A função das mulheres
nos conflitos ambientais tem o potencial de reparar o desequilíbrio
de custos e benefícios do "desenvolvimento" liderado
pelas empresas, bem como de impugnar a dominação masculina
local. Quando as mulheres participam ativamente nas lutas -seja
liderando, organizando ou participando ativamente nas decisões-
frequentemente redefinem sua posição social dentro
de sua própria cultura, enquanto ao mesmo tempo desafiam
à economia global.
Por Sandra Veuthey, e-mail:
sandra_veuthey@hotmail.com
Referências
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from India". Feminist Studies 18: 119–158.
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Political Ecology: Global Issues and Local Experiences. Routledge,
New York.
inìcio
MULHERES: IMPACTADAS E EMPODEIRADAS
- A soberania alimentar nas mãos das mulheres
do ecossistema de manguezal
Esta história está
cultivada com os pensamentos, as experiências, os sonhos,
as palavras e as mãos de mulheres coletoras da concha em
Esmeraldas, província localizada no norte do Equador.
As condições de
vida lá são difíceis: o acesso às comunidades
geralmente é duro; existem escolas em alguns locais, mas
muitas vezes os professores e professoras desanimam e vão
embora. Para os rapazes e as moças estudarem, os pais e mães
têm que fazer grandes esforços e enviá-los fora.
A água não é boa para consumo e os alimentos
cada vez são mais escassos.
Com a chegada dos tanques camaroneiros
foram embora os manguezais, as propriedades também desapareceram.
Não respeitaram nem os mortos, pois invadiram até
os cemitérios. As pessoas vão embora à procura
de melhoras para suas vidas, mas sempre voltam porque o que elas
aprenderam foi mesmo a coletar, pescar e semear alimentos.
Iniciamos este raciocínio
com enorme felicidade. Já faz tempo que estamos lutando pela
defesa do ecossistema de manguezal, viemos conversando sobre como
perdemos os alimentos, o trabalho, as terras. Até a dignidade
querem tirar de nós. Estamos presas entre a destruição
das florestas primárias e os tanques camaroneiros, e agora
também entre as plantações de eucaliptos e
de dendezeiros, que avançam ameaçando nossa sobrevivência.
Sentamos para conversar cerca
de noventa mulheres que todos os dias partilhamos a jornada de coleta
da concha entre as raízes dos mangues. Juntas, nós
abrimos mais uma porta para avançar nesse caminho. Rosa,
Jacinta, Delfida, Uberlisa, Fátima, Gladys, Digna, Reverside,
Anita, Nelly, Albita, Lucety, Ismelda, Nancy, Danny, Daila,
Mercedes, María, Andrea, Estefanía, Santa, Lourdes,
Marianeli, Flora, Herlinda, Tasiana, Rita, Ramona, Marieta, Carmen,
Pastora e Ninfa são mulheres com as quais levamos quase vinte
anos de luta pela defesa do ecossistema manguezal, desde a década
de 80, quando os tanques de criação e cultivo de camarão
começaram a invadir os mangues. Levamos anos lutando, “mas
não estamos cansadas”.
Ao calor de um prato de comida
tradicional, ao abrigo da inteligência e a alegria brincalhona
das mulheres de Esmeraldas que coletam concha, lavramos esta história
para dividir com outras mulheres, com outras lutas, com outras esperanças...
, e nesta festa meteram a colher também Don Garci, Goyo,
Cocoa, Edgar, Pirre, La Mona, Fifo, Maximo e Alfredo.
“Como um pesadelo
do qual devemos acordar”
“Certo dia acordamos e parecia um sono ruim, um pesadelo.
Uns com máquinas, outros com facões, todos destruindo
as florestas de mangue; depois o fogo acabava com tudo o que restasse.
Havia grandes cartazes de ‘Propriedade privada. Não
entre’, e umas caveiras apareciam, também, pintadas
nos cartazes”. Depois eram os guardas armados que com cães
impediam a passagem das mulheres coletoras da concha para os poucos
espaços de mangue que sobreviviam. Os guardas insultavam
e perseguiam as mulheres com cães e com ameaças de
morte.
Assim começou a história
de destruição no cantão Muisne, no sul da província
de Esmeraldas. Isso era no final dos anos 80. Nesse então,
a aqüicultura industrial do camarão já vinha
destruindo o ecossistema manguezal e as propriedades camponesas
desde a província de El Oro.
No começo, a população
acreditou nas ofertas dos empresários: “Chegavam lá
como em época de campanha política, prometiam até
o céu. Nos primeiros anos parecia que vinha a bonança.
Todas e todos saíamos para coletar larvas de camarão
e para pescar camarões antes da desova a fim de entregá-los
à indústria. Mas logo tudo acabou e aqui estamos nós,
de braços cruzados sem termos nada”. As pessoas das
comunidades nunca imaginaram que em poucos anos, suas vidas estivessem
tão afetadas.
“Con la recolección de la concha, mi madre parió
y crió diez hijas. Todas estudiamos hasta el colegio y nunca
faltó en la casa. No con lujos, pero había de todo
a la hora de comer: diversos tipos de cangrejo como el guariche,
el tasquero, la mapara; también animal de monte, gallina
de campo, y concha, almeja, mejillón, pescado. El plátano
antes abundaba más. En esos años había porque
todos tenían sus pequeñas finquitas. Se cultivaba
en los patios de las casas, también, y en las eras había
todo lo que es hierbitas: la chillangua, orégano grande,
orégano chiquito, chirarán, cebollita, menta e palo.
Se comía la pepa e pan, la chonta, la chontilla…de
todo abundaba. Ahora una familia conchera vive bien pobremente,
las camaroneras ocupan los manglares y ocupan las tierras que eran
de nuestro abuelos. Muchas fincas se perdieron.”
“Com a coleta da concha, minha mãe pariu e criou dez
filhas. Todas nós estudamos até ensino fundamental
e jamais faltou nada em casa. Não havia luxo, mas tinha de
tudo na hora de comer: diversos tipos de caranguejo como o guariche
(Ucides Occidentalis), o tasquero (Goniopsis Pulchra, a mapara (Callinectes
toxodes); também animais de monte, galinha de campo, e concha,
amêijoa, mexilhões, peixe. A banana antes era mais
abundante. Naquele tempo tinha porque todos tinham suas pequenas
propriedades. cultivavam nos quintais das casas, também,
e nos campos tinha tudo o que fosse erva: a chillangua (coentro-bravo)
orégano grande, orégano pequeno, chirarán (manjericão),
cebolinha, hortelã e palo. Comíamos a pepa e pão,
a chonta, a chotilla... tinha muito de tudo. Agora uma família
que coleta concha vive na pobreza, as camaroneiras ocupam os manguezais
e ocupam as terras que eram de nossos avós. Muitas propriedades
perderam-se.”
As mulheres coletoras da concha
do cantão Muisne contam que a paróquia Bolívar,
no sul do cantão, antigamente era mais espaçosa, tinha
árvores de manga, de abacate, de laranja, de goiaba, de limão,
de mandarina, tinha coqueirais. Em cada quintal havia “chacras”;
lá tinha milho, feijões, mandioca, batata-doce, sagu,
tomate, pimentão picante, pimentão doce, batata-doce-roxa,
batata-doce-amarela e batata. Contam as mulheres que logo ao descer
para o quintal já tinham à mão todos os temperos:
cebola branca, cebola alho, cebolinha. Tinha também plantas
aromáticas: tomilho, hortelã, lima espanhola e outros.
A mesma paisagem é descrita pelas mulheres de Bunche e de
Daule.
Sabemos como vai se deteriorando
a vida dos companheiros pescadores, dos carenguejeiros, dos carboneiros,
porque todos nós somos um só: nós as mulheres,
os companheiros, os manguezais. Os contos, as lendas, as danças,
os cantos já quase não existem.
Antigamente tinha grandes bailes
públicos em grandes salões. Ao som do violão
o povo comemorava suas festas. Nessa área o violão
era muito tocado. O povo negro chegou ao cantão Muisne com
seus tambores, seus cantos (arrullos e alabados) por volta dos anos
40, e fundiram-se com os costumes e a cultura do povo manabita (moradores
da província de Manabí). Todos e todas foram para
o manguezal, e nele fizeram sua vida.
“Mas o que eu sempre
digo é que o mais importante é nossa luta política.
Essa não deve desmaiar nunca, aliás, deve crescer.
O mais importante é recuperarmos nossa empresa natural, nosso
ecossistema manguezal. Lá ninguém nos pede documentos,
ninguém nos impõe limite de idade, somos recebidos
com humildade. Fora isso, tudo é complementar. Não
permitiremos que seja legalizada a indústria camaroneira,
porque se o governo entregar as terras, eles se tornarão
mais soberbos e vão querer nos humilhar”. Assim se
manifesta Andréia, 24 anos, mãe de três filhos,
com toda a força da mulher concheira da província
de Esmeraldas.
Dizem as mulheres coletoras
da concha do cantão Muisne que apesar da dor profunda ao
verem a destruição do ecossistema manguezal e mesmo
que a impotência tomasse conta delas, devido à rapidez
com que era destruído o ecossistema, seu pensamento as desafiava
a encontrar algum caminho. Felizmente, estavam juntas; havia organizações
comunitárias, nesse então o cantão Muisne aprendia
da história da Organização Camponesa de Muisne
Esmeraldas (OCAME)- uma forte organização inspirada
pela igreja dos pobres.
