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NOSSA OPINIÃO
-
Mudança climática: uma total violação
dos direitos humanos
O que é chamado elegantemente
como “mudança climática” é,
na realidade, uma das mais severas violações de
direitos humanos que já aconteceu na história.
É um crime contra a toda a Humanidade.
Há pessoas que estão
morrendo, ficando sem seu lar, ou sofrendo pela fome e a subnutrição
em decorrência das mudanças nos padrões
climáticos. Países inteiros -em particular os
pequenos estados-ilhas- vêm testemunhando os impactos
do aumento do nível do mar que pode fazer com que eles
desapareçam sob a água em um período de
poucos anos. As pessoas que vivem em áreas baixas próximas
dos oceanos estão enfrentando a mesma ameaça.
As comunidades que vivem em áreas montanhosas estão
testemunhando o derretimento do gelo e da neve que garante seu
suprimento de água e suas atividades produtivas ao longo
do ano.
A mudança climática
não está apenas “acontecendo”; é
o resultado de um modelo econômico socialmente injusto
e ambientalmente destrutivo imposto por uma minoria empresarial
no planeta inteiro. A mudança climática é
um crime que vem sendo cometido por um grupo de corporações
extremamente poderoso em aliança com governos também
muito poderosos que fornecem impunidade para elas.
O que faz que a problemática
seja ainda mais drástica é que inclusive sob a
hipótese de os responsáveis concordarem em adotar
imediatamente as medidas necessárias para evitar uma
mudança climática maior, os direitos humanos básicos
de milhões de pessoas continuarão sendo violados
em decorrência dos padrões climáticos já
alterados. Por citar alguns deles:
- O direito a alimentos
e água: a crescente ocorrência de secas catastróficas,
inundações e temperaturas extremas irão
destruir a produção agrícola e irão
limitar o acesso à água para consumo humano, limpa
e suficiente.
- O direito à saúde:
subnutrição, ondas de calor, frio extremo e novas
doenças decorrentes da mudança ambiental irão
impactar na saúde humana, e em muitos casos levarão
até a morte.
- O direito a viver em suas
próprias terras: milhões de pessoas irão
ser afastadas de suas terras natais devido aos impactos relacionados
com o clima, e irão tornar-se refugiados ambientais.
- O direito à vida:
a crescente ocorrência de eventos climáticos catastróficos
tais como ciclones, furacões, tornados, enchentes irão
provocar milhões de mortes.
. O direito à paz:
situações desesperadoras decorrentes da mudança
climática irão resultar em conflitos civis, repressão
e inclusive guerras.
Entre os muitos milhões
de pessoas cujos direitos serão violados em decorrência
da mudança climática, grande parte do sofrimento
deverá ser carregado por aqueles que não tiverem
recursos para se protegerem contra os eventos relacionados com
o clima. Apesar de a maioria deles viver no Sul, os impactos
irão afetar desproporcionalmente grupos vulneráveis
em cada país do mundo.
Em vez de mudar o rumo para evitarem a crescente mudança
climática e o sofrimento humano decorrente, os criminosos
do clima estão promovendo “soluções”
que violam os direitos de muitas mais pessoas e ao mesmo tempo
possibilitam que continuem seus negócios -e a destruição
climática- como sempre. Os exemplos a seguir podem ilustrar
isso:
- A promoção
de agrocombustíveis como substitutos dos combustíveis
fósseis. Essa “solução” implica
a apropriação de vastas áreas de florestas
e terras agrícolas para serem dedicadas à cana-de-açúcar,
soja, dendê, jatrofa, eucaliptos e outras culturas para
a produção de agrodiesel e etanol que serão
usados como combustíveis. Como resultado, são
violados diversos direitos humanos, tais como o direito a alimentos,
água, saúde, medicinas, biodiversidade, territórios,
cultura.
- A promoção
de energia hidrelétrica como substituto dos combustíveis
fósseis. Essa abordagem resulta na construção
de enormes barragens hidrelétricas que inundam extensas
áreas de florestas e terras agrícolas e que impactam
pesadamente nas populações de peixes. As comunidades
locais não apenas perderão seus meios de sustento
como também serão forçados a migrar já
que suas terras ficarão submersas sob os reservatórios
das barragens. Assim seus direitos -ao sustento e a viver em
seus territórios- são violados, junto com um grande
número de direitos humanos básicos.
- A promoção
dos reservatórios de carbono e sumidouros de carbono
para capturar o dióxido de carbono emitido pelos combustíveis
fósseis. Isso implica a tomada de controle das florestas
comunitárias -definidas como reservatórios de
carbono que precisam ser preservados- ou a apropriação
de suas terras para plantarem árvores que sirvam para
os chamados sumidouros de carbono. Não precisa dizer
que o resultado é a violação de um grande
número de direitos humanos.
Tudo o que foi acima expressado
mostra só um panorama parcial da violação
de direitos humanos relacionada com o clima. O panorama na íntegra
é bem pior e pode tornar-se ainda mais drástico
se os criminosos do clima são permitidos de continuar
destruindo o clima da Terra. Não se trata de uma questão
que possa ser deixada nas mãos dos "especialistas",
muitos deles têm sido e continuam sendo cúmplices
daqueles responsáveis pelo crime.
Nesse contexto, as mulheres
têm um papel importante. Apesar de ser verdade que as
mulheres são as mais afetadas pela mudança climática,
é igualmente verdade que elas são também
catalisadoras chaves para uma mudança positiva. Seu conhecimento
e experiência são fundamentais para a mitigação
bem-sucedida da mudança climática, bem como para
a adaptação à mudança climática.
O que está em jogo
nada mais é que o direito desta e das futuras gerações
a ter um planeta habitável. Esse direito humano básico
-do qual dependem muitos outros direitos- precisa ser imposto
pelos indivíduos -homens e mulheres- organizados no mundo
todo.
O clima precisa ser devolvido
para as mãos dos povos antes que seja tarde demais.
inìcio
MUDANÇA CLIMÁTICA E DIREITOS HUMANOS
- Colômbia: plantações
de dendezeiros, violações de direitos humanos
e auto-dignificação de comunidades afrodescendentes
Ao se falar de violação
dos direitos humanos, não é possível deixar
de falar da Colômbia. Ao se falar da brutal expansão
das plantações de dendezeiros em territórios
comunitários, não é possível deixar
de falar da Colômbia. Lá, os dois assuntos vão
de mãos dadas.
Diante da crise da mudança
climática, uma das respostas é a promoção
dos agrocombustíveis, e entre eles do dendezeiro. O que
se vê por trás dessa proposta é que, por
um lado, deixa inalteradas as formas insustentáveis de
produção, comercialização e consumo
que têm nos levado a este ponto crítico, e por
outro, o dendezeiro não seria um combustível "verde"
senão "vermelho", porque vem manchado de sangue.
As bacias do Curvaradó
e Jiguamiandó, na região do Chocó biogeográfico
colombiano, foram declaradas reserva natural em 1959. No entanto,
em 1996, o exército e os paramilitares iniciaram uma
ofensiva na região que permitiu a expansão do
agronegócio de dendeicultores, pecuaristas e madeireiros.
O dendezeiro e a exploração
pecuária espalharam-se em mais de 23 mil hectares do
território coletivo de comunidades afrodescendentes.
A Força Pública agiu, em ações diretas
ou sob a estratégia paramilitar, provocando centenas
de crimes -mais de 140 vítimas de assassinatos e sumiços
forçados-, pilhagem e destruição de bens,
perseguição, ameaça e abandono forçado
de terras.
Organizações
de direitos humanos e familiares de desaparecidos dão
uma cifra, para toda a Colômbia, de uns 4 milhões
de pessoas deslocadas de suas terras por operações
armadas nos últimos 15 anos e mais de 15 mil sumiços
forçados. Cerca de 7 milhões de hectares de terras
foram tomadas ilegalmente por paramilitares ou traficantes de
drogas nesse período, a maior parte das vezes depois
de ter forçado o deslocamento dos moradores.
