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NOSSA OPINIÃO

REDDefinindo AS “FLORESTAS”

O CIRCO DE COPENHAGUE

VOZES SENSATAS

ABRINDO O DEBATE


NOSSA OPINIÃO

- A mudança necessária no processo sobre mudança climática

Quando uma casa está se incendiando, o que importa é apagar o incêndio. Apesar de todos os vizinhos poderem ajudar, é de se esperar que os bombeiros assumam o controle da operação e que o Estado forneça todo o apoio necessário para a extinção do fogo. Depois de extinto, os especialistas irão determinar as causas do incêndio e, no caso de ter sido provocado, serão estabelecidas as responsabilidades e as punições que corresponderem. Mas, a primeira providência é apagá-lo. 

O resultado do aquecimento global é bem parecido com um incêndio, mas o processo tem sido exatamente o contrário. Neste caso, já são conhecidas as causas do incêndio (o uso de combustíveis fósseis) e já é sabido quem o iniciou (os países industrializados). Contudo, os bombeiros primam por sua inexistência e os estados negociam- literalmente, fazem negócios- enquanto as chamas se espalham cada vez mais rapidamente.

O mais triste é que há anos que se sabe o que é necessário para extingui-lo: deixar de usar combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural). Apesar de existirem outros elementos que agravam a mudança climática- como o desmatamento- é certo que a única fonte de gases de efeito estufa que acrescenta o estoque de carbono na biosfera-  e, portanto, a causa central do aquecimento global- é a queima de combustíveis fósseis. A solução está, então, na cara: todos os esforços devem focalizar sua substituição por outras fontes de energia.

O uso de combustíveis fósseis foi iniciado com a Revolução Industrial e globalizou-se a partir do modelo de desenvolvimento econômico imposto no mundo todo pelos países industrializados. Em conseqüência, o volume total de carbono na biosfera tem vindo em constante crescimento, provocando o efeito estufa. Fica claro então que tais países são os principais responsáveis pelo incêndio atual, e que conseqüentemente devem assumir a responsabilidade que cabe a eles adotando as medidas necessárias para deter o processo.

Nesse sentido, a primeira providência é que os países industrializados introduzam mudanças drásticas na produção e no uso de energia em nível nacional, que resultem na substituição de combustíveis fósseis por outras fontes de energia em prazos peremptórios e claramente especificados. Tais medidas deverão incluir as empresas transnacionais, impondo, a suas operações no mundo todo, as mesmas restrições sobre a produção e o uso de energia que são aplicadas no país em que tenham sua sede central.

Ligado ao anterior, os principais responsáveis da mudança climática deverão comprometer-se a não “exportar” o problema a terceiros países, tal como vem acontecendo com a importação de agrocombustíveis produzidos à custa dos recursos e o bem- estar de comunidades dos países do Sul.

Ao mesmo tempo, os principais responsáveis pela mudança climática deverão gerar condições adequadas- incluindo assistência econômica e técnica- para os países não industrializados poderem percorrer uma trilha de desenvolvimento livre de combustíveis fósseis.

Em particular, os países responsáveis pela mudança climática deverão compensar economicamente aqueles que se comprometerem a não explorar suas jazidas de combustíveis fósseis, como contribuição por terem uma dívida decorrente de seu impacto climático com o mundo todo.

Contudo, o anterior não implica que os outros países- a “vizinhança”- não possam contribuir também para apagar o incêndio. Além das divisões Norte- Sul, o certo é que o atual modelo de desenvolvimento econômico foi imposto no mundo inteiro e que tal modelo inclui o uso maciço de combustíveis fósseis. Isso implica que todos os países, sem exceções, deveriam fazer os máximos esforços para erradicarem seu uso.

O “direito ao desenvolvimento” esgrimido por alguns países economicamente poderosos do Sul é obviamente um direito, mas não pode ser exercido à custa do clima de um planeta que é de todos. Isso significa que mesmo que tais países não tenham a responsabilidade histórica pela mudança climática- nem as obrigações que isso acarreta-  devem reconhecer a necessidade de adotar medidas para substituir os combustíveis fósseis por outras energias alternativas no menor prazo possível.

O assunto da substituição dos combustíveis fósseis deveria ser o centro da próxima conferência da Convenção sobre Mudança Climática que será levada a efeito em Copenhague no início de dezembro. Infelizmente, é pouco provável que isso seja assim. Pelo contrário, tudo indica que as discussões estarão focalizadas em “soluções” absurdas que não apenas não irão resolver nada senão que irão agravar o problema.

Com certeza irão falar muito sobre mecanismos de mercado para reduzir as emissões provindas do desmatamento, da agricultura e da pecuária. Irão discutir sobre plantações como sumidouros de carbono, sobre agrocombustíveis, sobre o comércio de carbono e sobre uma invenção recente chamada "biochar". Mas irão falar muito pouco- e irão negociar o menos possível- sobre a questão central: a erradicação do uso de combustíveis fósseis.