Hoje a proposta é recuperar
o ecossistema manguezal e junto com ele recuperar tudo o que se
perdeu, porque até a cultura eles vão nos tirando.
Quando o manguezal é reflorestado, vem junto a concha, aparecem
também os tasqueros, os churos Pomacea maculata , as chorgas
Chione subrugosa, os caranguejos. Também vem o trabalho comunitário
porque sozinhas nós não podemos, e sempre nossas comunidades
têm se caracterizado pela solidariedade, a reciprocidade.
As famílias sobrevivem porque entre todos se sustentam- se
apóiam: avôs e avós, filhos e filhas, netos
e netas, tios e tias, mãe e pai e “quem estiver de
passagem”, todos e todos contribuem, não apenas com
dinheiro, mas com trabalho, com companhia, com bons conselhos.
E isso deve ser mantido.
O que ainda está “baixinho”
é o trabalho com a produção das propriedades
e dos campos, mesmo que já tenhamos começado. Mas
devemos dar uma força porque é como um corpo incompleto,
como se faltassem as mãos ou talvez o coração.
Estamos fazendo feiras dos produtos do manguezal e das propriedades;
chamadas de Feiras de Soberania Alimentar. Trata-se de comercializar
o que é produzido, o que é próprio da nossa
terra, que não tem produtos químicos. Também
tiramos produtos do manguezal, mas com a mensagem de que a concha
deve ser grande, aquela de 4,5cm que já é boa para
vender; a pequena deve ser devolvida ao manguezal para completar
seu crescimento. Também com o caranguejo queremos fazer a
mesma coisa, comercializar o caranguejo grande, cuidar dos caranguejos-fêmeas,
cuidar das mães que são as reprodutoras.
“É que nós
consideramos o ecossistema manguezal como nossa mãe, é
assim como todos nós aprendemos. Lá tem vida, o ecossistema
manguezal é um berçário, é uma indústria
natural que Deus nos deu como herança, para que não
sejamos pobres.”
Longas jornadas de reflexão,
felizes encontros entre comunidades, reflorestamento de floresta
de mangue, assim vai se construindo um processo político
de resistência, de disputa de território que finalmente
é uma disputa de poder.
Pelo coletivo de mulheres da
Reserva Ecológica Cayapas Mataje, no norte da província
de Esmeraldas, e o Refúgio de Vida Silvestre do Estuário
de Manguezais Muisne Cojimies, no sul da província de Esmeradas.
Enviado por Marianeli Torres, CCONDEM, Equador, correio eletrônico:
marianeli@ccondem.org.ec
inìcio
- Nigéria: as mulheres sofrem a maldição
do petróleo
A dotação natural
de petróleo do Delta do Níger tem virado uma mortificante
maldição.
As comunidades lutam constantemente
contra as conseqüências dos derramamentos de petróleo,
queima de gás e outras ameaças decorrentes das atividades
de exploração desreguladas das companhias de petróleo
internacionais. Muitas mulheres nestas comunidades de subsistência
suportam a pesada tarefa de cuidar de suas famílias, protegendo
elas da implacável poluição. A taxa de casos
de câncer, infertilidade, leucemia, bronquite, asma, natimortalidade,
bebês deformados e outras doenças relacionadas com
a poluição é inusualmente alta nesta região.
Desde Ikarama até Akaraolu e Imiringi, as mulheres estão
magoadas e estão morrendo.
Como disse um granjeiro, Marthy
Berebo, "Se eu me despisse perante você, você verá
o grau dos danos que essa poluição tem causado em
meu corpo. Meu corpo inteiro está cheio de dores.”
Ikarama, comunidade principalmente
de pesca e de atividade granjeira de 10.000 habitantes, também
está classificada como uma das comunidades mais poluídas
no Delta do Níger. Estabelecida ao longo do riacho Taylor,
Ikarama alberga tanto à Nigeria Agip Oil Company (NAOC) quanto
à Shell Petroleum Development Company (SPDC). Os oleodutos
da Shell, que unem os Estados do Delta, Bayelsa e Rivers, todos
passam através de Ikarama. O coletor Okordia da Shell também
está localizado em Ikarama. Assume-se que albergando grandes
companhias internacionais como a Shell, as comunidades florescem.
Mas o contrário acontece com Ikarama, já que está
em uma profunda e escura concentração de pobreza.
Os caminhos ainda devem ser pavimentados, como prometeu a companhia,
enquanto as vidas das pessoas estão piorando, com seus meios
de vida destruídos pelos freqüentes derramamentos de
petróleo.
Alili Ziah é uma viúva
com sete crianças. Antigamente, ela podia alimentá-los
através da pesca, mas agora a água está poluída,
e sua família foi forçada a depender da caridade de
outras pessoas. "Toda vez que deixo armadilhas, quando vou
a inspecionar, estão impregnadas com petróleo cru"
ela apontou. Como Ikarama, Imiringi tem estado albergando vários
dos sítios de queima de gás da Shell desde 1972.
As implicações para a saúde decorrentes das
chamas abertas e venenosas são enormes. As pessoas que vivem
perto se queixam de erupções na pele, vermelhidão
dos olhos e outras complicações. A poluição
é bastante provável, já que as mulheres geralmente
secam seus alimentos básicos locais, kpopko garri, perto
desses locais de queima de gás. A saúde reprodutiva
das mulheres também tem sido afetada, como é possível
ver no aumento crescente de casos de infertilidade e deformações
no nascimento.
O petróleo tem sido o
sangue vital da Nigéria desde o final da década de
50, quando a Shell obteve o primeiro poço de petróleo
bem sucedido em Oloibiri, no Estado de Bayelsa em 1956. Oitenta
por cento da riqueza do país é quilômetros de
linhas de fluxo e 400 quilômetros de oleodutos. Possui 349
sítios de perfuração. No auge de suas operações,
a Shell produzia um milhão de barris de petróleo cru
todo dia. Há perspectivas de que o número aumente
mais uma vez.
Apesar disso, as companhias
tem muito pouco para mostrar em termos de suas contribuições
ao desenvolvimento das comunidades. De fato, elas tem simplesmente
sujeitado as comunidades a mais pobreza e doenças, por causa
de seus meios desregulados de poluir a terra, a água e o
ar. Somente no Delta do Níger há mais de uma centena
de sítios que queimam gás. Com muito dinheiro envolvido
nesta indústria, não surpreende ver conflitos que
cobram as vidas de mais de 1.000 pessoas todo ano.
Das companhias de petróleo
que operam no Delta do Níger, a Shell tem sido considerada
como a mais notória, já que aprovou abusos aos direitos
humanos perpetrados por forças de segurança empregadas
por ela. A Shell arma, equipa e paga pessoal de segurança
do governo que são sempre rápidos para reprimir quaisquer
sinais de insurreição e perpetram injustificáveis
abusos aos direitos humanos. Em tudo isso, as mulheres são
as principais vítimas, como viúvas e mães.
Elas têm sido os pilares das famílias em cujos ombros
recaem muito sofrimento e privação.
Muitas mulheres ainda têm
cicatrizes e têm corpos deformados em decorrência dos
operativos militares que pagados pela Shell invadiram as comunidades
com tanques armados, revólveres e armas, atirando e matando
centenas de pessoas, incluindo mulheres e crianças, derrubando
povoados inteiros e aleijando milhares, na época na que Ken
Saro-Wiwa despertou a consciência da nação e
da comunidade internacional sobre a injustiça ambiental em
Ogoniland.
O braço esquerdo de Promise
Yibari Maapie ficou permanentemente inutilizado em decorrência
de um tiro. Sua filha Joy, também recebeu tiros em suas pernas.
"Os soldados trouxeram dor, tristeza e fome para minha vida",
ela disse para um jornalista. Depois do infame genocídio
de Ogoni, tem havido muitos casos, incluindo o da Massacre de Odi
em 1999, no que cidades inteiras foram devastadas. Foi um movimento
de represália pelas tropas do governo, decorrente da morte
de alguns militares por militantes. Em meados de 2009, aconteceram
massacres e bombardeios em vários povoados do Reino de Gbaramatu
no Delta do Níger. No processo, muitas mulheres foram mortas,
feridas o deslocadas. Também houve casos daquelas que deram
à luz nas florestas e riachos, enquanto fugiam do ataque
militar. Como de costume, houve denúncias de violações
pelos soldados.
As mulheres são as principais
vítimas na tragédia do Delta do Níger. Além
de lutar com chamas de gás e derramamentos de petróleo,
elas também vivem o perigo em suas vidas. Quando oleodutos
ferrugentos que trasladam petróleo cru explodem, terras agrícolas,
florestas, córregos e rios são danificados. Montes
de pessoas também são mortas como em outubro de 1998,
quando a explosão de um oleoduto queimou aproximadamente
2000 pessoas na cidade de Jesse no etíope Município
Local no Oeste do Estado do Delta. O que é pior, as intervenções
do governo são inexistentes e quando existem, são
tardias ou mal planejadas. Além disso, as construções
de gigantes projetos de perfuração poluem e alteram
os cursos de água das comunidades, privando os residentes
de acesso à água. Estes impactos são sentidos
mais pelas mulheres. Além de ser granjeiras, elas também
fornecem alimentos e água para a família.