Essas práticas de
terrorismo estatal e paramilitar fazem parte de uma estratégia
que busca não apenas a usurpação de um
território como também a instauração
de processos destrutivos. Nas bacias do Curvaradó e Jiguamiandó,
a apropriação de terra foi acompanhada com o desmatamento
intensivo de floresta primária em mais de 10 mil hectares,
a desertificação de cinco rios, a contaminação
de cursos de água com os agrotóxicos usados nas
plantações de dendezeiros que provocaram também
alterações especialmente graves na saúde
de mulheres e crianças.
Há mais de 120 anos
a abolição da escravatura provocou uma diáspora
conhecida como o Chocó Bio Pacífico. As pessoas
assentaram-se em florestas úmidas, espaços e lugares
de profunda beleza, de multiplicidade de espécies de
plantas e ervas, aves, borboletas, flores, animais silvestres,
vegetação primária de árvores, insetos.
Os lugares tornaram-se verdadeiros espaços de liberdade
onde se misturaram com povos indígenas e posteriormente
com mestiços. E finalmente conformaram-se como povo tribal,
reconhecido como tal já que têm “estilos
de vida tradicionais, cultura e forma de viver diferente de
outros setores da população nacional, e organização
social própria e costumes e leis tradicionais”
(1). Reconhecem-se como membros de uma “comunidade negra”,
e “afrocolombianos” ou “afrodescendentes”.
Esta identidade própria
abrange elementos relacionados com a pertença à
comunidade, articulado pelo rio e arraigada em um território
ancestral cuja relação é quase umbilical:
o território é mãe e pai porque
dele recebem todos os benefícios. É concebido
como um tecido integral que implica não só a terra
senão também a vida de seres humanos, rede
social, organização comunitária, formas
de subsistência, resolução de conflitos
internos, mobilidade diante de eventos que atentem contra suas
vidas e uma relação própria com a biodiversidade.
Seu território garante seus costumes e sua forma de viver,
a propriedade comunitária e a proteção
ambiental.
O desterro forçado,
por tanto, constitui uma violação da integridade
de sua existência e tem provocado lesões em nível
pessoal, familiar, coletivo, nas práticas sociais e culturais,
suas formas de habitação e de ocupação
territorial, seus modos de relacionamento com a terra, os animais,
a água, a cozinha, a organização e a relação
com os de fora.
Mas diante das violações
múltiplas de seus direitos humanos, mesmo em meio do
conflito armado interno e da implementação de
obras de infra-estrutura e agronegócios ilegais e criminais,
as comunidades de afrodescendentes têm desenvolvido processos
inovadores de resistência civil nas Zonas Humanitárias
e Zonas de Biodiversidade.
As Zonas Humanitárias
são lugares habitados por um grupo humano que afirma
seus direitos como população civil. Esses lugares
específicos de proteção da Vida - tanto
humana quanto coletiva e dos ecossistemas- são um meio
de retornar ao território e de enfrentar as pretensões
das estruturas criminais. Seus membros partilham livremente
um Projeto de Vida para se defenderem da militarização
institucional e da possibilidade de ser vítimas de eventuais
confrontações armadas.
As Zonas de Biodiversidade
são áreas de proteção e de recuperação
de ecossistemas de Territórios Coletivos ou privados
e de afirmação do direito à alimentação
de grupos familiares cujas parcelas foram arrasadas ou estão
em risco de ser destruídas por agronegócios, obras
de infra-estrutura ou exploração de recursos naturais.
Desde esses lugares, as comunidades exercem a livre expressão,
a discussão democrática que inclui mulheres e
crianças e modos de produção que garantam
a soberania alimentar. Recuperam e reparam seus territórios.
Enquanto na cimeira do clima
são promovidos todo tipo de mecanismos -REDD, agrocombustíveis,
geo-engenharia e outros- para adiarem a verdadeira medida que
cedo ou tarde deverão adotar, e que consiste em deter
a extração de combustíveis fósseis,
com a recuperação de seus territórios das
mãos do agronegócio e os mega empreendimentos,
estas comunidades contribuem verdadeiramente para frear a mudança
climática.
Em tempos de violações
em massa dos direitos humanos, de ecocídios, a começar
pela própria mudança climática, estas comunidades
colombianas criminalizadas, marginalizadas, estigmatizadas dão
testemunho de seus direitos em um exercício autônomo
e libertário de dignificação.
1. Artigo 1.1 do Convênio
169 da OIT e Convênio Número 169 sobre povos indígenas
e tribais: um manual, Projeto para promover a política
da OIT sobre povos indígenas e tribais, Genebra, 2003,
pág.7.
Extraído e adaptado
dos relatórios: “Resiliencias colectivas. Se mata
con hambre, se mata con balas, y se quiere matar el alma”,
Danilo Rueda, Comisión de Justicia y Paz, http://tiny.cc/rbqAT;
e “Derechos Humanos y Palma Aceitera Curvaradó
y Jiguamiandó”, De Ver 236, http://colombia.indymedia.org/news/2006/02/37083.php
inìcio
- Congo: projetos de areias
betuminosas e de dendezeiros ameaçam comunidades locais
e minam os esforços para enfrentar a mudança climática
A petroleira italiana Eni
está entre as dez maiores companhias energéticas
do mundo e atualmente é a maior da África. A companhia
também está ranqueada como a companhia de gás
e petróleo mais “sustentável” do mundo.
Em setembro, no Fórum de Lideranças sobre Mudança
Climática das Nações Unidas em Nova York,
o diretor da Eni, Paolo Scaroni, anunciou: “Já
passou a época em que nós podíamos pensar
no petróleo como um insumo barato para o crescimento
social e econômico, deduzindo o impacto no ambiente e
nas gerações futuras”.
No entanto, o entusiasmo
da Eni para promover suas novas credenciais de sustentabilidade
nas reuniões internacionais apresenta-se de forma constrangedora
ao lado dos planos da companhia de investir bilhões de
dólares em desenvolvimentos de areais betuminosas e dendezeiros
para alimentação e biodiesel na República
do Congo (também chamado Congo Brazzaville). Os grupos
locais da sociedade civil e suas organizações
parceiras acreditam que os investimentos da Eni em areais betuminosas
e dendezeiros apresentam altos riscos, em termos de seu potencial
para causar prejuízos sociais e ambientais no Congo e
globalmente, devido ao contexto do Congo e a experiência
de tais projetos em outros lugares.
Esse seria o primeiro projeto
de areias betuminosas na África, e o projeto de agrocombustiveis
em 70.000 hectares de terras “não cultivadas”
seria também um dos maiores no continente.
As areias betuminosas têm
sido chamadas como a forma de petróleo “mais suja”.
A extração de alcatrão ou betume e seu
processado em cru sintético é um processo custoso
e extremamente intensivo no uso de água e energia. A
produção de um barril de petróleo a partir
de betume é aproximadamente de 3 a 5 vezes mais intensiva
em termos de emissões de gases de efeito estufa que a
produção de um barril de petróleo convencional.
Em Alberta, Canadá, o único lugar onde as áreas
betuminosas estão sendo atualmente desenvolvidas, houve
desmatamento da floresta boreal do Canadá, esgotamento
da água e contaminação, causando
preocupação a respeito dos impactos na saúde
das comunidades indígenas que vivem nas proximidades
dos desenvolvimentos, tais como maiores incidências de
câncer. O Canadá tem atualmente a emissão
mais alta per capita entre os países do G8, e está
sendo criticado cada vez mais por bloquear as ações
para enfrentar a mudança climática. Muitos grupos
da sociedade civil, residentes locais e cientistas estão
exigindo agora uma moratória para novos investimentos
de areias betuminosas no Canadá.
