NOSSA
OPINIÃO
-
Plantações para celulose: todos os caminhos levam a Roma
Toda
vez que se usa a expressão "florestas plantadas" o conceito
pode remontar-se à Organização das Nações Unidas para Agricultura
e Alimentação (FAO) baseada em Roma. Quanto mais é o conceito
impugnando pelos povos locais e ONGs que lutam contra as plantações,
mais a FAO desenvolve apoio para mantê-lo.
A
razão é simples: a FAO tem escolhido estar ao serviço das
corporações do norte que se beneficiam com as plantações de árvores
–particularmente do setor da celulose e do papel. Apresentar
as plantações de monoculturas de árvores disfarçadas de "florestas
plantadas" tem resultado ser uma boa ferramenta de marketing
que serve para esconder o desastre social e ambiental que envolvem
as plantações de monoculturas de árvores de madeira rápida em
grande escala.
Mas
a função da FAO não pára no nível da definição. Tem estado promovendo
ativamente o estabelecimento dessas plantações desde a década
de 50 e continua fazendo-o. Entre 1990-1995 até apoiou a
pesquisa na China em árvores geneticamente modificadas que depois
resultou na plantação massiva e descontrolada de choupos GM nesse
país.
O
último caso é o processo liderado pela FAO que resultou na adoção
das "Diretrizes Voluntárias para o Manejo Responsável das
Florestas Plantadas" que estão agora em sua etapa de implementação
em nível de país.
Qual
é o objetivo dessas diretrizes? Ainda antes de ler as próprias
diretrizes, fica claro que estão destinadas a apoiar a expansão
das plantações para a indústria da celulose. Por exemplo:
-
A fotografia da capa do relatório é a de uma "Paisagem de
florestas plantadas na Bahia, Brasil, cortesia da Veracel, Brasil".
Os impactos sociais e ambientais negativos de justamente as plantações
da Veracel têm sido muito bem documentados e os povos locais estão
fazendo campanhas contra elas. Colocando a fotografia no
relatório, a FAO está outorgando apoio a essas e outras plantações
destruidoras similares que estão sendo impugnadas no sul.
-
Os agradecimentos. O relatório diz que "A FAO quer agradecer
seus sócios principais pela preparação dos conceitos iniciais
e rascunhos". Os sócios mencionados de associações do setor
privado estão todos relacionados com a indústria da celulose e
do papel "International Council for Forest and Paper Associations,
Associação Brasileira de Celulose e Papel /Sociedade Brasileira
de Silvicultura, American Forest and Paper Association, Confederation
of European Paper Industries, Associação da Indústria Papeleira
de Portugal, Japanese Paper Association/Japanese Overseas Plantation
Centre for Pulpwood, Corporación Nacional de la Madera – Chile,
Swedish Federation of Forest Owner’s Associations e New Zealand
Private Forest Owners Association.” Por que deveriam essas
associações empresariais apoiar esse processo liderado pela FAO
se não fosse porque planejam beneficiar-se com as diretrizes resultantes?
-
As ausências. Nenhuma organização do sul é mencionada nos
"agradecimentos". Como os principais críticos das plantações
estão na África, na Ásia e na América Latina, isso significa que
a FAO escolheu excluir vozes críticas que teriam diretrizes certamente
opostas para a promoção de plantações de "madeira rápida"
–que são as que a indústria da celulose precisa.
-
A bibliografia: nem sequer um documento que critique as
plantações é mencionado. No caso do WRM, a FAO escolheu ignorar,
não apenas os inúmeros artigos divulgados durante os passados
10 anos –baseados nos depoimentos dos povos locais dos impactos-
mas também nossas constatações publicadas de pesquisas em plantações
no Brasil, Camboja, Chile, Equador, Indonésia, Laos, África do
Sul, Suazilândia, Tailândia, Uganda e Uruguai. Fazer vista
grossa para essas e outras evidências documentadas sobre os impactos
das plantações prova a função da FAO no apoio dos interesses empresariais
relacionados com as plantações.
A
seguinte citação das diretrizes também é muito ilustrativa:
"Os
governos deveriam criar as condições propícias para incentivar
os investidores corporativos, de média e pequena escala para fazer
investimentos de longo prazo em florestas plantadas e para obter
um retorno favorável sobre o investimento" e "facilitar
um ambiente de condições econômicas, legais e institucionais estáveis
para incentivar o investimento no longo prazo…”
Isso
não é novo. Muitos governos do sul já têm criado essas "condições
propícias" –seguindo recomendações da FAO, do Banco Mundial,
do Banco Asiático de Desenvolvimento, do Banco Latino-Americano
de Desenvolvimento, das agências bilaterais como o JICA, GTZ e
outras- que têm resultado em "retornos favoráveis" para
as corporações da celulose e do papel e em "retornos"
muito dolorosos para os povos locais e seus ambientes.
A
indústria da celulose está migrando atualmente para o sul e planeja
aumentar substancialmente sua capacidade de produção durante os
próximos cinco anos em mais de 25 milhões toneladas. Isso significa
que precisará vastas áreas de plantações de rápido crescimento
para alimentar suas fábricas de pasta. Dentro desse contexto,
as "Diretrizes Voluntárias para o Manejo Responsável das
Florestas Plantadas" as assistirá em colocar os governos
a seu serviço e em debilitar a oposição a sua expansão.
Portanto
é preciso estar consciente dessa nova ameaça e opor-se à implementação
dessas diretrizes em nível de país. A FAO deveria lembrar que
sua missão não é promover as plantações de árvores mas –de acordo
com sua página na web- "liderar os esforços internacionais
para combater a fome”.
Em
virtude de que o tema escolhido neste ano para o Dia Mundial da
Alimentação criado pela FAO -16 de outubro- é o "Direito
à Alimentação" parece ser necessário lembrar à Organização
das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação que as plantações
para pasta de celulose não podem garantir "que cada menina,
menino, mulher e homem tenha acesso à alimentação adequada a qualquer
momento" apesar de que com certeza eles vão visar a assegurar-se
que cada fábrica de celulose tenha adequado fornecimento de madeira
a qualquer momento.
Lamentavelmente,
ao considerar a promoção das plantações de pasta de celulose,
todos os caminhos continuam levando a Roma.
(*)
O relatório completo da FAO está disponível em
ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/009/j9256e/j9256e00.pdf
início
COMUNIDADES E FLORESTAS
-
Argentina: Chaco- desmatamento, desnutrição
e morte
Uma
intensa onda de frio atravessou a Argentina na primeira quinzena
de julho. Nas cálidas terras da província do Chaco, onde a média
anual é de uns 20ºC foram registradas marcas abaixo de zero. Esse
brusco declínio da temperatura manifestou em mortes a dimensão
da emergência sanitária e alimentar que vivem os povos indígenas
Toba, Mocovi e Wichi nesse distrito do nordeste do país, onde
a saúde está minada pela desnutrição, a tuberculose e o chagas.
Em poucos dias o número de mortes chegou a 10; até 2 de outubro,
esse número pulou para 16, sendo que a maioria são Tobas. Todas
as vítimas moravam em El Impenetrable, região de monte que há
mais de um século sofre o saqueio de seus quebrachos, algarobeiras
e lapachos (tabebuia heptaphylla),
e que nas últimas décadas tem sido destruído devido
aos buldôzeres e ao fogo daqueles que buscam a alta rentabilidade
da cultura da soja.
A
partir de 1995, a província vendeu a maior parte de suas terras
fiscais; nessa época havia 3 milhões de hectares e hoje
só restam uns 580 mil. O transpasse da terra pública a grandes
proprietários foi o requisito para o desmatamento posterior. A
organização do Chaco de direitos humanos Centro de Estudos
Nelson Mandela denunciou em novembro de 2006 que a Direção
de Florestas da província, desmantelou nos últimos anos sua estrutura
administrativa e operacional. “O Estado tem uma política
para o setor, que consiste em deixar fazer e deixar passar.
A lei é letra morta. O Decreto 1341, que suspendeu a outorga de
licenças de desmatamento até finalizar o ordenamento territorial
do Chaco, não é aplicado nem respeitado. O desmatamento não apenas
continua como também é mais intenso. Trata-se de um quadro escandaloso,
assinado pela destruição e pela impunidade”, advertiu no dia
20 de outubro de 2006 essa organização em uma declaração pública.
Este
processo afetou principalmente a região conhecida como El Impenetrable,
que se espalha ao oeste da província e é o território ancestral
toba e wichi. A destruição do monte determinou a desaparição das
proteínas animais e vegetais da dieta destes povos. “A algarobeira
simboliza quase tudo, porque dela as comunidades indígenas obtinham
as proteinas; a algaroba [o fruto] era o eixo central da dieta
proteica, ao desaparecer hoje elas se mantêm com gorduras, farinha,
às vezes um pouco de macarrão, nem sempre; arroz, cada vez menos;
e carne, quase nunca. Então temos que essa dieta levou à desnutrição,
à má nutrição, à hipertensão, ao diabetes. A desnutrição ou a
má nutrição, por não terem
comida suficiente e menos comida com capacidade nutritiva acarretou
doenças infecciosas, tuberculose, chagas”, afirmou Rolando
Núñez, coordenador do Centro Mandela, em uma entrevista
realizada em agosto.
Desde
abril do ano passado, os povos Toba, Wichi e Mocovi vêm denunciando
esta situação e exigem políticas públicas do governo provincial;
inclusive bloquearam rodovias, acamparam na frente da sede do
governo local e realizaram uma greve de fome. Após décadas de
silêncio o 'levantamento'- como é chamado- evidenciou a
extrema pobreza e a discriminação em que estão submersos os aproximadamente
60 mil indígenas do Chaco. Saíram do silêncio mas os acordos assinados
com o governo em agosto de 2000 não foram honrados.
A
situação extrema que vivenciam as comunidades foi denunciada pela
Procuradoria do Povo, que demandou os estados nacional e provincial
por suas responsabilidades junto à Suprema Corte de Justiça. Também
a Comissão Interamericana de Direitos Humanos pediu uma ampliação
documental por uma denúncia de genocídio. Após três meses do início
da onda de mortes, as autoridades só reagiram com
a implementação de planos de assistência alimentar temporária
sem atender as causas da emergência.
Por
Hernán Scandizzo, Colectivo Pueblos Originarios – Indymedia Argentina.
Contato:
originarios-arg@indymedia.org –
www.argentina.indymedia.org/pueblos .
início
- Camarões:
florestas comunitárias em um mar de exploração madeireira
Visitei
Camarões em duas ocasiões, dezembro de 2006 e setembro de 2007.
Nas duas viagens fiquei chocado pelo número enorme de caminhões
carregados com enormes toras de árvores tropicais que podiam ser
vistos em quase qualquer estrada. A grande maioria era transportada
aos portos para ser exportada- sem processar- principalmente aos
países do Norte.
Ao
ver aquelas “florestas nativas sobre rodas” viajando ao longo
das estradas me lembrei do livro de Eduardo Galeano “ As veias
abertas da América Latina”. No caso, tratava-se das veias abertas
da África Central (Camarões, República Democrática do Congo, República
do Congo, Gabão) e as toras representam a vida dos povos e florestas
africanas que são extraídas para o consumo dos países do Norte.
Em
Camarões, a exploração madeireira é realizada em escala industrial
por grandes corporações- nacionais e estrangeiras- ligadas ao
capital estrangeiro e orientadas para a exportação. Paradoxalmente,
o país parece ser- no papel- bastante progressista quanto à promoção
do manejo comunitário de florestas. A esse respeito, foi aprovada
em 1994 uma lei da atividade florestal comunitária que possibilita
o fato de as comunidades manejarem suas próprias florestas- mesmo
que com um máximo de 5.000 hectares- sob um contrato acordado
com o Ministério de Ambiente e Florestas e com validade de 25
anos.