Apesar da tragédia que
seus corpos carregam, as mulheres têm ficado sem voz em muitas
comunidades. Na maioria das comunidades, é precisa a intervenção
especial das organizações da sociedade civil, para
que as mulheres sejam autorizadas no fórum consultor da prefeitura
onde se discutem temas que envolvem as comunidades. Os homens sempre
insistem que os assuntos a serem discutidos são sérios
demais para as mulheres. Em muitos casos, as mulheres não
podem alegar propriedade da terra. As terras agrícolas geralmente
pertencem a maridos e pais. As mortes de seus maridos ou o divórcio
poderiam resultar no final de sua permanência nessas terras.
Portanto, os desastres ambientais constituem uma dupla tragédia
para as mulheres.
No entanto, em algumas comunidades
as mulheres estão organizando-se, tentando desfazer as malignas
amarrações de costumes retrógradas e tomem
seus destinos em suas próprias mãos.
Extraído e adaptado de
: “When Blessing Becomes a Curse in the Niger Delta”,
por Betty Abah, para Women in Action, a Revista de ISIS International,
baseada nas Filipinas, publicado em fevereiro de 2010 (edição
titulada Women in a Weary World: Climate Change and Women in the
Global South).O artigo pode ser lido on-line com imagens em http://www.wrm.org.uy/bulletin/152/Nigeria.html.
A Sra. Abah é a Responsável de Gênero de Environmental
Rights Action/Friends of the Earth Nigeria. E-mail: betty@eraction.org
/ bettyabah@yahoo.co.uk
O documento pode ser visualizado em http://www.isiswomen.org/index.php?option=com_content&view=frontpage&Itemid=28
inìcio
- Papua-Nova Guiné: associação
e fortalecimento das mulheres em plantações de dendezeiros
Em finais de 2008, o WRM e Friends of the Earth Papua New Guinea/CELCOR
organizaram um workshop conjunto com mulheres locais na Papua-Nova
Guiné. O workshop referia-se às plantações
de dendezeiros que estão sendo promovidas principalmente
para fornecer azeite de dendê ao mercado europeu (usado em
produtos, como por exemplo, cosméticos, sabão, óleo
vegetal e alimentos), bem como para a produção de
agrocombustíveis.
Em um país onde a maioria
de sua população de 5 milhões ainda vive nas
áreas rurais e baseia sua subsistência na agricultura,
a produção guiada para a exportação
dos dendezeiros está aumentando à custa dos meios
de vida tradicionais.
O workshop reuniu mulheres de
diferentes províncias e lhes permitiu expressar suas preocupações
a respeito da expansão das plantações de dendezeiros:
possível escassez de terras devido à expansão
dos dendezeiros; poluição de rios, córregos,
bem como solos e o ar, em decorrência do uso de agrotóxicos
nas plantações.
No entanto, elas foram além
e também trataram de assuntos de mulheres, dando idéias
sobre os impactos das plantações de dendezeiros e
sobre sua condição de mulheres. Elas se referiram
ao reforço do controle dos homens sobre as mulheres, através
do crescente controle dos homens sobre a renda da produção
de dendezeiros; a restrição do acesso das mulheres
a terras para cultivar, em decorrência da conversão
das terras agricultáveis tradicionais em plantações
de dendezeiros, transtorno social, incluindo maior alcoolismo e
violência doméstica.
A reunião serviu como
catalisador para a necessidade das mulheres de organizar-se, e um
dos resultados do workshop foi um plano para estabelecer uma associação
de mulheres dentro do quadro da campanha sobre assuntos de dendezeiros.
Em novembro de 2009, foi estabelecida a associação
Women in Oil Palm Association (WOPA), e neste ano de 2010, está
em processo de ser registrada na Autoridade de Promoção
dos Investimentos.
A Associação foi
formada com o fim de:
• “Expor
os impactos da indústria do azeite de dendê na Papa
Nova Guiné sobre as mulheres e as crianças através
de conscientização e mobilização comunitária
• Fazer
campanha para a mudança em políticas governamentais,
práticas de manejo de companhias de dendezeiros sobre o meio
ambiente, meios de vida sociais e de sustentação e
bem-estar das mulheres e das crianças
• Fazer
campanhas e lobby pelos direitos das mulheres e das crianças
contra a privação e violação pela indústria
• Unir
as mulheres atingidas, para formar uma base sólida e estabelecer
uma rede de mulheres para fazer campanhas sobre assuntos que afetam
as mulheres e as crianças
• Proteger
e promover os direitos das mulheres e das crianças
• Atuar
como um corpo, uma voz ou um catalisador para as mulheres afetadas
pelos dendezeiros
• Fazer
campanhas e lobby para que o meio ambiente e os meios de sustentação
da comunidade sejam defendidos, preservados e manejados de forma
sustentável.”
A criação da WOPA
é importante para apresentar os assuntos das mulheres na
indústria dos dendezeiros na Papua-Nova Guiné, que
raras vezes são abordados e são excluídos por
políticas empresariais ou determinadas leis na constituição
da Papua-Nova Guiné. A iniciativa da Women in Oil Palm Association
é uma ajuda para as mulheres que estão fazendo campanhas
pacíficas sobre os temas dos dendezeiros que estão
tendo impacto em seus meios de sustentação.
Há muitos desafios no
futuro para as mulheres organizadas sob a WOPA. No entanto, é
um importantíssimo passo no processo de empoderamento das
mulheres na luta por seus direitos, e como elas dizem "para
que o meio ambiente e os meios de sustentação comunitários
sejam defendidos, preservados e manejados de forma sustentável".
Adaptado do artigo "WOMEN
IN OIL PALM ASSOCIATION (WOPA)" enviado por George Laume, de
Friends of the Earth Papua New Guinea-CELCOR, e-mail glaume@celcor.org.pg.
O artigo completo pode ser acessado em http://www.wrm.org.uy/countries/PapuaNG/WOPA.pdf
inìcio
- Brasil: mulheres atingidas por barragens - mudanças
nos modos de vida
A construção de
usinas hidrelétricas no Brasil é marcada pelo desrespeito
ao meio ambiente e à sociedade, sobretudo o desrespeito às
populações atingidas, que vêem seus modos de
vida se alterar drasticamente e, em nome do “desenvolvimento
da sociedade capitalista”, se anular. No nosso país
já foram construídas mais de 2.000 barragens que expulsaram
mais de 1 milhão de pessoas de suas terras. Projetos do governo
federal prevêem a construção de mais de 1.443
barragens nos próximos 20 anos; são obras que trazem
consigo a falsa promessa de geração de emprego e desenvolvimento,
de respeito à natureza, de energia mais barata para o povo
e de garantir os direitos de indenizações das famílias.
No entanto, o que temos vivenciado é o controle das barragens
por multinacionais, a geração de poucos empregos,
a energia mais cara para os trabalhadores e o não pagamento
de indenizações.
Ou seja, há uma ditadura
instalada contra o povo que vive na beira dos rios. E não
são apenas impactos concretos e materiais, como o alagamento
de florestas, cidades, escolas, casas, mas também impactos
imateriais e afetivos, pois com a perda do vínculo espacial,
perdem-se também os laços familiares, a vivencia com
a comunidade e a referência da vizinhança, entre outros
que atacam diretamente o “sentimento”, acarretando sérios
danos à saúde e ao bem estar das populações
atingidas.
Mudanças de hábitos
e inferências econômicas
Não podermos atribuir
aos projetos de barragens a responsabilidade integral pela desigualdade
nas relações de gênero, mas eles alteram as
condições preexistentes e tendem a agravá-las.
A sociedade capitalista e patriarcal é reforçada pela
ação das empresas em iniciativas locais (onde a barragem
está sendo ou foi construída) e estruturais do modelo
capitalista.
O anúncio da construção
das usinas traz diferentes reações de comportamento
entre mulheres e homens. Na maioria das vezes verifica-se que as
mulheres têm forte resistência em sair do território
e não conseguem assimilar a possibilidade de mudanças
daquele espaço. Já alguns homens se convencem com
mais facilidade e vêem a possibilidade de ganhar compensação
financeira ao sair do local. Um dos fatores que justificam isto
é que, historicamente, os homens vinculam-se às atividades
que geram ou movimentam recursos financeiros (dinheiro), ao contrário
das mulheres.
Por residirem em áreas
rurais, a maioria das atingidas pelas barragens mantém uma
relação próxima com a terra. Usam os recursos
da natureza principalmente para a alimentação, mas
também usam outros bens destinados ao consumo da família,
como chás, energia da lenha para cozinhar e aquecer, etc.
Neste sentido, as mulheres são as principais vítimas
da degradação ambiental, que implica em perdas imensuráveis
para comunidades que dependem da natureza para sobreviverem.
Isso se comprova pelo dado de
que 70% das famílias atingidas por barragens no Brasil não
receberam indenização e nos poucos casos de reconhecimento
dos direitos, a nova área é muito menor que a anterior.
Sendo assim, as mulheres acabam perdendo seu espaço de produção
camponesa e de autonomia. Perdem a horta ou quintal, a área
de produção variada de alimentos (árvores frutíferas,
ervas medicinais e animais domesticados), a área de experimentação
e conservação de sementes, de complementação
da renda e enriquecimento da dieta nutricional das famílias,
espaços onde elas definiam o que plantar, como plantar, que
sementes cultivar, etc.
