-
O mundial de futebol e o mundial da vida
Uma
grande parte da população mundial- em especial a masculina- está, nestes
dias, grudada na tevê assistindo ao campeonato mundial de futebol. Ainda
que muitos estejam cientes de que não se trata simplesmente de um esporte
mas de um enorme negócio globalizado, no qual os jogadores são pouco
mais do que gladiadores descartáveis ao serviço de grandes empresas,
não podem deixar de assistir, curtir ou sofrer a cada jogo.
Acontece
que o futebol continua sendo um dos poucos cenários do mundo onde parece
existir a igualdade de oportunidades, no qual 11 homens de um país disputam
a vitória com outros 11, sem se importar com o poderio econômico, político
ou militar do adversário fora do campo. Em um mundo dominado pelo poder
do mais forte- tanto no sul quanto no norte- esse sentimento de igualdade
que mostra o futebol é quase único e talvez seja o mais destacável do
evento. Um campeonato em que os países do chamado Terceiro Mundo conseguiram
o título mais vezes que os países do Norte: Brasil, 5 vezes, Argentina
2, Uruguai 2, Alemanha 3, Itália 3, Inglaterra 1 e França 1. Marcador:
Sul 9- Norte 8.
Mas
enquanto esse mundo de ficção- o campeonato mundial- avança, despertando
alegrias, esperanças e angústias, o jogo verdadeiro- onde prevalece
o poder econômico, político e militar- continua se desenvolvendo em
condições de absoluta desigualdade e o “fair play” não aparece nem por
sombras.
Vejamos
o caso do Equador, um dos times que despertou a expectativa de muitos
após seus dois primeiros jogos na Alemanha. Na vida real, o país Equador
vem perdendo de goleada há muitos anos. É óbvio que o árbitro- o governo-
geralmente tem mostrado cartão vermelho apenas aos representantes do
povo e no máximo cartão amarelo para o setor empresarial nacional e
internacional. Tem inventado faltas e foras- de- jogo inexistentes para
o povo e tem se mostrado cego diante dos mais claros pênaltis empresariais.
O Banco Mundial e o Fundo Monetário- que corresponderiam à FIFA- têm
punido permanentemente os jogadores indígenas, negros e pobres- enquanto
têm imposto as regras do jogo ao juiz de plantão para favorecer o time
empresarial. O resultado poderia se expressar nos seguintes marcadores:
Empresas
camaroneiras 5 – povos negros do manguezal 2
Empresas
petroleiras 10 – povos indígenas amazônicos 5
Empresas
madeireiras 8 – povos da floresta 3
Empresas
de dendezeiro 6 – povos indígenas e negros 1
Empresas
plantadoras de árvores 5 – povos indígenas e negros 3
Em
todos essas áreas os povos estão perdendo. Porém, é fundamental salientar
que os gols- alguns deles gols de placa- que os povos têm feito são
relativamente recentes, ao tempo que as empresas têm conquistado poucos
nos últimos anos e jogam na defensiva. O próprio árbitro aparece em
ocasiões apitando pênaltis às empresas (como é o caso recente da petroleira
Oxy que teve seu contrato rescindido) ou fingindo cegueira diante das
faltas cometidas pelo povo (como é o recente caso das comunidades locais
que cortaram os eucaliptos da empresa japonesa Eucapacific). Até a própria
“FIFA” parece estar olhando para outro lado.
Cabe
ainda apontar que o lema da torcida equatoriana é Sim, é possível! E
que seu canto diz Vamos equatorianos que esta noite temos que vencer!,
sendo assim interessante que sejam a mesma consigna e os mesmos cantos
que foram usados nas mobilizações para derrubar o presidente. A última
noite das passadas mobilizações todos gritavam nas ruas Vamos equatorianos
que esta noite ele tem que cair! E o presidente caiu. Gooooooooooooooool!
O
Equador acaba de ser eliminado pela Inglaterra neste campeonato mundial
de futebol, mas no jogo pela vida, seu povo está avançando, de forma
cada vez mais organizada, para a área adversária e fazendo gols maravilhosos.
Jogando de trás, o povo equatoriano vem diminuindo as diferenças no
placar. Um time de negros, índios e mestiços, homens e mulheres, idosos
e crianças. Com suas próprias regras de jogo. E, acima de tudo, com
a esperança de que a vitória é possível. Sim, é possível!
início
COMUNIDADES
E FLORESTAS
–
As administrações florestais da África central:
estão ao serviço das populações atingidas?
Desde
a década de 90 fez-se muito ruído a respeito das florestas da Bacia
do Congo, para bem e para mal. E uma nova ondada ambiental cai sobre
a República Democrática do Congo, de uma amplitude muito parecida com
o “boom do Zaire” da década de 70. Mas cabe perguntar-se se as administrações
florestais centro-africanas, que costumam estar submetidas a fatores
sociológicos insidiosos, alinham-se com as aspirações e necessidades
de bem-estar das populações da região.
Antes
de tudo, para um africano, é um ato de valentia restituir às populações
africanas a visibilidade de suas administrações florestais, por várias
razões, sendo as duas primeiras que “os que objetivam a realidade não
são muito apreciados” e que “continuam sendo expertos estrangeiros os
que determinam os campos de intervenção prioritários dos ecossistemas
de florestas”. É necessário que os africanos definam por eles mesmos
as administrações florestais para seus povos, mas isso ainda não tem
acontecido.
Duas
funções das administrações florestais da África central
Pensemos
nas duas principais funções das administrações florestais da África
central: a produção de madeira e a conservação da diversidade biológica.
Apesar da diversidade de formas nas que se apresentam, essas funções
não se cumprem de maneira satisfatória. Por exemplo, todas (ou quase
todas) as cidades consumem principalmente os resíduos das serrarias;
muitas cidades carecem de madeira, ainda quando os países as exportam;
eterniza-se a construção de mercados sub-regionais ou regionais para
produtos florestais legais, enquanto que se reforça a proteção do mercado
europeu.
Por
sua vez, a conservação da diversidade biológica apresenta problemas,
inclusive quando provém de ambições nobres e ainda esteja experimentando-se
neste campo. Já decorreu mais de uma década desde o início dos primeiros
programas de gestão participativa das áreas protegidas executados sob
a proteção de organizações internacionais para a conservação da natureza
e, no entanto, a maioria deles parece não contribuir nem com a conservação
a diversidade biológica nem com a melhoria das condições de vida das
populações diretamente afetadas. Assim fica evidenciado pela recente
análise dos diferentes projetos de gestão de áreas protegidas da África
central (Ndinga, 2005). Não apenas as populações vizinhas dessas
áreas continuam tendo problemas de nutrição, de saúde e de educação,
mas que também estão submetidas a restrições que transtornam sua visão
interior da harmonia entre os elementos de seu entorno, sem que se materialize
sua participação na proteção dos recursos naturais, tão anunciada pelos
organismos internacionais.
O
que antecede, convida a refletir. Historicamente é um fato conhecido
que, para achar resposta aos problemas do setor florestal, devemos recorrer
a pessoas capazes de tirar vantagem do que oferecem diferentes ciências
(o direito, as ciências políticas, econômicas, sociais, históricas e
geográficas, bem como as ciências naturais relativas ao meio ambiente
e, particularmente às florestas). Em nossa opinião, esse é o ponto no
que a prospectiva florestal pode favorecer a criação de condições que
permitam ajustar as funções das administrações florestais centro-africanas
às necessidades e aspirações das populações diretamente envolvidas.
Somente a capacidade dos africanos de reflexionar por eles mesmos sobre
a diversidade de aspectos que estão envolvidos em suas florestas pode,
em primeiro lugar, contribuir para que as administrações florestais
se ajustem a essas necessidades, e, em segundo lugar, acabar com a divulgação
às cegas de idéias, tradições e enfoques estrangeiros sobre a conservação
da diversidade biológica em seus países.
Modelos
de processos de decisão nas administrações florestais da África central
Outro
grande problema merece ser abordado conjuntamente: a racionalização
dos processos de decisão nas administrações florestais da África central.
Em
um pólo se localizam as administrações florestais que funcionam de acordo
com um tipo de “neo-patrimonialismo racionalizado”. Elas são semelhantes
a um conjunto de entidades tribais e/ou políticas, mais ou menos rivais
entre elas e de indivíduos considerados como outros tantos subsistemas
e estruturados ao redor do Chefe de Estado. Os principais tipos de ações
consistem em atualizar rotinas (operações florestais tradicionais),
redistribuir cargos e recursos florestais e procurar certa credibilidade
perante os sócios capitalistas e as ONG internacionais. Neste caso,
a proposta central da decisão a ser adotada é o resultado de uma intervenção
presidencial.
No
outro pólo se localizam as administrações florestais que lançam mão
da extorsão e da depredação violenta e direta dos recursos florestais,
o que faz referência aos casos de sistemas políticos mais extremos e
sangrentos e aos “senhores da guerra”. A administração florestal é um
conjunto de entidades tribais, militares e/ou políticas estruturadas
ao redor dos “senhores da guerra”; as principais ações são as manifestações
de violência pulsional, a atualização de rotinas, a extorsão e a depredação
direta dos recursos florestais, bem como a instrumentalização dos fornecedores
de fundos e das ONG internacionais. A decisão é o resultado de uma intervenção
dos “senhores da guerra”.
Entre
esses dois extremos localiza-se a administração florestal racional.
Ainda quando o Chefe de Estado continue sendo o ator principal, a administração
florestal se estrutura ao redor das instituições do Estado, dos textos
que as regem e dos valores da nação; o tipo de ação dominadora é a procura
de respostas à demanda social de produtos florestais e de serviços ambientais;
a decisão é uma solução calculada para um problema nacional estratégico.
Lembremos
que esses são apenas modelos. O universo das administrações da África
central é, evidentemente, heterogêneo. Os “neo-patrimonialistas racionalizados”,
os “senhores da guerra” e os atores racionais estão às vezes misturados
entre eles, e todos têm uma função dominadora em maior ou menor grau.
No entanto, os modelos permitem entender melhor a sociologia das administrações
florestais da África central e seus processos de decisão internos. A
partir deles é possível refletir sobre a racionalização desses processos.
Fatores
internos que influem nas decisões
Desse
ponto de vista, fica evidente que é necessário visualizar os fatores
significativos que influem nas decisões das administrações florestais
centro-africanas. O “neo-patrimonialismo” privilegia os desvios da norma
e o conformismo; isso tem sido tão abundantemente evidenciado que é
possível afirmar, por exemplo, que John Meynart Keynes nunca teria conseguido
fazer carreira nessas administrações. De outro lado, a história e as
identidades dos centro-africanos, apesar de serem notáveis em muitos
aspectos, estiveram abertas durante muito tempo a redes de atividades
mais ou menos confessáveis. É por isso que muitos centro-africanos,
sejam ou não homens/mulheres de Estado aludem a sua vontade de colocar-se
ao serviço de seu país mas, de fato, continuam legitimando os desvios,
opondo pouca resistência e desenvolvendo estratégias para atomizar as
instituições florestais, e concorrem entre eles para obter a qualidade
de interlocutores dos expertos estrangeiros, dos organismos internacionais
ou dos capitalistas.