No
entanto, o governo continua apoiando a destrutiva e lucrativa
exploração industrial de madeira e parece não ter intenções de
substitui-la pelo manejo comunitário de florestas. Isso
ficou provado com uma visita a uma floresta comunitária.
No
dia 12 de setembro, visitamos a floresta comunitária COVIMOF (Communauté
Villageoise de Melombo, Okekak, Fakele 1&2, Ayos et Akak.),
e a primeira coisa que aprendemos foi que o processo para a aprovação
do manejo comunitário de florestas é muito vagaroso. No caso,
as cinco comunidades envolvidas começaram o processo em 1996 e
só em 2004 conseguiram satisfazer todos os requisitos para a aprovação
e a assinatura do acordo legal necessário. Eles reclamam que ainda
agora, ao apresentarem o plano anual de manejo, o Departamento
Florestal leva meses para aprovar, o que significa que resta para
a comunidade um período muito curto (1-2 meses) para implementá-lo.
A
segunda lição é que as comunidades não recebem qualquer ajuda
para se protegerem contra a exploração madeireira ilegal em sua
floresta. Enquanto a comunidade ainda estava à espera de receber
a autorização para iniciar as operações florestais, um grupo de
madeireiros ilegais começou a cortar árvores na floresta comunitária.
Isso foi informado às autoridades competentes mas não foi tomada
nenhuma providência. Posteriormente, os madeireiros voltaram com
maquinário pesado e empilharam as toras ilegais junto à estrada.
Foram encaminhadas fotos e vídeos dessas operações às autoridades
locais, mas nada aconteceu. Finalmente, as toras foram carregadas
nos caminhões e transportadas- passando pelo posto de controle
florestal do governo- sem problemas.
A
restauração florestal é outra atividade para a qual as comunidades
não contam com o apoio governamental. Essa floresta comunitária
já tinha sido “desnatada” das melhores árvores em decorrência
de atividades madeireiras anteriores. Agora a população local
está replantando árvores nativas, mas sem nenhum apoio do governo.
Eles têm estabelecido um pequeno viveiro onde estão produzindo
cerca de 5.000 mudas de 12 espécies de árvores. No ano passado,
eles plantaram 1000 árvores, com o apoio do CED (Centre pour l'environnement
et le développement) e a Greenpeace.
A
terceira lição é que eles mesmos também estão sós para a colheita,
transporte, industrialização e comercialização da madeira. O suporte
técnico e o treinamento não são providenciados pelo governo mas
por organizações da sociedade civil tais como o CED. O maquinário
para transformar as toras em lenha também foi adquirido com o
apoio da ONG, mas ainda é preciso muito mais para aperfeiçoar
o atual processo de industrialização. A comercialização é difícil
e está sujeita a freqüentes abusos dos compradores. Nisso tudo,
o governo está completamente ausente.
Esse
exemplo parece mostrar que as florestas comunitárias de Camarões
precisam de algum tipo de apoio externo, no caso providenciado
pelas ONGs. No entanto, as ONGs não podem apoiar mais casos do
tipo e esse papel deveria ser desempenhado pelas agências governamentais.
Para isso ocorrer há uma única condição básica necessária: a política
governamental deverá trocar a exploração industrial de madeira
por florestas comunitárias. Essa é a principal problemática, que
implica buscar respostas para a questão crucial de como iniciar
um processo para conseguir mudanças nesse sentido. Histórias de
sucesso- e até de fracasso- das florestas comunitárias podem ser
extremamente úteis como parte do processo.
No
caso da floresta comunitária COVIMOF, é importante enfatizar que,
apesar de todos os problemas, a população local está orgulhosa
e feliz por suas conquistas. A maioria já mostra habilidade
técnica em algumas atividades florestais que antes não tinha.
Estão compromissados com o uso da floresta em forma sustentável
e com o reparto equitativo dos benefícios. Em suas mãos, a floresta
tem uma oportunidade real de ser protegida.
Por
Ricardo Carrere, com base nas observações e entrevistas realizadas
durante a visita de campo em Camarões, setembro de 2007.
início
-
Equador: grande sucesso contra a mineração
na área de Intag
O
dia 26 de setembro de 2007 não será fácil de esquecer em Intag,
a área subtropical anti-mineira do noroeste do Equador. Depois
de meses à espera de uma resolução, o Ministério das Minas e Petróleos
anunciou a suspensão das atividades mineiras da mineradora canadense
Ascendant Cooper, proprietária das concessões no local. A decisão
do ministro Galo Chiriboga está juridicamente sustentada
pelo fato de a empresa ter iniciado suas atividades em descumprimento
da lei, já que não solicitou as correspondentes autorizações e
relatórios do Município de Cotacachi.
Esta
decisão atinge 9.504 hectares de concessões, e implica que a empresa
mineradora não pode realizar atividades mineiras, administrativas
nem de relacionamento comunitário. Infelizmente, a decisão nao
é definitiva, será mantida até a companhia renegociar o contrato
e sua presença na área, conforme o ministro Chiriboga. Outras
concessões estariam também sob análise por parte do governo.
Esses
fatos demonstram que quando a vontade popular é firme e as circunstâncias
políticas acompanham, é possível que as comunidades consigam o
sucesso na defesa de sua soberania e seus interesses. Decisões
semelhantes poderiam ser tomadas quanto a outras concessões mineiras
em outras partes do país.
O
sentimento das comunidades de Intag atingidas pelo projeto mineiro
e pela presença da empresa foi inicialmente de pessimismo, já
que como expressou o concelheiro Luis Robalino, originário de
Intag, “é a quarta vez que isso é anunciado e a empresa continua
na área”. Mas foi tornando-se mais otimista após os funcionários
governamentais entrarem na área para fechar os escritórios da
empresa.
Em
entrevista coletiva convocada nos primeiros dias de outubro para
manifestar a satisfação pela decisão governamental, foram lembradas
algumas circunstâncias que fazem com que a população não queira
nem a atividade mineira no local nem a presença da empresa mineradora.
Conforme relatos do Prefeito de Cotacachi, o economista Auki Tituaña
junto ao Presidente do Conselho de Comunidades, Polibio Pérez
e outros líderes locais, a empresa teve desde o início de suas
atividades o propósito de dividir as comunidades, para facilitar
sua entrada na área e suas operações.
A
presença de três anos da Ascendant Copper na área incluiu incidentes
com paramilitares que dispararam contra camponesas e camponeses,
usaram cães adestrados e gases lacrimogêneos. Além disso, cerca
de uma centena de camponeses e camponesas foram intimidados mediante
a interposição de denúncias e processos judiciais que visavam-
embora não conseguissem- quebrantar a resistência. Muitos deles
foram absoltos por sentenças judiciais da província Imbabura.
Nenhum deles foi condenado.
Por
sua vez, o prefeito denunciou a vinculação da empresa com “ex
militares, paramilitares, sicários, traficantes de drogas e políticos
corruptos”. Disse também que “achavam que com o oferecimento que
fizeram para mim de 60 ou 70 milhões de dólares, iriam conseguir
meu apoio, mas meu preço é bem maior, é o valor da jazida” (conforme
o gerente da empresa AC, Francisco Veintimilla, 110 bilhões de
dólares, no mínimo). “Mas sinceramente, prefiro que fiquem intocadas
as árvores, a fauna e a flora, e que respeitem o modelo de desenvolvimento
que nós, aqui em Intag e em Cotacachi, temos escolhido para nós
mesmos”.
Refere-se
à floresta tropical nublada, de imenso valor biológico, localizada
justamente sobre a jazida de cobre. Desde a chegada da atividade
mineira “conseguimos inclusive deter o desmatamento tradicional
que a geração de nossos pais vinha fazendo”, apontou Polibio Pérez.
“Agora damos um valor bem maior à conservação”
A
Ascendant Cooper está na área desde 2004, embora a resistência
anti- mineira remonte ao ano de 1997. Nesse período, muitas iniciativas
têm se consolidado na área, fazendo de Intag um modelo de produção
alternativa: agricultura, turismo, artesanato, cooperativas, organizações
e outras iniciativas dão trabalho a centenas de famílias na área.
Devido aos incidentes provocados pela empresa e outras companhias
mineradoras em outros locais do Equador, conformou-se uma Coordenadora
em Defesa da Vida e dos Direitos Humanos.
Estima-se
que cerca de 95% dos habitantes de Cotacachi, inclusive as autoridades,
são contra a mineração (vide Boletim Nº 118 do WRM). “ É em defesa
dos interesses do Estado, a província, o cantão e a área”, dizem.
Perguntados pela possibilidade de uma consulta popular, respondem
estar abertos, mas obviamente deveria ser feita de forma limpa
e transparente, organizada pelo estado equatoriano e não pela
transnacional.
Agora,
a empresa sai deixando divisão e conflito entre irmãos, familiares,
vizinhos e antigos amigos. Conforme denúncias, alguns comuneiros
“tinham salário de US$ 300 para jogar vôlei”. Enquanto os depósitos
de cobre continuarem na área, a ameaça continuará latente.
Enquanto
isso, no Equador prepara-se a Assembléia Constituinte que
redigirá a nova Constituição. Alberto Acosta, que durante um breve
período da atual legislatura foi ministro de Energia e Minas,
e que com certeza presidirá a assembléia, manifestou firmemente
em reiteradas ocasiões seu propósito de fazer com que o Equador
seja um país livre da mineração em grande escala.
Por
Guadalupe Rodríguez, correio eletrônico: guadalupe@regenwald.org
início
-
Honduras: o porquê da defesa da floresta
Em
Honduras são desmatados de 80.000 a 120.000 hectares ao ano.
Nossas
florestas são multidiversas: de pinheiro, com uma variedade de
sete espécies; latifoliadas, com 200 espécies de árvores e uma
rica biodiversidade principalmente em terras baixas; nubladas
latifoliadas, com pinhais ou florestas mistas em terras altas;
latifoliadas em locais de clima seco; e manguezais.
A
política florestal de Honduras não é formulada pela sociedade
civil nem o poder cidadão mas sim pelos ditados do capital multinacional
através do Banco Mundial e dos Tratados de Livre Comércio articulados
com a oligarquia local, que através de seus representantes no
Congresso da República e em outros poderes do Estado aprova leis
e políticas voltadas para a exploração da floresta em função do
capital imperial e globalizador.
A
fim de implementar essas políticas estão os militares que são
investidos de poder para “cuidar” da floresta. Será possível que
aqueles que destroem a floresta nas confrontações bélicas se tornem,
em um passe de mágica, heróis ambientalistas? Além disso,
o “sicariato”- assassinos pagos- é uma das formas ocultas
de agressão às comunidades indígenas, camponesas e Garifunas.
A
exploração madeireira em nosso país sempre tem estado ligada à
corrupção, à violação dos direitos humanos e à impunidade. A perseguição
do padre Tamayo e outros dirigentes bem como o assassinato, em
20 de dezembro de 2006, de Heraldo Zúñiga e Róger Iván Cartagena,
integrantes do Movimento Ambientalisa de Olancho, por parte do
aparelho de segurança do Estado de Honduras, refletem o terror
que significa lutar pela defesa da floresta hondurenha. Recentemente,
soma-se o assassinato de Mario Guifarro na comunidade de Parawasito,
município de Dulce Nombre de Culmí, no Patuca Medio, quando realizava
tarefas de demarcação da floresta para o projeto ICADE, conforme
o mandado do Congresso da Federação Indígena Tawahka de Honduras
(FITH).