Essa mudança não
implica apenas na perda deste espaço de poder e decisão
da mulher, mas no aumento da sua dependência econômica
com relação ao mercado e à farmácia,
por exemplo. As comunidades que antes da barragem mantinham a relação
com a natureza como um fator fundamental para a continuidade dos
seus estilos de vida, no novo contexto, as mulheres são as
maiores prejudicadas e tendem a sofrer tais impactos negativos com
maior intensidade.
O processo de esvaziamento das
comunidades que “sobraram” e não foram atingidas
pelo enchimento do lago, tem como conseqüência a perda
dos elos familiares, das relações de vizinhança
e o esvaziamento dos espaços de encontro comunitário,
como a igreja. Ao passo em que as comunidades se esvaziam, escasseia-se
o serviço de transporte público, fecham-se as escolas
rurais e os sistemas locais de atendimento à saúde.
Assim, pode-se imaginar o impacto sobre a vida das mulheres, uma
vez que recai sobre elas a provisão do cuidado com a família,
com as crianças, idosos, portadores de necessidades especiais,
etc. Com a escassez e, muitas vezes suspensão, dos serviços
públicos de transporte a mobilidade das mulheres, e possivelmente
o acesso ao emprego, estudo e lazer, se torna mais difícil.
Estas populações
foram expropriadas, não somente no sentido jurídico.
Estas pessoas que vivem dos rios e nas margens deles perderam as
suas condições materiais de trabalho e foram desenraizadas,
transplantadas geograficamente e culturalmente, expropriadas de
um saber e de uma sintonia com o meio físico, a sua vizinhança,
com valores “abstratos”, porém de grande importância
sentimental e principalmente referencial, os quais jamais serão
reconstruídos, nem podem ser medidos pelo dinheiro.
Relações
afetivas e a saúde da mulher
O empobrecimento e o trauma
com a ruptura social das comunidades têm um efeito mais severo
sobre as mulheres, principalmente no que se refere às relações
afetivas e de saúde. Em alguns casos, o empobrecimento gerado
pelo deslocamento compulsório das pessoas e a chegada truculenta
dessas grandes obras, aumentam os desentendimentos, a desestruturação
familiar, o abandono das famílias e a migração
masculina para as áreas urbanas, elevando o número
de casas chefiadas por mulheres, que passam a arcar sozinhas com
toda a responsabilidade da criação dos filhos. O aumento
da violência doméstica, decorrente do alcoolismo, é
outro efeito agravado pela desestruturação das famílias
e o empobrecimento.
Quanto à saúde,
normalmente a administração da casa e o bem estar
da família é de responsabilidade da mulher. É
ela que controla o que tem e o que está faltando, e visualiza
a necessidade de “poupar” os recursos disponíveis
para garanti-los por mais tempo. Isso se reflete na sua situação
nutricional, pese o fato de que os padrões culturais, em
diversas regiões do país, reproduzem a desigualdade
entre os gêneros quando da distribuição do alimento
no interior das famílias. Em algumas pesquisas, constatou-se
que era recorrente a distribuição desigual dos alimentos
entre homens e mulheres na família, especialmente em situações
de maior escassez, como ocorre depois da chegada das barragens.
“Às mulheres e meninas é atribuída uma
menor porção ou são excluídos alguns
alimentos considerados mais "fortes" (carne, por exemplo),
uma vez que seu trabalho é considerado "leve",
exigindo “menor reposição de energia”.
Ainda quanto à saúde
das mulheres, a chegada de operários de outras regiões
e estados para a construção da barragem e a conseqüente
urbanização da região são fatores que
podem elevar o nível de doenças sexualmente transmissíveis,
especialmente a AIDS. Além disso, ocorre o aumento de casos
de gravidez de adolescentes, que ficam sozinhas logo em seguida,
já que depois da construção da barragem os
rapazes procuram outro trabalho em outro lugar.
Se não bastasse essas
relações “ocasionais”, uma das estratégias
utilizadas pelas empresas é a contratação de
rapazes para seduzir as moças e assim, aproximar-se das famílias
com o objetivo de convencê-los a sair pacificamente da comunidade
e a não participar das atividades propostas pela organização
dos atingidos por barragens. Outra constatação é
a instalação de “negócios da prostituição”,
popularmente conhecidos como “zonas”, próximo
ao canteiro de obras da barragem ou junto ao alojamento dos trabalhadores.
Essa estratégia das empresas tem o objetivo de “entreter”
os operários, que estão longe de suas famílias
a bastante tempo. Em alguns casos, há a mercantilização
do corpo das mulheres com a venda de adolescentes para a prostituição,
podendo até influenciar e facilitar o tráfico internacional
de mulheres.
Os fatos pontuados acima não
esgotam as perdas femininas em decorrência das construções
de barragens, são inúmeras as conseqüências
sofridas pelas mulheres, o nosso objetivo é colocar a discussão
em pauta, trazendo à tona questões que atingem diretamente
às mulheres e que ao longo dos tempos foram relegadas ao
esquecimento, levando as questões de gênero a uma certa
invisibilidade. É possível que além dessas,
muitas outras questões estejam em aberto para serem investigadas
e tomadas para análise e aprofundamento, para o reconhecimento
das mulheres como sujeitos políticos no processo de transformação
social.
Por Movimento dos Atingidos
por Barragens – Brasil, enviado por Setor de Comunicação
– MAB, correo electrónico: imprensa@mabnacional.org.br,
www.mabnacional.org.br
inìcio
- Legado nada promissor: as mulheres começam
a se organizar contra a mineração de ouro na Tailândia
Frondosos arrozais, campos cultivados
de hortaliças, montanhas com florestas e povoados tranqüilos
no distrito de Wangsaphung da província de Loei no nordeste
da Tailândia poderiam conformar um oásis de tranqüilidade
rural, com ar puro para respirar, hortaliças e frutas frescas
para comer e água doce para beber. Desde as terras altas
montanhosas até as terras baixas ao longo dos bancos do rio
Mekong e seus afluentes, as terras férteis providenciam colheitas
sazonais de noz de macadâmia, banana, lichia, olho-de-boi,
manga, maracujá, tamarindo, grãos de café,
grãos de soja, milho, arroz, gergelim, e caucho. No passado
era realizada a garimpagem de ouro em pequena escala ao longo dos
leitos dos rios, já que a área é rica em minerais,
como ouro, cobre e ferro. No entanto, hoje a terra e a água
das quais o Povo Isaan dependeu durante gerações estão
envenenadas por cianeto, arsênico e outros metais pesados.
A procedência foi encontrada na recém- aberta área
de mineração de ouro operada por uma companhia tailandesa
de origem australiana, a Tongah Harbour Plc.
Em 1996, o Departamento dos
Recursos Minerais da Tailândia iniciou um processo de aprovação
para a concessão de licença de mineração
de ouro em Wangsaphung solicitada pela Tugkam Ltd. (TKL), uma subsidiária
da Tongah Harbour que conta com o apoio financeiro da Austrália
e a Alemanha. O Ministério da Indústria tailandês
outorgou a autorização final em 2003 para o concessão
de uma parcela de aproximadamente dois quilômetros quadrados
durante vinte e cinco anos. Em setembro de 2006, a TKL começou
suas atividades na primeira mina de ouro a céu aberto localizada
em topo de montanha que já tinha sido designado pelo governo
tailandês como uma área de conservação.
Até hoje, apenas duas áreas foram abertas, abrangendo
um total de dois quilômetros quadrados, bem como uma fábrica
local para cianetação e tratamento de carbono do ouro.
No início de 2009, mais de cem pedidos de exploração
mineira da TKL estavam pendentes de serem aprovados pelo governo
tailandês.
Os moradores locais da área
não souberam nada das licenças de mineração
até a chegada da maquinaria da TKL. Apesar de a TKL ter alegado
que tinha tomado as adequadas providências para fazer consultas
com a comunidade, não há nenhuma documentação
disponível a respeito do local onde essas consultas foram
feitas, de quem participou delas nem do que foi discutido. Os moradores
locais reclamam que essas reuniões não foram anunciadas
publicamente e que a empresa escolheu meticulosamente as poucas
pessoas que compareceram.
Conforme ativistas locais, não
há acesso público aos acordos feitos entre a empresa
e o governo nem ao certificado de concessão que indicaria
o tipo e a duração das atividades mineiras nas terras
que rodeiam suas granjas. Além disso, foi apenas em
2008 que alguma informação a respeito das avaliações
de impacto ambiental (EIAs) exigidas pela lei foi divulgada.
Tais estudos foram concluídos sigilosamente por duas firmas
australianas, em conjunto com a empresa tailandesa, e com os acadêmicos
tailandeses da Universidade de Khon Kaen, sem nenhuma contribuição
nem participação dos moradores.
Mesmo que a Tungkam alegue estar
comprometida com o “manejo ambiental”, os moradores
locais informam que alguns dos efeitos mais devastadores da mineração
estão relacionados com a perda de fontes locais de água
limpa. A área de mineração interferiu com a
rota de um manancial natural, que originariamente trazia água
prístina e fresca desde a montanha através de Wangsaphung.