Desse
jeito, contrariamente ao que alguns pensam, os fatores internos significativos
para melhorar a tomada de decisões nas administrações florestais da
África central não são apenas quantitativos (o número de efetivos e
a importância dos meios financeiros), mas também qualitativos, referindo-se
à qualidade das pessoas e do contexto institucional. Por exemplo, a
administração florestal da República do Congo que, em 1960 não incluía
nenhum engenheiro florestal, tem agora mais de 200; seu orçamento, insignificante
em 1960, é hoje de vários milhares de milhões de francos CFA. Quase
todos os outros países da África central têm evoluído de forma semelhante.
No entanto, a gestão das florestas desses países é atualmente mais lamentável
que em 1960, se considerarmos a generalização da corrupção, a deterioração
das florestas, a diminuição da caça ou a violência dentro das administrações
florestais.
Fatores
externos que influem as decisões
Além
dos fatores mencionados supra, a globalização e a inserção dos centro-africanos
em redes cada vez mais densas de laços internacionais, amigáveis ou
de interesses diversos, têm efeitos positivos mas também coercivos,
que debilitam seu compromisso com a causa dos ecossistemas de florestas.
Isso é devido tanto à hegemonia ocidental e à cultura da sociologia
das relações internacionais nos países ocidentais, quanto ao escasso
sentimento nacionalista dos africanos.
Acrescenta-se
a isso que a diplomacia tem uma influência considerável nos processos
de decisão das administrações florestais da África central. A diplomacia
ocidental oficial, apesar de mostrar-se de “natureza generosa” tem outro
aspecto que convém conhecer, particularmente no campo da competência
florestal. Com efeito, essa diplomacia costuma estar ao serviço de forças
que, no passado, provocaram o debilitamento das estruturas e o empobrecimento
da região; forças cuja primeira preocupação é o interesse pessoal, mas
que instrumentalizam o poder de seu próprio Estado e os convênios internacionais;
forças que, no campo da conservação florestal, desenvolvem estratégicas
cruzadas de luta contra outras potências. Pelo contrário, a diplomacia
centro-africana tem sido até agora absolutamente desordenada e impotente,
e tem deixado os ecossistemas de floresta (quase) totalmente livrados
a atores que influem nas decisões das administrações florestais africanas
para que se adiram a seus interesses.
Como
complemento da diplomacia oficial estão as “diplomacias não governamentais”.
Elas não se limitam às atividades realizadas através das organizações
do mesmo nome. Existem há séculos, têm múltiplas dimensões e direções,
e possuem atores numerosos e diversos. Cabe apontar aqui que a “facilidade
de palavra” e a retórica contribuem com a consecução de seus objetivos.
Seduzidos pela nobreza desses últimos e pela generosa inspiração que
ostentam, os centro-africanos omitem as distorções que induzem nas decisões
das administrações florestais. Com efeito, são muitas as almas bondosas
que dizem defender as florestas da Bacia do Congo mas que, afinal de
contas, o que fazem é, em jargão erudito, instrumentalizar os africanos,
promover a corrupção e o clientelismo ou apoiar políticos desonestos.
Por exemplo, um funcionário africano de uma ONG internacional que fabricou
um relatório de missão falso, foi “catapultado” ao cargo de auditor
dessa organização. E outro africano, que era competente, viu um cargo
de nível sub-regional condicionado a alinhar-se com a posição de um
ministro que, se as fontes não mentem, não é um referencial em matéria
de bom governo político e econômico.
Conclusões
Antes
de tudo, é conveniente reforçar a capacidade dos africanos de definir
por eles mesmos as funções de suas administrações florestais. Depois
disso, devemos deixar em claro que o fato de reflexionar sobre essas
administrações analisando os fatores que as afetam, incluindo a diplomacia,
não é uma heresia intelectual ou diplomática. De outro lado, esse enfoque
não é totalmente novo; trata-se de uma prolongação dos esforços realizados
desde há décadas por numerosos autores, principalmente no campo da sociologia
das relações internacionais, e da visibilidade social a fatores às vezes
ignorados, que explicam, em grande parte, a razão pela que tem sido
ineficazes tantas medidas adotadas em conferências, seminários ou workshops.
Trata-se
de um enfoque tanto mais oportuno quanto que as administrações florestais
centro-africanas são hoje mais abertas que em 1960. Nesse contexto,
a inclusão das preocupações das populações africanas nas funções das
administrações florestas ver-se-á favorecida, não pela discrição dos
atores, mas pelo apoio da opinião pública e das empresas. Isso implica
que a racionalização dos processo de decisão requer, perante tudo, a
formação pública sobre a sociologia dessas administrações e das relações
internacionais.
Além
disso, quando um ator do chamado desenvolvimento sustentável somente
provoca a rejeição das pessoas honestas às que pretende ajudar, parece
difícil afirmar que esteja destinado, como sua missão o supõe, a promover
uma melhoria das condições de vida na África central. Neste caso, se
a comunidade internacional não faz esforços para afastá-lo das florestas
africanas, está participando no mau governo das florestas e contribuindo
para que o desenvolvimento não seja sustentável.
Finalmente,
quem examinar as funções das administrações estudadas concordará que
é necessário construir mercados nacionais, sub-regionais e regionais
para produtos florestais de qualidade. Essas ações serão sem dúvida
insuficientes para que as administrações florestais se ordenem em função
das necessidades e aspirações de bem-estar dos habitantes da África
central. No entanto, trata-se de avanços importantes, que deverão ver-se
reforçados no futuro graças a uma melhor organização dos beneficiários,
à experiência racional e, principalmente, ao apoio justificado da opinião
pública.
Por
Assitou Ndinga, e-mail:
ndinga_assitou@yahoo.fr. (Ndinga, A., Gestion
des forêts d’Afrique centrale. Avec ou Sans les concernés ?
L’Harmattan, coleção Études Africaines, Paris, 2005).
início
-
Camboja: as conclusões do Painel de Fiscalização
do Banco Mundial criticam duramente o Projeto Florestal do Banco
Um
documento que vazou do Painel de Fiscalização do Banco Mundial [1] apresenta
numerosas críticas a um projeto de manejo florestal do próprio Banco
no Camboja, por descumprir as salvaguardas internas, ignorar as comunidades
locais e fracassar no objetivo de reduzir a pobreza- declara a Global
Witness, uma organização internacional não partidária, que foi indicada
para o prêmio Nobel da Paz de 2003 por ter trabalhado para desvendar
a forma em que os diamantes financiaram guerras civis na África e que
se focaliza nas relações entre a exploração dos recursos naturais e
o financiamento de conflitos e corrupção.
Em
1971, as florestas cambojanas abrangiam 73% do país, mas foram dizimadas
em decorrência da guerra civil através da atividade madeireira ilegal
e insustentável. No início da década de 1990, o governo do Camboja outorgou,
sigilosamente, 32 concessões madeireiras a companhias privadas principalmente
estrangeiras. A maioria destas companhias também estavam voltadas para
a atividade madeireira ilegal e insustentável com o intuito de conseguirem
lucros no curto prazo. Esse sistema de concessões estava baseado no
fato de ser uma constante fonte de rendas que poderiam ser usadas para
o desenvolvimento do país; porém, de 1994 a 2000, o governo arrecadou
apenas $92 milhões por direitos madeireiros. Durante o mesmo período,
as companhias, os políticos e os militares tiveram vultuosos lucros
através da atividade madeireira ilegal.
Uma
revisão de 2000 do Banco Asiático de Desenvolvimento descrevia esse
modelo de concessões como “um fracasso total do sistema”. Contudo, nesse
mesmo ano, o Banco Mundial lançou o Projeto Piloto de Controle e Manejo
das Concessões Florestais (FCMCPP- sigla em inglês) destinado a demonstrar
que esse sistema de concessões podia funcionar. O projeto estava centrado
em ajudar os concessionários a satisfazerem as exigências do governo
para novos planos de manejo florestal sustentável (SFMPs- sigla em inglês)
e avaliações do impacto social e ambiental (ESIAs- sigla em inglês)
como um pré- requisito para novas atividades de corte. A fim de o projeto
atingir seus objetivos, era necessário para o Banco que o sistema de
concessões e, no mínimo, algumas das companhias permanecessem no local.
Foi nesse contexto que a equipe do FCMCPP recomendou que o governo cambojano
aceitasse os SFMPs e as ESIAs de seis concessionárias em 2004. As seis
companhias descumpriram a lei ou os termos de seus contratos. Algumas
delas foram uma fachada para os interesses de parentes de altos funcionários.
As
comunidades locais apresentaram uma reclamação junto ao Painel de Fiscalização
do Banco em 2005, depois de ter ficado claro que o projeto do Banco
estava agravando e não melhorando a situação. As comunidades perceberam
que o projeto estava promovendo os interesses de companhias que já tinham
prejudicado seus meios de vida. Na ocasião, as conclusões do Painel
não condenaram o foco do sistema de concessões em si mesmo, mas concluiram
que o projeto “não parecia ter se encarregado do objetivo chave que
era usar o potencial das florestas a fim de reduzir a pobreza”.
Na
reclamação apresentada perante o Painel afirmava-se também que o projeto
tinha outros defeitos graves tanto no seu planejamento quanto na sua
implementação. Conforme Simon Taylor- Diretor da Global Witness- : “As
conclusões do Painel de Fiscalização revelam o quanto o Banco estava
preparado para descumprir suas próprias regulamentações se fosse necessário
a fim de o projeto ser bem- sucedido.”
Em
um irrefutável relatório, o Painel considerou que o Banco não tinha
levado em conta suas próprias políticas de salvaguarda em várias áreas.
Seus comentários são citados a seguir.
*
Consulta no desenvolvimento dos planos de manejo. O projeto permitiu
que as companhias concessionárias se encarregassem das consultas com
as comunidades a respeito do futuro uso das florestas. “A idéia de as
companhias serem responsáveis pela consulta às comunidades ou pela avaliação
dos recursos é um grave defeito, especialmente devido a que as concessões
florestais exploram um recurso do qual a população rural pobre depende
grandemente para conseguir seus meios de vida.”
*
Avaliações Ambientais. O Banco classificou erradamente as áreas de floresta-
permitindo que áreas com alto valor ecológico pudessem ser usadas para
a atividade de corte comercial. “Não há dúvida alguma de que a floresta
Prey Long merece ser considerada como floresta de alto valor ecológico.
Isso deveria ter sido óbvio para os funcionários do Banco tanto durante
as fases de design quanto as de implementação do projeto.”
*
Povos Indígenas. Os povos indígenas do Camboja moram principalmente
nas regiões norte e nordeste do país- as mesmas áreas que constituem
o centro do sistema cambojano de concessões madeireiras. As diretrizes
do Banco estabelecem que se um projeto de investimento afeta os Povos
Indígenas, devem ser elaborados Planos de Desenvolvimento de Povos Indígenas
para garantir o benefício deles com o investimento. Isso nunca aconteceu.