Os
governos e a maioria de suas equipes técnicas sempre têm culpado
os pobres pela destruição da floresta. No entanto, nunca mencionam
o desmatamento ocasionado pelas indústrias mineira e camaroneira;
a agroindústria do abacaxi, da banana; nem as grandes plantações
de cana-de-açúcar, milho transgênico e dendezeiro, sendo estas
duas últimas destinadas para o novo super negócio dos agrocombustíveis.
A isso, somam-se as grandes queimas de floresta, acidentais ou
provocadas, principalmente para justificar a exploração da madeira
e a pecuária extensiva para exportação de carne para hambúrgueres.
As
políticas florestais estão voltadas para a transformação das árvores
em uma simples mercadoria, sem considerar que devido ao desmatamento
das bacias dos rios e das microbacias e à erosão, os desmoronamentos
e os deslizamentos estão aumentando, e com isso, se agravam as
conseqüências tanto das tormentas tropicais e furacões quanto
as das distorções climáticas e os prejuízos são irreversíveis.
A
desigualdade dos tratados comerciais e a lógica imoral e injusta
do capital promovem a promulgação de leis e a aplicação de políticas
florestais divorciadas das políticas hídricas e energéticas, bem
como das previstas para as mudanças climáticas. Essas leis impõem
a privatização da floresta, da energia, dos recursos hídricos,
da educação e da saúde. O Congresso Nacional destina vergonhosamente
mais de um terço do território nacional para a indústria mineira,
que destrói a floresta e atinge a saúde animal, vegetal e humana.
A
perda da biodiversidade por causa do desmatamento e da poluição
por metais pesados em decorrência da exploração mineira e dos
plaguicidas da agroindústria favorecem a dengue, a malária, as
parasitoses e os transtornos mentais que, além de provocar doenças
e mortes, ocasionam perdas multimilionárias ao país.
O
desenvolvimento de políticas humanas, integrais e planetárias
é um desafio urgente para todas y todos os hondurenhos. A articulação
da floresta, a saúde e os direitos humanos em um programa educacional
para os jovens constitui uma estratégia importante na formação
de líderes para gerar uma consciência de reflorestamento no país
e elaborar leis que protejam as florestas.
É
por isso que estamos propondo, em nível do Movimiento Madre Tierra
(membro de Amigos da Terra Internacional) e das organizações Centro
América no está en Venta, Oilwatch Internacional e COHAPAZ (Comité
Hondureño Acción Por la Paz), o plantio e o cuidado contínuo de
um milhão de árvores para Honduras. Nossa tarefa urgente é unirmos
a todo o movimento social e ambiental contra as políticas e empresas
depredadoras. Integremos toda nossa consciência a esta bela tarefa
em defesa da vida, da dignidade e da saúde de nosso povo!
Por
Juan Almendares, correio electrônico: juan.almendares@gmail.com
início
-
Laos: barragens no Sekong; a Norconsult
desconsidera impactos no Camboja
Uma
série de grandes barragens são propostas atualmente para a Bacia
do Rio Sekong no sul do Laos. Além das dezenas de milhares
de pessoas no Laos que seriam afetadas por estes projetos, os
meios de vida de 30.000 pessoas que vivem rio abaixo ao longo
do Sekong no Camboja também estão ameaçados. No entanto,
as barragens estão sendo planejadas sem consideração pelo impacto
sobre as pessoas e o meio ambiente no Camboja.
Em
junho de 2007, a consultora norueguesa Norconsult completou dois
exames ambientais iniciais para duas das barragens propostas:
Sekong 4 e Nam Kong 1. Um relatório recente, escrito sob
o pseudônimo de Anurak Wangpattana cumprimenta o fato de que os
estudos reconhecem muitos dos impactos que essas barragens vão
ter nas pessoas, florestas e pescarias no sul do Laos, mas critica
à Norconsult por ignorar completamente os impactos desses projetos
nas pessoas que vivem rio abaixo no Camboja.
Os
dois projetos de barragens, que estão sendo desenvolvidos pela
Russian Region Oil Company estão distantes aproximadamente 100
quilômetros. A barragem Sekong 4 de 600 MW alagaria 150
quilômetros quadrados de terras, incluindo florestas e outras
terras usadas para coletar produtos florestais não madeireiros,
pradarias e terras usadas para agricultura migratória rotacional.
Aproximadamente 5000 pessoas seriam deslocadas de suas casas para
deixar o caminho livre para o reservatório, das que aproximadamente
98 por cento são Povos Indígenas. As minorias étnicas Katu e Nge
constituem até 80 por cento da população no Distrito de Kaleum,
cuja capital seria alagada pelo reservatório.
A
importância da floresta para os povoadores do Distrito de Kaleum
fica clara em um relatório de 2004 escrito por Charles Alton,
consultor da ONU e Houmphan Rattanavong, do National Science
Council laosiano. O relatório aponta que em quatro povoados
Katu no Distrito de Kaleum, aproximadamente 76 por cento da renda
dos povoadores provém da coleta de produtos florestais não madeireiros
e 16 por cento adicional da criação de gado.
A
barragem Nam Kong 1 de 150-200 MW planejada para um afluente do
Rio Sekong alagaria 21,8 quilômetros quadrados. Anurak Wangpattana
aponta que mais de 1600 pessoas que vivem rio abaixo da barragem
proposta sofreriam os impactos da barragem. Muitas dessas pessoas
costumavam viver na área do reservatório mas foram deslocadas
pelo governo laosiano durante a década de 90.
O
peixe fornece uma porção importante da dieta dos povoadores que
vivem na área do reservatório de Se Kong 4 proposto. "Todos
os povoados na área de alagamento do reservatório têm pescarias
sólidas primariamente para subsistência que contribuem com uma
grande parte da proteína em sua dieta" informa a Norconsult.
A construção da barragem vai fazer desaparecer essas pescarias.
As
comunidades que vivem rio abaixo da barragem também experimentarão
severos impactos em suas pescarias. O reservatório por trás da
Sekong 4 levaria 14 meses para encher-se. Uma vez que a
barragem funcione, o fluxo do rio mudaria completamente.
"Há um potencial de perda de biodiversidade aquática e produtividade
no Rio Se Kong rio abaixo devido a essas mudanças no fluxo,"
na seca língua dos expertos da Norconsult.
Anurak
Wangpattana explica que o Exame Ambiental Inicial da Norconsult
é o primeiro passo nas avaliações do impacto ambiental das barragens
Se Kong 4 e Nam Kong 1 e sugere que uma AIA cumulativa seria possível.
Mas o que está faltando até agora dos estudos da Norconsult, aponta
Anurak, "é um reconhecimento explícito de que esses impactos
se estenderão ao longo do Rio Sekong no Camboja."
Durante
dez anos, os povoadores que vivem ao longo do Rio Sesan no nordeste
do Camboja têm testemunhado os impactos devastadores da construção
da barragem rio acima no Vietnã. Dúzias de povoadores se
afogaram depois de súbitas liberações de água da barragem de Yali
Falls. Os povoadores têm perdido gado, cultivos e equipamento
de pesca. A má qualidade da água tem causado erupções na
pele e problemas estomacais. Mais de 3.500 pessoas têm abandonado
seus lares perto do Rio Sesan e se tem mudado para as terras altas
para escapar das alagações do rio e fluxos não previsíveis, de
acordo com pesquisa recente pela ONG cambojana 3S Rivers Protection
Network ("3S" se refere aos rios Sekong, Sesan e
Srepok). "Os povoadores têm perdido suas esperanças e dependências
de seu rio, porque quase todos os recursos do rio foram embora"
disse para os pesquisadores Roman Mal, uma liderança indígena
da vila de Jarai.
Muitas
das 30.000 pessoas que vivem ao longo do rio Sekong na província
de Stung Treng no Camboja pertencem aos grupos étnicos Lao, Khmer
Khe, Kavet, Lun e Kuy. As pescarias do Rio Sekong e jardins
vegetais da margem do rio são uma parte vital de sua segurança
alimentar e meios de vida.
Anurak
Wangpattana adverte que "A experiência com os impactos transfronteiriços
de grandes barragens hidrelétricas em outras partes da Região
de Mekong indica claramente que os impactos das barragens Sekong
4 e Nam Kong 1 no Camboja e no Laos não devem ser ignorados e
não deveria permitir-se que aconteçam, sem importar quão fácil
é para os próprios proponentes das barragens justificar os impactos."
http://chrislang.org
início
-
Paraguai: para o monte não se apagar-
a luta dos Grupos Ayoreo Isolados do Chaco Paraguaio
Em
março de 2007, foi lançado um apelo nacional e internacional diante
do iminente desmatamento e destruição total, por parte de
uma empresa chamada UMBU S.A., de 24.000 has (240 Km²) de
floresta virgem e intocada, no coração da área denominada “Amotocodie”,
norte do Chaco Paraguaio. Amotocodie faz parte do território ancestral
do Povo Indígena Ayoreo, e continua sendo habitado de forma permanente
por dois grupos ayoreo isolados. São grupos que nunca têm tido
contato com a sociedade moderna e que vivem sua vida tradicional
em estreita relação de interdependência e apoio mútuo com a natureza
e a floresta.
Cabe
lembrar que o norte do Chaco Paraguaio está quase totalmente nas
mãos de proprietários privados a quem a legalidade e a prática
do mundo moderno reconhece o direito de alterar ou destruir a
floresta do Chaco praticamente sem restrições nem controle. O
projeto de desmatamento da mencionada empresa, que é exemplar
e representativo de muitos outros atualmente em andamento ou preparação
da área, se superpõe sem qualquer consideração – como se não existissem
– às características, particularidades e contornos da sensível
natureza do monte chaquenho, e neste caso, a um dos dois maiores
sistemas de leitos fluviais do Norte do Chaco, interrompendo-o.
Da mesma forma se superpõe àquela outra legalidade em vigor, reconhecida
nacional e internacionalmente: a que reconhece a titularidade
indígena deste território como a originária e preexistente à dos
estados modernos. Amotocodie é território indígena. Só que a sociedade
envolvente, nacional e internacional, opta por não levar em consideração
os direitos territoriais indígenas. Se o fizesse, amplos territórios
de monte chaquenho no Paraguai – neste momento ainda restam intocados
e vírgens uns 10 milhões de hectares – poderiam ter uma chance
de sobreviver nosso presente depredador e poderiam ter futuro.
Os Ayoreo se distanciam com veemência do uso esbanjador e destrutivo
que o homem branco faz do território ayoreo. “Nós o cuidaríamos
melhor. Sabemos cuidá-lo.”.
A
investida dos desmatamentos para pecuária tem aumentado nos últimos
anos em decorrência da abertura do mercado internacional para
a carne vacum paraguaia. Além disso, nos últimos meses, a pressão
gerada pela calamitosa expansão da soja e das culturas destinadas
a agrocombustíveis na Região Leste do Paraguai tem deslocado os
interesses expansivos dos pecuaristas para a Região Oeste, o Chaco,
onde “ainda há monte disponível”.
O
apelo nacional e internacional contra o projeto de desmatamento
da UMBU S.A. motivou que inúmeras pessoas, personalidades, redes
e entidades principalmente estrangeiras encaminharam cartas às
autoridades paraguaias, solicitando a suspensão imediata das licenças
de desmatamento, e a adoção de providências enérgicas e contundentes
para garantir a proteção da área e a integridade e os direitos
dos grupos indígenas isolados que nela habitam. No entanto, a
pressão internacional não deu certo: desde o mês de agosto, a
UMBU está desmatando em ritmo acelerado. Após dois meses do início
do atropelo dos buldôzeres, já foram devastados e aniquilados
3.000 hectares- 30 Km².