Os investimentos em plantações
de monoculturas de dendezeiros e outras lavouras para a produção
de agrocombustíveis são outra fonte importante
do desmatamento correspondendo a cerca de 20% das emissões
globais de gases de efeito estufa. Os objetivos introduzidos
pelos governos nacionais e pela União Européia
encorajaram essa expansão. Ao substituir as florestas
tropicas e outros ecossistemas, as plantações
de monoculturas levaram ao desmatamento e à perda de
biodiversidade. As mudanças que envolvem no uso das terras
também estão relacionadas com maior insegurança
alimentar, e com conflitos territoriais, abusos de direitos
humanos e ameaças às comunidades indígenas.
A sensibilidade ecológica
do Congo e seu governo deficiente aumentam os riscos dos investimentos
da Eni. As florestas cobrem mais de 60% do país, e fazem
parte da Bacia do Congo, sendo recursos chaves para a população
local, e um sumidouro de carbono gigante que tem um papel vital
na proteção de nosso clima. Contudo, o próprio
desempenho do Congo quanto à proteção do
ambiente e dos direitos humanos e quanto à transparência
no manejo dos recursos naturais do país é também
extremamente ineficiente. A despeito de décadas de riqueza
petroleira, o país ainda tem níveis muito baixos
de desenvolvimento humano, e altos níveis de repressão
e corrupção. Não existe nenhuma lei ambiental
que surta efeito, e as comunidades locais afetadas pela produção
de petróleo convencional têm reclamado durante
muito tempo pela falta de ação por parte das companhias
e o governo para abordarem os impactos sobre eles e seu sustento,
tais como níveis extremamente altos de queima de gás.
A Eni disse publicamente
que nenhum dos investimentos será levado a efeito nas
florestas tropicais ou em outras áreas de alta biodiversidade,
e que não envolverá reassentamento da população.
No entanto, um relatório interno da Eni que vazou mostra
que a companhia estima que a área de exploração
das areias betuminosas abrange de 50 a 70% de floresta primária
e outras áreas altamente sensíveis da biosfera.
Não há nada claro a respeito de quais tecnologias
a Eni usaria para extrair e produzir o betume, e por isso é
impossível predizer todos os impactos do projeto nos
recursos energéticos e hídricos do país.
Há incertezas semelhantes quanto ao projeto dos
dendezeiros, cuja localização exata é desconhecida.
Nenhum dos acordos assinados
entre a Eni e o governo congolês está disponível
publicamente, enquanto a pesquisa de organizações
congolesas de direitos humanos revelou uma falta quase total
de consciência pública a respeito dos investimentos.
Não houve nenhum engajamento significativo por parte
da Eni ou do governo com as comunidades locais a respeito dos
impactos potenciais dos projetos tanto sociais quanto ambientais.
Isso contradiz as políticas ambientais e de direitos
humanos da companhia, e viola a obrigação do governo
de proteger seus cidadãos.
Esse investimento põe
em dúvida as alegações tanto da Eni quanto
do governo congolês de estarem promovendo o desenvolvimento
sustentável do Congo. O governo italiano é um
parceiro chave e portanto, também tem responsabilidade
para garantir que qualquer investimento da companhia leve em
consideração os impactos potenciais sobre o ambiente,
o desenvolvimento e os direitos humanos. Grupos da sociedade
civil congoleses e internacionais estão exigindo agora
a paralisação dos projetos de areais betuminosas
e de dendezeiros e a revisão por parte da Eni de seus
processos de gestão ambiental e seu engajamento com a
comunidade no Congo.
Esse projeto também
levanta uma problemática mais ampla relacionada com os
custos reais de buscar projetos energéticos com
altas emissões de carbono nos países do Sul com
transparência mínima e proteção ambiental
e de direitos humanos. Essa questão torna-se ainda mais
importante devido à necessidade de abordar a descontrolada
mudança climática. Como o petróleo está
se esgotando, haverá um interesse cada vez maior em desenvolver
recursos petroleiros não convencionais -muitos deles
localizados no sul- e os chamados “renováveis”
tais como as monoculturas para agrocombustíveis. Como
no caso do projeto da Eni no Congo, tais investimentos deveriam
ser questionados por terem o potencial de causar prejuízos
irreversíveis para o ambiente e as comunidades locais,
e para nosso clima.
Este artigo é um
resumo de: Energy Futures? Eni’s investments in tar sands
and palm oil in the C ongo Basin, um relatório produzido
por organizações da sociedade civil congolesa
e internacional em novembro de 2009, disponível em inglês
no site: http://www.boell.de/ecology/climate-energy-7775.html
ou www.foeeurope.org/corporates/Extractives/Energy_Futures_eng.pdf
inìcio
- Soberania alimentar:
uma abordagem positiva para a mudança climática
Apesar de o planeta já
estar sofrendo os efeitos da mudança climática,
os grupos da sociedade civil tentam fazer soar o alarme sobre
o fato de o sistema atual de produção, comercialização
e consumo estar na raiz do problema.
A fim de contribuir para
o processo, o movimento camponês internacional La Via
Campesina ESTEVE PRESENTE na convenção sobre mudança
climática em Copenhague, com participantes vindos "dos
cinco cantos do mundo, deixando nossas terras, nossos animais,
nossa floresta e também nossas famílias nos povoados
e aldeias para nos unirmos a todos vocês." (1)
Eles enfatizaram que o modelo
de agricultura industrial e de agronegócio tem causado
desmatamento e transformação de florestas naturais
em plantações de monoculturas. Eles afirmam que
o atual sistema agrícola globalizado contribui para mais
da metade do total das emissões de gases de efeito estufa
no mundo, que resultam das cifras a seguir:
o
(i) As atividades agrícolas são responsáveis
por 11 a 15%
o (ii)
O clareamento de terras e o desmatamento causam de 15 A 18%
adicional
o (iii)
O processamento de alimentos, a embalagem e o transporte causam
de 15 a 20%, e
o (iv)
A decomposição de resíduos orgânicos
causa outros 3 a 4%
No entanto, os governos
presentes em Copenhague não estão falando da mudança
de tal sistema. Pelo contrário, as empresas do agronegócio
têm cadeira cativa nas reuniões sobre o clima e
suas propostas têm concluído em negociações
relacionadas com mecanismos de comércio de carbono, tais
como plantações de árvores em grande escala
em programas de reflorestamento.
“Os mecanismos de
comércio de carbono servirão só a países
e empresas poluidoras, e acarretarão desastres para os
pequenos agricultores e os povos indígenas dos países
em desenvolvimento. A iniciativa REDD (Redução
de Emissões do Desmatamento e a Degradação)
já expulsou de suas terras muitos povos indígenas
e pequenos agricultores em países em desenvolvimento.
E mais e mais terras agrícolas estão sendo transformadas
em plantações de árvores a fim de atrair
créditos de carbono”, alerta La Via Campesina.
Eles também denunciam
que, “as enormes emissões de metano por parte da
agricultura industrial devem-se ao uso de uréia como
fertilizante petroquímico durante a revolução
verde, apoiado fortemente pelo Banco Mundial. Ao mesmo tempo,
a liberalização do comércio agrícola
promovido pelos tratados de livre comércio (TLC) e pela
Organização Mundial de Comércio (OMC) está
contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa
devido ao processamento e transporte de alimentos no mundo todo."
A despeito disso, a FAO continua "vendendo" a revolução
verde sem ser questionada pela UNFCCC.
A agricultura industrial
não apenas contribui em grande medida para a mudança
climática, mas também viola os direitos humanos:
“Milhões de [agricultores] sofrem violência
a cada ano, em decorrência dos conflitos territoriais
na África, Ásia e América Latina. Os pequenos
agricultores e os sem-terra constituem a maioria do mais de
um 1 bilhão de pessoas que sofrem fome no mundo. E por
causa do comércio livre, muitos pequenos agricultores
se suicidam no Sul da Ásia. É por isso que colocar
um ponto final na agricultura industrial é o único
caminho em que nós podemos ir em frente”, disse
La Via Campesina.