Como uma medida de mitigação, a empresa desviou o
córrego para que agora flua pelos arredores da periferia
da mina. Os moradores alegam que o manancial está poluído,
mas não apenas com resíduos mineiros como também
COM A INADEQUADA ELIMINAÇãO
dos detritos sólidos da área mineira. Desde 2006,
foram vistos inúmeros peixes envenenados flutuando nos córregos
locais em muitas ocasiões. Com elevados níveis de
cianeto e outros metais pesados, esse córrego flui diretamente
para o rio Loei, um afluente do transfronteiriço rio Mekong.
Além disso, os moradores percebem que a água poluída
da mina desce a montanha durante os monções, e eles
estão preocupados porque os metais pesados irão filtrar
na água subterrânea. Ao mesmo tempo, na estação
seca, a poeira da mina é carregada pelo vento para as áreas
residenciais, exacerbando as doenças respiratórias
entre a população local.
Pela primeira vez na história,
os agricultores informam a grave escassez de água que implica
arrozais secos e solos áridos e rachados. Com os tanques
de resíduos mineiros ao lado de suas terras, a maior parte
dos residentes expressa receio pelos níveis incertos de poluição
nas frutas, hortaliças e arroz que eles ainda tentam cultivar.
Devido ao nível de contaminação e acidificação
da água das chuvas, os residentes já não podem
depender da coleta natural de água para beber. Em vez disso,
eles tiveram que começar a comprar água, colocando
mais pressão nos já apertados pressupostos familiares.
Ao perceberem a necessidade
de aumentar a renda a fim de enfrentar a compra de alimentos e água,
algumas mulheres viajam com maior freqüência à
capital provincial para fazer bicos diários. Ultimamente,
a capacidade dos moradores locais para manter suas práticas
de soberania alimentar e sustento auto-suficiente desapareceu, enquanto
seus direitos a alimentos, água e saúde foram completamente
roubados. Como únicas responsáveis por cozinhar, limpar
e providenciar água bem como outras necessidades diárias,
as mulheres testemunham que se incrementaram, conseqüentemente,
as pressões relacionadas à vida doméstica.
Durante os últimos dois
anos, os moradores locais começaram a denunciar erupções,
problemas respiratórios, irritação severa dos
olhos, enxaquecas crônicas, vertigem e sensações
de fraqueza em suas extremidades. Adicionalmente, as explosões
freqüentes e regulares da mina causam não apenas rachaduras
nas estruturas das moradias e quebras
dos vidros das janelas, como também palpitações
entre os idosos, e níveis crônicos de agonia entre
as crianças.
Depois de trabalhar em seus
arrozais, as mulheres e os homens sofrem irritações
cutâneas que resultam em descascamento da pele e abertura
de ferimentos que supuram. Os homens que trabalham na mina experimentaram
sérios problemas de saúde, inclusive doenças
cutâneas, problemas oculares e pulmonares, insônia e
degeneração neurológica. Enquanto isso, as
mulheres informam que depois de lavarem as roupas usadas na mina
e os campos, elas sofrem rachaduras nas mãos e braços,
dores oculares e dificuldades respiratórias. Análises
de sangue feitas em crianças mostraram sólidas evidências
da presença de elevados níveis de cianeto e outros
metais pesados. Um relatório recente, emitido em fevereiro
de 2009 pelo governo tailandês também alertou os moradores
para eles se absterem de beber a água local ou de usá-la
para cozinhar devido aos elevados níveis de cianeto, arsênico,
cádmio e manganês.
A polícia e os guardas
de segurança armados têm trabalhado com a Tungkam para
monitorar a área mineira e a comunidade, informando quem
entra na área e na vizinhança circundante. Em geral,
a população local está intimidada para falar
publicamente sobre os impactos da mineração, e em
conseqüência, as vozes dos defensores da justiça
ambiental e social permanecem mudas. A falta de oportunidades para
participar das decisões que afetam o futuro de suas terras
e seu sustento, bem como o silêncio dos dissidentes podem
ser entendidos como nada menos do que sérias violações
dos direitos políticos e sociais garantidos pelas leis nacionais
e internacionais.
Inicialmente, os moradores locais
estavam frustrados pela falta de comunicação, de consulta
e de franqueza sobre os planos da Tungkam para as terras ancestrais
dos Isaan. Posteriormente, documentos sobre a licença para
mineração vazaram chegando às mãos de
um biólogo local, as informações foram espalhadas
na comunidade em 2006. A partir de então, um pequeno grupo
de moradores- a maioria mulheres- preocupados formaram um comitê
ad hoc que vem organizando reuniões comunitárias para
discutir os impactos da exploração de ouro nas fontes
de água locais, nos solos e nas hortaliças, na qualidade
do ar e na saúde das pessoas. Foram celebrados fóruns
públicos e discussões abertas, exibições
fotográficas e oficinas. Conforme os membros do comitê,
principalmente são as mulheres- e em particular, as novas
gerações- as que participam dessas discussões
sobre os impactos da mineração, e sobre as estratégias
para mudarem essa situação. Em novembro de 2006, um
intercâmbio com ativistas da Birmânia, o Camboja, a
Indonésia e as Filipinas foi celebrado em Wangsaphung como
parte de uma mobilização internacional contra a mineração
comercial de ouro em grande escala. Conforme as mulheres locais,
depois dessa exposição internacional, a segurança
foi intensificada na área mineira.Aqueles que tentam
investigar as atividades da Tungkam começaram- e ainda continuam-
a ser alvo de táticas de intimidação severas.
Durante 2008, os moradores locais
contribuíram a documentar os impactos na saúde do
envenenamento por cianeto. Eles começaram então a
apresentar queixas junto às comissões nacionais de
direitos humanos e da saúde. Um relatório emitido
pela Comissão dos Direitos Humanos exigiu que a Tungkam limpasse
as áreas poluídas. No entanto, apesar de os comissionários
validarem as preocupações comunitárias e condenarem
as atividades da empresa, não foi tomada nenhuma providência
corretiva. Em vez disso, a Tungkam começou a publicar seu
compromisso com a “ética corporativa”, e está
patrocinando as festas escolares, os torneios esportivos e bolsas
de estudo para os jovens. Para os moradores de Wangsaphung, essas
iniciativas são pouco honestas, e desmerecem as sérias
preocupações que eles têm sobre os legados duradouros
do envenenamento por cianeto e arsênico.
No final de 2009, o comitê
da comunidade de Wnagsaphung buscava deter os planos de expansão
da Tungkam quanto à fábrica de cianetação
e processamento do ouro. Os protestos ocorreram na sede distrital
do governo local e foi exigido que os documentos com detalhes da
expansão fossem divulgados. Manifestações das
redes da sociedade civil estão planejadas. Simultaneamente,
as mulheres estão organizando cooperativas de alimentos e
tecidos, que permitem que elas mantenham o senso de identidade,
a continuação de princípios ecologicamente
sensíveis e a prática da auto-suficiência. Esse
trabalho de base pretende formar o alicerce da solidariedade coletiva
a partir da qual lançar uma campanha para o encerramento
da mina, e a proibição de novas minas em terras dos
Isaan.
Por Tanya Roberts-Davis
com a equipe Thai pelas Comunidades Afetadas pela Mineração/
Grupo de estudio Eco-Culture , Email: troberts@alumni.upeace.org
inìcio
- As mulheres e a mudança climática,
as mais afetadas e as menos ouvidas
Em um estudo recém- publicado
na Alemanha sobre Clima e Desenvolvimento podemos encontrar as seguintes
afirmações: “A pobreza atinge muitas pessoas,
demasiadas pessoas- e afeta homens e mulheres de forma diferenciada
e em número diferente. A maioria dos pobres são mulheres,
como constatado pela pesquisa e isso está ligado ao fato
de, na grande maioria dos países, as mulheres e as moças
sofrerem discriminação legal e social. As mulheres
têm menor acesso à educação e à
saúde do que os homens, e não têm as mesmas
oportunidades econômicas.
Há boas razões
para acreditar que um dos resultados de tal discriminação
social e política das mulheres é que elas também
são afetadas de forma diferenciada pela mudança climática
- uma circunstância que exacerba a pobreza e os riscos que
elas enfrentam”. (1)
Uma das boas razões para
acreditar que isso é verdade surge do fato de a maioria das
pessoas atingidas pelos piores desastres climáticos ocorridos
nos últimos anos serem pobres e mulheres, na grande maioria
dos casos. Na Indonésia, por exemplo, durante o tsunami se
afogaram muitas mais mulheres do que homens por diferentes motivos:
porque não sabiam nadar, porque ficaram para cuidar suas
crianças até o último momento, porque ficaram
encerradas, porque ficaram sabendo tarde demais, porque seus longos
vestidos não deixaram que elas fizessem os esforços
necessários para se salvar, etc.
Em um artigo sobre “Mulheres
e Mudança Climática”, Kellie Tranter, uma advogada
australiana, descreve algumas das causas de morte acima mencionadas
e demonstra que nos desastres denominados “naturais”
morreram mais mulheres do que homens: 90% das 14.000 vítimas
que morreram no ciclone que impactou Bangladesh em 1991 foram mulheres,
mais mulheres do que homens morreram pela onda de calor que açoitou
a Europa em 2003, e no tsunami da Indonésia em 2006, morreram
de 3 a 4 mulheres por cada homem. (2)
Testemunhos revelados em 2009,
em um estudo realizado com mulheres da Alemanha, Bolívia
e Tanzânia (3) evidenciam que as mulheres estão sobrecarregadas
com suas atividades quotidianas devido à mudança climática.