Já passaram muitos anos desde que os governos se comprometeram em 1992 a fazer alguma coisa pelo clima, aprovando a Convenção sobre Mudança Climática. Pouco ou nada fizeram desde então e nesta altura dos acontecimentos é mais do que óbvio que não é muito o que estão dispostos a fazer. A não ser, é claro, que a vizinhança- os povos do mundo- exija a adoção imediata de medidas para a extinção do incêndio.

Esperamos que os esforços conjuntos da sociedade civil organizada do mundo todo, que estará pressionando direta e indiretamente os delegados governamentais da Convenção em Copenhague, resultem eficazes para forçar a necessária mudança de rumo. Não se trata de um simples incêndio: aqui se põe em jogo o futuro da humanidade e tod@s temos o direito e o dever de exigir que seja feito o que deve ser feito. Agora mesmo!

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REDDefinindo AS “FLORESTAS”


- Maquiagem verde para o deserto verde em Copenhague

Parece cada vez mais provável que nenhum acordo vinculante irá surgir de Copenhague e que o Norte tentará descartar o Protocolo de Kioto. Também parece provável que certo tipo de acordo irá ser puxado através da proposta de redução de emissões do desmatamento e da degradação das florestas (REDD). Existe o sério perigo de a proposta REDD ser uma maquiagem verde para o fracasso do Norte para reduzir as emissões drasticamente. O REDD poderia gerar uma maciça apropriação de terras, poderia injetar dinheiro em alguns dos governos e ministérios da floresta mais corruptos do mundo, poderia atropelar os direitos de povos indígenas e comunidades locais, poderia acelerar a substituição de florestas por plantações e poderia criar uma enorme brecha permitindo que a poluição no Norte continuasse. O tempo todo permitindo que o desmatamento continuasse. 

Mas com ou sem um acordo REDD, as negociações climáticas das Nações Unidas já causaram sérios problemas para os povos e as florestas, através do apoio do Mecanismo de Desenvolvimento limpo às plantações industriais de árvores. “O fraude do MDL em sua pior face,” como o WRM o descreveu em agosto de 2009.

O problema começa com a definição de “floresta”. Até agora, não existe uma definição consensual nas negociações REDD, mas sob a definição do MDL qualquer área maior a 500 metros quadrados com cobertura de copa de 10 por cento e árvores capazes de crescer até uma altura de dois metros é uma "floresta". Até o desmatamento raso está incluído nessa definição de “floresta”.

A FAO sempre apoiou o mito de as plantações serem florestas. Recentemente, a FAO elaborou um folheto explicando que “As negociações precisam de terminologia clara”. Isso é verdade. Mas o folheto analisa a diferença entre “manejo florestal sustentável” e “manejo sustentável de florestas". Não é preciso dizer que as duas versões de "manejo sustentável" envolvem plantações industriais de árvores. A FAO é institucionalmente incapaz de ver a diferença entre uma plantação e uma floresta, mas irá pagar a especialistas significativos salários para fazerem uma análise do termo “de”.

Uma olhada nos empréstimos da Corporação Financeira Internacional, o braço encarregado dos empréstimos do Banco Mundial para o setor privado, ilustra por que a definição de florestas preocupa. Primeiro, as boas notícias. Em agosto de 2009, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, ordenou uma moratória total sobre o investimento do Banco em plantações de dendezeiros. A mudança veio depois de uma queixa apresentada ao CAO (Ombudsman e Assessor em matéria de Observância) da CFI por várias ONGs no tocante aos empréstimos da CFI concedidos à gigante dendeicultora Wilmar.

Como estamos tratando com o Banco Mundial, não deveria surpreender que houvesse também algumas notícias ruins: A CFI planeja incrementar os empréstimos para outras plantações de árvores fora os dendenzeiros. Em outubro de 2009, no Congresso Florestal Mundial da Argentina, Mark Constantine da IFC fez uma apresentação intitulada “Aumento do impacto do setor privado no setor florestal”. Ao dizer “floresta” Constantine também se referia às “plantações”.

A apresentação de Constantine incluiu uma seção intitulada “O que aprendemos?”. Mas não mencionou os problemas causados pelas plantações de dendezeiros da Wilmar. Também não citou um empréstimo de US$ 50 milhões que a CFI outorgou à Aracruz, empresa brasileira de celulose. O empréstimo foi apressadamente reembolsado logo depois de a Aracruz e os policiais locais terem deslocado violentamente os povos indígenas Tupinikim e Guarani de suas aldeias, porque tinham reclamado pelas monoculturas da Aracruz.

Entre as “novas abordagens” que Constantine sugeriu estão: “aumentar o acesso ao mercado de carbono” e “investir em plantações e indústrias florestais”. Ele falou sobre a necessidade de “reforçar os investimentos em plantações florestais”. Apesar de Constantine ter mencionado o risco de “monocultura/ ‘deserto verde’”, isso não significa que a CFI não irá conceder empréstimos para a expansão do deserto verde.