Os governos que não
podem ou não pretendem abordar verdadeiramente as medidas
necessárias para deterem a mudança climática
são enfrentados pelos sem-terra e os pequenos agricultores
que têm uma proposta para a mudança climática
já apresentada na COP 13 em Bali, em 2007, e que foi
trazida novamente à tona na COP 15 em Copenhague: "a
agricultura sustentável em pequena escala está
esfriando a terra". A proposta está apoiada em cifras
que provam que, "podem ser reduzidas mais da metade das
emissões globais de gases de efeito estufa. Tais cifras
provêm de:
(I) Recuperar a matéria
orgânica no solo, o que reduziria as emissões de
20 a 35%.
(II) Reverter a concentração
de produção de carne em fábricas e reintegrar
a produção conjunta de lavouras e animais, o que
reduziria as emissões de 5 a 9%.
(III) Recolocar os mercados locais
e os alimentos frescos no centro do sistema alimentar com uma
redução adicional de 10 a 12%.
(IV) Deter o clareamento de terras e
o desmatamento, o que deteria de 15 a 18% das emissões.
Em resumo, ao tirar a agricultura dos grandes agronegócios
corporativos e ao devolvê-la às mãos dos
pequenos agricultores, nós podemos reduzir metade das
emissões globais de gases de efeito estufa.
“Esta é nossa
proposta, e nós a chamamos de Soberania Alimentar."
Tal proposta não
só ajudaria a “esfriar a terra”, como também
contribuiria fortemente para o bem-estar de milhões de
seres humanos cujos direitos vêm sendo violados diariamente
por empresas de agricultura industrial no mundo todo. E ainda
mais importante, contribuiria também para o direito da
presente e das futuras gerações a viver em um
planeta habitável.
(1)
“Por que deixamos nossas terras para vir a Copenhague”,
discurso de Henry Saragih, Coordenado Geral de Via Campesina,
na seção inicial do Klimaforum, no dia 7 de dezembro
de em Copenhague, http://www.viacampesina.org/main_sp/index.php?option=com_conte
nt&task=view&id=921&Itemid=
início
- Indonésia: plantações,
direitos humanos e REDD
Antes da chegada das plantações,
os moradores em Teluk Kabung na província Riau em Sumatra
cultivavam coco. Há alguns anos, milhares de hectares
de floresta nos arredores do povoado foram cortados e substituídos
por monoculturas de acácia para fornecer as operações
maciças [apague celulose e papel] da Ásia Pulp
and Paper. “Logo que eles cortaram as árvores nas
florestas, as pestes pulularam, e devoraram nossos coqueiros,”
disse um morador a Mitra Taj, um rádio-jornalista da
Living on Earth. Dúzias de coqueiros mortos jazem no
solo nas proximidades do povoado. A maior parte daquelas ainda
em pé são só troncos, sem folhagem das
palmeiras e sem cocos.
O desmatamento industrial
tem destruído o habitat do tigre de Sumatra até
o ponto de apenas haver aproximadamente 250 remanescentes. E
para esses restou tão pouca floresta que eles vagueiam
pelas plantações, povoados e lugares de corte.
Os tigres que acostumavam viver na floresta, agora estão
vindo para o povoado. Pelo menos dez pessoas foram mortas neste
ano.
“Isso me dá
vontade de gritar,” disse um dos moradores a Living on
Earth. “O único motivo pelo qual não estou
gritando é porque estou refreando a vontade. Nós
não temos mais nada. Às vezes eu não posso
sequer olhar para essa terra, porque não tenho esperança."
Os moradores estão
tentando encontrar uma solução e têm enviado
cartas para o parlamento, o chefe e o governador, mas não
receberam nenhuma resposta. Em primeiro lugar, os moradores
querem uma compensação. Depois eles querem dinheiro
para comprar pesticidas. Mas há outro problema. As plantações
deixaram os moradores sem terras para a próxima geração.
Os moradores estão
considerando agora plantar dendezeiro, já que eles esperam
que irá resistir as pestes. Eles pediram para o repórter
da Living on Earth entrar em contato com a APP e pedir ajuda
deles. Em Jakarta, a Living on Earth encontrou Ainda Greenbury,
diretor de sustentabilidade e compromisso com as partes.
“Sim, claro, nós sempre estamos interessados em
ajudar a comunidade”, ela disse. Greenbury falou a respeito
da importância de deixar corredores florestais para providenciar
habitat e deter os ataques de pestes e doenças. E, aparentemente,
foi isso.
A APRIL é a outra
gigante do papel e celulose que opera na província de
Riau. Entre elas, a APP e a APRIL possuem aproximadamente um
quarto da floresta remanescente na província. As atividades
da APRIL na Península Kampar revelam outro impacto das
plantações industriais de árvores. A madeira
da APRIL é transportada em enormes barcos até
a fábrica de celulose da companhia, PT Riau Andalan Pulp
and Paper (RAPP).
“Antes de a RAPP entrar
em nossa terra, nosso grupo de pescadores trabalhava pacificamente,
nada nos incomodava enquanto eles estavam pescando,” Pat
Akiat um pescador de Penyengat disse aos cineastas da LifeMosaic.
“Agora a pesca com rede é muito dura. A maior parte
de nossas redes são rasgadas pelos barcos. Em nosso grupo
a maioria deixou de pescar, porque nós temos medo.”
A rede de pesca de Pak Akiat
foi destruída há cerca de um ano. “Eu ainda
quero a compensação da RAPP, minha rede de pesca
está rasgada, “ ele disse. “Quero voltar
a pescar. Esse é meu sustento, minha única esperança.”
A Península Kampar
é abrigo dos povos indígenas Akit e Melayu. Agora
eles dependem da ajuda alimentar do governo. "Com tantas
companhias por tudo quanto é lado por que
95% de nosso povo é pobre? pergunta Anjianoro, um líder
comunitário em Penyengat, na filme da Life Mosaic. “As
companhias como a RAPP recrutam milhares de trabalhadores.Se
nós nos beneficiássemos de alguma delas, não
haveria pobreza aqui.”
Uma nova solução
a todos esses problemas está sendo atraída nos
encontros internacionais tais como as recentes negociações
sobre o clima das Nações Unidas em Copenhague:
Redução das Emissões do Desmatamento e
Degradação (REDD). “Nós estivemos
buscando uma oportunidade como essa durante décadas,”
Joe Leitmann do Banco Mundial em Jakarta disse a Living on Earth.
“Nós pensamos que com REDD é potencialmente
uma iniciativa revolucionária”. Obviamente,
Leitmann não disse nada a respeito do papel que o Banco
Mundial teve no financiamento da destruição da
floresta na Indonésia.
Com certeza, os problemas
são sérios. Só na província de Riau,
é provável que uma área de 1,6 milhões
de hectares de turfeiras e florestas sejam queimadas neste ano.
Mas exatamente como irá a REDD, essa iniciativa revolucionária,
mudar alguma coisa na realidade? A APP e a APRIL esperam conseguir
pagamentos REDD por não cortarem florestas em áreas
onde eles já têm licença para cortar. Não
há dúvidas que a APP pretenderá pagamento
por seus "corredores florestais". A APRIL planeja
plantar um anel de 150.000 hectares de plantações
de acácia ao redor da península Kampar e colocar
uma moratória no clareamento do coração
peninsular de 300.000 hectares. A APRIL antecipa grandes quantias
de dinheiro do carbono. Mas a APRIL não diz nada sobre
o sustento das populações locais. A companhia
sequer perde seu tempo em explicar às comunidades locais
da península Kampar a respeito de seus planos.
As pessoas que tiveram seu
sustento perdido das plantações industriais de
árvores têm algumas das menores pegadas de carbono
no mundo. A APP e a APRIL são responsáveis pelas
enormes emissões de gases de efeito estufa provenientes
da destruição das florestas e da drenagem das
turfeiras. Contudo REDD iria premiar a APP e a APRIL e não
fará nada para deter o atropelamento dos direitos humanos
básicos dos moradores.