Um exemplo disso acontece no departamento de Oruro na Bolívia.
“Em épocas com ondas de calor secam as fontes de água
e a água restante torna-se cada vez mais salgada e assim
cada vez menos potável. As ventanias levam a terra solta
e a secam. Além disso, aparecem novas espécies de
parasitas. Há grandes prejuízos causados por uma espécie
de piolho que ataca a raiz da alfafa, e assim mata a planta forrageira”.
A mudança de temperaturas também faz que as culturas
que antes cresciam com facilidade agora já não cresçam,
e tanto as contínuas geladas quanto as chuvas ocasionam perdas.
Também diminui o gado, pela falta de pastagem e porque apareceu
uma “nova e agressiva espécie de mosquito que ataca
tanto os seres humanos quanto os animais. Em suma, a mudança
climática faz que a já penosa vida trabalhista das
bolivianas ainda seja mais dura”.
Histórias bem semelhantes
contam as mulheres de Dodoma, Tanzânia. As secas contínuas
obrigam às mulheres “a percorrer um caminho cada vez
mais longo para conseguir água e às vezes são
forçadas a comprá-la... as colheitas minguaram de
forma catastrófica. Isso causa uma preocupante escassez de
alimentos no povo todo”... As mulheres devem usar diversas
estratégias a fim de sobreviverem. Gladis, por exemplo, explica
que, “como já não podemos contar com a renda
da agricultura... também me dedico à horticultura
e à criação de porcos e galinhas. Além
disso, costuro mochilas para a escola... fabrico cerveja local e
faço bicos”. Mas elas também reclamam que não
sejam as únicas que devam se sacrificar. Exigem que o governo
evite o contínuo corte de árvores e a queima de florestas
que pioram o abastecimento de água e o clima ao tempo que
solicitam que os países industrializados mudem seu estilo
de vida.
As mulheres não podem
continuar sendo vítimas e devem ser protagonistas na hora
da elaboração de políticas relacionadas com
a mudança climática. Se bem que já obtiveram
alguns reconhecimentos formais, estes não estão refletidos
nas propostas nem nas estruturas da Convenção das
Nações Unidas sobre Mudança Climática.
Por um lado, grande parte das
políticas propostas como (falsas) soluções
para o clima irá agravar ainda mais as situações
acima descritas. Por exemplo, a promoção de culturas
em grande escala para ser usadas como combustíveis e as monoculturas
de árvores como supostos sumidouros de carbono já
provaram que têm impactos negativos sobre as florestas, os
solos, a água e também sobre as mulheres.
Por outra parte, as mulheres
têm sérias dificuldades para ser levadas em conta inclusive
dentro da própria estrutura da Convenção, contrariando
assim seus próprios enunciados. Em dezembro de 2007, em Bali,
líderes internacionais declararam pela primeira vez que os
“assuntos de gênero são pertinentes nas políticas
relacionadas com o clima”. Em 2009, a Convenção
reconheceu formalmente a participação de grupos de
mulher e gênero. No entanto, recentemente, o secretário
geral das Nações Unidas, Ban Kimoon, anunciou a criação
de um grupo “de alto nível” encarregado nada
menos que de conseguir fundos para enfrentar os impactos negativos
da mudança climática nos países mais pobres
e desenvolver uma economia que não esteja baseada no uso
de combustíveis fósseis. (4). São 19 membros.
Todos homens. Nas suas mãos pode estar o destino da humanidade.
(5)
Os enunciados de “equidade
de gênero” devem estar refletidos nos fatos. Já
não há mais tempo. As mulheres, além de serem
as que mais sofrem os efeitos da mudança climática
são também fundamentais para encontrar soluções.
Resolver as desigualdades de gênero é questão
tanto de justiça como de sobrevivência.
(1)
Extraído de “Climate Change Adaptation from a Gender
Perspective, A cross-cutting analysis of development-policy instruments
de Birte Rodenberg para DIE Research Project “Climate Change
and Development“, Bonn 2009
(2) Publicado no Mirada Global.com
http://www.miradaglobal.com/
(3) Tomado de "Fortalecer
a las mujeres. ¡Cambiar el clima!", organización VEN
(4) Extraído do artigo
de Elizabeth Becker e Suzanne Ehlers “Why are women being
left out of climate decision-making?” http://www.grist.org/article/2010-03-08-why-are-women-being-left-out-of-climate-decision-making-u.n/
(5) Informações
adicionais de comunicados de imprensa da Gender CC estão
disponíveis em: http://www.gendercc.net/
inìcio
- As invisíveis mulheres e homens que resistem
contra a destruição de seu território no Norte
do Grande Chaco
Viver não deve por que
ser uma luta contra poderes assassinos. A vida das mulheres e dos
homens Ayoreo dos grupos isolados (sem contato com nossa civilização)
não era uma luta, era vida em e com os territórios,
como durante séculos. Hoje, no entanto, e independentemente
de sua vontade, sua vida vira uma resistência, um agüente
-e uma obrigação de lutar- desde que outro
mundo veio a invadir e a sobrepor-se ao deles...
Não é essa também
nossa história, estejamos onde estejamos? De ver-nos presos,
enredados e atascados em situações de resistência
e de agüente, quando nosso interesse simplesmente era o de
ficar tranqüilos, de sentir felicidade, de viver?
As mulheres e os homens indígenas
Ayoreo dos seis ou sete grupos que vivem "em isolamento voluntário",
uma condição e denominação que não
foi procurada por eles, mas que é o resultado de um processo
de extermínio e encurralamento, são hoje uma ínfima
mas significativa minoria humana. Antigamente, os povos indígenas
que povoavam toda nossa América, cada um com seu mundo diverso,
eram maioria, e os minoritários e "isolados" eram
os primeiros colonizadores e invasores.
Hoje, os grupos isolados Ayoreo
continuam vivendo nas florestas do norte do Grande Chaco: caminhando
e percorrendo seus territórios grupais, de lugar em lugar,
e ao fazê-lo, acham a vida e dão vida a cada canto
de sua rica e variada geografia, a que nós, com olhos de
alheios à vida do mato muitas vezes percebemos como uma simples
extensão de floresta uniforme e invariável na planície
do Chaco. Nossa linguagem, que virou econômica, tende a descrever
esse seu andar nômade como um asseguramento de "recursos"
para viver: a água, tão apreciada no Chaco bastante
seco, os animais que caçam e comem, as frutas que crescem
no mato. Mas elas e eles não têm esse olhar que somente
vê a utilidade e define todo desde a escassez: as florestas
do Chaco não são pobres mas ricas, a vida dos que
"ainda" vivem nessas florestas não consiste nem
consistia em sobreviver e lutar. Enquanto isso, nós, ocidentais
das sociedades "modernas" já não podemos
conceber uma vida que não esteja submetida às pressões
econômicas, como a de "ganhar-se a vida" lutando.
Para muitas e muitos de nós, é a única maneira
de viver que resta, e é a que consome todas nossas energias.
No entanto, os povos da floresta
que chamamos isolados não precisam "ganhar-se a vida".
Eles a ganham quando nascem e a acham de novo e depois a recriam
com cada passo e todo dia. O mundo no que vivem, não é
seu inimigo, como é o nosso para nós. O mundo deles
-que chamam de 'eami', que significa mato (floresta), e também
significa mundo- os contém, os alberga e os abriga. É
um mundo com o que vivem em comunicação, esse é
seu viver, e que ao mesmo tempo vive com essa comunicação,
o sentem, o olham, o reconhecem, pronunciam seu nome. Respeitam
esse mundo, receiam suas forças imensas, e sabem cuidar-se
das mesmas. Sabem que há uma maneira de conviver com o mundo
que é o "como deve viver-se", o "bom viver"
e conseguindo viver assim, sem incomodar o mundo, apenas comunicando-se
com o mesmo e com o que cabe a cada um, atinge-se um equilíbrio
sagrado que é o que sustentou este planeta durante um longo
tempo, antes de nossa época, como fruto de muitos equilíbrios
guardados cuidadosamente por mulheres e homens de muitos mundos.
O mundo Ayoreo é apenas um deles...
A verdade é que não
sabemos bem como estão de verdade, agora mesmo. De sua vida
de antes e de sempre, sabemos, através dos depoimentos colhidos
daqueles que foram arrancados de seu mundo pela força, por
missionários, e que conseguiram contar suas vidas. Mas com
os grupos ainda agora isolados ninguém tem contato. Somente
podemos discernir e colher, como frutos do mato- os sinais de sua
vida e seu andar, e interpretá-las à luz de nosso
conhecimento e nossa intuição. Mas no extremo norte
e noroeste do Chaco vivem grupos isolados mais abrigados por matos
ainda contínuos e extensos; também com mais e mais
desmatamento nos arredores, mas ainda há um pouco de tranqüilidade.