No dia 18 de novembro de 2008, a CFI anunciou seus planos de investir em 250.000 hectares de plantações industriais de árvores na Indonésia. No comunicado de imprensa da CFI, Adam Sack, o Diretor Regional para a Indonésia, disse que “esse novo programa faz parte do compromisso da CFI para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”. A CFI afirma que as plantações poderiam cortar aproximadamente 90 milhões de toneladas de emissões de carbono ao ano e que essa suposta redução das emissões poderia ser comercializada sob o MDL.

A CFI descreve seus projetos como “reflorestamento” que “sequestra” carbono ao remover CO2 da atmosfera. Mas não é reflorestamento- está substituindo uma paisagem degradada por uma monocultura. E todo dióxido de carbono armazenado nas árvores irá ser rapidamente liberado, quando as árvores forem usadas para produzir papel ou bio- energia.

Quando o CAO desenvolveu sua revisão do empréstimo da CFI para as plantações de dendenzeiros da Wilmar na Indonésia concluiu que “Devido à pressão comercial que dominou o processo de avaliação da CFI, as revisões das devidas diligências ambientais e sociais não aconteceram como é preciso.”

Em sua apresentação no Congresso Florestal Mundial, Constantine perguntou “Como medimos o sucesso?” Sua resposta, quanto às plantações foi “Número de hectares em novas plantações. Dólares investidos. Número de projetos.” Parece que a história está fadada a repetir-se

A solução é simples. As Nações Unidas precisam de uma definição de florestas que exclua as plantações. Assim os planos da CFI na Indonésia poderiam ser considerados como o que realmente são. Não como "reflorestamento", ou parte de um "compromisso para reduzir as emissões de gases de efeito estufa," mas como um subsídio para o setor das plantações, social e ambientalmente destruidor.

Por Chris Lang, http://chrislang.org

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O CIRCO DE COPENHAGUE

- Que comece o show!

De acordo com a Wikipédia, “um circo é comumente uma companhia itinerante de artistas que reúne acrobatas, palhaços, animais, trapezistas, equilibristas, malabaristas, monociclistas e outros que baseiam sua arte no truque."

Infelizmente, há uma estreita semelhança com a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática onde acrobatas, malabaristas, mágicos e trapezistas vêm tentando entreter o mundo e fazendo que o grande público acredite que eles estão discutindo de forma séria os caminhos para abordar a atual crise climática.

Apesar de ter sido originariamente planejada como um meio para evitar a mudança climática, o objetivo da UNFCCC foi logo desviado para uma atuação liderada pelas corporações e focalizada nos lucros. A partir de então, vem percorrendo um grande número de países tentando vender suas apresentações. A próxima parada é Copenhague. 

Nesta hora, quando a mudança climática é reconhecida como a maior ameaça que a Humanidade vem enfrentando, é bom lembrar que os circos tradicionais têm sido forçados a introduzir importantes mudanças em suas apresentações em decorrência da pressão pública. Esperamos que isso também aconteça em Copenhague

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- Plantação de árvores nos desertos

Uma equipe de biólogos e modeladores do clima na NASA tem achado uma alternativa muito "prática" à redução dos combustíveis fósseis. Seu plano é plantar blocos massivos de árvores de rápido crescimento -por exemplo eucaliptos- nos desertos de Saara e o sertão australiano. Falta de água? Não há problema! As árvores seriam regadas pela água de mar tratada através de uma cadeia de usinas costeiras de dessalinização e canalizada através de uma vasta rede de irrigação. Fácil.

Esse plano destruiria os desertos, logicamente, que não são terras incultas, mas ecossistemas ricos e diversos de per si.  Desconsidera completamente a interdependência fundamental de todos os fenômenos na sutil rede da vida e nem sequer questiona onde, quando e como os impactos dessa mudança massiva seriam sentidos.

Os custos reconhecidos do plano são enormes -USD 1,9 trilhões ao ano. No entanto, os inventores consideram que "é a opção mais prometedora e prática (!) em termos de tecnologia atual para resolver as maiores partes do problema."

Eles são conscientes de que há alguns inconvenientes, mas dizem que "se forem precisos sacrifícios para deter o aquecimento global, os quase inexistentes ecossistemas do Saara central e o sertão parecem candidatos razoáveis em comparação com as alternativas." Se a idéia é tão "prática", por que não sacrificam "candidatos razoáveis" como os abundantes desertos dos EUA, em vez daqueles na África e na Austrália?
Como diria Alice: as soluções climáticas estão virando "mais e mais curiosas".

(Fonte de informação: Forests in the desert: the answer to climate change?, David Adam, guardian.co.uk, http://www.guardian.co.uk/technology/2009/nov/04/forests-desert-answer-climate-change)

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- Sob o original nome de “biochar”

Alguns pelotiqueiros do circo climático estão fazendo malabares com o carvão para adotá-lo de novo, mas agora com um original nome. A proposta de transformar os resíduos em carvão em grãos finos e arar bilhões de toneladas dele no solo todo ano converte o carvão em "biochar" (biocarvão).

