Um
deserto verde no sul da América Latina
Imagine
uma área do tamanho de 500.000 campos de futebol plantados com
uma única espécie de árvore. Uma floresta? Não, um deserto verde.
Sem pessoas, sem água, sem outras plantas. Em poucos anos, assim
será a paisagem do Rio Grande do Sul, estado do extremo sul do
Brasil, onde três empresas concentram a produção de celulose,
com danos sociais e ambientais.
O Rio Grande do Sul, assim como Uruguai e Argentina, faz parte
de uma sistema ecológico conhecido como Pampa, com uma biodiversidade
única, que inclui centenas de aves e mamíferos, que só podem ser
encontrados neste sistema. No subsolo desta região, está uma das
maiores reservas de água da América do Sul.
E justamente por estas características, este território foi escolhido
pela empresa sueco-finlandesa Stora Enso para seus projetos de
produção de celulose. O Eucalipto, base da celulose, plantado
no Brasil pode ser colhido em sete anos. Na Escandinávia, uma
árvore para produção de celulose precisaria de, pelo menos 50
anos, para alcançar o estágio para fabricação de papel. Nos próximos
5 anos, o eucalipto deverá ocupar meio milhão de hectares neste
estado.
Três empresas controlam o plantio e a produção de celulose no
Rio Grande do Sul. Porém, todas elas são praticamente uma só.
Além da Stora Enso, as outras duas empresas são Aracruz Celulose
e Votorantim Celulose e Papel - VCP. Porém, Stora Enso e Aracruz
fazem parte de uma joint-venture, a Veracel, e a VCP é acionista
da Votorantim.
Utilizando incentivos fiscais do governo brasileiro, estas empresas
têm adquirido milhares de hectares de terras, expulsando famílias
de pequenos agricultores desta região. No norte do Brasil, no
estado de Espírito Santo, a Aracruz já havia expulso os povos
indígenas de uma região, roubando 10 mil hectares de terras.
A aquisição de terras também viola a lei brasileira, que proíbe
que empresas estrangeiras comprem terras na área de fronteira.
Para isso, Stora Enso criou uma empresa-fantasma, supostamente
de brasileiros, para comprar terras em seu nome.
Nas cidades onde já estão instaladas, as empresas violam direitos
dos trabalhadores. Homens, mulheres e jovens trabalham sem equipamentos
de segurança no corte das árvores. Para que a empresa não precise
pagar a seguridade social, os trabalhadores são demitidos após
3 meses e contratados novamente por salários mais baixos.
Além dos problemas sociais, a monocultura de celulose deverá trazer
sérias conseqüências ambientais. No Uruguai, onde a empresa finlandesa
Botnia e a espanhola Ence possuem 360 mil hectares, já há registros
de falta de água, pois se estima que um eucalipto consuma 20 litros
de água por dia. Segundo a revista Science (23/12/2005), o plantio
de eucalipto no pampa argentino reduziu 52% dos fluxos de água
e secou 13% dos rios.
No Rio Grande do Sul, segundo pesquisas da Universidade Federal,
o eucalipto irá consumir 20% mais água do que chove no estado.
Como a árvore causa desertificação e acidez do solo, não se sabe
que conseqüências terá para as 3 mil espécies de plantas do pampa.
Por fim, tudo isto será feito sem que as empresas precisem sequer
pagar impostos. Isto porque 97% da produção de celulose destas
fábricas é destinada para a exportação. No auge do neoliberalismo,
o governo brasileiro criou uma lei que isentava de impostos os
produtos exportados.
Até o ano de 2006, o projeto das empresas seguiu silenciosamente,
sem qualquer debate com a sociedade. Naquele ano, o silêncio foi
rompido pelo protesto de mulheres da Via Campesina que ocuparam
uma área de plantio de eucaliptos no Rio Grande do Sul. No ano
seguinte, as mulheres regressaram, agora ocupando diferentes áreas
de eucaliptos.
E em 2008, outra vez e sempre no 08 de março, elas regressaram.
Desta vez, denunciando a compra de áreas ilegais pela Stora Enso.
A reação foi violenta.
A área da Stora Enso foi cercada pela polícia, todos os jornalistas
foram impedidos de registrar a ação. Com bombas de gás lacrimogênio
e gás pimenta, a Polícia agrediu as 900 camponesas. Médicos e
advogados não puderam entrar na área. Todas foram mantidas deitadas
e com armas apontadas para a cabeça por horas. A alimentação só
foi permitida doze horas depois.
Mesmo assim, a história segue. Desde a primeira ação, as camponesas
despertaram a sociedade para os riscos das fábricas de celulose.
Agora, suas ações tem permitido uma maior articulação com movimentos
camponeses e ambientais da América do Sul. Assim como o capital
não tem fronteiras, as camponesas brasileiras ensinam que a luta
também não pode ter.
Miguel Enrique Stédile integrante do Movimento Sem Terra e da
Via Campesina - Brasil.