Por Chris Lang, http://chrislang.org
O programa de rádio
da Living on Earth, “Where the Forest Ends”, está
disponível em: http://bit.ly/7hLN0j
O filme da LifeMosaic, “Eyes on the Kampar Peninsular”,
está disponível em:
http://bit.ly/5BWH01
início
- Quênia: direitos
dos Ogiek violados pela mudança climática e pelas
medidas para detê-la
O Complexo Mau- a maior
floresta do Quênia- tem sido o lar ancestral da comunidade
Ogiek. Apesar de ser extremamente importante no tocante à
captação de água, à regulação
microclimática e à diversidade biológica,
a floresta de Mau tem sido clareada regularmente para
o assentamento e a agricultura particular com o apoio das políticas
oficiais. A destruição da floresta tem minado
os direitos dos Ogiek ao sustento, a sua cultura e até
a um futuro.
Mas eles ainda tiveram que
sofrer mais. Há alguns anos, o governo cancelou todos
os títulos de propriedade emitidos para a floresta Mau,
com o objetivo de despejar mais de 100.000 Ogiek que viviam
na floresta (vide Boletins do WRM Nº 94 e 113), sob o argumento
de eles terem destruído a floresta.
A tendência de apropriação
de terras continua. Um relatório recente da Survival
International (1) mostra como "os povos indígenas
do mundo, que têm feito o mínimo para causar a
mudança climática e que são os mais afetados
por ela, agora estão tendo seus direitos violados e suas
terras devastadas em nome de tentativas para detê-la."
O relatório denuncia
o caso do Quênia, um país que neste ano tem sofrido
graves secas. Ao tempo que o governo tenta despejar os coletores-
caçadores Ogiek, que têm vivido de forma sustentável
na floresta Mau durante centenas de anos, apela para a comunidade
internacional a fim de obter financiamento para salvar a floresta
Mau citando a mudança climática como "uma
motivação chave".
O primeiro ministro Raila
Odinga colocou a culpa ‘no excesso descontrolado de má
gestão de nosso ambiente tanto global quanto localmente’
para o derretimento das calotas de gelo no Monte Quênia
e a destruição das florestas. Também anunciou
que eles pretendem ‘reverter os estragos’ do aquecimento
global, por exemplo, com o esforço do governo para salvar
a floresta Mau- despejando seus habitantes e guardiões
ancestrais, os Ogiek, que irão ficar sem seu lar!
O relatório cita
as palavras de Kiplangat Cheruyot, do Programa de Desenvolvimento
do Povo Ogiek: “Todos têm vivido com medo durante
o mês passado... As pessoas estão sofrendo pelo
despejo. O governo disse que não iria ter piedade de
ninguém."
Afinal, os Ogiek, que têm
provado viver em harmonia com a floresta durante milhares de
anos, que são os mais afetados pela destruição
de suas moradias na floresta e que não foram responsáveis
em absoluto pela mudança climática, serão
os que mais irão sofrer com as medidas que supostamente
são tomadas para deter a mudança climática.
O caso dos Ogiek no Quênia
é um claro exemplo de como a mudança climática
e inclusive as medidas para detê-la são um assunto
de direitos humanos. Ao longo dessas linhas o pedido de Justiça
Climática sobressai como um ingrediente necessário
de qualquer medida verdadeira para lidar com a mudança
climática.
(1) “The Most
Inconvenient Truth of All. Climate change and indigenous people”,
2009, Survival International, http://tiny.cc/4HL7
inìcio
- Energia hidrelétrica
no Mekong: as barragens podem bloquear o futuro de milhões
de pessoas
A energia hidrelétrica
é retratada geralmente como energia “limpa”
ou “verde” e como parte da solução
para evitar a mudança climática relacionada com
os combustíveis fósseis. No entanto, a energia
hidrelétrica patrocinada pelo governo e promovida pelas
empresas implica a construção de enormes barragens
que resultam em destruição ambiental e em violações
dos direitos humanos, que incluem desde perda de meios de vida
até despejos forçados e ocorrências de repressão.
O negócio da energia hidrelétrica está
especialmente ativo na bacia do rio Mekong. Desde março
de 2006, empresas hidrelétricas da Tailândia, China,
Vietnã, Laos, Malásia e Rússia têm
proposto onze barragens hidrelétricas para o Baixo Mekong.
Sete delas estão localizadas no Laos, duas no Camboja
e duas na fronteira Tailândia- Laos.
A preocupação
já se espalhou entre as comunidades ribeirinhas e o público
em geral a respeito das severas conseqüências que
essas barragens irão ter.
O rio Meking abriga a maior
pescaria interior do mundo. A apanha comercial de peixes atinge
atualmente o valor de US$ 3 bilhões ao ano. Tal pescaria
não é apenas uma importante fonte de renda para
os pescadores locais- que são em sua maioria os mais
pobres da região- como também é vital para
garantir a segurança alimentar da região. Entre
50 e 80% da proteína animal consumida pelos 60 milhões
de moradores da bacia do Baixo Mekong provém da pescaria
fluvial.
A situação
irá mudar drasticamente se essas barragens forem implementadas,
porque a construção das barragens no curso principal
do rio irá bloquear as principais migrações
de peixes que respondem por mais de 70% da apanha comercial.
A opinião científica concorda na importância
da pescaria migratória do Mekong, no impacto das barragens
e na impossibilidade de mitigar esses impactos.
Em resposta à crescente
preocupação pública a respeito dos impactos
das barragens, foi conformada a coalizão “Salvem
o Mekong”. Como parte de suas atividades, a coalizão
recolheu assinaturas e mensagens pessoais de cidadãos
preocupados, que expressam seus sentimentos com clareza:
- “Não
permitam que as barragens hidrelétricas bloqueiem o futuro
de nossas crianças!” Wang Dezhi, Yunnan, China.
-
“Não construam as barragens no Mekong. As barragens
que existem na Tailândia já fizeram com que irmãos
e irmãs lutassem uns contra os outros!" Mak Vangdokmai,
Roi et, Tailândia.
-
“Amo meu país. Não quero ver como algumas
pessoas destroem meu país natal por cobiça. Por
isso, gostaria de fazer o meu melhor para proteger nosso Mekong!”
Sneampay, Vientiane, Laos.
-
“Se as barragens forem construídas, onde vamos
viver todos nós?” Morador, provínca Stung
Treng, Camboja.
-
“Nos salvem, salvem nossos recursos! A eletricidade não
é tudo!” Nguyen Thanh Hang, Hanói, Vietnã.
Devido ao forte apoio do governo para a construção
das barragens no rio Mekong, mais de 23.000 pessoas, provenientes
da região do Mekong e do mundo todo, assinaram uma petição
encaminhada aos Primeiros Ministros do Camboja, Laos, Tailândia
e Vietnã, urgindo com eles para que o rio continue fluindo
livremente e para que busquem opções de eletricidade
menos prejudiciais. A petição foi assinada por
pescadores e agricultores que vivem ao longo do curso principal
e dos afluentes do Mekong, bem como por monges, estudantes,
citadinos e até algumas das renomadas celebridades da
região.
No processo da mudança
climática, é importante apontar que apesar de
os impactos sociais e ambientais estarem bem documentados, os
projetos hidrelétricos ainda são elegíveis
para receberem financiamento do chamado Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo (MDL) da Convenção sobre Mudança
Climática. Mesmo que para nenhuma das barragens do curso
principal do Mekong ainda tenha sido solicitado o financiamento
do MDL, é possível que isso seja feito no futuro
próximo, seguindo a trilha de projetos similares tanto
na região quanto globalmente.
Por exemplo, a barragem
Kamchay no Camboja solicitou financiamento do MDL, apesar do
fato de estar localizada inteiramente dentro do Parque Nacional
Bokor e de chegar a inundar 2.000 hectares de floresta protegida.
Um caso semelhante é o da barragem Buon Kuop no Vietnã,
que teve impactos sobre o sustento de 11.000 comunidades rio
abaixo no Camboja que dependiam do rio Srepok para pescarem
e desenvolverem sua agricultura de subsistência.