Não é assim no sul, mais perto dos povos e das cidades
nossas do Chaco Central. Lá há homens e mulheres isolados
que escutam e recebem já cada dia a mensagem da destruição
das florestas e de seu simples desaparecimento. E seu andar de cada
dia já está marcado pela mesma. Muitos de seus lugares
já viraram "não lugares", pontos do planeta
que perderam seu rosto e seu nome, desaparecidos que não
voltarão e que no mundo Ayoreo "já não
existem". No entanto, desde o nosso, recebem novos nomes, os
lugares Ayoreo mortos viram lugares de nosso mapa, (um mapa da morte?)
conectados por nossos caminhos, determinados por nossas obras, produtivos
de acordo com nossa definição, classificados conforme
seu grau de utilidade para nós; alguns viram fazendas, outros,
futuras plantações de feijão-soja (se a Monsanto
conseguir a anunciada façanha da semente resistente à
seca).
Enquanto isso, esses grupos
Ayoreo isolados mais expostos vivem e caminham entre fazendas e
companhias pecuárias, sempre invisíveis, mas já
não tem aonde ir para não escutar o ruído dia
e noite dos buldôzeres que derrubam mais mato próximo
ou o dos caminhões em qualquer um dos muitos caminhos que
impuseram o artifício da quadrícula a seu mapa.
Sabem as mulheres Ayoreo isoladas
e os homens contra o que estão lutando? Há um tempo,
deixaram nas bordas de seu mundo penas e sinais xamanistas com o
fim de deter a desaparição do mundo, mas debalde.
Devem perceber que o que tem na frente são poderes mais fortes
que os de seu mundo, forças que falam outras línguas.
E devem começar a duvidar de suas próprias forças,
a sentir-se ameaçados e debilitados.
Esta época do ano, os
meses de fevereiro e março, é a época do pimentão
do mato, e são elas, as mulheres Ayoreo, que percorrem o
mato para colhê-lo. Este ano, as mulheres o farão com
mais receio, com muitas mais precauções, com o estalo
incessante das máquinas presente. Haverá menos pimentão.
Não haverá pimentão de alguns lugares porque
já não existem. Da mesma forma que o pimentão,
também o caraguatá pertence ao mundo das mulheres,
são elas as que o colhem para transformar suas fibras no
fio para as bolsas e tecidos, seus escritos diários nos que
entretecem vivências, crenças, esperanças e
sonhos.
As mulheres coletoras estão
ameaçadas, da mesma forma que os frutos que procuram, do
mesmo jeito que os homens caçadores que estão ameaçados
como os animais que caçam. Com isso, a força independente,
diversa e única de seu mundo está em perigo.
O desmatamento -palavra que
aqui, neste texto, soa tão abstrata e que no entanto, no
Norte do Chaco é tão implacavelmente concreta- destrói
tanto a vida quanto o equilíbrio do mundo Ayoreo aos poucos.
Destrói a liberdade, a autonomia e a vida que independe de
dinheiro e de supermercado; uma vida auto-sustentada e sustentável.
Lutar não é sempre
guerrear e atacar. Às vezes é um florescer silencioso,
invisível e pacífico. As mulheres -e os homens- dos
grupos isolados lutam contra o desmatamento. Fazem isso com sua
presença e seu apego à vida, inseparável da
vida de seus territórios. Às vezes lutar é
simplesmente estar e persistir, é valorar-se e virar forte,
e reconhecer e estar consciente da própria riqueza.
Benno Glauser (Iniciativa Amotocodie,
Chaco Paraguayo), email: bennoglauser@gmail.com
inìcio
- As mulheres Garo de Bangladesh: a vida de um
povo da floresta sem floresta
Sicilia Snal (25) é uma
mulher Garo da aldeia florestal Sataria na floresta de Shorea
robusta de Modhupur. Trata-se de uma superfície de 25000
hectares, sendo a terceira maior floresta de Bangladesh, um país
que tem uma das menores coberturas florestais per capita na terra.
Sicilia deve ir, como parte de sua rotina, até a floresta
vizinha para coletar lenha. Esse é um direito tradicional
que ela e os outros moradores sempre usufruíram.
Hoje em dia, essa histórica
floresta nativa perdeu tudo menos o nome. Diminuiu a menos de dez
por cento de seu tamanho original. Isso pôs à prova
a forma de vida dos Garos, que ainda tentam aferrar-se à
floresta. Muitos foram mortos, torturados, encarcerados por causas
falsas; mulheres foram estupradas e tiveram que migrar às
cidades para se transformarem em trabalhadoras industriais, cosmetologistas,
empregadas do lar, etc.
Com escassa educação
formal em seu afastado povoado, Sicilia complementa a renda familiar
trabalhando como diarista. E, ainda tem uma carga adicional, ela
continua coletando lenha da floresta vizinha que foi reduzida a
meros arbustos.
Sua vida mudou drasticamente
no dia 21 de agosto de 2006. No início da manhã desse
dia ela foi coletar lenha como fazia habitualmente. Quando voltava
para casa, ela e outras mulheres Garo deixaram as cargas que carregavam
na cabeça para descansar um pouco. De repente, ela foi surpreendida
por um guarda florestal que disparou desde trás com sua espingarda.
Sicilia foi atingida. Mais de uma centena de projéteis entraram
em seu corpo; alguns atingiram vesícula e rins. Ela ficou
desacordada. Foi feita uma cirurgia em uma faculdade de medicina
na cidade vizinha [Mymensingh] para remover sua vesícula.
Alguns projéteis ainda
permaneceram nos rins e só puderam ser removidos depois de
ela ter seu terceiro filho. Com cerca de uma centena de projéteis
nas mãos e nas costas, ela não consegue realizar nenhum
trabalho pesado. Como em outros casos, ela não conseguiu
justiça nos tribunais. O caso dela foi acrescentado a outros
milhares que ainda estão pendentes nos tribunais locais
Bihen Nokrek (35) de Joynagachha,
outra aldeia florestal, foi morto de bala disparada por guardas
do Departamento Floresal (FD) na madrugada do dia 10 e abril de
1996. Um comitê judicial formado por um membro e liderado
por um magistrado local elaborou um único relatório
final que, conforme uma fonte do FD, disse que o disparo [que matou
Bihen] tinha sido justificado. Bihen Nokrek deixou mulher e seis
filhos definhando na pobreza e insegurança.
Renu Nekola, uma mulher Garo
da aldeia Kakraguni na mesma região foi encarcerada durante
mais de um mês e meio por “danos à floresta”
em 1992. Conforme Nekola, ela foi detida enquanto coletava lenha
da floresta no dia 12 de dezembro de 1991. Nekola foi pega com um
pequeno machado nas mãos sendo acusada por cortar uma árvore.
O magistrado de um tribunal local a puniu com um mês de prisão.
Mas ela já tinha passado um mês e 23 dias na prisão
antes de ser proferido o veredicto conforme a lei florestal.
Sicilia Snal, Bihen Nokrek e
Renu Nekola são descendentes de um tribo Garo matrilinear
que se estabeleceu nessa floresta há séculos. Eles
fizeram uma longa viagem do Tibete. A maior parte dos Garos habita
no estado indiano de Meghalaya. A floresta era densa e cheia de
vida antigamente. As pessoas cultivavam tudo. Durante séculos
eles praticaram a cultura de roça e queima também
nas terras altas, localmente conhecidas como Chala.
Na sociedade matrilinear dos
Garo, as mulheres têm propriedades, fazem tudo, podem escolher
seus maridos, e são vistas em todos os lugares fazendo todo
tipo de trabalho pesado nos campos e em suas casas com um ar de
liberdade, em agudo contraste com as mulheres da sociedade Muslim.
Enquanto na sociedade Muslin as mulheres são obrigadas a
muitas restrições, as mulheres Garo são iguais
aos homens. Elas fumam tabaco e bebem com seus maridos. Elas não
ficam bravas se alguém comete adultério. As ofensas
podem ser resolvidas com a em troca de um poucos porcos que são
consumidos por todo o povoado em um clima festivo. É um povo
lindo com mentes lindas que cresce na floresta. Tal situação
nunca será vista na maioria das aldeias bengalis.
Essas crianças das florestas,
que já vivenciaram uma vida pacífica nas aldeias florestais,
agora estão expostas ao mundo de fora devido ao rápido
desaparecimento da floresta. O principal fator recente para a perda
drástica de florestas nativas em Modhupur e outros lugares
é a plantação de monoculturas com espécies
exóticas de eucaliptos e acácia financiada pelo Banco
Asiático de Desenvolvimento (ADB, pela sua sigla em inglês)
e o Banco Mundial. As plantações de monoculturas em
rotações curtas têm efeitos severos e multiplicativos.
Mais recentemente, estranhos iniciaram plantações
comerciais em grande escala de banana e abacaxi entre outras.
Sem florestas, a vida das mulheres
Garo em particular tornou-se difícil e perigosa. A lenha
e os alimentos florestais que as mulheres sempre coletaram da floresta
tornou-se escassa. Elas ainda vão à floresta que ficou
reduzida a maleza e devem enfrentar “pistoleiros e armas”.
Os guardas armados do Departamento Florestal, os grupos de bandidos
florestais, às vezes os militares e os comerciantes de fora-
todos juntos- provocam- causam dificuldades insuperáveis
para as mulheres Garo especialmente. Sicilia Snal e Renu Nekola
são apenas duas dos milhares de mulheres que enfrentam balas,
estupros e outros tipos de assédio em sua vida quotidiana
nas florestas.