Estes
3.000 has aniquilados eram monte que nunca antes tinha sido alterado-
e muito menos transformado violentamente- por atividades humanas.
O rio que atravessava a área trazia abundante água na época
de chuvas, água que não apenas dava vida à área mas também a uma
bacia fluvial ampla que se espalha desde o Oeste de Amotocodie
até o Pantanal Paraguaio em zonas próximas do rio Paraguai no
Leste. O desmatamento deixou cortado tal leito, até agora em uma
extensão de mais de 5 km de comprimento. Com este corte, o rio
fica interrompido e deixa de cumprir sua função de artéria vital
do ecossistema e está condenado a secar, e com ele, as amplas
áreas que irriga. A violenta intervenção do leito deixa também
sem base de vida a uma imensa população de aves aquáticas de grande
variedade que frequentavam a área e aninhavam nas florestas de
galeria em ambas beiras do rio.
Mas
acima de tudo, com estes 3.000 has os desmatamentos chegam a tocar
o próprio coração de um dos territórios grupais mais prezados
do Povo Ayoreo: o de Chunguperedatei- uma região que se
espalha para dentro da floresta em ambas margens, ao longo do
citado rio, e que contém umas lendárias lagoas que nunca secam,
mesmo em épocas das piores estiagens. Desde tempos imemoriais,
vários grupos locais ayoreo passam períodos prolongados nesse
território, quando interrompem seu constante andar nomádico para
fazer as plantações de verão na terra arenosa fértil dos sedimentos
fluviais em ambas margens do rio. Os 5 km de leito cortados anulam
inúmeros amotoco- os pequenos clarões naturais que servem para
esses plantios- e anulam uns 5 conhecidos simijnai, aguadas
com peixes e olhos d'água que nas épocas secas podem ser vitais
para a sobrevivência.
Uma
terra assim anulada, já vazia, fica “apagada” como dizem os Ayoreo
que já têm sido despojados de territórios florestais semelhantes
e hoje vivem precariamente nas margens da sociedade moderna. Com
os 3.000 has já desmatados agora se apagam parte dos lugares de
vida de toda uma população não só de antes, mas de agora, com
as trilhas que assinalam as rotas migratórias, as áreas de caça
de tartarugas ou porcos, e as de coleta de mel e de fibra caraguatá
com a qual as mulheres tecem seus sonhos e visões da vida transformando-os
em sacolas. Apagam-se inúmeros casebres no monte onde acampar
e procurar abrigo, e os lugares que marcam as vidas e contam a
história de gerações: desaparece a árvore onde Orojoide*- antigo
líder de um grupo do monte contatado à força em 1986- voltou a
encontrar vinte anos mais tarde a marca que ele mesmo tinha feito
com seu machado quando ainda vivia no monte, antes do contato.
Apagam-se as referências vivas e materiais da vida e história
de um povo inteiro.
Com
o apagamento, quebra-se mais uma vez a delicada e irreparável
unidade formada entre os humanos e o mundo- nós o chamamos natureza.
Era- ou é- uma unidade vital para ambas partes.
Enquanto
este texto é escrito- 12 de outubro-, os grupos isolados devem
ter-se retraido a espaços mais ao Oeste ou mais ao Sul que ainda
continuam com vida e intocados. Uma olhada do mapa satelital de
Amotocodie mostra, porém, que são vários os desmatamentos em andamento,
e ainda que reste um centro compacto de monte intocado, devem
ficar poucos lugares nos que os Ayoreo do monte não escutem o
barulho distante dos buldôzeres que trabalham dia e noite. Ainda
determinam seu andar, mas de maneira cada vez mais condicionada.
A sociedade moderna come aos poucos sua autodeterminação.
De
“fora”, do nosso mundo da sociedade envolvente lutam sem descanso
a UNAP (União de Nativos Ayoreo do Paraguai) e a OPIT (Organização
do grupo local Ayoreo Totbiegosode) pela proteção, a recuperação
e o reconhecimento legal dos territórios que já são deles porque
sempre têm sido deles. E tentam dar força a seus irmãos invisíveis,
que fazem o mesmo trabalho “de dentro”: evitar que o monte se
apague.
*
nome trocado pelo autor
Por
Benno Glauser, correio eletrônico: bennoglauser@gmail.com,
www.iniciativa-amotocodie.org
início
-
América Latina: Assembléia da Redmanglar
Internacional
De
8 a 13 de outubro, as organizações de pescadores, colhedores artesanais,
ambientalistas e acadêmicos de 10 países da América Latina, organizados
na Redmanglar Internacional, se reuniram no município de Cuyutlán,
Estado de Colima, no México.
Durante
toda uma semana de trabalho foi denunciado que no mundo é reafirmada
e fortalecida uma política de apropriação e uso de espaços litorâneos
e marinhos nos quais os interesses econômicos de uns poucos se
antepõem à conservação dos ecossistemas que sustentam a vida e
os direitos básicos das comunidades locais.
No
primeiro dia de trabalho, cada um dos países membro da Redmanglar
Internacional expôs a situação atual dos ecossistemas marinho-costeiros
e as atividades empreendidas para defendê- los. Cabe salientar
os esforços realizados por países como a Guatemala, o Peru e a
Venezuela, que nos últimos anos têm conseguido conformar redes
nacionais de organizações articuladas à missão da Redmanglar Internacional.
Ela consiste na defesa do ecossistema manguezal e dos ecossistemas
marinho- costeiros, garantindo sua vitalidade e a das populações
ancestrais que os usam e vivem ligadas a eles, enfrentado as ameaças
e impactos de atividades suscetíveis de degradar o ambiente, alterar
o equilíbrio natural ecológico e/ou que desrespeitem os direitos
humanos das comunidades locais.
Nos
dias posteriores, a exposição de Fernando López, catedrático da
Universidade Central do Equador, sobre a atual situação política
e econômica e sobre o patrimônio natural e cultural da América
Latina iniciou as discussões de assuntos gerais que dizem respeito
à região. “A situação que enfrentamos é de enorme complexidade
pelo entrecruzamento de poderosos interesses globais, pela magnitude
das ameaças contra as populações e o meio ambiente, e pela escassa
capacidade de resistência das comunidades e organizações políticas
e sociais”, afirmou Fernando López. Ele fez uma análise da Integração
da Infra- estrutura Regional Sul- americana (IIRSA) e mostrou
como ela implica uma integração dos mercados e uma grave ameaça
para os povos.
Posteriormente
na Pinacoteca Universitária da cidade de Colima foi proferida
uma palestra sobre “Ecossistemas Marinho- Costeiros, Água e Soberania
Alimentar”, por conta de Jorge Varela Márquez, representante do
Fórum Mundial dos Povos Pescadores, Dolores González da Universidade
Central da Venezuela e Alberto Villareal da Food and Water Watch.
As
sessões continuaram no decorrer da semana e nelas de informou
a respeito da participação da rede em fóruns internacionais, campanhas,
mobilizações e sobre a assinatura de declarações, ferramentas
eficazes e legítimas dos povos ancestrais litorâneos. Também houve
um pronunciamento contra a privatização dos litorais e foi exigido
aos governos que garantissem o acesso aos territórios para pescadores
e colhedores artesanais, bem como foi manifestado o desacordo
conjunto com a mercantilização dos bens e serviços ambientais.
Uma
análise sobre a certificação da aquicultura do camarão, por conta
de Jeovah Meireles da Universidade Federal do Ceará, Brasil, motivou
que a assembléia ratificasse sua posição contra a certificação
orgânica da aquicultura industrial do camarão por se tratar de
uma maquiagem verde que visa esconder crimes ambientais, sociais
e econômicos da indústria camaroneira.
Além
disso, a assembléia se manifestou sobre vários assuntos particulares
dos países- membro da rede, um deles foi um pedido ao presidente
do México, Felipe Calderón, para cancelar o projeto da Estação
de Gás Natural Liquefeito Manzanillo, por considerar que é de
alto risco para os ecossistemas da Lagoa de Cuyutlán.
Em
decorrência disso, os participantes desta III Assembléia Geral
da Redmanglar Internacional, durante o último dia de sua estada
no México, realizaram uma visita de observação ao Vaso II da Lagoa
de Cuyutlán e se reuniram com os pescadores da comunidade de Ventanas,
para evidenciar como esse projeto constitui uma ameaça para o
sistema lacunar e o ecossitema manguezal.
Líder
Góngora Farías, Secretário Executivo sainte, e a equipe da C-
CONDEM do Equador empossaram Juan José López, em representação
da Associação de Produtores para o Desenvolvimento Comunitário
do Pântano Grande do Baixo Sinú (ASPROCIG, sigla em espanhol)
da Colômbia como novo Secretário Executivo da Redmanglar Internacional
para o triênio 2008- 2010.
No
encerramento da assembléia, foi assinada a Declaração de Cuyutlán:
http://redmanglar.org/imagesFTP/8221.declaracion_cuyutlan.pdf
início
COMUNIDADES E MONOCULTRAS DE ÁRVORES
-
Brasil:
Mulheres e Eucaliptos; histórias de vida e resistência
A
invasão de territórios de populações locais pelo projeto agroindustrial
da Aracruz Celulose S.A., implantado nas décadas de 1960 e 1970,
no Espírito Santo, causou enormes perdas materiais e simbólicas
para as populações indígenas e quilombolas. Algumas delas são
irrecuperáveis.
“É
meus primos. Quando a Aracruz chegou aqui e botou eles pra fora...
ela chegou invadindo. Quando ela chegou, eles ficaram com medo
e largaram a terra deles e foram embora. Ela chegou com um monte
de tratô e passou em cima das casinhas deles. As casinhas era
de palha, barreada, que eles morava. Aí, tem os meus primos que
têm vontade de retornar pra dentro da aldeia de novo”. (Maria
Loureiro, aldeia tupiniquim de Irajá).
A
chegada desse projeto agroindustrial foi devastadora para as populações
locais: de 40 aldeias indígenas, hoje, só restam sete. De acordo
com informações quilombolas, das 100 comunidades que existiam
na região norte do Espírito Santo, compostas por cerca de 10.000
famílias, restam 1.200 famílias, distribuídas em aproximadamente
37 comunidades, cercadas pelo eucalipto e pela cana-de-açucar
para a produção de álcool.
Grande
parte dessas populações se dispersou. Uma parcela refugiou-se
em regiões do entorno do seu antigo território, outras buscaram
um lugarzinho para viver nas cidades da região metropolitana da
Grande Vitória. A nova conformação territorial interferiu drasticamente
na divisão sexual do trabalho e, conseqüentemente, nos papéis
sociais e familiares de mulheres e homens. Indígenas e quilombolas
tiveram que lidar com a dispersão de seus parentes. As famílias
que conseguiram permanecer no território espremeram-se em fragmentos
de terra.
Parodoxalmente
à tristeza da violência e do genocídio a que esses povos foram
submetidos, escreve-se uma belíssima história de resistência nos
últimos seis séculos. A maior prova dessa resistência constitui-se
na presença de indígenas e quilombolas em todas as regiões brasileiras.
Com
ingredientes modernos e desenvolvimentistas, a relação entre os
povos tradicionais do Espírito Santo e a Aracruz Celulose S.A.
reedita a história colonial e impõe às comunidades indígenas e
quilombolas perdas materiais e simbólicas irreparáveis.