É óbvio que
nenhuma dessas barragens- nem aquelas que agora são planejadas
para o Baixo Mekong- pode ser considerada “Limpa”
ou como um meio para o “Desenvolvimento”. Isso significa
que não deveriam ser elegíveis para receber financiamento
do “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo”.
Os milhões de pessoas
que irão ser afetadas drasticamente pelos projetos hidrelétricos
planejados- e que ainda têm o rio Mekong como seu mecanismo
limpo para o desenvolvimento- são bem mais importantes
que a eletricidade. Não devem ser permitidas as barragens
que bloquearão o futuro de milhões de pessoas!
Artigo baseado em informações
obtidas da coalizão Save the Mekong http://www.savethemekong.org/
e de Carl Middleton (International Rivers), carl@internationalrivers.org
inìcio
- México: resistência à
mineira Blackfire acabou em assassinato
Quarenta e um por cento
do total do território da região da Sierra Madre
de Chiapas – 227.000 km2, equivalente à metade
de todo o território da América Central -foi entregue
a empresas nacionais e estrangeiras sob a forma de concessões
mineiras. Empresas mineradoras canadenses, estadunidenses e
australianas extraem de lá ouro e prata, com a anuência
e proteção dos governos e o patrocínio
do TLC.
As empresas mineradoras
se têm espalhado no território nacional, invadindo
terras comuns e comunais, subordinando poderes locais e estatais
e violando rotineiramente direitos de comunidades indígenas
ou camponesas ou regulamentações de terrenos nacionais,
áreas naturais protegidas ou áreas de conteúdo
e tradição cerimonial e de patrimônio cultural
do país. As conseqüências ambientais, sociais
e culturais da mineração a céu aberto são
enormes. A destruição dos cerros traz com ela
a deterioração da paisagem, das majestosas serranias
e das bacias dos principais rios da região.
A alta toxicidade da mineração
metálica provém, não dos metais, mas dos
métodos com os que se extraem (ver Boletim Nº 71
do WRM). Em primeiro lugar, os milhares de quilogramas diários
de dinamite utilizados para derrubar montanhas, se espalham
em pó com nitrato de amoníaco e diesel. A isso
se acrescenta a filtração e o escorregamento natural
dos depósitos de milhares de metros cúbicos de
água com cianeto de sódio (utilizado para a lixiviação
dos metais) que polui rios e camadas aqüíferas,
traduzindo-se em casos de morte e doenças como câncer
ou leucemia.
Perante a escalada da explotação
mineral e seus impactos ambientais, cresce também a resistência.
É assim que em junho de 2008 se reuniram centenas de
pessoas integrantes de organizações sociais, indígenas,
camponesas, comunidades, organizações de direitos
humanos, de educação, de comunicação,
de estudantes, acadêmicos, provindos de 12 estados do
país, e deram origem às "Red Mexicana Antiminera
(REMA)" (Rede Mexicana Anti-mineração).
A REMA denuncia o que deixa
a mineração: remoção de milhões
de toneladas de solo e rocas com maquinário pesado, poluição
de mananciais, rios e bacias com químicos, destruição
de semeaduras, deslocamento de povos. Quando vai embora, somente
deixa seu rasto de destruição: enormes áreas
de despejo de detritos e resíduos, terras estéreis,
águas poluídas, doença e desolação.
A militarização
da região, que aumentou no quadro do chamado "Plano
Mérida" -tecnicamente um projeto de segurança
pelo que os Estados Unidos liberam milhões de dólares
em equipamento, tecnologia computadorizada e treinamento para
o México e os países da América Central
e ao Caribe para combater o narcotráfico e o crime organizado-
representa uma vantagem para as empresas mineradoras. A forte
presença do exército e policiais federais e estatais
encapuzados e fortemente armados que fecham caminhos e rodovias
com reténs e onde fazem com que as pessoas desçam
dos veículos para interrogá-las, lhes proporciona
uma custódia que lhes garante a apropriação
do território e o controle da resistência. Existe
um permanente controle social dos vizinhos para averiguar quais
deles fazem parte de alguma organização.
Nesse contexto, a mineradora canadense Blackfire, com 10 concessões
para a explotação de barita a céu aberto,
ouro e antimônio na região, foi alvo de fortes
protestos de povoadores da terra comum de Grecia, acusada de
poluir e despojá-los ilegalmente de terras. Vários
membros da REMA, entre eles Mariano Abarca Roblero, mantiveram
um plantão na cabeceira municipal da empresa e depois
outro frente à embaixada do Canadá na cidade de
México, exigindo a retirada da transnacional do município
de Chiapas. Depois disso, Mariano abarca foi objeto de ameaças,
até que finalmente, no dia 27 de novembro passado, foi
assassinado por um presumível sicário.
A REMA responsabiliza o governador desse crime, por não
ter atuado em tempo e forma para evitá-lo, e a "Blackfire,
seu Diretor Geral Artemio Ávila Cervera, seu Gerente
de Relações Públicas Luis Antonio Flores
Villatoro e o governo do Estado pelos acontecimentos de violência
contra os lutadores que defendem a água, a terra, o território
e o meio ambiente".
E acaba exigindo, além
de justiça imediata e castigo para os responsáveis
materiais e intelectuais do crime, a retirada imediata da empresa
canadense Blackfire e suas concessões mineiras em Chiapas.
"Fora Canadá
e suas transnacionais de Chiapas e do México!”,
é a consigna.
Informação
baseada em: "Nace la Red Mexicana de Afectados por la Minería
(REMA)" http://www.otrosmundoschiapas.org/analisis/REMAI.pdf;
"Asesinaron a Mariano Abarca Roblero, líder opositor
contra la minera canadiense Blackfire en Chiapas", http://rema.codigosur.net/
inìcio
- Nigéria: petróleo
no solo e ainda mais
Em novembro de 2009, 117
organizações nigerianas aderiram a uma declaração
endereçada ao governo com uma mensagem desafiadora: deixem
o petróleo no solo. Elas exprimiram: "estamos unidas
em nossa oposição aos novos blocos de petróleo
e fazemos um chamamento a todos os povos e organizações
com idéias progressistas para apoiarem nossa convocatória
de que o novo petróleo que for achado permaneça
no chão e o betume permaneça no solo.”
Durante os últimos
cinqüenta anos, a Nigéria virou a maior produtora
de petróleo cru. Tem baseado sua economia na extração
de petróleo, principalmente por grandes corporações
estrangeiras no Delta do Níger. No entanto, a pergunta
crucial é: tem visto o país algum impacto
positivo disso?
Environmental Rights Action/Friends
of the Earth Nigeria (ERA/FoEN), em colaboração
com o Ministério Federal do Ambiente organizou em Rivers
State a Segunda Consulta Nacional sobre Meio Ambiente sob o
tema "Imaginando uma Nigéria pós-petróleo”.
O objetivo do evento foi
estimular o discurso nacional amplo sobre o estado do meio ambiente.
A urgência de um "chamamento a todas as partes interessadas
no projeto nigeriano para que enfrentem os efeitos devastadores
do petróleo cru sobre a economia e o meio ambiente, bem
como a necessidade central de planejar uma economia pós-petróleo"
é bastante oportuna na época atual de mudança
climática.
Líderes civis, organizações
comunitárias, organizações da sociedade
civil, expertos em desenvolvimento, acadêmicos, profissionais
do direito, a mídia e representantes de agências
do governo se reuniram para discutir e examinar o "crescente
impacto da extração de combustível fóssil
sobre o clima e os problemas relativos ao petróleo como
uma espinha dorsal econômica sustentável para a
Nigéria”.
As conclusões concordaram
no fato de que os muitos anos de extração de petróleo
na Nigéria "não têm tido um impacto
positivo no conjunto dos cidadãos e particularmente nos
povos do Delta do Níger, cujos meios de subsistência
se prejudicaram devido à poluição regular
de granjas e rios.”