“Se o tivessem feito ,muitos dos problemas que apresentou o projeto
deveriam ter sido reconhecidos e poderiam ter sido corrigidos.”
*
Propriedade Cultural e Espiritual. As diretrizes do Banco claramente
procuram conservar e não eliminar as áreas de importância cultural.
Porém, o projeto deixou que as questionáveis concessionárias identificassem
as áreas de importância cultural e espiritual dentro de suas áreas de
corte.
*
Impactos Sociais. O Painel encontrou que a falta de avaliação social
específica deste projeto denigra seriamente a capacidade do banco para
cumprir com suas próprias políticas operacionais. Por exemplo, não havia
nenhum reconhecimento do Banco que a exploração de árvores de resina
feita pelas concessionárias prejudica severamente os meios de vida das
comunidades locais. A resina extraída de várias espécies de dipterocarpáceas
é uma mercadoria de alto valor econômico tanto dentro do Camboja quanto
no estrangeiro. Estudos recentes estimam que no mínimo 100.000 cambojanos
do meio rural obtêm parte de sua renda apartir da extração de resina.
O Painel observou que a Administração do Banco estava ciente da problemática,
concluindo: “fica bem claro não apenas que o Banco deveria ter sido
ciente da importância da extração de resina para as comunidades dependentes
das florestas, e o conseguinte prejuízo que o corte ilegal dessas árvores
estava causando a essas comunidades, como também que o Banco estava
ciente dessa problemática.”
*
O apoio a planos de manejo que descumpriam os estándares das seis concessionárias.
“O Painel considera que os SFMPs e as ESIAs eram deficientes em quase
tudo desde o processo até o conteúdo.”
Enquanto
a Global Witness acolhe com agrado as conclusões do Painel que mostram
os importantes defeitos do projeto, cabe perguntar-se o que o Banco
vai fazer a esse respeito.
O
presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz tem salientado a importância
de o Painel monitorar o desempenho do Banco e este último relatório
poderia ser considerado como um caso de prova. De acordo com Simon Taylor:
“Se o Banco for sério precisa garantir que os implicados nesse desastre
serão responsabilizados e que outros projetos florestais em países tais
como a República Democrática do Congo não seguirão o mesmo enfoque defeituoso.
De maneira geral, o Banco deve repensar a forma em que opera em ambientes
com alto grau de corrupção tais como o Camboja a fim de seus esforços
beneficiarem a população pobre mais do que as elites locais e as suspeitas
companhias particulares”.
Uma
vez iniciada a investigação do Painel de Fiscalização, o Banco tem retirado
seu apoio ao sistema de concessão madeireira e a seus realizadores,
recomendando um leque de abordagens alternativas para o manejo florestal
que dá maior ênfase ao papel das comunidades locais.
“A
lenta virada da política florestal no Camboja merece ser bem- vinda,
mas precisamos ainda ver que essas palavras se tornem realidade na prática.
Precisamos ver, agora, como o Banco usa sua influência política e sua
capacidade interna após um esforço conjunto para garantir que este pacote
de medidas mais adequado seja implementado completamente.”- Taylor afirmou.
O
pedido de fiscalização do FCMCPP foi encaminhado ao Painel de Fiscalização
em fevereiro de 2005 pelo Fórum de ONGs do Camboja que foi indicado
pelos demandantes como seu representante. Esse documento pode
ser acessado no sítio web do Painel de Fiscalização, bem como a resposta
da administração do Banco Mundial e a avaliação do Painel de Fiscalização
quanto ao pedido e suas recomendações:
http://web.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTINSPECTIONPANEL/0,,contentMDK:20387088~
pagePK:64129751~piPK:64128378~theSitePK:380794,00.htm
. O documento informativo em que a
Global Witness propõe detalhadamente o caso de investigação do FCMCPP
foi apresentado junto ao Painel de Fiscalização em fevereiro de 2005
como parte do pedido de fiscalização. Este documento pode ser acessado
em:
http://www.globalwitness.org/campaigns/forests/cambodia/briefing.php.
[1]
O Painel de Fiscalização do Banco Mundial foi criado em 1993 com o intuito
de aumentar a responsabilidade dos empréstimos do Banco e oferecer às
populações locais um fórum de último recurso
para exigir que as políticas e as condições dos empréstimos do Banco
respeitem seus direitos.
Por
Eleanor Nichol, Global Witness, correio electrônico:
início
-
Costa Rica: gringos desembarcam
em Tortuga Landing
Um
computador. Isso foi tudo o que o americano Paul Lambert, representante
da empresa Tortuga Landing, ofereceu ao Ministério do Ambiente e Energia
(MINAE) como compensação por ter construído un caminho de 105 metros
de comprimento por quatro de largura, e por eliminar a regeneração natural
em uma floresta da zona marítimo terrestre em Quepos, município do Pacífico
central. O fato aconteceu durante uma audiência de “conciliação” que
teve lugar no passado 17 de fevereiro no Tribunal Ambiental Administrativo
(Processo
Nº 184-05-3-TAA).
Previamente,
sem saber nada ainda do caminho nem do desmatamento, no dia 16 de maio
de 2005, a Federação Costarriquense para a Conservação do Ambiente (FECON)
havia apresentado junto à Promotoria Geral da República, uma denúncia
contra Paul Lambert (Processo Nº
05-007294-647-PE), solicitando a colaboração das autoridades
para investigar um aparente caso de estelionato na venda de parcelas
da mencionada floresta que faz parte do patrimônio nacional, pertence
ao Estado e é inalienável e imprescritível.
Quer dizer: não é propriedade privada.
No
site
www.latitude9.com, estava
publicado un anúncio da Tortuga Landing que oferecia a paradisíaca floresta
à beira do mar tropical em Punta Quepos e mostrava o croqui do projeto
urbanístico conformado por quinze parcelas exclusivas, nove das quais
estavam dentro da zona marítimo terrestre. Os anúncios das parcelas
diziam SOLD (vendido em inglês), fora um, com uma parcela avaliada
em $ 450,000.
O
texto em inglês anunciava: “Última vaga disponível à venda em Tortuga
Landing! Tortuga Landing é uma comunidade privada, localizada
em uma exuberante floresta tropical sobre uma enseada privada… A
praia de areia privada é um dos últimos pontos pré- colombianos
de chegada de tartarugas marinhas preservado em estado natural... Uma
destas parcelas de aproximadamente ¾ de hectare está localizada no lado
direito da praia e cercada de floresta virgem. Uma das últimas oportunidades
na área, de frente para o mar!”. (Após a denúncia, o texto e o croqui
do anúncio foram retirados da página web e substituídos por outros.)
Ao
ficar sabendo da denúncia do Tribunal Ambiental, solicitei fazer parte
dela e assim soube de outros dados reveladores:
-
En 1998, Paul Lambert contratou a elaboração do Plano Regulador Praia
Pará (plano de ordenamento), que contempla apenas uma parte da praia
(700 metros) e está feito sob medida para o projeto Tortuga Landing.
Este Plano Regulador está atualmente impugnado.
- Nem a Tortuga Landing nem Paul Lambert têm alguma concessão aprovada
na Praia Pará.
-
Para aprovar a concessão a Paul Lambert, o Município de Aguirre
impôs como condição a prévia construção do caminho.
-
Antes de ser nomeado presidente do Tribunal Ambiental, o Dr. Carlos
Briceño Obando desempenhou funções na Presidência da República e no
Município de Aguirre.
-
Quem assessora Paul Lambert em questões ambientais é a empresa Alternativas
de Gestión Ambiental Sociedad Anónima (A.G.A.S.A.), formada por integrantes
da organização ambientalista costarriquense Apreflofas.
Finalizo
com esta reflexão: Nesta Costa Rica cada día mais polarizada, não é
por acaso que as três províncias litorâneas (Guanacaste, Puntarenas
e Limón), que são as mais ricas em biodiversidade e as que produzem
mais renda por turismo, sejam paradoxalmente as que mostram os índices
de desenvolvimento humano mais baixos. A fim de satisfazer as ambições
de alguns, sob o pretexto de “impulsionar o ecoturismo e atrair o investimento
estrangeiro”, as tartarugas e as riquezas naturais em geral, são irresponsavelmente
substituídas por gringos, dólares... e computadores.
Por
Juan Figuerola, correio electrônico: juaneco@costarricense.cr
início
-
Gâmbia: a apicultura como ferramenta para a proteção
e recuperação das florestas
No
começo do século XX, a Gâmbia estava coberta por florestas densas e
quase impenetráveis. Atualmente restam apenas poucas porções de floresta
primária, com 78% da área remanescente de florestas classificada como
“vegetação de savana de árvores e arbustos degradados.” A principal
causa desse processo de degradação da floresta pode ser remontada à
introdução do amendoim, que se transformou no principal cultivo comercial
orientado às exportações, principalmente destinado a fornecer o mercado
francês com óleo industrial e comestível.
Na
Gâmbia, a maneira mais fácil e econômica de preparar a terra para seu
cultivo é o uso de fogo e no final da estação seca as pessoas incendiam
ativamente pequenas e grandes áreas de terras. Em muitos casos, esses
fogos estendem-se para a vegetação de árvores e arbustos próxima, contribuindo
desse jeito com mais degradação das florestas. Portanto, a prevenção
e o controle do fogo parecem ser essenciais para a proteção das áreas
de florestas remanescentes.
Em
uma recente visita ao país, o WRM entrevistou Amadou Ceesay (Diretor
Geral) e Ousman Joof (Gerente de Produção) da Associação Nacional de
Apicultores da Gâmbia (NBAG), que explicaram a importância de sua atividade,
junto com o manejo florestal comunitário, na conservação e recuperação
das florestas, principalmente a respeito da prevenção de incêndios.
Explicaram
que o manejo florestal comunitário é um projeto no longo prazo e que
as pessoas precisam identificar atividades geradoras de renda dentro
dessas florestas. De acordo com Ceesay, “uma das atividades melhor identificadas
é a apicultura. Depois de terem seus equipos, em apenas 2-3 meses
podem começar a receber lucros, e a apicultura fornece mais que a renda
agrícola anual.”
O
resultado é que então as pessoas estão interessadas em proteger a floresta,
porque precisam suficientes e árvores para suas abelhas, portanto sustentam
as existentes e plantam mais. Com colmeias, as florestas comunitárias
estão bem protegidas dos incêndios florestais, não apenas porque os
apicultores desejam manter sua fonte de pólen, mas também porque precisam
proteger as próprias colmeias -localizadas dentro da floresta- dos incêndios.
Ousman Joof diz: “Servimos como guardas florestais: não corte,
não queima, mais árvores. Precisamos flores durante o ano todo, portanto
plantamos diferentes espécies.”
A
atividade é promovida em associação entre a NBAG, o Departamento Florestal
e os comitês de florestas comunitárias. Apesar de que a primeira se
encarrega da capacitação e do comércio do mel, o Departamento Florestal
asiste no fornecimento de equipamento e transporte.