O carvão é produzido através de um processo chamado pirólise, pelo que a biomassa é exposta a altas temperaturas na ausência de oxigênio. Isso produz dois tipos de combustíveis além do carvão (gás de síntese e bio-petróleo), que podem ser usados para aquecimento e energia, ou refinados ainda mais para produzir agrocombustíveis para carros ou, potencialmente, para aviões.

Os defensores do biochar dizem que poderia "esfriar o planeta". Bilhões de toneladas de biomassa principalmente de árvores e resíduos de cultivos seriam transformados em biochar. Eles esquecem o fato de que isso requereria a plantação de muitos milhões de árvores... Até 1 bilhão de hectares de plantações de árvores seria necessário para cultivar as árvores necessárias para a produção de biochar em uma escala suficientemente grande para ter um impacto no clima.

Onde aconteceria essa grande "solução de geo-engenharia para a mudança climática global"? Não nos Estados Unidos nem na Europa: a África é um objetivo particular para o biochar.

Convenientemente percebido como um continente com abundante terra disponível esperando pelo "desenvolvimento", a África já está experimentando apropriação massiva de terras para a produção de agrocombustíveis e investimento agrícola estrangeiro. As comunidades indígenas, florestas, recursos hídricos e produção de alimentos têm tido grande impacto de deslocamentos, insegurança alimentar e conflitos da terra que se acrescentam aos impactos da mudança climática.

Apesar de que o biochar não está às claras em posição de obter o credenciamento da UNFCCC (Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática) como uma solução para a mudança climática, a atmosfera de urgência climática faz com que os defensores desta solução tecnológica reducionista esperem que seu produto será rapidamente admitido no mercado do carbono e ganhará credenciamento através das negociações internacionais sobre clima. E o circo climático poderia gostar do produto.

(Fonte de informação: “Biochar Land Grabbing: the impacts on Africa”, em http://www.gaiafoundation.org/documents/Biochar%20Africa%20briefing.pdf)

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- Um monte de acrobacias: navios de nuvens, espelhos do espaço, mares com pó de ferro e similares 

Agora chegam os acrobatas. A comissão de peritos do Centro de Consenso de Copenhague está trabalhando muito para avaliar soluções realmente verdadeiras para alterar o alterado clima. Vejamos.

Os "navios de nuvens" salientam como uma das mais econômicas e viáveis: 1.900 navios movidos pelo vento, não tripulados, dirigidos por satélite trilhariam os oceanos absorvendo água do mar e pulverizando minúsculas gotas dela através de altas chaminés para criar grandes nuvens brancas. Prediz-se que essas nuvens refletiriam aproximadamente um ou dois por cento da luz do sol que de outra forma aqueceria o oceano. Reconhece-se que o plano poderá afetar os padrões de chuvas e a solução é colocá-los bastante longe da terra, apesar de que não dos ecossistemas marinhos...

Essa "brilhante" idéia custaria somente USD 9 bilhões para ser testada e seria lançada daqui a 25 anos. Uma pechincha. Outros projetos incluem o envio de espelhos ao espaço por foguete para desviar os raios do sol, o espalhamento de pó de ferro nos mares para aumentar o plâncton que absorve CO2, arremedando os efeitos de erupções vulcânicas para a proteção dos raios do sol com uma neblina química e criando um efeito de esfriamento global que pode durar por mais de um ano. Todos eles têm sido descartados como inviáveis e custosos. Imaginem!

O diretor da comissão de peritos de Copenhague, Bjorn Lomborg, tem pensamentos claros e felizmente fala com sinceridade. Ele acha que os planos poderiam provar que há melhores formas de abordar a mudança climática que simplesmente reduzir as emissões de CO2: "Precisamos ter um debate sobre todas as opções, não apenas a politicamente correta de redução de CO2.”

Não podemos fazer outra coisa que citar alguns comentários sobre esta notícia em telegraph.co.uk (http://tiny.cc/pYlIv) que refletem os sentimentos que essas "soluções" causaram em pessoas sensatas: "Brilhante: por que não tinha pensado nisso? Pulverizar água do oceano no ar para mitigar os níveis crescentes do mar e curar a obesidade? E meu plano somente lhes custará a vocês, contribuintes USD 230.000.000.000."

"Chamem-me de estúpido, mas não está Vênus coberta com nuvens? Nuvens que têm permitido que a temperatura da superfície aumente o suficiente para derreter chumbo." "Como vão proteger esses navios dos piratas somalis?OK, isso me fez rir. E se eu sou o único que pensou na 'Guerra nas Estrelas' ao ver isso, serei um triste panda.