Uma expectativa de vida
pavorosamente baixa no Delta do Níger -41 anos- é
o resultado da poluição ambiental, junto com severos
abusos aos direitos humanos de mulheres, crianças e outras
pessoas que viraram vulneráveis devido aos conflitos
sobre recursos. O evento concluiu que os "apossamentos
de terras massivos promovidos pelo agronegócio e as corporações
petroleiras danificam as práticas agrícolas tradicionais
no continente africano", socavando assim a Soberania Alimentar
Nigeriana.
Morte, abuso, fome: isso
é o que se acha ao seguir o rasto do petróleo
na Nigéria. E ainda mais. A corrupção vai
de mãos dadas com as operações da indústria
do petróleo, o que leva a violentos conflitos e criminalidade.
'Na indústria do petróleo da Nigéria ainda
prevalece o roubo de petróleo e a inexatidão dos
volumes de petróleo extraídos e dos que se fazem
públicos, o que faz da política apregoada pelos
governos sobre transparência e prestação
de contas um contra-senso", diz a declaração.
O relatório "Building
a Post Petroleum Nigeria" (Desenvolvimento de uma Nigéria
pós-petróleo) por ERA salienta que "Durante
50 anos de produção de petróleo, esta região
ecologicamente produtiva tem sofrido vasta degradação
do hábitat, corte de florestas, despejos tóxicos,
dragagem e aterro e significativa alteração por
extensiva construção de rodovias e redes de dutos
da indústria do petróleo. Preocupam particularmente
no Delta do Níger os freqüentes e vastos derramamentos
de petróleo que têm ocorrido. Nem todos os derramamentos
são denunciados, mas as estimativas independentes são
de que pelo menos 115.000 barris (15.000 toneladas) de petróleo
são derramados no Delta todo ano, fazendo do Delta do
Níger um dos 2 ecossistemas do mundo mais impactados
pelo petróleo."
No topo de tudo está
o aquecimento global em decorrência da extração
de petróleo. A queima contínua de gás no
Delta do Níger -uma atividade ilegal com mortais conseqüências
de leucemia, bronquite, asma, cânceres e outras doenças-
demonstra "falta de disposição a comprometer-se
para reduzir os efeitos da mudança climática",
denunciaram os participantes.
Como conclusão da
reunião, os participantes enfrentaram o governo federal
nigeriano recomendando fortemente que:
“* Todas as novas
descobertas de petróleo devem ser deixadas no solo. A
explotação planejada de betume deveria ser detida,
já que extração causará desastres
irremediáveis às comunidades e causará
novos níveis de conflitos.
* A mensagem "Deixem
o Petróleo no Solo" deveria popularizar-se.
* A queima de gás
é uma violação dos direitos dos nigerianos
à vida consagrados na constituição e deve
acabar hoje
* O Governo Federal deve
adotar medidas para determinar e publicar os volumes de petróleo
extraído todo dia na nação. Como acompanhamento
disso, deve adotar medidas imediatas para deter todo tipo de
roubo de petróleo.
* Existe uma necessidade
de conscientização massiva e mobilização
das comunidades locais para resistir à queima de gás
e outras práticas prejudiciais para o meio ambiente no
Delta do Níger e outras partes da Nigéria, onde
os conflitos sobre os recursos são uma realidade crescente.
* O autêntico Projeto
de Lei da Indústria do Petróleo deve abordar genuínas
preocupações das comunidades que sofrem por causa
do petróleo, procurando sua aprovação aos
planos de manejo ambiental. Também deve oferecer
suficientes penalidades no caso de descumprimento das disposições.
* Qualquer disposição
do Projeto de Lei da Indústria do Petróleo que
procure expropriar a terra e os recursos das pessoas deve ser
anulada.
* Os líderes políticos
do Delta do Níger devem usar criteriosamente os recursos
da região para o desenvolvimento.
* O programa de anistia
do Governo Federal deveria abordar os problemas reais do subdesenvolvimento
do Delta do Níger e abrir canais para uma reconciliação
autêntica de todas as pessoas afligidas da região.
* O estado nigeriano deve
financiar pesquisa qualitativa em educação e indígena
para abordar os desafios do desenvolvimento.
* As mulheres e os vulneráveis
da sociedade devem ser protegidos dos efeitos dos conflitos
sobre os recursos enquanto os casos de violação
de seus direitos identificados devem ser adequadamente reparados.
* Todas as partes interesadas-comunidades,
grupos da sociedade civil, agências do governo, a mídia,
entre outras, devem trabalhar em colaboração para
expor práticas ambientais incorretas e mobilizar-se por
leis que revertam a tendência.”
O petróleo tem virado
a principal fonte de energia do atual mundo globalizado -às
expensas do clima e dos direitos humanos. É hora de que
o mundo procure novos caminhos de energia, desenvolvimento e
formas de viver juntos. A demanda dos nigerianos vai nessa direção
e achamos que deveria ser fortemente apoiada e repetida no mundo
inteiro como a base verdadeira de uma solução
real à mudança climática. Não mais
enganos, não mais demoras, não mais cortes futuros.
Detenham a extração de petróleo o senão
não teremos qualquer futuro.
Artigo baseado em informação
de: "Communiqué issued at the end of the Second
National Consultation on the Environment held in Port Harcourt",
Rivers State, 25 - 26 novembro de 2009m, divulgado por Climate
Justice Now!
inìcio
- Paraguai: desmatamento
viola direitos humanos de povo indígena em isolamento
voluntário
Um caso muito claro para
ilustrar o fato de a conservação de florestas
ser um assunto de direitos humanos é a situação
dos índios Ayoreo que habitam no Chaco paraguaio. Também
é um dos casos mais claros que evidencia que a proteção
das florestas deve ser deixada nas mãos daqueles que
estão mais interessados em sua conservação:
os povos indígenas que delas dependem.
Da mesma forma que seus
pares da época da Conquista da América, foram
os missionários que prepararam as condições
para o roubo e a destruição das florestas até
então usadas de forma sustentável pelos Ayoreo.
Nas palavras de Mateo Sobode Chiquenoi, o presidente da União
de Nativos Ayoreo do Paraguai (UNAP):
“Foram os missionários
que fizeram com que não possamos mais viver no território.
Desde finais dos anos 50 do século XX, missionários
menonitas, missionários evangélicos norte- americanos
e missionários católicos tiraram todos os Ayoreo
dos territórios onde vivíamos. É como se
os missionários tivessem limpado com sua evangelização
o território que pertencia ao povo Ayoreo. Assim foi
fácil para os pecuaristas comprarem quase todo nosso
território, e alguns brancos poderosos, assim sem mais,
tomaram conta de nosso território”.
Do mesmo jeito que seus
irmãos índios de toda a América, o contato
com a “civilização” provocou mortes
por doenças contra as quais eles não tinham defesas
imunológicas. O presidente da UNAP conta que, “quando
meu pai foi onde estavam os brancos, ele acabou-se lá.
Outros 85 Ayoreo morreram junto com meu pai contagiados de sarampo
justamente depois do contato”.
Mas além de “morrerem
como moscas pelo contato”, aqueles que conseguiram se
salvar enfrentaram- se ao destino de “viver sem liberdade
e sem respeito em relação a nós, viver
como pobres".
Talvez por esse motivo,
vários grupos Ayoreo negaram-se a ser “civilizados”
pelos missionários e escolheram continuar com suas práticas
milenares vivendo em isolamento voluntário.
“Ainda há Ayoreo
que vivem rejeitando o contato. Vivem nos territórios,
onde todos nós vivíamos. Vocês brancos os
chamam de 'silvícolas’ ou ‘índios
em isolamento voluntário’. Eles mantêm ainda
sua forma de viver de sempre, que é nossa cultura tradicional.
Sabemos que há pelo menos seis grupos Ayoreo não
contatados em território paraguaio”, afirma Mateo
Sobode.
No entanto, a “civilização”
continua avançando e por onde passa vai destruindo a
floresta seja para destinar o solo à pecuária
seja para encontrar o tão prezado petróleo.