Também
é importante apontar que a apicultura e o consumo de mel não são estranhos
à cultura gambiana. Pelo contrário, há uma longa tradição no uso de
mel silvestre e na maioria das comunidades há conhecimento tradicional
sobre a criação de abelhas. As próprias abelhas são nativas da África,
e portanto são muito resistentes a doenças. De acordo com a NBAG,
“a idéia de incorporar a criação de abelhas nas florestas comunitárias
veio dos próprios agricultores, e a maioria do mel produzido é vendido
na Gâmbia, onde também é utilizada em medicamentos”, enfatizando que
“toda família tem mel”. As pessoas estão agora pensando em plantar árvores
para obterem outras rendas: mel, cera, frutas, geléias (com mel e manga),
lenha.
Como
disse Amadou Ceesay, a criação de abelhas “é a forma
mais rápida e mais econômica de proteger as florestas, porque as comunidades
locais se beneficiam com ela.”
início
-
Índia: relatório
do Comitê Parlamentar Conjunto- Vitória da luta dos povos das florestas
O
Fórum Nacional de Povos e Trabalhadores da Floresta (NFFPFW- sigla em
inglês) dá as boas- vindas ao relatório apresentado pelo Comitê Parlamentar
Conjunto (JPC- sigla em inglês) sobre o Projeto de Lei de Direitos à
Floresta e se mostra otimista quanto a sua aprovação pelo Gabinete Central
e seu encaminhamento ao Congresso. O NFFPFW ainda reconhece o papel
da presidência e dos membros do JPC, e a contribuição de todos os outros
movimentos sociais, grupos de luta de povos da floresta que deram forma
ao projeto através de suas sugestões e apresentações junto ao JPC.
O
atual governo United Progressive Alliance levado pelo Congresso introduziu
“o Projeto de Lei de Tribos Estruturada (Reconhecimento de Direitos
à Floresta) de 2005 no Parlamento em 13 de dezembro de 2005, prometendo
corrigir a injustiça sofrida pelas tribos no passado. Mesmo que a maioria
dos grupos da sociedade civil e os grupos e movimentos de luta dessem
as boas- vindas ao gesto do governo, muitos apontaram que o projeto
de lei estava limitado quanto ao seu alcance e restringia os direitos
sobre as terras florestais das tribos estruturadas mas assim privava
e violava os direitos dos habitantes das florestas de tribos não estruturadas.
O projeto de lei foi também criticado por minar o papel do gram sabha
[conselho da aldeia], introduzindo um espectro de despejos em grande
escala e abrindo a opção para o deslocamento de milhares de habitantes
do Parque Nacional e Santuários.
O
NFFPFW luta pelos direitos dos povos dependentes das florestas desde
seus inícios em 1998 e, ao tempo que dá as boas-vindas para o projeto
de lei, exige uma legislação florestal mais abrangente. Talvez tenha
sido um dos primeiros grupos no país que manifestou publicamente sua
preocupação sobre o alcance limitado do projeto de lei e exige que os
habitantes da floresta de tribos não estrutradas sejam incluídos no
âmbito do projeto de lei.
O
NFFPFW, junto com seus grupos constituintes e os grupos do Nordeste,
também manifestou a natureza complexa das florestas, suas leis e relações
entre os povos que dependem da floresta e as florestas nos estados do
nordeste- questões que não estão refletidas no projeto de lei. Até agora,
o NFFPFW junto com outros movimentos e grupos de luta, reiterou consequentemente
suas preocupações aos encarregados de elaborarem as políticas, interagindo
com partidos políticos, parlamentares e legisladores. O NFFPFW fez uma
detalhada apresentação sobre suas sugestões de emendas ao projeto de
lei junto ao Comitê Parlamentar Conjunto.
Certamente,
este é um momento de vitória e reafirma nossa confiança no poder dos
povos. Porém, nós do NFFPFW somos cientes dos novos desafios que que
começam. O maior desafio será forçar ambas Câmaras do Parlamento a promulgarem
a Lei, e na hora da implementação do Ato no campo já que com certeza
haverá conflitos e será necessário estar preparado o bastante para lidar
com tais situações.
O
NFFPFW acredita que isso é uma parte de uma problemática mais ampla,
que abrange mais do que meios de vida e propriedade dos recursos florestais
e existem desafios bem maiores que ficam no ar e estão relacionados
com implicações da mudança climática, usurpação dos direitos de propriedade
pública, destruição de florestas naturais em favor de plantações e mercantilização
das florestas para o comércio mundial. As crescentes intervenções de
Instituições Financeiras Internacionais no setor ambiental do país estão
tirando o espaço das comunidades e facilitando um processo de mercantilização
do setor.
É
necessário fortalecer a luta conjunta e vencer todas aquelas tentativas
que estão em conflito com a vida e os meios de vida e a dignidade das
comunidades que habitam as florestas. O NFFPFW está engajado em deslanchar
a luta pelos direitos das comunidades das florestas.
Por
Ashok Chowdhury, enviado por Mamata Dash, Fórum Nacional de Povos e
Trabalhadores das Florestas (NFFPFW), e-mail:
mamata_dash@yahoo.com
início
-
Do México ao Ecuador: unidos na história, a memória
e a resistência
Foram
enviadas inúmeras cartas desde o estrangeiro ao governo do Equador no
contexto da campanha de apoio a organizações sociais e indígenas equatorianas
que pretendem evitar a aprovação de uma legislação que implicaria a
expansão das monoculturas de árvores em grande escala (vide artigo sobre
o Equador neste boletim). Mas queremos publicar na íntegra a carta do
Conselho de Organizações de Médicos e Parteiras Indígenas Tradicionais
de Chiapas (o Compitch) porque reflete o sentimento de muit@s e está
inspirada pelo coração de um povo latino- americano que, nesta hora,
bate em uníssono com o equatoriano.
“Dra.
Ana Albán Mora Ministra do Ambiente do Equador e… os outros
Presente
Somos mexicanos de baixo, indígenas maias, habitantes das florestas
em Chiapas, igualmente latino- americanos.
Fazemos
parte da maior (e não por isso a mais importante) organização de médicos
tradicionais de Chiapas, estado federado no sudeste do México. Somos
de todas as filiacões políticas, de todos as crenças religiosas, de
todas as línguas indígenas que ainda são faladas neste estado.
Não
somos muitos mas acredite. Em 2001, após dois anos de resistência, conseguimos
a cancelação do projeto bio-prospectivo americano ICBG Maya. Há um ano,
24 horas depois de uma passeata relâmpago, do projeto de lei estatal
para definir (corporativamente) a riqueza biológica do estado. Há alguns
meses, conseguimos neutralizar o rascunho do decreto da lei federal
de acesso aos recursos genéticos. A causa de nossa disconformidade e
mobilização, sempre foi a mesma: a falta de consulta aos interessados,
neste caso, nós e outros como nós, as maiorias sociais.
Ficamos
sabendo que o mesmo acontece no Equador, que a convocação não chega
ao povo de baixo para participar de um processo de discusão pública
que atingirá seus recursos naturais, neste caso as florestas, porém,
chega à classe empresarial, aquela que tem dinheiro.
Não
vamos fazer nenhuma petição formal, administrativa, de que a senhora
suspenda isto ou emende aquilo. Apenas que pegue um espelho, olhe para
ele e olhe bem o que ele reflite, para atrás e para diante, como sempre
deveria ver- se um espelho. Se esse espelho apenas refletir o presente,
quer dizer, a permanência do mesmo, bem, então a senhora perde e nossos
companheiros equatorianos de baixo vencem porque, sabe, nossos espelhos,
os de baixo, reflitem a memória e o tempo que vem, ou seja, de onde
vem o rosto que olha para ele e também o que pode esperar de acordo
com o rosto que é olhado nesse momento. Mas também vencem, vencemos,
porque nós, ao contrário da doutora, senhora ministra, não recebemos
nada de ninguém por defendermos as riquezas de nossas pátrias que guardamos
para felicidad de todos e porque, também ao contrário dos senhores ao
fazermos assim, nós nos multiplicamos.
Para
os UICN, FAO, Banco Mundial, Tropenbos International, Ministério da
Agricultura da Holanda e anexos, acrescentamos umas comedidas orações
porque, vista sua história recente, concluímos que para eles não bastaria
com o raciocinio anterior.
Desde
o espelho fiel da história com tempo, a nossa e a de seus povos:
A
Diretoria do Conselho de Organizações de Médicos e Parteiras Indígenas
Tradicionais de Chiapas (o Compitch)
Presidente:
Manuel Pérez Jiménez Secretário: Domingo López Sántiz Tesoureira: Francisca
Pérez Pérez
Palenque,
Chiapas, México, em 20 de junho de 2006”
início
COMUNIDADES
E MONOCULTRAS DE ÁRVORES
- Brasil:
representantes indígenas
fazem campanha na Europa para reaver suas terras ocupadas pela Aracruz
Celulose
Paulo Henrique de Oliveira,
liderança Tupinikim de Caieiras Velhas e Coordenador da Articulação
de Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito
Santo - APOINME e Antônio Carvalho, cacique guarani, viajaram para a
Europa em abril/maio de 2006, para divulgar sua luta pela demarcação
das terras Tupinikim e Guarani no Espírito Santo (ver
Boletins do WRM números 94, 96, 102, 103).
Viajaram durante três semanas pela Noruega, a Holanda, a Alemanha e
a Áustria, onde falaram com diferentes grupos sobre os 11.009 hectares
de suas terras que estão atualmente em poder da Aracruz Celulose, a
gigante produtora de pasta de celulose do Brasil. A seguir transcrevemos
o relato da viagem por Paulo de Oliveira.
“Saímos no dia 25 de abril
para esse trabalho com o objetivo de mostrar o que acontece com os povos
indígenas no Brasil e especificamente no Espírito Santo, onde o território
indígena é ocupado por uma multinacional, Aracruz Celulose S.A., na
qual alguns países da Europa e de diversas partes do mundo têm ações.
Na Noruega, país o qual
investe 34 milhões de coronas norueguesas (cerca de 4,5 milhões de euros)
na empresa, reunimos com o Banco da Noruega, com parlamentares e com
o Conselho de Ética do Fundo de Pensão do governo. Pedimos que eles
retirem todo o investimento que têm na empresa.
Na Alemanha, país onde
estão concentradas algumas fábricas que compram celulose, nós fizemos
reuniões com algumas dessas empresas, com o FSC (o selo verde), com
o Ministério de Desenvolvimento, com parlamentares do Partido Verde
e algumas ONGs. Lá falamos do desrespeito da Aracruz Celulose com os
indígenas e com a Constituição brasileira, que garante os direitos indígenas.
Pedimos que pressionem a Aracruz para que devolva as terras e que respeite
a decisão do Ministro da Justiça, e que o governo brasileiro demarque
as terras Tupinikim e Guarani o mais rápido possível e faça valer a
Constituição Brasileira.
Nessa viagem conseguimos
fazer muitas articulações com outras ONGs para fortalecer nossa luta
e a nossa organização e pudemos ver também o quanto o povo europeu é
sensível à causa indígena e que não medem esforços para nos ajudar.