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- O mercado de carbono: trapezistas sem rede

Não há nada melhor do que criar um problema para ganhar um negócio. Isso é assim, no mínimo, para os experientes homens e mulheres de negócios. Desse jeito, por trás das guerras surge o negócio armamentista. Por trás da insegurança cidadã, decorrente em grande medida de modelos de injustiça econômica e social, está o negócio da segurança: seguros, sistemas de vigilância, grades, alarmes e políticos "salvadores" que agem com mão de ferro. Por trás das doenças está o negócio da “saúde”: a indústria do medicamento e o poder médico corporativo. E por trás da mudança climática estão- como você já deve ter adivinhado: as empresas e os governos que com seu modelo de desenvolvimento extrativista, globalizado e consumista a provocaram. A partir da Revolução Industrial destamparam a caixa de Pandora dos combustíveis fósseis enterrados no subsolo durante milhões de anos e os liberaram na forma de gases de efeito estufa, provocando o reaquecimento da atmosfera da terra. Depois de muitos anos, foram comprovados os graves impactos que isto tem tido no clima. Mas eles não têm qualquer intenção de mudar, e acima de tudo querem fazer dinheiro. Aqui entram em cena os trapezistas.

O mercado de carbono, adotado pelo Protocolo de Kioto da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, é um sistema muito complexo que foi promovido por governos, instituições financeiras e empresas para enfrentarem a mudança climática. Baseia-se principalmente em tratar a capacidade do planeta para reciclar o dióxido de carbono, um dos gases principais de efeito estufa causadores da mudança climática, como um novo recurso escasso que é transformado em mercadoria, recebe um preço e é vendido a quem fizer o maior lance. Isso evita que empresas e governos cumpram verdadeiramente o objetivo de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Assim,  aposta-se em uma “solução de mercado”, quer dizer, em criar sistemas de compra e venda de carbono que é dividido em unidades mensuráveis.  Ao mesmo tempo, a mudança climática é uma “oportunidade” para o negócio. E com ela aparecem os trapezistas, balançando-se em seus mercados, fazendo piruetas no ar. As piruetas são de tal jeito que acabam cumprindo os objetivos de redução, sem que aconteça nenhuma redução!

A comercialização de carbono adota duas metodologias principais: o mecanismo batizado como ‘cap and trade’ e a “compensação”. (1)

No ‘cap and trade’ um governo ou autoridade central (como a Comissão Européia, por exemplo) estabelece um tope (cap) sobre a quantidade de gases de efeito estufa que pode ser emitida em uma área específica. Todas as empresas têm determinadas licenças de poluição (créditos de carbono) e aquelas que ultrapassarem o limite fixado podem comprar créditos daquelas que emitem menos. Até hoje, grande parte das licenças foram outorgadas de forma gratuita. O número de licenças concedidas é calculado de acordo com os níveis atuais de poluição por gases de efeito estufa, e assim aqueles que mais emitiram no passado, hoje são os mais recompensados pelo subsídio. É desta forma que opera o Sistema Europeu de Comércio de Emissões (ETS), atualmente o maior mercado de carbono.

A outra metodologia de comerciar o carbono é a “compensação”. Este sistema habilita empresas, governos, instituições financeiras internacionais e indivíduos- inicialmente de países do Norte- que realizam atividades poluidoras, a financiar em outro lugar- países empobrecidos do sul que “precisam” do “desenvolvimento”- projetos que supostamente permitem evitar emissões de carbono. Com isso supõe-se que estariam compensando as emissões- que de todas formas continuam fazendo. A fórmula é: eu contribui à mudança climática, eu pago a você para que você não o faça (supostamente), porém, eu continuo fazendo-o! Desculpe, e a redução? Assim funciona o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo administrado pelas Nações Unidas.

Vários agentes bursáteis e economistas da escola daqueles que estiveram por trás da recente crise financeira foram os ideólogos do mercado de carbono, que resultou ser um fracasso no tocante ao pretenso objetivo de enfrentar a mudança climática. De fato, desde sua criação fez o oposto a incentivar e reunir fundos para uma transição rumo a uma economia livre de combustíveis fósseis: não apenas permite que os principais poluidores de combustíveis fósseis driblem sua responsabilidade de realizar a imperiosa mudança estrutural senão que continua “exportando” esse modelo destrutivo a países do Sul. Um exemplo são os projetos de plantações de árvores em grande escala como “sumidouros de carbono”, ou para agrocombustíveis, que ocupam territórios, deslocam populações, acabam com ecossistemas.

Por outro lado, a mercantilização das emissões de carbono tem gerado um novo “colonialismo climático”. O comércio de carbono constitui uma forma de privatização do ar limpo, da atmosfera e a privatização da licença para poluir. Aqueles que puderem pagar, podem comprar “licenças” para contaminar o ar de outros.

Outras propostas, como o uso de biochar, energia nuclear e idéias fantasiosas como as referidas em alguns artigos deste boletim, vêm sendo seriamente consideradas em diversos sistemas de comércio de carbono. O investidor multimilionário George Soros disse com clareza: “É possível especular com o sistema; é por isso que empolga a caras das finanças, como eu- porque é lá onde se encontram oportunidades financeiras”.