Se olhado apenas sob a perspectiva
climática, tudo isso é um crime ambiental. A destruição
da floresta significa a emissão na atmosfera de todo
o carbono armazenado na biomassa florestal. A introdução
da pecuária implica a emissão de enormes quantidades
de outro gás de efeito estufa: o gás metano. E,
obviamente, se for encontrado petróleo, isso implicará
uma nova fonte de incremento do carbono total presente na biosfera.
Mas se olhado sob a perspectiva
mais ampla dos direitos humanos, o avanço do desmatamento
implica a violação do direito à vida dos
últimos representantes não contatados do povo
Ayoreo- que dependem inteiramente da floresta para garantirem
sua sobrevivência física e cultural- e a violação
dos direitos territoriais do povo originário de toda
essa região.
“Estes grupos estão
em situação de muito perigo. Cada vez há
mais desmatamentos em grandes proporções para
a pecuária em todo o norte do Chaco”, afirma Mateo
Sobode. E acrescenta que os responsáveis “são
brasileiros, holandeses, uruguaios, alemães, menonitas
e também paraguaios que acabam comprando todo nosso território
sem terem nenhuma consideração pela vida de nossos
irmãos no monte".
Ao anterior deve ser adicionada
a prospecção petroleira. Já foram realizados
estudos de prospecção que implicaram uma densa
quadriculação do monte com a abertura de linhas
para provas sísmicas, com graves efeitos de alteração
para os Ayoreo em isolamento voluntário. Pior ainda,
após concluída a primeira etapa de prospecção
na área, a empresa britânica CDS Energy informou
em maio deste ano que encontraram jazidas de petróleo
e gás no Chaco paraguaio. Se não forem tomadas
medidas imediatas e efetivas, isso poderia resultar no extermínio
total dos grupos em isolamento voluntário.
Como sustenta Mateo Sobode,
“Esses grupos têm direito à legalização
dos territórios onde eles estão vivendo. Também
deve ser respeitado o direito de auto-determinação
de nossa gente do monte. As leis devem ser cumpridas, por exemplo,
não incursionando ou trabalhando nessas áreas,
nem vendendo o território onde eles estão para
não ser incomodados. Eles não estão interessados
em viver com nenhum missionário nem nenhum branco, eles
estão interessados em viver em seu habitat e com os deuses
que só conhecem os Ayoreo, e têm o direito de decidir
como eles querem viver. Se quiserem sair, vão sair, mas
enquanto isso não devem ser pressionados. Eles têm
sua forma de viver com o monte. O monte, Eami, dá
a eles aquilo de que precisam e os protege, e eles cuidam do
monte. Antes de chegarem os brancos, nós, os Ayoreo,
vivíamos em nosso território sem que fosse alterada
a face de nossa mãe, o monte, Eami.
As medidas para garantir
tanto a conservação da floresta quanto a sobrevivência
dos últimos Ayoreo que a usam de forma sustentável
são simples: garantir o cumprimento das leis, normas
e convênios internacionais que protegem os índios
em isolamento voluntário.
Esperamos que o governo
do Paraguai contribua para a difusão do apelo dos Ayoreo,
que estão “pedindo às autoridades competentes
que não permitam mais que continue a caçada humana
contra nossos irmãos não contatados que vivem
em seu território e em sua própria cultura. Não
queremos que sua cultura, nossa cultura, acabe”.
Ao mesmo tempo, esperamos
que os governos do Paraguai, Holanda, Uruguai, Alemanha, Brasil
e da Inglaterra façam alguma coisa para impedirem que
seus empresários continuem realizando atividades criminais-
contra os índios e contra o clima do Planeta- no Chaco
paraguaio.
E esperamos ainda que a
comunidade internacional se junte à luta para exigir
o respeito do direito desses índios em isolamento voluntário
a “decidir como querem viver” e a poder fazê-lo
nas florestas que pertencem a eles.
Informação
obtida de: “Paraguay: el caso Ayoreo”. Unión
de Nativos Ayoreo de Paraguay, Iniciativa Amotocodie. Relatório
IWGIA 4
http://www.wrm.org.uy/pueblos/El_caso_Ayoreo.pdf
inìcio
DEMOCRACIA LACRIMOGÊNEA EM COPENHAGUE
- Direitos humanos violados pela mudança
climática... e pela Convenção das Nações
Unidas sobre Mudança Climática em Copenhague!
A Convenção
das Nações Unidas sobre Mudança Climática
em Copenhague apresenta-se ao mundo como se estivesse tratando
verdadeiramente da importante crise global da mudança
climática, com milhares de delegados governamentais e
até uma centena ou mais de presidentes e chefes de estado
que se reúnem no encontro.
No entanto, os países
mais poderosos- que são os maiores responsáveis
pela mudança climática- têm estado distorcendo
as negociações a fim de desencaminhar qualquer
acordo vinculante e impor um acordo verticalista com escassos
objetivos de redução de carbono- mais baseados
na compensação de carbono do que em reduções
reais de carbono. A tendência dos países do norte
tem sido driblar seus compromissos de redução
de emissões, para marginalizar os países do sul
e para silenciar as críticas ou as vozes alternativas.
Ao mesmo tempo, os grupos
da sociedade civil que exigem soluções reais para
o problema global da mudança climática foram excluídos
de qualquer participação que já estava
cerceada.
Em resposta, milhares de
pessoas do mundo todo tomaram as ruas de Copenhague exigindo
soluções justas e reais para a mudança
climática, com cartazes e letreiros relacionados com
a idéia: “Justiça Climática significa
Mudança de Sistema não Mudança do Clima".
A enorme e pacífica
manifestação que ocorreu no dia 12 de dezembro
finalizou com mais de 918 pessoas detidas.
Na segunda-feira, dia 14,
outras centenas foram detidas por acompanharem uma reunião
pública dirigida pela jornalista canadense Naomi Klein.
Na terça, dia 15,
Tadzio Mueller, um porta-voz do grupo Climate Justice Action,
foi detido por oficiais policiais à paisana que acompanhavam
uma conferência de imprensa no Bella Centre (petição
para a liberação de Tadzio Mueller:
http://www.PetitionOnline.com/Tadzio/petition.html).
Na quarta, dia 16, a ONG
Amigos da Terra teve seu credenciamento revogado em uma chamada
“remoção cirúrgica”.
Na mesma data, milhares
de manifestantes marcharam rumo à cimeira do clima das
Nações Unidas com o objetivo declarado de transformar
as palestras em uma Assembléia Popular e exigir justiça
climática. A polícia fez mais de 200 detenções.
Enquanto isso, dentro do Bella Center, centenas de pessoas encenaram
um abandono da manifestação para tentar encontrar
os manifestantes fora mas se depararam com uma forte resposta
policial (informação da Democracy Now! em http://tiny.cc/ID1fq).
Na quinta, dia 17, centenas
de manifestantes foram detidos e houve numerosas reportagens-
inclusive evidências gravadas em vídeo- da brutalidade
da polícia e do uso extensivo de cacetes, gás
pimenta e gás lacrimogêneo.
Não só os
direitos das pessoas estão sendo arrasados. Como disse
o presidente boliviano Evo Morales em seu discurso na cimeira
do clima: “Nossa Mãe Terra é tratada como
se fosse algo sem vida, como se ela não tivesse direitos.”
Vide vídeo em portugues
no site:
http://www.youtube.com/vcivilis
Vide vídeos em espagnol
nos sites:
Venezolana de televisión:
http://www.aporrea.org/internacionales/n147264.html
http://tiny.cc/HQfal
LaHaine.org
http://www.lahaine.org/index.php?p=42005
Vide vídeos em inglês nos sites:
Democracy Now!: http://www.democracynow.org/
The Guardian: http://tiny.cc/7cJB2
The Independent: http://tiny.cc/du48A
CNN:
http://us.cnn.com/video/?/video/world/2009/12/16/vo.cop.denmark.protests.cn
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