O exemplo disso são as crianças de uma escola que visitamos, crianças
que não tiveram vergonha de engraxar sapatos para conseguir recursos
para ajudar na nossa luta.
Contudo, espero que os
políticos que visitamos, as empresas, o Ministério de Desenvolvimento,
o FSC e o Banco possam cumprir com o prometido, e a Aracruz devolva
as terras e o governo agilize o processo de demarcação e que possamos
continuar nossa mobilização, nossa luta, contribuindo com nossos irmãos
que lutam pelas suas terras, pelos seus direitos, pela sua dignidade,
porque nossa luta não termina aqui. É apenas o começo de uma luta para
melhora de nossas vidas e do nosso planeta.”
A
luta dos povos Tupinikim e Guarani parece render frutos. O descrédito
internacional da Aracruz por sua usurpação de terras indígenas tem sido
tão grande que a própria companhia tem anunciado recentemente que tinha
decidido “solicitar o cancelamento voluntário provisório da certificação
do FSC (Conselho de Manejo Florestal) das florestas pertencentes a sua
Unidade Guaíba localizada no Estado do Rio Grande do Sul. Essa
certificação, que foi outorgada antes da aquisição dessa unidade, já
tinha sido revalidada três vezes consecutivas e ia vencer em dezembro
de 2006.”
Que
tem isso a ver com a luta no Espírito Santo? A própria Aracruz reconhece
a relação. Em seu comunicado à imprensa (em
http://www.aracruz.com.br/web/en/imprensa/noticias/noticias178.htm)
estabelece que “algumas partes interessadas tinham exprimido sua preocupação
ao FSC sobre a revalidação do certificado da UG -não relacionada com
o manejo florestal no Rio Grande do Sul, mas a respeito de uma controvérsia
a respeito de terras entre a Unidade de Barra do Riacho da companhia
(a mais de 2.000 km de distância) e as comunidades do Estado do Espírito
Santo.” Essa é claramente uma operação de controle do dano.
Desse jeito a Aracruz está reconhecendo o sucesso da campanha dos povos
indígenas na geração de apoio internacional de sua luta para reaver
suas terras e está tentando evitar ampliar a oposição dentro do cenário
da certificação do FSC.
Apesar
de que esse assunto está em desenvolvimento, a Aracruz tenta ocultar
sua verdadeira face com muito dinheiro, com o que pode contratar espaços
na mídia para capturar as grandes audiências globais. Uma nova propaganda
difundida em todo o país durante a atual Copa do Mundo mostra as celebridades
nacionais, como o ex jogador de futebol Pelé, passando a bola entre
eles, enquanto uma voz diz: “Aracruz: fazendo
um papel bonito lá fora” (há um jogo de palavras, já que em português
a palavra “papel” tem o duplo significado de “desempenho” e “papel”,
o produto final da celulose produzida pela Aracruz).
Nada
mais longe da realidade, e as comunidades sabem bem isso. Em 16
de junho, em Jacutinga, uma comunidade em Linhares, no norte do Espírito
Santo, sete tratores da companhia foram colocados em movimento para
derrubar porção da Mata Atlântica brasileira. A ação foi levada a cabo
em dia de férias, mas no entanto foi detida pela firme resistência de
camponeses do Movimento dos Pequenos Agricultores que têm estado protegendo
a área por mais de vinte anos. (Vide relatório completo em
http://www.wrm.org.uy/countries/Brazil/Aracruz_World_Cup.doc)
Não
certificável, não confiável. A Aracruz não deveria
ser viável.
início
-
Brasil: impactos das plantações de eucalipto nas
mulheres
Os
impactos sociais e ambientais das plantações de monoculturas de eucalipto
têm sido bem documentados em muitos países. No entanto, a dimensão de
gênero geralmente tem sido ignorada, não ficando evidenciados desse
jeito os impactos diferenciados que elas têm nas mulheres. As
seguintes citações de uma pesquisa levada a cabo no Brasil sobre as
plantações e a operação da fábrica de pasta de celulose da Aracruz Celulose
são portanto muito úteis para esclarecer o assunto e incentivar outras
pessoas para analisar ainda mais esses impactos bem menos conhecidos.
“As
mulheres indígenas, quilombolas e camponesas, que viviam junto a suas
famílias e comunidades nos lugares tomados pela
eucaliptocultura, tinham seu papel socioeconômico bem
definido. Conforme relata o Sr. Antônio dos Santos, da aldeia
de PauBrasil, as mulheres indígenas tinham tarefas
específicas. Elas produziam certos tipos de artesanato como peneiras,
por exemplo, enquanto os homens faziam gamelas
e remos. Junto com os homens, elas trabalhavam na roça,
plantando e capinando, e também pescavam.As mulheres quilombolas,
por exemplo, produziam o bijú – um alimento típico
dessa população – para alimentar suas famílias e também para ser
comercializado e gerar renda.
Com
a chegada das plantações de eucalipto, as mulheres, como os demais moradores
da região, vivenciaram as mudanças na organização
de seu território e de seu lugar na comunidade; no
que se produzia e como se produzia. O seu papel socioeconômico dentro
da família e da comunidade sofreu alterações
e várias dessas mulheres, depois de perderem suas terras, se viram
obrigadas a buscar um outro espaço para morar e trabalhar. Migraram
com seus filhos e parentes para regiões urbanas,
próximas ao local onde viviam, como é o caso de muitas famílias que
se deslocaram para as cidades de São Mateus e
Aracruz. Outras buscaram a região metropolitana do estado,
engrossando as favelas e, para continuarem cuidando das suas casas e
de suas famílias, trocaram as atividades rurais
pelas de empregadas domésticas, faxineiras ou lavadeiras de famílias
de classe média e burguesa urbanas.
As
mulheres que até hoje resistem no meio de eucalipto também continuam
cuidando das suas casas, da sua família, mas,
ao mesmo tempo, enfrentam mais dificuldades do que antes. Por exemplo
os rios e córregos que eram utilizados para lavar a roupa, de
onde se tirava a água para beber e no qual se
pescava estão, em sua maioria contaminados. Dessa forma, os membros
da família, inclusive as mulheres, são forçados
a se deslocarem para conseguir água potável. Dona Doralim Serafim dos
Santos, quilombola, conta que “aqui ninguém lava roupa neste
córrego, pois a roupa fica amarela e encardida,
no tempo que me criei a gente ia ‘fachiar’ peixe no córrego e a água
estava limpian.
Outro
problema é a falta da mata nativa, fonte da matéria-prima necessária
para fabricação do artesanato.Além disso, a contaminação
do solo pelo uso de agrotóxicos nas plantações compromete
o plantio de ervas medicinais realizado pelas mulheres. As ervas
medicinais são muito utilizadas pelas populações
tradicionais para prevenir e combater doenças. A falta de terra boa
e suficiente complica também a articulação entre
as tarefas domésticas e a produção agrícola. Hoje, as mulheres
têm que percorrer longos caminhos para trabalhar em plantações
de terceiros, na lavoura de café e cana-de-açúcar,
por exemplo. Essas mulheres ficam mais sujeitas a acidentes de trabalho.
Vale
acrescentar ainda que hoje, no estado do Espírito Santo, 26% das famílias,
ou seja, 800 000 domicílios, têm mulheres como
chefe de família. Significa que o Espírito Santo é um dos estados
brasileiros que conta, proporcionalmente, com o maior número
de domicílios chefiados por mulheres. Esse dado
indica que o trabalho remunerado para as mulheres deixou de ser apenas
uma forma de aumento da renda familiar e passou
a ser fundamental para a sua subsistência e de sua família.
Há
também a experiência das mulheres indígenas que, com a perda das condições
de subsistência buscaram formas alternativas
de contribuir financeiramente com a família. Algumas se tornaram
empregadas domésticas dos chefes da empresa Aracruz. Entretanto,
em 1998, após o processo de auto-demarcação das
terras indígenas, foram demitidas em represália. Tiveram que buscar
outros tipos de trabalho fora das aldeias. Contudo,
há aquelas que deram mais sorte e conseguiram trabalho
como educadoras e agentes de saúde nas próprias aldeias onde vivem.
Todo esse esforço das mulheres para contribuírem
com a renda familiar tem gerado mudanças no seu papel tradicional
o que, de alguma forma, vem afetando toda a comunidade. Por outro
lado, apesar dos estragos produzidos
pela ação desse grande projeto agroindustrial, ele busca estar
sempre próximo dessa população, promovendo ações
de caráter assistencial. Uma das últimas atividades de que se tem
notícias é a promoção de cursos profissionalizantes para essas
mulheres, buscando torná-las manicures, pedicures
e garçonetes, profissões estranhas a essa população.
Outra
situação que merece destaque é a de um número reduzido de mulheres de
comunidades vizinhas que trabalham dentro da
empresa Aracruz. Não surpreende que nos anos de 1998, apenas
6,8% dos empregados da empresa fossem do sexo feminino, de acordo
com dados da época. Ainda assim, a maior parte
das mulheres que trabalhava na Aracruz fazia serviços de limpeza,
trabalhava no setor administrativo na fábrica, ou no viveiro
e na atividade do plantio de mudas, talvez por
se acreditar que as mulheres são mais aptas para este tipo de atividade
que requer um trabalho manual cuidadoso. No entanto,
hoje, tal atividade já está quase totalmente mecanizada.A
maioria
destes serviços agora é terceirizada.
No
trabalho de campo, as mulheres também sofreram como os homens, acidentes
de trabalho. Um exemplo de acidente aconteceu
no dia 14 de julho de 1986, quando uma ex-trabalhadora da
Aracruz Celulose desceu uma ‘grota’ com uma caixa de 30 mudas
de eucalipto, pesando 45 quilos. Ela caiu, fraturando
a coluna. Depois de ser transferida para um serviço de limpeza de escritório,
foi demitida porque não conseguia mais ficar
de pé. Hoje, com 51 anos de idade, ela não agüenta carregar
uma cadeira e precisa controlar a dor na coluna com remédios. Nunca
mais conseguiu um outro emprego.
Muitas
vezes, porém, as mulheres, invisíveis, tiveram que cuidar dos seus maridos,
doentes e acidentados pelo trabalho realizado
nas plantações. Dona Doralina conta que “tinha dias que ele
chegava aqui com as vistas doendo e quase não podia dormir de
noite, e depois ele ficou com as vistas ruins
mesmo, não estava enxergando direito, aí ele fez uns exames”. Há inclusive
mulheres viúvas de ex-trabalhadores da empresa
Aracruz e de empresas terceirizadas que precisam sustentar
a casa sozinha, sem qualquer apoio.”
Extraído
da pesquisa encarregada pelo WRM: “Promessas de Emprego e Destruição
de Trabalho. O caso Aracruz Celulose no Brasil”, por Alacir De Nadai,
Winfridus Overbeek, Luiz Alberto Soares, Maio 2005.
início
- Colômbia:
comunidade põe em xeque à multinacional Smurfit Cartón da Colômbia
A Colômbia não foge do processo que vem se
desenvolvendo em vários países latino- americanos quanto ao estabelecimento
de monoculturas de árvores de rápido crescimento.