Além da insensatez e irresponsabilidade desses trapezistas que se lançam- e nos lançam- alegremente no ar e sem rede, a tragédia é que criam enteléquias, como os "créditos de carbono" ou a "compensação" de emissões, e fazem que o mundo acredite que funcionam como mercadorias. Ou que funcionam sequer. Assim foram montadas estruturas perspicazes que incluem economistas e prêmios Nobel e que são alimentadas por volumosas quantidades de dinheiro, em torno de uma enorme incoerência. A incoerência surge de equiparar as emissões de carbono da biosfera (dos vegetais, o solo, os oceanos, os animais e os humanos), cujo carbono manteve-se circulando em equilíbrio desde que a vida humana começou no planeta, com as emissões de carbono dos combustíveis fósseis, o carbono subterrâneo que irrompeu na atmosfera há uns 200 anos e alterou esse equilíbrio. Esse carbono simplesmente não pode ser devolvido às profundezas da terra por enquanto. (2) E todas as propostas feitas desde o mercado do carbono colocam tudo no mesmo saco sem contemplarem a medida de deter a origem do problema: a extração de combustíveis fósseis.

A solução do mercado de carbono está muito longe de ser a verdadeira solução para a mudança climática: encontrar para a humanidade as formas de manter por baixo da terra o que resta dos combustíveis fósseis e reorganizar os sistemas de energia, transporte e moradia das sociedades industriais!

(1)       “Carbon Trading. How it works and why it fails”, Tamra Gilbertson e Oscar Reyes, Dag Hammarskjöld Foundation, novembro de 2009,
(2)       http://www.dhf.uu.se/pdffiler/cc7/cc7_web.pdf
(2) “An Introduction to Carbon Trading”, European Youth for Action, http://eyfa.org/eyfa_newsletter/carbon_trading

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- Carbono neutro em um passe de mágica

É incontestável o fato de a temática da mudança climática ter atingido a opinião pública. Mas geralmente fica só nas manchetes e o comum das pessoas tende a achar que é certo que se aproxima um grande problema mas que a ONU está trabalhando para resolvê-lo, e que com certeza a ciência inventará alguma coisa.

É então que os organismos especializados desenham “cenários”, modelos, projeções, complexas fórmulas que apresentam o assunto de forma asséptica e despolitizada, sem abordar a origem do problema: o consumo de combustíveis fósseis. No entanto, são inventadas fórmulas que distraem e adiam as soluções. É o que acontece com a idéia de que é possível ser "carbono neutro": os mágicos do circo colocam – botam toneladas de dióxido de carbono em suas cartolas que depois são mostradas vazias para o público aplaudir.

O negócio funciona assim: propõe-se a empresas ou indivíduos que podem zerar as emissões de carbono que emitem com suas diversas atividades (sua “pegada de carbono”). Para isso basta com pôr dinheiro em projetos que supostamente reduziriam da atmosfera a mesma quantidade de carbono que emitem. Isso se tornou outro "filão de mercado".

A empresa The Carbon Neutral Company tirou proveito disso. Em seu site oferece um sistema para calcular a “pegada de carbono” das diversas atividades de indivíduos ou empresas: as emissões das viagens de avião, de carro ou no transporte público, ou por consumo de energia, calefação, etc. Todas essas atividades que o interessado especifica dão um resultado que é medido em toneladas de emissões de dióxido de carbono. Eis aí o sinal delator! Mas não dá para desesperar nem para pensar em alterar o estilo de vida, porque a empresa oferece a solução: para “neutralizar” essas emissões basta com investir determinada quantia de dinheiro- que também surge do cálculo- em alguns dos projetos de seu portfólio. Um setor desses projetos é, obviamente, o reflorestamento com plantações de monoculturas de árvores.

Mas, assim como o ato da cartola, isso é um truque!. Como já argumentado pelo autor Kevin Smith, não apenas é impossível avaliar com precisão a quantidade de CO2 que absorvem as árvores como também e fundamentalmente o carbono fóssil encerrado nas profundezas da terra difere totalmente do carbono que faz parte do ciclo do carbono vivo. Toda vez que são queimados combustíveis fósseis, o carbono encerrado torna-se carbono ativo. Não é possível, porém, fazer o procedimento inverso. O carbono fóssil liberado pode ser retido durante um tempo na madeira de uma árvore, mas no longo prazo, quando essa madeira queimar ou se decompor, esse carbono acabará liberando-se novamente na atmosfera, acrescentando-se ao carbono ativo.

A compensação de emissões de carbono é um engano. Os mágicos do carbono neutro querem fazer negócios gerando um estado de complacência e o que é mais grave é que com isso contribuem a adiar a tomada de consciência para a necessária adoção de medidas drásticas que detenham a mudança climática.

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VOZES SENSATAS


- Declarações relevantes para a abordagem da crise do clima

Mesmo quando tudo parece apontar que o futuro do clima do planeta está nas mãos de uma troupe circense,  sempre existe a possibilidade de tornar a recuperar o senso comum, isto é, o senso da gente comum.