Nesse
novo contexto, homens e mulheres experimentam impactos comuns
e, também, diferenciados. Com a perda do território, as mulheres
perderam os seus quintais, lugares para as hortas, para a criação
de pequenos animais e para a produção de ervas medicinais.
E
para nós, mulheres, foi um impacto muito forte também. Nós temos
esse sentimento, esse sentimento da perda das nossa riqueza
(Maria
Loureiro, Comissão de Mulheres Indígenas Tupiniquins e Guaranis).
A
substituição da mata pelo plantio de eucalipto levou à perda do
alimento outrora trazido pelos frutos, pela pesca e pela caça.
O fim da floresta tropical produziu, ainda, a extinção de rios
e córregos, que eram os lugares de encontro das mulheres e um
espaço privilegiado de troca dos saberes femininos.
Mas
foi uma dificuldade muito grande pra nós, que a gente vivia do...
usava o rio pra pegar peixe. Agora, essa dificuldade... o rio
secou através do eucalipto, ‘né?’. A gente só pode culpar
o eucalipto. Dificultou muito pra nós. Mas as mulheres sempre
sofreram com isso, com a falta de água. Antes tinha água encanada
mas nem ia nas casas da gente direito e a gente sofreu muito
(Maridéia, aldeia tupiniquim de Pau-Brasil)
Indígenas
e quilombolas tiveram que conviver com a contaminação do ambiente
por agroquímicos utilizados pela indústria da monocultura.
Depois,
eles começaram a botar os remédios, igual falava essa moça aqui,
começaram acabando com tudo. Os remédios [agrotóxicos] matavam
as caças, os passarinhos, a água contaminava também, matava os
peixes, os caranguejos como tem lá em Pau-Brasil. Lá tem
um riozinho que subia lá para Barra do Sahy. Então, ali, aquele
rio se acabou, né? Os peixes também se acabaram tudo, por causa
do veneno que eles foram botando, foram acabando com nossos peixes,
nossos caranguejos. Não tem mais nada lá no mangue. Pode ir lá
olhar que você não vê mais nada, caranguejo, guaiamum, tudo isso
era nosso alimento, que nos alimentava. A gente não tinha falta
de nada, alimentava nossos filhos (Rosa,
aldeia tupiniquim de Pau-Brasil)
O
desaparecimento da mata também provocou o fim da matéria-prima
usada para a fabricação dos utensílios e do artesanato, que, no
caso indígena, constitui-se numa atividade, prioritariamente,
desenvolvida por mulheres.
A
perda da biodiversidade significou a perda de uma grande quantidade
de medicamentos oriundos das plantas, raízes e animais da floresta;
vetou às mulheres indígenas guaranis, que antes faziam o uso de
ervas para estimular e reduzir a fertilidade, o direito ao seu
planejamento familiar, deixando-as reféns de contraceptivos e
laqueaduras de trompas. Indígenas e quilombolas também já não
encontram mais os cipós, as árvores e as banhas de animais usados
para a prática da sua medicina.
Sem
os ecossistemas que garantiam a reprodução do modo de vida dessas
populações tradicionais, o papel masculino, dentro da família
e da comunidade/aldeia, foi esvaziado. Grandes caçadores, agricultores
e pescadores viram-se obrigados a vender a sua força de trabalho
para empresas terceirizadas da Aracruz Celulose, no caso quilombola,
também para as empresas produtoras de álcool, como a Disa – Destilaria
Itaúnas S.A.. Mesmo assim, a maioria se viu desempregada já que
é política das empresas a não contratação da mão-de-obra indígena
e quilombola, com o intuito de forçar, cada vez mais, a saída
daqueles que permaneceram na região. A fragilização do papel masculino
sujeitou mulheres a conviverem com o alcoolismo dos seus parceiros
e com a violência doméstica.
[...]
Então, acabou com parte da nossa vida, nossa liberdade e da nossa
cultura, do nosso dia-a-dia, da nossa saúde. Essa vinda das grandes
empresas para cá acabou com tudo, tirou um pedaço de dentro da
gente, é como um pedaço, como se a gente tivesse uma parte viva
e outra morta, como se fôssemos vivos-mortos, né? Devido às grandes
empresas, após entrarem pra cá. A gente era feliz, agora não,
a gente vive infeliz da vida, precisamos brigar pelo que é nosso,
pelos nosso território, por aquilo que eles arrancaram de nós,
e com isso foi tudo, tudo que era nosso, então fica um protesto,
né, por conta da gente, da comunidade inteira (Eni,
da Comunidade quilombola de São Domingos).
Algumas
mulheres indígenas, portadoras de um rico conhecimento sobre a
fauna e a flora, foram transformadas em empregadas domésticas,
diaristas, babás e cozinheiras dos funcionários da Aracruz Celulose.
A obrigatoriedade de desempenhar essas novas tarefas afetou o
exercício da maternidade, forçando-as a parar de amamentar os
seus filhos mais cedo e deixá-los, ainda bebês, para cuidar dos
filhos de mulheres urbanas.
Diante
das transformações vividas, essas populações construíram alianças
com movimentos e ONGs solidários à sua luta. Hoje, se articulam
em rede, buscando, cada vez mais, aumentar a sua capacidade de
resistência.
E
a gente vem lutando assim, juntando com as outras 36 comunidades
para lutar pelo território, pela questão das terras, que foram
terras tomadas do nosso povo, dos nossos antepassados e, hoje,
tá na mão da Aracruz Celulose. Então, a luta que nos une, hoje,
é a expansão da eucaliptocultura dentro das nossas comunidades
(Kátia,
comunidade do Divino Espírito Santo).
As
mulheres, que também são protagonistas dessas lutas, iniciam um
processo de organização em espaços específicos, buscando discutir
os impactos da monocultura de eucalipto que sobre elas incidem
e as maneiras de contribuir para recompor o modo de vida do seu
povo. Elas buscam assumir, cada vez mais, o seu lugar nesse processo
de luta. Quando“[...] o ambiente começar a doer nos seus
filhos, muitas mulheres atuarão”.
O
processo de organização das mulheres em espaços específicos é
recente. No caso das mulheres indígenas, por exemplo, há grupos
organizados em cada aldeia voltados à produção do artesanato e
ao resgate dos saberes e uso das ervas medicinais. Algumas encontram-se
num processo de organização mais avançado, outras estão iniciando.
Buscando reforçar o seu processo de organização, há pouco mais
de um ano criaram a Comissão de Mulheres Indígenas Tupiniquins
e Guaranis, que busca articular as mulheres indígenas de todas
as aldeias e desenvolver atividades e lutas do seu interesse.
Observa-se
que todo o movimento organizativo protagonizado pelas mulheres
tem estimulado o reconhecimento público dos diversos trabalhos
que realiza: na frente de batalha, buscando fazer a autodemarcação
do território; no enfrentamento à polícia na ocupação da fábrica
da Aracruz (ocorrida em 2005); na cozinha, preparando a comida
para as grandes assembléias indígenas. Dessa maneira, elas vêm,
cada vez mais, ampliando os seus espaços de socialização e procurando
substituir, em parte, aqueles que lhes foram arrancados. A organização
tem contribuído também para aumentar a sua auto-estima.
Mulheres
indígenas e quilombolas, que partilharam por tantas décadas os
impactos da monocultura de eucalipto, buscam, agora, partilhar
a sua experiência organizativa, descobrindo juntas os caminhos
da liberdade. Mulheres que estão cada vez mais próximas e que
se fortalecem mutuamente, lutando contra a opressão do agronegócio
e do patriarcado.
Extractado
de: “Mulheres
e Eucaliptos; histórias de vida e resistência”,
trabalho do WRM, por Gilsa Helena Barcellos, correo electrónico:
gilsahb@terra.com.br , Simone Batista Ferreira (membros
da Rede Alerta Contra o Deserto Verde), correo electrónico:
sibatista@hotmail.com
início
-
Colômbia: Madeira de conflito com o selo
do FSC?
Entre
os anos de 2001 e 2005 era possível comprar nos EUA uma placa
de madeira compensada fabricada pela companhia Pizano S.A., uma
das maiores empresas florestais da Colômbia. A placa estava
fabricada em parte com madeira provinda de plantações certificadas
pelo FSC (Conselho de Manejo Florestal) e o resto provinha de
florestas naturais do Nordeste da Colômbia, florestas nas que
a guerrilha, os grupos paramilitares e o Exército combatiam pelo
controle do território e seus recursos naturais. Portanto, as
placas de madeira compensada estavam manchadas com sangue.
Como
tem sido possível que o FSC se tenha tingido de sangue? O grupo
Pizano S.A. é um importante acionista da Maderas del Darién S.A.,
companhia madeireira que tem levado a cabo intensa extração florestal
nas bacias dos afluentes do rio Atrato, Departamento do Chocó,
que atravessa a Reserva do Pacífico Colombiano, uma região destacada
por sua alta biodiversidade. 40% do fornecimento de madeira da
Pizano S.A. com a que se fabrica sua placa de madeira compensada
provém dessas florestas de alto valor ecológico. Além disso, a
exploração irregular e destruidora tem reduzido consideravelmente
as áreas naturais de cativo (Priora copaifera), uma espécie ameaçada,
utilizada para a fabricação da madeira compensada.
A
atividade dessa empresa se tem realizado de forma simultânea no
tempo e no espaço com enfrentamentos bélicos e operações militares
que causaram a partir de 1997 o deslocamento de milhares de pessoas.
As violações aos direitos humanos, incluindo assassinatos, têm
sido freqüentes e impunes. O corte ilegal é um problema
sério e a titularidade da terra é objeto de disputas resolvidas
freqüentemente nos tribunais. Com todos esses ingredientes,
a atividade madeireira e o conflito armado têm originado a destruição
da vida comunitária das comunidades afro-descendentes e a conversão
de seus territórios em áreas desmatadas ou em plantações de dendezeiros.
No
ano de 2000, durante uma avaliação preliminar da Pizano S.A.,
a Smartwood se reuniu com a Iniciativa Nacional de Colombia e
membros de sua diretoria executiva questionaram a possível certificação
dessa empresa. Já na época a Pizano S.A. estava envolvida
no conflito no departamento do Chocó. Na avaliação de acompanhamento
de 2005, a organização inter-eclesial Justicia y Paz Colombia,
comprometida com a defesa dos direitos humanos em toda a América
Latina, apresentou uma queixa formal na que informava sobre a
responsabilidade da Maderas del Darién na violação dos direitos
humanos e a destruição ambiental no Darién, evidenciada através
de diferentes documentos e sentenças judiciais.
A
queixa da Justicia y Paz Colombia foi apoiada por numerosas organizações
sociais e ambientais da Colômbia e da Espanha (Greenpeace Espanha
e Ecologistas en Acción, entre outras), organizações que depois
solicitaram em 2005 à Smartwood a não renovação da certificação
do FSC à Pizano S.A. Além disso, informamos ao Diretor Executivo
do FSC, Heiko Liedeker, todos esses eventos.
As
conexões da companhia filial da Pizano S.A. com o conflito foram
expostas publicamente nos últimos meses. Em maio de 2007, diferentes
meios de comunicação da Colômbia têm publicado as declarações
de antigos paramilitares reconhecendo ter recebido apoio econômico
da Maderas del Darién. Esses eventos foram informados imediatamente
à Smartwood.