Recentemente foi aprovada a mal chamada “Lei
Geral Florestal”, ou lei das três mentiras como foi batizada pelos ambientalistas:
não é nem lei, nem geral, nem florestal. Para poder ser lei deveria
servir ao interesse da sociedade colombiana como um todo e não a grandes
empresas florestais. Ainda, seria uma lei geral se abrangesse outros
assuntos relacionados com a floresta tais como o uso comunitário da
floresta, ou a restauração do ecossistema - para mencionar alguns exemplos-
e não apenas a exploração da floresta. Finalmente, não se trata de uma
lei florestal mas de uma lei de caráter econômico que permite e facilita
a entrada de grandes empresas madeireiras para explorarem as florestas,
as que, no contexto dessa lei, são consideradas como meras mercadorias.
Paralelamente, uma complexa rede de atores,
formada, entre outros, por instituições financeiras internacionais tais
como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, bem
como por várias agências de “cooperação” de diversos países –Japão,
Alemanha, Holanda, EUA – já entraram em cena a fim de prepararem o terreno
como já fizeram em vários países latino-americanos.
A Lei Geral Florestal acarretará muitos prejuízos
para as florestas -e o Povo- colombianos, por exemplo, abrirá
novas puertas para o estabelecimento de plantações de árvores de rápido
crescimento.
Atualmente, a Colômbia tem aproximadamente
200.000 hectares de plantações de pinheiros e eucaliptos. A principal
empresa estrangeira que opera no país é a trasnacional Smurfit Cartón
da Colômbia. Esta companhia possui grandes extensões de plantações de
árvores --40.000 hectares-- e uma fábrica de produção de papelão e papel.
E também conta com um histórico de descumprimento de direitos humanos,
deflorestamento e poluição (vide artigos publicados em boletins anteriores
77, 43).
A empresa é proprietária de vastas áreas plantadas
de eucaliptos e pinheiros na zona do Departamento Valle del Cauca. Atualmente,
planeja aumentar tal extensão nesta área e para este fim pretendia entrar
no Município de Guacarí, aliás, na Vereda de Santa Rosa de Tapias, setor
Alto Pomares.
Mas a empresa não tinha planejado o fato de
se deparar nesse local com uma comunidade organizada que não estava
disposta a permitir que a empresa entrasse em suas terras.
Trata-se de uma zona alta, extremamente rica,
onde nascem as fontes de água que servem 17 comunidades integradas por
1.500 famílias de camponeses que habitam essa zona. Estas famílias de
camponeses são minifundiárias e, possuem, em média, de 4-5 plazas (1
plaza = 6400 metros de terra). Em suas propriedades, a lavoura predominante
é o café, mas também existe uma importante diversidade de outras lavouras
como por exemplo hortas de verduras, frutais, bambu (que utilizam para
a construção de suas casas), combinadas com atividades de criação de
animais (porcos, galinhas, gado). De sua terra e seu trabalho conseguem
quase tudo o que precisam para subsistirem.
A água --que é fornecida pelas nascentes da
parte alta-- é um elemento fundamental para permitir a produção em
suas propriedades. Eles sabem que a entrada da Smurfit na parte alta
e o estabelecimento de plantações de árvores de rápido crescimento vão
significar o esgotamento de um recurso atualmente compartido entre todos
os camponeses e primordial para manterem sua soberania alimentar.
A Smurfit pretende entrar nestas terras altas
associando- se com uma das famílias latifundiárias que ainda permanecem
na zona. Esta família é proprietária de 320 hectares de terra. Este
seria o primeiro passo da empresa para entrar na zona: ocupar estes
320 hectares e depois avançar comprando terras até acabar cercando os
camponeses que se resistirem a vender suas terras para finalmente obrigá-
los a abandoná- las.
Ao ficarem sabendo dos planos da empresa,
os camponeses começaram a se organizar, se informar e realizar
denúncias junto aos diversos organismos envolvidos, com o intuito de
conseguir deter o avanço da empresa. Em várias reuniões se enfrentaram
duramente con os representantes da empresa, que ameaçaram os camponeses
e afirmaram que a Smurfit “entra aconteça o que acontecer”.
A
Smurfit convidou os camponeses para fazer uma visita de suas “florestas
plantadas” e mostrar- lhes os inúmeros benefícios que obteriam.
Em caminhonetes 4x4 percorreram as plantações junto a técnicos da empresa.
Não puderam ver nem uma pessoa trabalhando ao longo dos 4.500 hectares
que percorreram- situação que contrasta profundamente com a realidade
das zonas que eles atualmente habitam. O silêncio das plantações os
deixou atordoados. Não conseguiram ver nem um pássaro, nem um único
grilo, nem uma única casa, a terra já não era terra senão pedras...
A empresa guiou o percurso e não foram permitidos de falar com os povoadores
da zona visitada. Foi então que eles decidiram organizar sua própria
visita a essa zona, com seus próprios recursos, para ver com seus olhos,
e não com os olhos da empresa, e conversar com as comunidades locais
sobre os impactos das plantações. Confirmaram aquilo que já sabiam:
é preciso deter a Smurfit!
Recentemente,
vizinhos de diversos Municípios do Valle del Cauca afetados pelas plantações
de monoculturas de árvores --entre os que estão os vizinhos de Guacarí--
se reuniram para conformar uma Frente de Resistência às Plantações.
Os desafios são grandes e muito fortes os
poderes que é preciso enfrentar. Contudo, unir-se, informar- se e ir
tecendo redes é o único caminho para dar Xeque Mate Smurfit!
início
-
Equador: um "diálogo" esquisito para
promover as monoculturas de árvores
Em
maio de 2003 manifestávamos que “Em quase todos os países, as monoculturas
de árvores em grande escala foram impostas e desenvolvidas depois de
ter havido alterações na legislação de cada país. Desse modo, empresários
nacionais e estrangeiros conseguem todo tipo de benefícios, subsídios
diretos e indiretos, isenção de impostos e, até, créditos brandos e
reembolsos por plantações em grande escala”. (vide Boletim Nº70,
artigo sobre Equador).
Nesse
então, o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais foi testemunha
das pressões exercidas sobre o governo equatoriano para tomar providências
nesse sentido. Participamos de um Seminário que tinha como intuito a
formulação de um “Plano Nacional de Florestamento e Reflorestamento”.
A metodologia do evento permitiu o monopólio das empresas florestais
e foi por isso que as poucas organizações civis, camponesas e indígenas
presentes emitiram uma declaração na que expressavam, entre outras coisas,
que “Para as comunidades camponesas e indígenas, as plantações florestais
comerciais em grande escala, especialmente as monoculturas, não são
uma alternativa de desenvolvimento, pelo contrário, provocam problemas
tais como:
*
O desmatamento de áreas de florestas nativas com o objetivo de serem
substituídas por plantações introduzidas, como é usual nos projetos
de “reflorestamento”.
*
A diminuição de fontes de água em decorrência de plantações estabelecidas,
principalmente nos páramos.
*
A redução da fertilidade do solo, como é o caso das plantações de monoculturas
de plantas exóticas que deslocam nossas espécies nativas e nossa biodiversidade.
*
A apropriação de terras das comunidades através de locação ou de hipoteca
como é o caso das comunidades atingidas pelas indústrias madeireiras,
com hipotecas de até 99 anos.
*
A compra de terras por parte de empresas transnacionais como é o caso
da Mitsubishi em Muisne.
*
A perda de biodiversidade, mudanças na flora e fauna, que são comuns
em todos os projetos de plantações.
*
O aumento de risco de incêndios, como é o caso de SIGSIG.
*
A redução das áreas de conservação como é o caso do Parque Nacional
Cotopaxi.
Mais
de três anos depois, mais uma virada ameaça consolidar uma legislação
que viria a promover as monoculturas de árvores em grande escala. O
Ministério do Ambiente está levando um processo denominado Diálogo Nacional
sobre o Sistema de Controle Florestal no Equador, que inclui a organização
de cinco oficinas regionais e uma oficina nacional, com o intuito de
implementar o Sistema em julho deste ano. Este processo foi duramente
questionado por numerosas organizações sociais e indígenas do país,
por considerarem que se trata de um “diálogo” não participativo. No
dia 9 de junho foi encaminhada uma carta à Ministra do Meio Ambiente
na qual reclamam, entre outras questões, sua imediata suspensão (a carta
na íntegra pode ser lida em
http://www.wrm.org.uy/paises/Ecuador/CartaMAE.pdf).
Uma
das reclamações diz que: “Este processo não inclui os atores relevantes
diretamente atingidos pela destruição das florestas, nem suas organizações
de base nem suas organizações nacionais. O diálogo regional [realizado
na cidade] de Esmeraldas evidencia a falta de participação de grupos
cidadões e comunitários. A representatividade maioritária nesses processos
corresponde à indústria madeireira. Este é um fato preocupante já que
seus representantes não podem ser ao mesmo tempo juiz e júri na discussão
de um assunto tão delicado para o país como é o controle do desmatamento.
Esta representatividade explica que o foco destas reuniões esteja voltado
a formular uma política florestal, a ampliar a superficie de plantações
florestais (desregularizar) e a incrementar os incentivos às plantações.
Isso beneficia claramente os industriais madeireiros e não resolve o
aspecto fundamental da convocação: o controle florestal.
Assumir
uma política de controle florestal supõe, sob nosso ponto de vista pelo
menos, os seguintes aspectos:
1.
A participación ativa e o consentimento das comunidades afetadas, de
suas organizações de base e de suas organizações nacionais.
2.
A conservação das últimas florestas primárias que sobrevivem no país,
proibindo totalmente sua exploração e exigindo o cumprimento da legislação
que protege o patrimônio florestal do Equador,
3.
A aplicação de uma moratória à indústria madeireira até serem determinados
os impactos sociais, ambientais e econômicos causados ao país; e,
4.
A proibição da expansão de plantações,
principalmente de eucalipto, pinheiro e dendezeiro, que estão acabando
com as florestas primárias e as terras aptas para a agricultura; além
de atentar contra as fontes de água e a vida das comunidades locais.”
As
organizações assinantes denunciam que “o setor madeireiro tenta estabelecer
uma nova política florestal sob medida, ignorando por completo a necessidade
de uma autêntica política de controle florestal ausente em nosso país”.
Devido
a todos esses argumentos as organizações se retiraram do processo e
solicitam às autoridades que seja“convocado um diálogo com verdadeira
participação, representação e consentimento, a fim de decidirmos sobre
a gestão de nossos recursos gerais e de evitar que sejam facilitadas
as condições para os grupos de poder de sempre continuarem destruindo
o patrimônio natural do país”.