E é justamente daí, dos grupos de base, organizações sociais, ONGs e de pessoas sensatas de onde nasce o impulso e a força para propor, denunciar e espalhar as palavras que irão acordar a sociedade mundial para ela exigir a aqueles que são responsáveis pelas políticas públicas que ajam à altura da gravidade .... da mudança climática.

- A Via Campesina: camponeses e camponesas esfriam a Terra!
Camponeses e camponesas do mundo inteiro irão se reunir em Copenhague em dezembro a fim de defenderem sua proposta para solucionar a crise da mudança climática. A agricultura camponesa sustentável e a produção local de alimento estão, de fato, esfriando a terra. A agricultura camponesa permite o seqüestro do CARVAO no solo e necessita menos maquinaria movida a combustíveis fósseis e insumos químicos. (http://www.viacampesina.org/main_en/index.php?
option=com_content&task=view&id=811&Itemid=75/
)

- RECOMA: Façam algo a sério pelo clima! E parem as monoculturas de árvores!
Há 17 anos que há acordo em nível internacional em que a crise climática é um problema grave e que devemos fazer algo. As duas medidas simples que podiam tomar-se exigiam deter a extração de combustíveis fósseis e parar o desmatamento. Ano trás ano o problema se tem agravado. (http://www.wrm.org.uy/COP15/RECOMA.pdf)   

- Mulheres da Ásia unidas pela mudança climática : Conferências Climáticas para as necessidades das pessoas, não para a ambição corporativa
We, women, environmental, indigenous people's and women’s rights organizations from Mongolia, Pakistan, Philippines, Sri Lanka, Thailand and other Asian countries today unite by unfurling a giant collaborative quilt on the impacts of global warming on Asian communities and the people's responses to these problems in front of the United Nations ESCAP building for the ongoing United Nations Framework Convention on Climate Change intersessional meeting. (http://www.climatechangeaction.net/blog/asian-womens-quilt-
climate-change-climate-talks-peoples-needs-not-corporate-greed
)

- Declaração de mulheres na Ásia sobre a Mudança Climática
We, the indigenous, peasant, fisher, labour, rural and urban women, face the bulk of negative impacts of climate change and the false solutions offered to us. We produce and provide food; work inside and outside homes to augment our family income and are often the principal income earners; and through our productive and reproductive labour, ensure the welfare of our families and communities. (http://www.gendercc.net/fileadmin/inhalte/Bilder/UNFCCC_conferences
/Road_to_Copenhagen/Asian_Women_Declaration_on_Climate_Change.pdf
)

- Justiça Climática Já! Falsas soluções climáticas em Barcelona, novembro de 2009
The international civil society network Climate Justice Now! deplores the downplaying of expectations for the Copenhagen Climate Summit in Barcelona by industrialized countries, UNFCCC officials and the host of the Copenhagen Summit.   (http://www.twnside.org.sg/title2/climate/info.service/2009/climate.change.20091103.htm

- Declaração do Climate Vulnerable Forum, que inclui os 11 países considerados como os mais vulneráveis à mudança climática: Maldivas, Kiribati, Bangladesh, Nepal, Vietnã, Gana, Quênia, Tanzânia, Barbados e Butão.
We, Heads of State, Ministers and representatives of Government from Africa, Asia, Caribbean and the Pacific, representing some of the countries most vulnerable to the adverse impacts of climate change
(http://dotearth.blogs.nytimes.com/2009/11/10/fresh-demands-from-front-line-states-in-climate-fight/

- Declaração de Quito: resistência, viver bem, conviver bem
Mujeres y hombres de diversas organizaciones y redes (nos reunimos) para escuchar, conversar y debatir acerca de la estrecha relación que hay entre los proyectos de energía, la deuda externa y ecológica, el cambio climático, el despojo de los territorios, la represión y la resistencia. (http://www.deudaecologica.org/Noticias/DECLARACION-DE-QUITO-
Resistencia-Buen-Vivir-Buen-Convivir-ASAMBLEA-INTER-REDES.html
)

- Memorando ao governo da Índia por parte de organizações sociais indianas 
We, the undersigned people’s organisations, social movements, trade unions and concerned citizens, submit this memorandum to the Government to draw your attention to the several urgent and so far unaddressed concerns about the climate crisis and the Indian Government’s response to them, especially in light of the upcoming 15th Conference of the Parties (COP) of the United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) at Copenhagen from 7-18 December 2009.
(http://www.wrm.org.uy/COP15/MEMORANDUM.pdf)

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ABRINDO O DEBATE


- A política da mudança climática - o gênero faz uma diferença?

As negociações internacionais sobre a proteção do clima global têm sido vagarosas, com resultados deficientes. O debate começou há mais de 20 anos, articulando o objetivo de atingir 20 por cento em reduções de emissões de CO2, e acabou no Protocolo de Kyoto, com um simples 5 por cento -e até isso tem sido questionado uma e outra vez.