Mas
no entanto, tudo isso não tem sido suficiente. Em 17 de julho
de 2007, a Smartwood comunicou às organizações que apresentaram
o reclamo, sua intenção de outorgar de novo o selo FSC às plantações
da Pizano S.A. De acordo com a Smartwood, não há provas de que
os eventos denunciados “sejam executados atualmente ou no passado
recente”. Essa afirmação deixa claro que nem a Smartwood
nem a companhia negam que os eventos tenham ocorrido em um passado
"não recente", como por exemplo em 2005, quando a companhia
ainda tinha o selo do FSC e a Smartwood fazia ouvidos moucos às
queixas da sociedade civil.
De
acordo com a Smartwood, a Pizano S.A. se tem comprometido agora
a adotar o padrão de madeira controlada do FSC, pelo qual não
é aceitável a madeira de procedência ilegal, a madeira provinda
de florestas de alto valor de conservação ou a madeira explorada
em violação dos direitos tradicionais e civis.
O
fato de que a Smartwood não pode manter a madeira ilegal e destruidora
fora da cadeia de fornecimento do FSC na Colômbia, é mais um duro
golpe para a credibilidade e o prestígio do FSC. Até esta data
nenhum auditor da Smartwood tem visitado a região do Darién e
ainda não há qualquer mecanismo, protocolo ou sistema implantado
que garanta que a madeira provinda da destruição de florestas
de alto valor ecológico, o corte ilegal ou a violência não se
misture com madeira das plantações certificadas da Pizano S.A.
para fabricar as placas de madeira compensada, placas nas que
o selo do FSC poderia estar tingido de sangue. Além disso,
o FSC Internacional não tem orientado claramente sobre a exclusão
do sistema de certificação do FSC de companhias altamente controvertíveis
como a Pizano.
Por
Miguel Ángel Soto, Greenpeace Espanha, e-mail:
masoto@es.greenpeace.org y Tom
Kucharz, Ecologistas en Acción, e-mail:
agroecologia@ecologistasenaccion.org
início
-
Quênia: a Pan Paper planeja expandir suas
poluidoras operações
Mais
cedo neste ano, em uma tentativa de desencorajar o uso de sacolas
plásticas, o governo queniano lançou um imposto de 120 por cento
sobre o plástico. Enquanto o imposto poderia parecer uma decisão
favorável para o meio ambiente, poderia resultar em sérios impactos
para o meio ambiente. Um dos beneficiários da decisão será
a Pan African Paper Mills, de propriedade parcial do governo.
A
Pan Paper tem reportado grandes perdas nos últimos anos e tem
dívidas estimadas em USD 100 milhões, de acordo com o The East
African. Grande parte da dívida vencerá nos próximos dois
anos. Em abril de 2007, a companhia nomeou uma nova equipe de
gerência depois de que credores da companhia contrataram os consultores
McKinsey para sugerir formas de reviver as fortunas da companhia.
O imposto sobre os plásticos poderia fornecer uma corda de salvamento
para a Pan Paper.
A
companhia de embalagens Tetra Pak já está expandindo sua produção
no Quênia. "Gostaríamos de aumentar nossa aquisição de matérias
primas da Pan Paper. Estamos discutindo com eles para averiguar
se podem produzir mais das matérias primas que precisamos"
disse Anders Lindgren, diretor geral da Tetra Pak para o Business
Daily em julho de 2007. A Pan Paper anunciou recentemente planos
para gastar USD 1,19 milhões plantando seis milhões de árvores
durante o próximo ano.
A
Pan Paper tem atualmente uma capacidade de produção de 120.000
toneladas de papel ao ano em sua fábrica em Webuye. Estabelecida
em 1974, a companhia é uma joint venture entre a Orient Paper
and Industries (parte do Grupo Birla da Índia), o governo queniano
e a Corporação Financeira Internacional do Banco Mundial.
O
envolvimento da CFI significa que, na teoria pelo menos, a fábrica
de celulose e papel deveria cumprir as diretrizes sociais e ambientais
da CFI. Mas o próprio pessoal da CFI admite que há um conflito
de interesses entre a proteção do meio ambiente e os interesses
econômicos da companhia na que a CFI é acionista.
Em
1996, quando a CFI emprestou mais USD 15 milhões à Pan Paper para
uma expansão da fábrica de celulose e papel, a CFI não exigiu
uma avaliação ambiental completa. Pelo contrário, a CFI
se baseou em informação fornecida pela companhia. A CFI apontou
que a Pan Paper "se comprometeu a cumprir totalmente as políticas
e diretrizes do Banco Mundial".
A
CFI prometeu "monitorizar o cumprimento contínuo da Pan African
Paper das políticas e diretrizes do Banco Mundial durante a vida
do projeto". Em 2003, a CFI prometeu mais assistência financeira
para a reestruturação da Pan African Paper Mills. Lamentavelmente,
a monitorização pela CFI da Pan Paper somente envolve a leitura
de relatórios apresentados pela companhia e "revisões periódicas
no lugar durante a supervisão do projeto".
A
Pan Paper é partidária, logicamente, de manter seus problemas
ocultos. Por exemplo, em uma conferência sobre "consumo
e produção sustentáveis" em 2004, John M. Khaoya da Pan Paper
falou de "manter um equilíbrio delicado entre o meio ambiente
e os lucros". Ele falou das melhores tecnologias disponíveis,
das melhores práticas ambientais, da prevenção da poluição e a
minimização dos resíduos. Ele falou sobre o treinamento e conscientização
de empregados. Ele falou de responsabilidade social corporativa
e dos projetos comunitários que a Pan Paper tem financiado. Ele
falou do uso sustentável dos recursos renováveis. Ele falou do
cumprimento das regulamentações ambientais e de trabalhar "de
mãos dadas" com os promotores de uma produção mais limpa.
Ele falou de uma "situação 'de ganho mútuo' para a indústria
e o meio ambiente".
Michael
Ochieng Odhiambo, da ONG queniana RECONCILE, tem uma visão diferente
das operações da Pan Paper. Escrevendo antes neste ano no
boletim do Western Kenya Environmental Law Centre descreve o "fedor
nojento" da fábrica: "Muitos viageiros regulares
dessa rota fecharão as janelas dos carros ou ônibus enquanto se
aproximam à fábrica para evitar o fedor. Mas para os residentes
do povoado é algo com o que devem viver."
Odhiambo
enumera os problemas de saúde dos que os residentes de Webuye
se queixam em decorrência da poluição das operações da Pan Paper:
"irritação dos olhos e tratos respiratórios, boca seca e
garganta áspera, acumulação grossa de fluido em espaços de ar
que prejudicam o funcionamento dos pulmões, câncer de pulmão e
garganta, asma, bronquite, pneumonia bronquial, conjuntivite,
hepatite, dermatite, tuberculose, impotência, crianças nascidas
com órgãos reprodutivos atrofiados, inteligência retardada entre
crianças e altos níveis de doenças respiratórias."
Mas
a poluição da fábrica de celulose e papel não é o único problema
que a Pan Paper cria. Problemas adicionais provêm do fornecimento
de matéria prima para a fábrica. Em 2001, o povo Ogiek que vive
na floresta de montanha de Mau acusou à Pan Paper de atividades
madeireiras em suas áreas de florestas. Durante os últimos quatro
anos, os problemas causados pela fábrica da Pan Paper, atividade
madeireira e plantações têm sido apresentados no Parlamento queniano.
Hoje,
as plantações de árvores industriais cobrem aproximadamente 160.000
hectares no Quênia. Três quartos estão plantados com ciprestes
e pinus, mas os eucaliptos são crescentemente plantados no Quênia
–usando mudas da África do Sul. Um artigo recente no The
Nation (Nairobi) aponta que "os eucaliptos e outras espécies
exóticas estão substituindo rapidamente as árvores indígenas em
muitas...partes do país". O resultado tem sido a seca
de nascentes e córregos. O artigo sugere que as plantações de
eucaliptos têm feito com que as secas no país sejam ainda mais
severas.
Promovendo
a poluidora indústria da celulose e do papel, o imposto sobre
os plásticos do governo acabará tendo alguns impactos ambientais
e sociais muito desagradáveis.
Por
Chris Lang, http://chrislang.org
início
-
Suazilândia/ África do Sul/ Uganda:
a ilusão de armazenar carbono nas plantações de árvores vira
fumaça
No final de julho, grandes
incêndios arderam em parte da Suazilândia e no leste da África
do Sul. Os incêndios deixaram um saldo de mais de 20 pessoas mortas,
mataram rebanhos e animais silvestres, e deixaram lares queimados
e plantações e lavouras destruídas. Em ambos países, as equipes
contra incêndios e o pessoal de emergências foram exigidos demais.
Foi uma catástrofe de grandes dimensões.
Notícias
do IOL (Independent Online) informaram que cerca de 80 por cento
do território nos arredores da cidade
Paulpeitersburg da província de KwaZulu-Natal na
África do Sul– uma das áreas mais afetadas e com mais plantações
de madeira- tem sido devastado.
Conforme o FSC- Watch, os incêndios na Suazilândia
se iniciaram nas plantações com certificado FSC da empresa Mondi-
agora aparentemente comprada pelo grupo americano Global Emerging
Markets Forestry Investors LLC– na região Piggs Peak, e também
atingiram parte de uma plantação cerficada pelo FSC e propriedade
da Sappi, outra companhia sul- africana do papel e da celulose.
Os impactos prejudiciais tanto ambientais quanto
sociais das plantações têm sido amplamente denunciados (vide boletins
do WRM em
http://www.wrm.org.uy/countries/SouthAfrica.html#articles)
e muitos temiam que um desastre viesse a cair sobre eles. Agora
que o desastre chegou, o FSC também é apontado por ter validado
um programa de plantação que
só acarretou destruição para as populações.
Citando o observador do FSC, “80% dos 19.500
hectares da plantação da Mondi foram destruídas pelo fogo, e cerca
de 7% das plantações de Sappi.” “A certificadora da Mondi, a SGS,
observou na avaliação original da certificação que 'É inerente
à boa prática florestal o manejo físico dos riscos de incêndios
e a implementação de controles de incêndios apoiados por equipes
contra incêndios treinadas e bem aparelhadas.' Agora que uma
das plantações da Mondi pegou fogo, causando várias mortes, a
SGS não duvidará em concluir que elas não estavam
manejadas conforme 'uma boa prática florestal'.”
Essa
tragédia também evidencia a inviabilidade do conceito de plantações
de árvores para armazenar carbono, que é reforçada com o que tem
estado acontecendo na Uganda, onde os agricultores cortaram uma
parte considerável das florestas holandesas para armazenar CO2.
O
conflito remonta a um acordo assinado em 1994 entre a Fundação
holandesa FACE (Forests Absorbing Carbon dioxide Emissions) e
as autoridades ugandesas para plantarem árvores em uma faixa de
dois a três quilômetros de largura sobre 25.000 hectares dentro
dos limites de 211 quilômetros de comprimento do Parque
Nacional de Mount Elgon, uma região
muito polêmica.
Supostamente,
para absorver e armazenar carbono e assim compensar as emissões
das empresas holandesas e as das companhias
aéreas, foram plantados desde 1993 uns 9.000 hectares de
árvores. Elas tinham que permanecer em pé por um século.
As plantações de árvores causaram prejuízos
nos moradores locais que não apenas foram despejados de
suas terras como também perderam o acesso à floresta. A fim de
o projeto ser implementado, os moradores que vivem ao longo dos
limites do parque foram linchados e tiroteados além de serem expulsos
de suas terras que foram adicionadas ao parque nacional, e tiveram
seu gado confiscado por guardas florestais armados que vigiavam
as 'árvores para carbono' dentro do Parque Nacional. Eles ficaram
sem terra e sem emprego (vide a publicação do WRM 'A funny place
to store carbon', em
http://www.wrm.org.uy/countries/Uganda/book.html,
e o boletim Nº 115 do WRM).