O
Equador ainda tem tempo para reagir. É por isso que foi organizada uma
ação internacional de apoio às organizações sociais e indígenas que
tentam evitar a aprovação de uma legislação que implicaria a expansão
das monoculturas de árvores em grande escala. De todos os cantos do
mundo, todos aqueles que têm claro que estas plantações somente favorecem
as grandes empresas e para os povos apenas acarretam impactos sociais,
ambientais e econômicos desastrosos, manifestaram sua solidariedade
com a petição do povo equatoriano enviando cartas de apoio, antes que
seja tarde demais...
início
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Indonésia: apelo para cancelar plano de 3 milhões
de hectares de plantações de dendê
No
dia 12 de abril de 2006, foi divulgado o relatório “The Kalimantan Border
Oil Palm Mega-project” (O mega- projeto de plantações de dendezeiro
na fronteira de Kalimantan) a fim de mostrar os planos do governo indonésio
para desenvolver plantações de dendê de mais de 3 milhões de hectares
na ilha de Borneo, dos quais 2 milhões de hectares ao longo da fronteira
de Kalimantan com a Malásia e 1 milhão de hectares em outros locais-
em áreas ainda muito florestadas e habitadas por comunidades indígenas.
O objetivo do projeto é atender a exigência internacional de dendê barato
para satisfazer a demanda nacional e mundial de bio- combustível.
Na
Indonésia, já tinha sido lançado um plano anterior para desenvolver
a maior plantação de dendê do mundo- 2 milhões de hectares- em uma faixa
de 5 a 10 quilômetros ao longo da fronteira de Kalimantan com a Malásia.
O mega- projeto, apresentado sob o eslogã “trazemos prosperidade, segurança
e proteção ambiental para a área fronteiriça de Kalimantan”, estragou
quando um plano comercial desenvolvido pela Indonesian State Plantation
Corporation (PTPN) começou a se espalhar. Esse documento apresentava
um mapa que mostrava, com total clareza, como o projeto de
1,8 milhões de hectares de dendezeiro destruiria as florestas primárias
de três Parques Nacionais, atravessaria as íngremes ladeiras e montanhas
completamente inadequadas para a cultura de dendezeiro e aniquilaria
o direito consuetudinário sobre a terra das comunidades indígenas Dayak
na área fronteiriça.
Esses
planos foram dados a conhecer por várias campanhas e a protesta, tanto
da sociedade civil indonésia quanto da internacional, forçou o governo
indonésio a revisar sua posição e realizar mudanças reconhecendo que
as preocupações ambientais deviam ser consideradas. Contudo, o novo
relatório revela que os planos iniciais ainda estão na mesa e que a
expansão de dendezeiro continua. As companhias de dendezeiro já se trasladaram
para vários pontos da área fronteiriça e planejam continuar a expansão
ao longo da fronteira de Kalimantan. Os especialistas da Agência Nacional
do Planejamento do Desenvolvimento (Bappenas) encontraram uma
solução ao problema de não haver mais espaço para os novos planos de
expansão dentro da área fronteiriça, onde a área total adequada para
a cultura de dendezeiro é insignificante: eles simplesmente alteraram
a definição da extensão da área de fronteira aumentando sua largura
de 5- 10 km para 100 km.
A
área estimada como adequada para o dendezeiro inclui florestas usadas
por milhares de pessoas que dependem delas para seu sustento e estão
habitadas por comunidades indígenas. Na nova e maior área fronteiriça,
uma disposição especial (o Decreto Presidencial No. 36/2005) permitiria
ao governo tirar as terras das comunidades que não quiserem as plantações
de dendê em nome do “interesse público”.
Na
área fronteiriça- a imediata e a extendida- apenas umas poucas comunidades
indígenas são conscientes dos planos de desenvolvimento governamentais.
As declarações feitas pelas comunidades locais e seus líderes de aldeia
indicam que quem está familiarizado com esses planos opõe-se dura e
inequivocamente ao desenvolvimento do dendê nessas áreas. A Regulação
Presidencial (Pepres Nº 36/2005) é particularmente preocupante quanto
aos direitos consuetudinários à terra já que permite que o governo obrigue
a deixar as terras haja vista o “interesse público”. Devido a esse projeto
ser justificado por razões de interesse público (segurança, prosperidade
e proteção ambiental) e envolver as Forças Armadas da Indonésia, o governo
pode usar essa regulação para forçar o estabelecimento das plantações
de dendezeiro na área fronteiriça. Os planos do Ministério Florestal
e do Ministério da Agricultura de promover culturas de exportação fora
o dendê- tais como borracha, café, chá, cacao, pimenta entre outras-
na área fronteiriça poderiam dar benefícios, mas esses planos vão se
deparar com a resistência das comunidades locais se o governo tiver
o propósito de trazer grandes investidores estrangeiros para plantarem
essas lavouras em terras tradicionais.
Amigos
da Terra- Indonésia (WALHI) e a organização local Sawit Watch (“Oilpalm
Watch”) estão fazendo um apelo junto ao governo indonésio para cancelar
oficialmente o plano de mega- plantações na fronteira.
Artigo
baseado em informação obtida de: “European Hunger for Palm Oil
and Timber Triggers Expansion of Destructive Palm Oil Plantations on
Kalimantan”, de Amigos da Terra- Holanda, Sawit Watch, Amigos da Terra-
Indonésia (WALHI), Amigos da Terra- Inglaterra, Wales e Irlanda do Norte,
http://www.eng.walhi.or.id/kampanye/hutan/konversi/060412_palmoilplantation_/;
“The Kalimantan Border Oil Palm Mega-project”, Eric Wakker, AIDEnvironment,
encarregado por Milieudefensie – Amigos da Terra- Holanda e a Sociedade
Sueca para a Conservação da Natureza (SSNC), www.milieudefensie.nl/globalisering/
publicaties/rapporten/KalimantanOilPalmMega-lowres.pdf
início
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Moçambique: as plantações
industriais de árvores querem chegar ao país
Em
maio de 2006, o Ministério da Agricultura de Moçambique apresentou para
sua discussão a “Estratégia Nacional de Reflorestamento” (o documento
completo está disponível em
http://www.wrm.org.uy/paises/Mozambique/Estrategia_Reflorestamento.doc).
Como diz o documento, expõem-se as bases fundamentais para promover
o estabelecimento de plantações de árvores no país, que conforme anunciado,
serão de espécies de rápido crescimento.
Continuando
o mesmo esquema presente nos outros países onde foram introduzidas as
plantações de monoculturas de árvores em grande escala, a proposta vem
com a promessa de gerar empregos e eliminar a pobreza, contribuindo
com o desenvolvimento nacional, especialmente na área rural.
Do
mesmo jeito, começa com o que poderíamos dizer que constitui o “pecado
original” de todo esse pacote, que desde a FAO até agora se tem transmitido
proposta trás proposta: identificar as plantações de monoculturas de
árvores com as florestas. E portanto o projeto de Moçambique promete
que as plantações de árvores servirão para preservar o solo e a água!
recuperar ecossistemas frágeis e degradados e elevar os níveis de produtividade
melhorando a qualidade do ambiente! aumentar a consciência social para
a valorização da natureza!
Desde
o Movimento Mundial pelas Florestas temos escrito rios de tinta nesse
sentido e nossa campanha mundial contra as plantações de monoculturas
de árvores em grande escala visa a difundir e alertar a respeito de
seus efeitos nefastos justamente e especialmente sobre o solo e a água,
bem como sobre a população rural e a economia real das pessoas.
O
projeto anuncia que foram identificados 7 milhões de hectares com potencial
para florestamento, nas províncias de Sofala, Manica, Zambézia, Nampula
e Niassa. Para os próximos 20 anos propõe o estabelecimento de pelo
menos 2 milhões de hectares de plantações florestais. Também anuncia
que se realizaria a zonificação de aproximadamente 3 milhões de hectares
de terra com potencial para florestamento, que “deverá estar disponível
para potenciais investidores para o desenvolvimento de plantações industriais”.
Para
atrair os investidores, o projeto propõe que a legislação florestal
forneça incentivos para o florestamento com fins industriais e de exportação
aos mercados emergentes do Pacífico e do Oceano Índico, especialmente
para a China, a Índia e outros países asiáticos ávidos por matéria-prima
para a produção de celulose e papel que se destinará a alimentar as
necessidades de um modelo de consumo dispendioso.
Logicamente
e como sustenta o próprio documento, a campanha de promoção das monoculturas
industriais de árvores em Moçambique está promovida e patrocinada pelas
grandes companhias florestais dedicadas à produção de celulose e papel.
Nada de novo sob o sol...
Esse
processo apenas começa no país. O povo moçambicano tem em seu favor
a experiência adquirida em países que há anos estão sendo “invadidos”
por esses “desertos verdes” e hoje podem testemunhar que nada do prometido
foi cumprido. Pelo contrário, as plantações de árvores têm causado estragos
nos recursos hídricos e os solos e têm provocado perda de biodiversidade.
E quanto aos anunciados milhares de empregos, numerosas populações podem
dizer de que forma se têm empobrecido as comunidades rurais que já não
têm os ecossistemas de florestas ou pradarias que antes utilizavam -bem
ou mal- para sua sustentação. As comunidades não têm tido outra opção
que emigrar ou trabalhar cativas nas plantações de forma sazonal, geralmente
em empreiteiras, sob péssimas condições, e muitas vezes até em semi-escravidão.
Muitos moçambicanos que têm emigrado à África do Sul procurando trabalho
sabem bem disso, já que o tem sofrido.
Em
todos os lugares é o mesmo discurso, que as exportações de troncos ou
celulose, produto das plantações industriais de árvores trarão desenvolvimento
para o país, gerando empregos e divisas. Mas também em todos os lugares
o panorama é o mesmo -haverá divisas, mas os benefícios são recebidos
pelas grandes empresas florestadoras, e as pessoas e o meio ambiente
acabarão perdendo.
Agora,
cabe ao povo de Moçambique antecipar-se ao desastre.
Por
Raquel Núñez, Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, e-mail: raquelnu@wrm.org.uy
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O CENÁRIO MAIS ABRANGENTE
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Gênero, Militarismo e Mudança Climática
Por
ser a evidência da mudança climática cada vez mais convincente, aumenta
em intensidade a batalha sobre quem formula suas causas, efeitos e soluções.
Tanto no âmbito popular quanto no político, saber quais serão as vozes
ouvidas e quais as não ouvidas torna-se um assunto político chave do
nosso tempo. Hoje, no nível da política internacional, chama a atenção
a ausência de considerações de gênero nos debates sobre mudança climática.
De fato, as palavras “mulher” e “gênero” não aparecem nos dois principais
acordos internacionais sobre aquecimento global, a Convenção Marco das
Nações Unidas sobre Mudança Climática e o Protocolo de Kioto. A nova
defesa e sabedoria do feminismo questionam essa desconsideração do gênero,
apontando especialmente para a importância de levar em conta o gênero
na análise da vulnerabilidade e adaptação ao aquecimento global.