Este capítulo é escrito desde nossa perspectiva de expertos em gênero e ativistas da sociedade civil que trabalhamos para atingir a consciência em assuntos de gênero e mudança climática e para integrar considerações de gênero na elaboração de políticas sobre mudança climática, particularmente em nível internacional. Temos sido ativos nesta área e no discurso mais amplo de gênero e desenvolvimento sustentável pelos passados mais de dez anos, e fundamos a rede GenderCC -Women for Climate Justice (Mulheres para a Mudança Climática). GenderCC está conectando mulheres e expertos em gênero do mundo inteiro, fornecendo informação e desenvolvimento de capacidades sobre esses assuntos, bem como informação sobre o processo de engajamento político, para atingir a incorporação de gênero na elaboração de políticas relacionadas com a mudança climática, através de um maior conhecimento e participação ativa na tomada de decisões.

A qualidade da elaboração de políticas permanecerá inaceitavelmente baixa, se o discurso não considerar os assuntos de gênero, incluindo importantes diferenças entre a experiência das mulheres e dos homens.  Se a inclusão do impacto social dos compromissos e objetivos de proteção do clima e políticas de mitigação e adaptação na agenda ampliar o debate e transformar ele numa discussão dentro dos princípios de sustentabilidade, então isso também fornecerá pontos de entrada para considerações de gênero.

Ampliar o debate pode ter os seguintes efeitos positivos para a proteção do clima:

• O debate sobre mudança climática tem sido muito estreito, focalizado nos efeitos econômicos da mudança climática, eficiência e problemas tecnológicos. No entanto, seria melhor se as políticas e medidas que visam a mitigar a mudança climática estivessem baseadas em um entendimento mais holístico da percepção humana, dos valores e escolhas comportamentais. Isso incluiria considerar as características específicas para diferentes grupos na sociedade, incluindo mulheres e homens. Se as políticas fossem adaptadas para responderem aos interesses e necessidades tanto das mulheres quanto dos homens e para fomentar o objetivo da igualdade de gênero, serão mais efetivas -por exemplo, a realização de campanhas para a eficiência energética deveria envolver a consideração de quem usa que aparelhos e com que fins.

• Considerar uma variedade de perspectivas desde diferentes grupos sociais levaria a melhores medidas e mecanismos -isto é, soluções que reflitam os interesses, não apenas dos poderosos, mas também de grupos menos influentes, cujas vozes são raras vezes ouvidas em conferências internacionais.

• Se os termos do debate forem ampliados para incluir o impacto social da mudança climática, isso atrairia representantes de organizações de mulheres para participarem no processo de política e influenciar o debate.

• Incluir diferentes vozes, e finalmente desenvolver uma política que seja mais apropriada e portanto mais efetiva, também melhoraria o reconhecimento e a aceitação do processo de política internacional pelo público em geral.

Levar em conta uma perspectiva de gênero sobre mudança climática nas negociações também poderia permiti-nos evitar possíveis efeitos negativos das medidas de mudança climática e mecanismos sobre a igualdade de gênero. Por exemplo:

• Os instrumentos baseados no mercado podem afetar as mulheres em formas diferentes aos homens, em virtude das diferenças nos níveis de renda, e no acesso aos mercados e serviços. Essas políticas necessitariam ser desenhadas muito cuidadosamente, e estar instruídas por uma análise de gênero completa, para evitar piorar a desigualdade de gênero.

• Os compromissos feitos para reduzir o carbono emitido por unidades familiares podem ter um impacto adverso sobre a igualdade de gênero. A divisão do trabalho por gênero e os estereótipos sobre as funções de mulheres e homens, levam a um volume de trabalho desproporcionado no lar feito por mulheres. Os requisitos de que as unidades familiares deveriam utilizar menos energia teriam portanto mais impacto sobre as mulheres. Em geral, as unidades familiares são as instituições da sociedade com a menor influência e representação de seus interesses no contexto das negociações do clima.

• As soluções tecnológicas nem sempre são as soluções preferidas pelas mulheres: 'mais rápido, maior, mais' são princípios bastante masculinos, que a gente pode também achar no processo de política de mudança climática. As mulheres tendem a acreditar que as soluções técnicas, como por exemplo, o maior desenvolvimento dos agrocombustíveis, ou a captura e armazenagem de carbono não são suficientes para satisfazer os requisitos do desenvolvimento de uma economia com pouco carbono.

Em conclusão, os instrumentos e medidas de proteção do clima têm potencial para exacerbar as desigualdades existentes, se não considerarem totalmente as diferenças de gênero e as relações de gênero. No entanto, ao integrar considerações de gênero, esses instrumentos e medidas podem realmente contribuir com o aumento da igualdade de gênero.

Extraído e adaptado de “Engendering the climate-change negotiations: experiences, challenges, and steps forward”, Minu Hemmati e Ulrike Röhr, capítulo 13 de “Climate Change and Gender Justice”, publicado por Practical Action Publishing em associação com Oxfam GB, 2009.

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