árvores com fins industriais, o Banco Mundial tem sido decisivo para a consolidação desses projetos, fornecendo os fundos necessários para oferecer “incentivos” (isenções fiscais, reintegrações, empréstimos suaves, subvenções diretas e indiretas, etc.) às empresas florestais e possibilitar o lançamento dessa produção destinada à exportação. Assim o comentávamos para o caso do Uruguai (vide Boletim Nº 83 do WRM).

Apesar disso, neste país os planos não se têm desenvolvido tão facilmente quanto tivesse desejado o Banco Mundial e os grupos da indústria do papel, para os que o projeto de instalação das fábricas de celulose sobre o rio Uruguay se tem transformado em um empecilho. A oposição que tem causado tanto no país quanto na população argentina próxima às projetadas fábricas -que tem desenvolvido um grau de mobilização tão alto que o governo argentino fez sua a posição dos grupos locais, chegando a um enfrentamento diplomático com o Uruguai- é uma ladeira difícil de subir para a política de participação do próprio Banco Mundial.

A isso acrescentam-se os erros que nesse sentido tem cometido dentro do Uruguai. Como parte do processo de consultas e divulgação relacionado com o rascunho do estudo de impacto acumulado das fábricas de celulosa da Botnia e da Ence, encomendado pelo Banco à consultora Pacific Consultants International em 14 de fevereiro, a Corporação Financeira Internacional (a seção do Banco Mundial encarregada de empréstimos a privados), realizou uma reunião em Montevidéu “para ajudar a informar sua tomada de decisão ao considerar o financiamento” das mesmas.

O Grupo Guayubira -que tem estado questionando sistematicamente a expansão do modelo de monoculturas de árvores em grande escala e seu corolário, as fábricas de celulose- decidiu não participar da audiência por considerar que o objetivo da mesma era conseguir o aval do relatório. Previamente Guayubira tinha dito a funcionários do Banco Mundial que o relatório da avaliação do impacto acumulado das fábricas de celulose está totalmente parcial em favor do florestamento e das fábricas de celulose e que carece da objetividade necessária para constituir-se em base de uma discussão séria e informada sobre um assunto tão importante quanto o presente. Nesse sentido, Guayubira tinha recomendado ao Banco que exigisse à empresa consultora melhorar substancialmente seu relatório para servir desse jeito de base para a consulta ampla que o Banco desejava realizar. No entanto, isso não foi feito e portanto o grupo decidiu não participar, fazer públicas suas críticas fundamentadas ao relatório e manifestar na rua sua oposição ao financiamento das fábricas de celulose pelo Banco Mundial (vide críticas em http://www.guayubira.org.uy/celulosa/audienciaBM2.html e fotografias da passeata em http://www.guayubira.org.uy/celulosa/fotos_IFC_BM.html).

De outro lado, o Banco Mundial não tinha convidado a Rede Uruguaia de ONGs Ambientalistas, a que participa formalmente da Comissão Técnica Assessora do Meio Ambiente (COTAMA), dentro do Ministério do Meio Ambiente. Apesar de que no último momento -e por casualidade- o Banco pôde corrigir sua grave omissão, a Rede acabou sendo convidada tangencialmente a no último momento.

Reconhecendo que se trata de empreendimentos industriais que fazem parte de um dos setores da indústria mais poluentes do mundo, a Rede Uruguaia de ONGs Ambientalistas apresentou na Audiência Pública seus comentários ao Estudo de Impactos Acumulativos. Alguns dos argumentos destacados são: o estudo tem erros técnicos importantes como confundir sábalos (curimbatá) com sardinhas; não foram respeitadas as exigências dos técnicos da Direção Nacional do Meio Ambiente; falta conhecimento científico e dados concretos para poder fazer uma avaliação veraz; há dúvidas sobre os benefícios econômicos, já que não existem dados oficiais sobre a geração de empregos; por estarem em uma Zona Franca não se arrecadarão impostos por esses projetos. A Rede expressa que: “Estimamos que apenas por IRIC (Imposto sobre a Renda da Indústria e do Comércio) o Uruguai deixará de receber um montante de aproximadamente USD 120 milhões anuais. Parte desse montante, que acumulará lucros para a empresa, está sujeito a um imposto similar que arrecadam o estado finlandês e o estado espanhol. Isso significa que o estado uruguaio abrirá mão de um montante de aproximadamente USD 40 milhões anuais, que irão engrossar as arcas dos estados europeus, uma situação inadmissível, em virtude das condições econômicas comparativas de nossos países. Além disso, enquanto o estado deixa de arrecadar os impostos que legitimamente lhe correspondem, deverá realizar uma série de despesas derivadas das necessidades de infra-estrutura e serviços que essas atividades industriais requererão. Além disso, aumentar-se-á o florestamento, sem saber quais são seus impactos ambientais” (vide o relatório completo em http://www.uruguayambiental.com/articulos/RedUruOngAmbCelulosa.pdf).

O Banco Mundial não teve o aval de nenhum dos atores sociais mais destacados vinculados a esse processo. O Grupo Guayubira decidiu não participar da consulta pela falta de seriedade do relatório que ia ser discutido e apresentou suas críticas por escrito. As duas representantes do Guayubira que quiseram fazer uma breve declaração explicando as razões dessa posição não foram autorizadas a falar. A Rede Uruguaia de ONGs Ambientalistas -convidada no último momento- apresentou uma fundamentada exposição de críticas ao relatório de impactos acumulados que motivou a reunião. A Associação Nacional de ONGs não foi nem sequer convidada. O representante da Central dos Trabalhadores (PIT/CNT), cuja presença estava prevista no painel de palestrantes, informou no último momento que não ia estar presente, pelo que também estiveram ausentes os trabalhadores organizados. Agora o assunto tem passado às manchetes das notícias mundiais e o Banco Mundial, artífice do processo, está no alvo...

Por Raquel Núñez, Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, E-mail: raquelnu@wrm.org.uy

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