O
trabalho feminista sobre vulnerabilidade recorre a pesquisas prévias
a respeito do que faz que certas populações estejam mais expostas diante
de desastres naturais como enchentes e secas- eventos climáticos
extremos que poderiam ser mais freqüentes como resultado do aquecimento
global. Por exemplo, em lugares onde as mulheres têm menos acesso aos
alimentos e à assitência sanitária do que os homens, elas estão em desvantagem
ao enfrentarem desastres naturais e pressões ambientais. Devido a elas
serem as principais responsáveis pelas crianças e idosos, chegam a ter
menor mobilidade. As restrições culturais quanto à mobilidade das mulheres
pode agravar o problema. Durante o ciclone de 1991 em Bangladesh, morreram
mais mulheres do que homens porque o alerta de ameaça foi anunciado
nos espaços públicos onde as mulheres são proibidas de ir e, ainda,
se demoraram ao sairem de suas casas por temor a ser consideradas
indecentes.
Para
não depender de amplas generalizações, estudiosos e profissionais feministas
desenvolveram um mapeamento de risco sensível ao gênero no qual as mulheres
analisam suas próprias vulnerabilidades conforme o tipo de lavoura que
fazem, os recursos que controlam e os que não, seu acesso à irrigação,
mercados, informação, etc. Nesse sentido, a análise de gênero é uma
ferramenta para estudar os diversos contextos e aproximar-se de soluções
localmente efetivas mais do que apresentar uma única forma de compreender
a vulnerabilidade.
Até
agora, a maior parte da literatura sobre gênero e vulnerabilidade diante
da mudança climática tem se focalizado nas mulheres rurais do Sul apesar
de que a maioria das pessoas do mundo irão morar nas cidades daqui
a algumas décadas. Tal como mostrou o furacão Katrina, o Norte também
não está imune a eventos climáticos extremos, e o grau de vulnerabilidade
vivenciado pelos habitantes de Nova Orleans estava intimamente ligado
a fatores como gênero, pobreza, raça, idade e classe, e suas inter-
relações. Devido à probabilidade de esses riscos associados à mudança
climática serem maiores nos próximos anos, o mapeamento de risco sensível
ao gênero e a compilação de dados seriam ferramentas úteis para as comunidades,
tanto rurais quanto urbanas, do mundo inteiro.
Muito
deve ser feito ainda para conseguir que os sistemas de alarme de ameaças
atendam a questões de gênero. Conforme Maureen Fordham da Rede de Desastres
e Gênero, domina uma maioria de experts homens nesse campo, e a ênfase
tradicional está nas (“duras”) abordagens científicas e técnicas para
a identificação de riscos e a solução de problemas, com pouca atenção
ao papel das redes de mulheres e outros grupos de cidadãos no desenvolvimento
de sistemas informais de alerta. O âmbito do manejo de desastres está
também dominado por homens, e as necessidades das mulheres quanto à
informação e serviços são freqüentemente descuidadas diante dos desastres.
Devido
à negligência em grande escala das questões de gênero nos acordos internacionais
sobre mudança climática, não deve surpreender a pouca atenção que tem
sido dada ao fato de esses acordos chegarem a ter resultados diferenciados
por gênero. Em uma crítica à abordagem sobre o comércio de carbono do
Protocolo de Kioto, Larry Lohmann, da britânica The Corner House, salienta
como os sistemas de contabilização de carbono resultantes marginalizam
as contribuições não corporativas, não estatais e não especializadas
para a estabilidade climática e são criadas novas formas excluentes
de direitos de propiedade. Eles favorecem projetos de seqüestro de carbono
em grande escala no Sul que podem acarretar conseqüências negativas
tanto sociais quanto ambientais. Por exemplo, em Minas Gerais, Brasil,
a Plantar S.A. solicitou fundos de carbono para expandir suas monoculturas
de eucalipto. Essas plantações não apenas ocupam terras públicas, que
por lei devem ser entregues a agricultores pobres, como também acabam
com as existências de água e reduzem em grande escala a biodiversidade.
É
provável que tais modelos de plantação tenham uma série de efeitos diferenciados
por gênero. Por exemplo, as mulheres não terão acesso a coletar
lenha para uso doméstico, e os poucos empregos gerados, para guardas
florestais e outros, serão destinados em grande medida aos homens. Já
que as mulheres, em muitos lugares, dependem de plantas silvestres tanto
para se alimentarem quanto para fazerem suas lavouras domésticas, a
perda de biodiversidade poderia reduzir suas possibilidades de recuperar
seus meios de vida. É improvável também que tais plantações contribuam
para solucionar as necessidades energéticas das mulheres pobres no longo
prazo. Conforme Margaret Skutsch da Rede de Mudança Climática e Gênero,
o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kioto fechou as
portas para soluções não empresariais em pequena escala tais como sistemas
que incentivem o controle local das florestas e a melhoria de sua capacidade
para seqüestrar carbono e ter um fornecimento sustentável de lenha.
Em
geral, foram realizados poucos esforços para analisar as relações de
gênero que afetam os mecanismos da mudança climática. Por exemplo, o
Norte que é desproprocionalmente responsável pelo aquecimento global,
tem no setor do transporte uma importante fonte de gases de efeito estufa.
Talvez com a exceção dos EUA, é menos provável que as mulheres do Norte
tenham seus próprios carros e mais provável que usem o transporte público.
Além disso, os carros das mulheres na Europa tendem a ser menores e
mais eficientes no consumo de combustível porque não são considerados
como símbolo de estatus. Este último item salienta a necessidade de
observar as dimensões por gênero dos desejos dos consumidores
já que afetam o uso da energia. A propaganda é muito diferenciada segundo
o gênero- o típico motorista de carrões esportivos ou picapes visto
nos anúncios de automóveis nos EUA, por exemplo, é um homem sozinho
ou com um parceiro prestes a conquistar uma floresta ou um deserto.
Se uma mulher aparecer no quadro, será geralmente bonita e elegante,
acrescentando um elemento de apelo sexual. Desse modo, as noções de
masculinidade e feminilidade são usadas estrategicamente para criar
e sustentar a cultura esbanjadora de carrões que consomem muita gasolina,
desde a promoção de veículos 4x4 como “brinquedos para os garotões”
até os Hummer militares usados pelos civis como potente símbolo da virilidade
americana.
Considerar
o gênero na mudança climática também exige manter a atenção sobre a
fina linha divisória entre as preocupações justificáveis a respeito
das ameaças que provoca o aquecimento global e a estratégica dispersão
de discursos alarmistas que apoiam o Protocolo de Kioto ou servem a
outros objetivos mais problemáticos. É preciso monitorar bem de perto
o que está implícito e explícito nos relatos por gênero que fortalecem
uma visão negativa da mulher e da população pobre.
Um
exemplo característico é a incriminação da mulher quanto a ser uma ameaça
para a população. As predições apocalípticas de crescimento demográfico
que ultrapassam a capacidade populacional do planeta têm sido bem populares
nos âmbitos ambientalistas do Norte, em particular nos EUA onde tem
existido uma longa relação entre a pressão demográfica e o movimento
ambientalista dominante. Aqueles procuram transferir a culpa pelo aquecimento
global, dos modelos de produção e consumo do Norte à população pobre
do Sul, usando, freqüentemente, argumentos demográficos alarmistas.
Por
exemplo, o professor Chris Rapley, diretor de British Antarctic Survey
foi manchete, recentemente, na mídia britânica ao argumentar que se
não houver uma redução demográfica significativa, há poucas esperanças
de se sair bem e de forma efetiva na questão da mudança climática. A
mensagem implícita é que a fertilidade das mulheres deve ser controlada.
No passado, raciocínios desse tipo contribuiram à implementação de políticas
demográficas draconianas que prejudicaram e muito os direitos e a saúde
das mulheres.
O
alarmismo demográfico também está presente nas imagens de ondas de famintos
refugiados climáticos que chegam a nossas praias fugindo do aquecimento
global, como foi ilustrado em 2003 com uma encenação, ordenada pelo
Pentâgono, de uma dramática mudança climática em que a diminuição da
capacidade demográfica em áreas superpovoadas causa crescentes guerras,
doenças, fome e até a migração para o Norte. Esse tipo de narrativa
ameaçadora coloca as mulheres em um retrato completamente sinistro da
pobreza do Terceiro Mundo e fortalece a autoridade dos organismos de
segurança nacionais sobre as iniciativas civis para encarar a mudança
climática.
Uma
forma de desafiar tais manobras militares é focalizar no papel significativo
(embora desatendido) dos próprios militares no aquecimento global. O
Departamento de Defesa é o maior consumidor de combustível dos EUA,
sendo responsável por 1.8% do combustível para transporte no país. Isso
não é uma contribuição significativa para o aquecimento global, devido
a os EUA serem o maior emissor de gases de efeito estufa. Os militares
de qualquer parte do mundo consomem energia desproporcionalmente; conforme
estimativas, os militares do mundo inteiro em conjunto usam a mesma
quantidade de produtos petroleiros que o Japão- uma das maiores economias
do mundo. No caso dos EUA, a ironia consiste em que os militares estão
usando atualmente grandes quantidades de petróleo na Guerra contra o
Iraque, em parte para garantir o futuro conrole americano de fornecimento
de petróleo.
Ao
fazer uma consideração por gênero tanto do militarismo quanto da mudança
climática, surge uma série de perguntas inter-relacionadas.Quais são
as políticas que diferenciam o gênero para estabelecer prioridades estratégicas
e orçamentárias? Como as idéias de masculinidade e os grupos de
trabalho de homens poderosos modelam as políticas de defesa, protegem
os militares da necessidade de reduzir o consumo de combustível e a
emissão de gases de efeito estufa e determinam que as despesas com a
defesa convencional sejam bem mais prioritárias do que o investimento
em fontes de energia limpa e tecnologias?
Como
a cultura militar machista impacta sobre a escolha do consumidor através
de produtos como o Hummer e mantém estilos de vida que esbanjam energia?
Como
o estado de guerra mina as liberdades democráticas, coloca as mulheres
no campo de batalha e reduz o espaço inclusive para debater sobre a
abordagem do aquecimento global?
Como
o militarismo multiplica e/ ou intensifica a vulnerabilidade da mulher
diante da mudança climática? Nos casos de desastres naturais induzidos
pelo aquecimento global, por exemplo, o risco de violência sexual aumentará
se os governos dependerem das instituições militares para fornecer ajuda
e manter a ordem?
No
lado mais positivo, como os movimentos das mulheres pela paz e o ambiente
podem contribuir para uma visão mais ampla da justiça climática e para
soluções mais factíveis que a redução das emissões enquanto aumentam
a renda e o poder dos homens e mulheres pobres?
Estas
são apenas algumas das perguntas que precisamos colocar para organizarmos
um efetivo desafio feminista e socialmente justo para o comércio como
é de praxe na arena da mudança climática.
Por
Betsy Hartmann, ZNet Commentary, 10 de abril de 2006
--
Betsy Hartmann é a diretora do Programa de População e Desenvolvimento
da Universidade de Hampshire em Amherst, Massachusetts. Recentemente,
ela foi co- escritora com Joni Seager de Mainstreaming Gender in Environmental
Assessment and Early Warning (UNEP 2005) e co- editora com Banu Subramaniam
e Charles Zerner de Making Threats: Biofears and Environmental Anxieties
(Rowman and Littlefield, 2005).
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