Durante
todo o ano passado, os agricultores despejados reaveram suas terras,
cortaram as árvores e as converteram em carvão vegetal, transformando
1.300 hectares em terras agrícolas. Jeroen Trommelen do
jornal holandês De
Volkskrant informa que a FACE deteve a venda
dos créditos de CO2 das plantações ugandesas até que
os conflitos relativos a direitos territoriais tenham
sido resolvidos.
No
ano passado, os créditos foram vendidos a uma empresa energética
holandesa para compensar os efeitos climáticos do uso de combustível
fóssil. A FACE não quer dizer o nome da empresa. Até o ano passado
os créditos de CO2 das plantações ugandesas foram vendidos
também através da organização Greenseat, uma companhia holandesa
com clientes tais como Anistia Internacional, o Conselho
Britânico e o Body Shop.
Atualmente,
das 3,4 milhões de árvores plantadas, o carbono armazenado em
umas 500.000 árvores já tem sido liberado na atmosfera (estimado
em cerca de 182.000 toneladas de CO2) como conseqüência
de sua transformação em carvão vegetal. Como aponta Trommelen,
“Portanto, o dióxido de carbono que foi armazenado na madeira
para compensar as emissões de CO2, em parte vira
fumaça.”
Diante
da catástrofe global do acelerado aumento dos níveis de CO2
atmosférico- de cerca de 280 partes por milhão na época pré- industrial
a cerca de 380 ppm hoje em dia- com o potencial aumento de temperatura,
o pacote de abordagens com base no mercado tem provado que não
apenas não soluciona o problema como também o piora.
Artigo
baseado em informações de: “Swaziland: fires in certified plantations
spark national emergency”, FSC-Watch,
http://www.fsc-watch.org/archives/2007/08/28/Swaziland__fires_in_certified_
plantations_spark_national_emergency_;
“South Africa Fires”, IOL (Independent Online),
http://www.fire.uni-freiburg.de/GFMCnew/2007/07/0730/20070730_sa.htm;
“Farmers in Uganda cut down considerable part of Dutch CO-2 forests”,
Jeroen Trommelen, De
Volkskrant, divulgado
por
Simone Lovera, Global Forest
Coalition, e- mail:
simonelovera@yahoo.com,
http://www.globalforestcoalition.org
início
-
Uruguai: condições de trabalho em dois
viveiros florestais certificados pelo FSC
Durante
anos, o WRM tem estado documentando os impactos sociais e ambientais
das monoculturas de árvores. No entanto, até agora não tínhamos
as informações sobre o ponto de saída da cadeia: os viveiros onde
são produzidas os milhões de plantas destinadas a ser plantadas.
Recentemente foi concluída uma pesquisa sobre as condições de
trabalho e o uso de agrotóxicos nos viveiros das duas maiores
empresas florestais certificadas no Uruguai pelo Forest Stewardship
Council (FSC): a Eufores (Ence- Espanha) e a FOSA (Metsa Botnia-
Finlândia). (1)
Os
viveiros de ambas empresas utilizam a tecnologia mais avançada
no assunto e neles produzem fundamentalmente clones de eucaliptos.
A clonagem se faz a partir de galhos das chamadas “plantas mãe”
com os que são produzidas as estacas, que são pequenos caules
com um par de folhas. Esta produção é realizada com equipamento
especializado e quando produzidas, as mudas permanecem no viveiro
até estarem bem enraizadas e posteriormente são transladadas ao
ar livre com o objetivo de rustificá-las para as plantações.
Se
bem a tecnologia para a produção de plantas é “avançada” (o que
inclui modernas instalações de irrigação, estufas e um amplo pacote
de agrotóxicos), não é tão “avançada” quanto às condições de trabalho.
O
que primeiro chama a atenção é a terceirização, sistema usado
para cerca de 80% da força de trabalho de ambas empresas
que ocupam entre 50 e 70 pessoas (Eufores) e 130 pessoas (FOSA).
A terceirização constitui uma externalização da mão-de-obra que
implica romper a relação direta de trabalho com a empresa encarregada
da produção. Nesta “relação triangular de trabalho”, a pessoa
é contratada por uma empresa (empreiteiro) mas na realidade trabalha
para outra, em suas instalações, submetida a sua direção e disciplina,
diluindo-se a figura do verdadeiro empregador.
Conforme
os trabalhadores, “a terceirização dos serviços é uma forma de
evitar possíveis problemas com o sindicato e com os trabalhadores
em geral” já que os divide tanto nos benefícios quanto na projeção
do trabalho, conspirando assim contra a possibilidade de eles
se organizarem. Na medida em que a terceirização condena os contratados
à sazonalidade, à insegurança no trabalho e à inamovilidade funcional-
sempre serão “trabalhadores braçais comuns” e eles são pagos como
tais mesmo que realizem tarefas especializadas como a clonagem
de eucaliptos- entre @s trabalhadores persiste a ilusão de passar
à categoria de empregados diretos. Por vezes, isso faz com que
reprimam as atividades sindicais por receio de serem “marcados”.
A
sindicalização tem sido difícil em ambas empresas. Na Eufores,
o sindicato foi criado há apenas quatro anos, a despeito da oposição
da empresa. No entanto, quando foi criado, a Eufores desatou uma
perseguição contra o presidente do sindicato, quem denunciou que
se sentia “pessoalmente vitimado”. Mesmo assim, a Eufores foi
certificada. Apenas no ano passado a empresa parece ter aceito
o fato e agora o dirigente tem sido reintegrado a seu posto de
trabalho.
Na
FOSA, a criação do sindicato é bem recente (agosto de 2006), mas
está integrado quase na sua totalidade por trabalhadores da empreiteira.
No entanto, a pressão se faz sentir e alguns não se filiam por
receio de serem considerados pela empresa como “revoltosos” e
que isso eventualmente impeça a eles passar a ser empregados diretos
da empresa.
Outro
aspecto que evidencia a falta de responsabilidade social das empresas
é que, como princípio, a sanidade dos eucaliptos está por cima
da sanidade das pessoas. A fim de evitar que as mudas sejam afetadas
por pragas e doenças, são aplicados agrotóxicos em grau muito
elevado. Na Eufores são aplicados inclusive dois produtos não
autorizados pelo FSC: Fundazol (Benomil, disruptor endócrino e
produtor de mutações genéticas, potencialmente cancerígeno para
humanos) e Flonex (Mancozeb, não aceito por ser cancerígeno).
Em ambos viveiros é utilizado o Captan, um funguicida que foi
proibido na Finlândia em agosto de 2001 por ser extremamente tóxico:
é considerado cancerígeno, polui o solo e o lençol freático, é
muito tóxico para os peixes e afeta rãs, pássaros e aves.
Os
trabalhadores e trabalhadoras estão expostos permanentemente aos
agrotóxicos em um ambiente fechado que está impregnado de tais
produtos. Além disso, a água da lavagem das mochilas ou outros
aplicadores de agrotóxicos é despejada no mesmo local. Sem possibilidade
de tomar banho antes de irem para casa, porque os banheiros não
têm chuveiros, os trabalhadores e trabalhadoras espalham a poluição
a suas famílias já que voltam a seus lares com a mesma roupa com
a qual trabalharam. A esse respeito, os trabalhadores informaram
que mais de 90% dos filhos de mulheres que trabalham no viveiro
sofrem alergias, espasmos e asma.
Quanto
aos controles médicos, na FOSA eles não existem. Por sua vez,
a Eufores realiza alguns, mas os trabalhadores não confiam nos
resultados e por isso estão tentando ser monitorados por um organismo
independente da empresa, como o Ministério da Saúde Pública.
Algumas
das condições de trabalho a salientar nos viveiros da Eufores
e da FOSA são o isolamento do local- que impede o deslocamento
na hora de descanso do meio-dia, e que no caso da FOSA não é paga-
, o difícil acesso aos banheiros- estão afastados do local de
trabalho- e sua capacidade totalmente insuficiente, além da falta
de chuveiros, a ausência de purificadores de ar nos locais fechados-
só tem ar condicionado para as plantas- bem como as elevadas temperaturas
e a omissão- no caso da FOSA- de providenciar os artigos necessários
para o trabalho como as luvas de látex. A empresa providencia
apenas luvas de borracha porque são mais baratas, mas dificultam
o manuseio.
Os
casos de alergia na pele, olhos, mãos, pescoço e no corpo todo,
com presença de manchas- roxas, coceira e hinchaço abundam entre
os trabalhadores e trabalhadoras expostos a produtos tóxicos como
funguicidas, inseticidas, hormônios e cloro.
O
que diz respeito ao trabalho feminino merece alguns comentários
especiais. As empresas florestais fazem questão na geração de
empregos femininos, mas as vagas que oferecem na maioria das vezes
são de trabalho braçal, que, como já foi mencionado, costumam
ser terceirizadas, sem perspectivas de melhora. Há alguns postos
administrativos, mas poucas mulheres ocupam cargos de direção-
em geral são auxiliares.
A
maternidade resulta difícil de sustentar no regime de trabalho
dos viveiros. Lá não há creches e o afastametno e a falta de transporte
no local impõem às mulheres jornadas muito extensas separadas
dos filhos. Durante a gravidez, as condições tão duras de trabalho
impedem que as trabalhadoras cheguem ao término autorizado- 7
meses e meio de gravidez- , ainda quando em geral preferem trabalhar
o máximo possível porque a licença pré- natal supõe receber um
salário bem menor. Nessas condições é difícil suportar as altas
temperaturas- que podem ultrapassar os 40 graus- e as longas jornadas
sentadas ou de pé, o que as obriga a tomar a licença pré- natal
aos 4-6 meses de gravidez.
É
interessante apontar que a certificação das plantações das duas
empresas já tinha sido questionada em uma pesquisa realizada pelo
WRM (2). Agora esta pesquisa sobre seus viveiros soma-se a tal
questionamento. De fato, no resumo sobre o assunto, a pesquisadora
conclui que “estas duas empresas certificadas não demonstram em
nada ser 'ambientalmente apropriadas, socialmente benéficas e
economicamente viáveis' (tal como explicitado no mandado do FSC).
Pelo contrário, usufruem deste selo às custas do trabalho e da
saúde dos trabalhadores e o meio ambiente de tod@s @s uruguai@s.
(1)
"Condiciones de trabajo y uso de agrotóxicos en dos viveros
forestales”, agosto de 2007, RAPAL-Uruguai,
http://www.guayubira.org.uy/trabajo/viveros.pdf
(2)
“Maquillaje Verde. Análisis crítico de la certificación de monocultivos
de árboles en Uruguay por el FSC”, março de 2006, World Rainforest
Movement (WRM),
http://www.wrm.org.uy/paises/Uruguay/libro.pdf
início
ÁRVORES GM
-
ArborGen – a maior companhia de pesquisa
em árvores GM do mundo planeja crescer ainda mais
Em
agosto de 2007, a ArborGen assinou um contrato que vira o objetivo
da companhia de ser "o ator preeminente no desenvolvimento
e marketing global das árvores modificadas geneticamente para
a indústria florestal" mais perigosamente perto de ser realidade.
Quando
essa transação de USD 60 milhões se concretizar, a ArborGen adquirirá
o controle dos negócios de viveiros de árvores e de sementeiras
de seus três proprietários: a MeadWestvaco e a International
Paper nos EUA e a Rubicon Limited na Nova Zelândia e na Austrália.
A ArborGen se transformará no maior produtor do mundo de mudas
de árvores, com operações em 20 locais de quatro países. A ArborGen
estima as vendas anuais combinadas em 350 milhões de mudas de
árvores, envolvendo aproximadamente USD 25 milhões ao ano. Até
agora, as árvores GM da ArborGen não estão disponíveis comercialmente,
mas quando a ArborGen começar a vender suas árvores GM, esse negócio
vai outorgar à companhia um enorme mercado já pronto.
Horizon2
da Rubicon vai fazer parte da ArborGen de acordo com a transação.
Horizon2 produz mudas de árvores para a indústria das plantações
na Austrália e na Nova Zelândia. Horizon2 também está levando
a cabo pesquisa em eucaliptos e pinus radiata GM, destinada à
produção de árvores com menos lignina, crescimento mais rápido,
resistência aos insetos, tolerância ao estresse e florescência
alterada.
Também
na Nova Zelândia, a ArborGen tem assinado um contrato de pesquisa
e desenvolvimento com a Scion, uma organização de pesquisa florestal
de propriedade estatal. A pesquisa está destinada à identificação
dos genes responsáveis pelo crescimento mais rápido e outras características
de interesse para a indústria das plantações.
O
Diretor-Geral da Rubicon, Luke Moriarty vê o mercado potencial
como sempre crescente. "As vendas anuais unitárias
de mudas de árvores estão bem nos bilhões, se repetem todo ano
e abrangem o globo" disse Moriarty para os acionistas da
Rubicon em julho de 2005. Além disso, a ArborGen tem até agora
monopolizado o comércio de árvores GM. "Não há concorrentes
globais da ArborGen neste setor" diz Moriarty.
A
ArborGen espera obter lucros com o boom dos biocombustíveis e
neste ano a companhia expandiu sua pesquisa para incluir os biocombustíveis.
"A energia renovável pode criar novos mercados para produtos
ecológicos" diz a Diretora-Geral da ArborGen, Barbara Wells.
A ArborGen é uma das sócias do BioEnergy Science Center, um projeto
de USD 125 milhões financiado pelo governo dos EUA e liderado
pelo Oak Ridge National Laboratory.
A
companhia prevê que suas árvores GM com menos conteúdo de lignina
serão o "primeiro produto de estoque de árvores da 'próxima
geração' a ser comercializado" da ArborGen. As árvores
com menos conteúdo de lignina são mais fáceis de polpar. Mas a
lignina é o que une as células da madeira. É o que faz com
que as árvores fiquem em pé. Reduzir o conteúdo de lignina
nas árvores faz com que sejam mais vulneráveis a tormentas e corram
o risco de pestes, fungos e doenças.
A
ArborGen está atualmente levando a cabo testes de campo de árvores
GM com menos lignina no Brasil. A companhia estabeleceu operações
em Campinas, Estado de São Paulo, há três anos. A ArborGen
começou seus testes com árvores GM no Brasil em 2005. Neste ano,
a ArborGen obteve a aprovação da autoridade regulamentar do Brasil
(CTN-Bio) para levar a cabo um segundo teste de campo de rotação
completa de árvores de eucaliptos GM.
Até
agora, a companhia não tem licença para comerciar suas árvores
GM no Brasil. "Temos apresentado todos os formulários exigidos
e cumprido as diretrizes do governo para estabelecer testes. A
informação desses testes será usada para obter a necessária autorização
para uso comercial" disse Fábio Brun, diretor da ArborGen
na América do Sul, para o site na web da indústria florestal RISI
em maio de 2007. A ArborGen está trabalhando em parceria com "algumas
das maiores companhias de produtos florestais na região, de acordo
com RISI.
A
ArborGen também está pesquisando com um eucalipto GM tolerante
ao frio que a companhia espera que fornecerá uma fonte de matéria
prima para a indústria da celulose e do papel no Sul dos EUA.
Mais cedo neste ano, a ArborGen ganhou uma aprovação controvertível
da autoridade regulamentar dos EUA (o APHIS –serviço de inspeção
de saúde dos animais e plantas-) para um teste de campo de rotação
completa no Condado de Baldwin, Alabama. O APHIS decidiu que o
teste "não teria impacto significativo" e que a ArborGen
não precisava nem preparar uma declaração de impacto ambiental.
Em
dezembro de 2005 a Rubicon disse que "a ArborGen tem sido
ativa tanto com as autoridades brasileiras quanto com as autoridades
dos EUA para assegurar que quaisquer assuntos associados com o
lançamento de produtos biotecnológicos em árvores de florestas
plantadas sejam entendidos e que o regime regulamentar implementado
está baseado na ciência e funciona na prática."
A
aconchegante relação da ArborGen com as autoridades regulamentares
parece compensar. Os expertos para os que apela o APHIS para assessoria
sobre os riscos desses testes são cientistas florestais empregados
na academia ou em companhias da celulose e do papel. O APHIS
até apelou para cientistas que trabalham para duas das companhias
proprietárias da ArborGen: a International Paper e a MeadWestvaco.
Esses expertos têm uma coisa em comum: um interesse em que
os testes com árvores GM continuem. Não surpreende que em
sua assessoria para o APHIS eles subestimam os riscos e não mencionam
o princípio precautório.
http://chrislang.org
início
-
Instituto Florestal Europeu escolhe ignorar
os efeitos sociais “esmagadoramente negativos” das árvores GM
Recentemente,
o Instituto Florestal Europeu (EFI) divulgou uma declaração em
favor da pesquisa de árvores geneticamente modificadas. Várias
das 131 organizações membro do EFI (institutos de pesquisa, universidades
e empresas) estão envolvidas com a pesquisa de árvores GM. O presidente
do EFI, entre 2004 e 2006, foi François Houllier, diretor científico
do Instituto Nacional para a Pesquisa Agrícola (INRA) da França
que está desenvolvendo pesquisas em árvores GM. Outros membros
envolvidos em pesquisa de árvores GM são o Instituto de Pesquisa
Florestal finlandês (METLA) e o Centro Federal de Pesquisa para
o Florestamento e os Produtos Florestais (BHF) na Alemanha.
A
declaração do EFI em prol dos transgênicos começa com a afirmação
de a pesquisa em árvores GM ser necessária, “a fim de providenciar
às autoridades públicas competentes os dados e a informação científica
adequados e imparciais.” Isso poderia fazer sentido, exceto porque
a pesquisa de árvores GM que está sendo desenvolvida não é ciência
“neutral” que objetive providenciar informações às autoridades
públicas. A pesquisa de árvores GM é desenvolvida em favor da
indústria, principalmente a indústria do papel e da celulose,
e cada vez mais pela indústria dos biocombustíveis.
A
declaração do EFI foi elaborada após dois anos de discussão na
organização. Em 2005, o EFI encomendou um documento intitulado
“Biotecnologia na Floresta? Opções Políticas na Pesquisa de Árvores
GM”. O autor principal do documento foi David Humphreys, professor
sênior de Políticas Ambientais na Universidade Aberta e autor
de “Obstáculo: Desmatamento e a Crise do Governo Global”.
Enquanto
o documento afirma que “ Nenhum argumento claro nem inequívoco
emerge a favor ou contra as árvores GM,” apresenta vários
argumentos de peso contra as plantações comerciais de árvores
GM e portanto, contra a pesquisa continuada de árvores GM.
“As
árvores vivem mais que as culturas agrícolas,” afirma o documento,
“ o que significa que as mudanças no seu metabolismo podem ocorrer
muitos anos depois de serem plantadas. Ao mesmo tempo, as árvores
são diferentes das culturas por serem em grande parte selvagens;
e o conhecimento dos cientistas sobre os ecossistemas florestais
é escasso se comparado com seu conhecimento sobre os ecossistemas
agrícolas. Os riscos ecológicos e outros riscos potenciais associados
com árvores GM podem ser maiores que aqueles das culturas GM.”
O
documento assinala a ameaça que as árvores GM apresentam para
as florestas (mesmo que a preocupação parece ser o impacto na
indústria florestal e não nas florestas e pessoas): “O uso de
árvores GM pode, no longo prazo, prejudicar gravemente o setor
florestal devido à contaminação genética que resulta em florestas
mais fragilizadas que cada vez são menos capazes de frear tensões
naturais, tais como ataques de pestes que se tornarão resistentes
aos inseticidas produzidos por árvores GM.”
As
patentes envolvidas nas pesquisas científicas farão com que as
árvores GM sejam custosas. A produção e a comercialização de árvores
GM implica um processo custoso e altamente especializado. O documento
aponta que “Se o uso de árvores GM se tornar popular e generalizado
é provável que o setor florestal se torne cada vez mais dependente
das empresas de biotecnologia e de sementes GM.”
A
introdução de novas tecnologias gera vencedores e perdedores.
Com a introdução dos OGMs no setor agrícola, os vencedores “incluem
grandes corporações de GM e sementes, enquanto os perdedores incluem
pequenos agricultores”, observa o documento. A cultura GM estéril
implica que os agricultores deverão comprar novas sementes a cada
ano. As sementes são mais custosas porque incluem royalties para
as corporações que desenvolvem as espécies GM. “O resultado final
é um fluxo de receita dos agricultores pobres do Sul para as corporações
ricas do Norte, com a excluão de muitos produtores agrícolas pequenos”
Muitas
das organizações e empresas de pesquisa que promovem a tecnologia
dos transgênicos estão sediadas no Norte. Mas as plantações de
árvores transgênicas, se forem estabalecidas, serão estabelecidas
principalmente nos países do Sul. “É provável que o resultado
seja uma desigualdade social”, observa o documento do EFI, “tanto
na divisão dos riscos, que recairão principalmente sobre os países
em desenvolvimento quanto na divisão dos benefícios financeiros,
que serão acumulados principalmente no mundo desenvolvido.”
Humphreys
e seus colegas salientam que os impactos das plantações de árvores
GM poderia ser semelhante aos das plantações industriais em grande
escala que já foram estabelecidas no Sul: “As plantações de árvores
para celulose no Sul tenderam ao uso excessivo das terras disponíveis
e dos recursos hídricos, e a poluir o ambiente circundante com
fertilizantes e pesticidas. Supõe-se que as plantações de árvores
GM farão exigências maiores do ambiente, já que as variedades
transgênicas são manipuladas para crescer mais rapidamente.”
O
documento conclui que “Existem consideráveis beneficios econômicos
e ambientais com as árvores GM, mas também sérias desvantagens
em potencial tanto econômicas quanto ambientais. Os efeitos sociais
previstos pela introdução de árvores GM são esmagadoramente negativos.
A situação legal a respeito das árvores GM é confusa. Toda a questão
da introdução de árvores GM levanta sérias questões éticas para
as quais não há respostas óbvias.”
A
explicação para a decisão do EFI de apoiar a pesquisa de árvores
GM pode ser encontrada no documento de 2005. “A maioria dos cientistas
especialistas em OGMs trabalham nos institutos de pesquisa
e nas corporações industriais,”observa o documento. “É possível
argumentar que esses cientistas têm interesses pessoais em enfatizar
os benefícios da biotecnologia, e em minimizar os riscos associados.”
Uma
frase extraída da conclusão do documento oferece um argumento
claro e inequívoco contra as árvores GM: “Os efeitos sociais previstos
pela introdução de árvores GM são esmagadoramente negativos.”
Ao apoiar a pesquisa de árvores GM, o EFI está ignorando esses
efeitos sociais esmagadoramente negativos.
Por
Chris Lang, http://chrislang.org
início