O severo desmatamento, plantações
e invasão dos estranhos nas aldeias florestais forçam
as mulheres Garo a migrar às cidades. Um fato estonteante
sobre as mulheres Garo na capital Dhaka é que se você
visitar qualquer salão de beleza, você verá
moças GAro trabalhando tranqüilas e sorridentes. Também
podem ser encontradas nos centros de fisioterapia. São as
mais confiáveis como empregadas nas casas dos estrangeiros.
Uns milhares de moças e mulheres Garo, desarraigadas de suas
terras e florestas, fazem uma chamativa diferença na capital.
Elas são mulheres extraordinárias com diferentes valores.
Os tipos de trabalho que “contaminam” outras mulheres
das sociedades patriarcais. A psique delas faz que elas sejam verdadeiramente
iguais aos homens. Por isso, onde estiverem, elas são as
que produzem as mudanças.
As mulheres Garo levam para
seus povoados a renda que elas obtêm nas cidades. A floresta
desapareceu da maior parte de seus povoados, mas elas se mantêm
fortes. e ensinam as pessoas de outras sociedades as lições
que precisam aprender. Elas sorriem diante de todas as adversidades
que devem enfrentar. Elas não têm títulos das
terras onde elas constroem suas moradias nos povoados florestais,
mas são as únicas que mantêm as sementes da
floresta. Se derem a chance, a floresta pode florescer novamente
nas mãos delas.
Por Philip Gain, Society for
Environment and Human Development (SEHD), Bangladesh, email: sehd@citech.net
inìcio
- Brasil: por quem e por que lutam as mulheres,
também no Dia 8 de Março
Que é a felicidade? Poderíamos
ter muitas respostas e poderíamos até considerar que
ser feliz é um assunto estritamente pessoal. Todavia, pelo
menos dois aspectos da felicidade são universais: todas e
todos a queremos, e dificilmente alguém pode declarar-se
feliz se tiver fome, frio, falta de casa, falta de acesso ao conhecimento
construído e acumulado pela humanidade.
Como estamos em termos de ‘coeficiente
de felicidade’? Desde o ponto de vista de ser mulher, muito
mal. Desde o ponto de vista de ser camponesas e trabalhadoras, muito
mal. Desde o ponto de vista de ser mães, mal.
Mal, por que?
Dentro de casa, o serviço
doméstico ainda é considerado “tarefa feminina”,
onde os homens que dizem já haver superado o machismo “ajudam”
a fazer, mas não tomam essas tarefas como suas. As posições
sexuais comumente femininas são usadas para achacar e minimizar
pessoas, por exemplo alguns refrões de torcedores no futebol.
Ser “mulherzinha” é ser nada, é ser escravo,
é ser objeto.
Ser mãe não é
apenas “padecer no paraíso”. Os locais de trabalho,
as escolas, espaços públicos e privados, mui poucos
disponibilizam cirandas infantis para que as mães possam
estar efectivamente nas atividades, sejam quais sejam. Ao buscar
trabalho, a pergunta: “tens filhos?” pode ser o começo
da dispensa. Em geral, o individualismo tão cultivado na
modernidade não reconhece as crianças como responsabilidade
coletiva, como pessoas cujo bem estar deve interessar a todos e
todas. Filhos são responsabilidade unicamente de suas mães.
Como trabalhadoras ainda recebemos
menos que os homens pelo mesmo trabalho fora de casa. Muitos chefes
e patrões consideram as trabalhadoras também como
objetos sexuais. E como camponesas, sofremos diretamente os impactos
do avanço do capitalismo no campo, na forma de atuação
das empresas transnacionais do agronegócio.
Ademais de tudo isso, somos
espancadas e violentadas diariamente, e, o que é mais triste
ainda, com um alto índice de violência praticada por
pais, maridos, filhos, tios, avós..., ou seja, uma violência
nascida dentro da família.
Voltemos à questão
das camponesas. Poderia parecer que é um curso “natural”
do desenvolvimento humano a desaparição de ofícios,
como ocorreu na Revolução Industrial; logo, a desaparição
das camponesas também seria “natural”, pois que
a “modernidade” avança para o campo. Também
poderia parecer que a população que vive nas cidades
não tem nada que ver com as ocorrências do campo, como
com a violência das empresas do agronegocio contra as camponesas
e camponeses.
Atentando para o que comemos,
podemos ver duas opções nas cidades: comida “industrializada”,
e comida “natural”. Como comida industrializada estamos
falando de redes de fast-food e alimentos prontos nascidos da Bunge
e outras empresas. Por comida natural estamos falando de leite,
grãos, frutas, legumes, etc. cuja produção
está entre 60 e 80% respondida por camponeses e camponesas.
Os efeitos de ambas as opções
alimentares estão já bastante evidenciados. Altos
índices de obesidade, câncer, suicídios, depressão
e uma ampla variedade de enfermidades por dietas tipo McDonald.
Nunca ouvimos falar de alguém doente por comer alimentos
saudáveis produzidos pelo campesinato.
Logo, a tarefa de produzir a
alimentação, imprescindível para a felicidade
de qualquer pessoa, não pode ser um negocio, e em toda a
história da humanidade as camponesas foram protagonistas
em garantir alimentação de todos e todas.
O negócio de empresas
transnacionais como Monsanto, Syngenta, Nestlé, Bayer, Cargill,
Dupont, Basf, não é produzir comida, é produzir
lucros. Nesse caminho de sempre buscar lucro, vão tentando
exterminar o campesinato. E as primeiras afetadas são as
mulheres camponesas.
Onde avança o agronegocio,
recua o campesinato. Os poucos postos de trabalho que permanecem,
são ocupados por homens mal pagos e muito explorados; para
as mulheres, as alternativas são: migrar para cidades, ficar
em casa totalmente dependentes, ou prostituir-se.
Para toda a sociedade isso significa
menos trabalho, menos comida, menos moradias, mais violência.
Que felicidade esse modelo pode construir? Se até mesmo o
orgulho de saber e poder produzir o alimento, e a identidade campesina,
herdada e aperfeiçoada a cada geração, podem
ser roubados pelas empresas do agronegocio?
Quando uma empresa patentea
uma semente, que é um patrimônio dos povos e deve estar
a serviço da humanidade, está roubando os saberes
construídos historicamente pelos campesinos e campesinas.
Em várias regiões
do Brasil, as empresas de celulose estão espalhando seus
desertos verdes de eucaliptos. Na Bahia, no Espírito Santo,
no Maranhão, no Rio Grande do Sul, Stora Enso, Votorantin/Fíbria,
Suzano, vão arrancando povos indígenas, descendentes
de escravos, camponeses e camponesas de suas terras, e instalando
seus exércitos clonados, na forma de eucaliptos e na forma
de soldados.
Nós, as camponesas, nativas,
negras, do Movimento Sem Terra e da Via Campesina, nos lançamos
contra o projeto de morte das empresas transnacionais. Nesse 08
de Março reafirmamos nossa luta, porque 08 de Março
é dia de rosas, sem deixar de ser dia de continuar a luta,
de pôr abaixo os eucaliptos e a fome que eles representam.
Anunciamos em nosso manifesto
que “a gente não quer só comida, a gente quer
alimento saudável, a gente quer soberania alimentar!”
No Brasil, segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), 80% das pessoas sem acesso à renda são mulheres.
O cambio dessa situação passa pela construção
da soberania alimentar.
O que é Soberania Alimentar?
É um povo, mulheres, homens, jovens, idosas e idosos, decidir
o que quer em sua alimentação, e ter capacidade de
produzir e consumir alimentos saudáveis, na quantidade necessária
e de acordo com sua cultura. Soberania alimentar implica em uma
transformação cultural, onde estão contempladas
novas relações entre as pessoas.
Alguns tentam desqualificar
nossas lutas nos chamando de criminosas, de ignorantes, nos comparam
aos quebradores de máquinas que agiram quando o sangue das
trabalhadoras e trabalhadores têxteis começou a ser
derramado durante a Revolução Industrial.
Qual é nosso crime? Derrubar
eucalipto para produzir alimento? Barrar o roubo do patrimônio
coletivo, como são as sementes, repelindo as sementes transgênicas
patenteadas? Propor a construção de uma sociedade
com pão, com água, com ar, educação,
para todas e todos, esse é o crime e a ignorância?
Para construir soberania alimentar,
precisamos combater o agronegocio e o avanço do deserto verde
de eucalipto. Soberania alimentar é base da felicidade de
um povo, pois implica em alimentos abundantes, saudáveis
e acessíveis, e novas relações entre as pessoas,
e entre pessoas e ambiente.
Homens, tenham em mente que
uma mulher que convive, que luta ao lado de um homem que se declara
machista, é como um escravo convivendo com alguém
que se declara escravista. Que relação de igualdade
e respeito pode existir numa situação assim?
Quando lutamos por uma nova
sociedade, com soberania alimentar, lutamos por nossa felicidade,
pessoal e coletiva. No Dia Internacional da Mulher Trabalhadora,
continuamos lutando por comida, mas, não queremos só
comida, queremos soberania alimentar, queremos ser felizes em nossa
vida no campo.
Por Janaina Stronzake, MST de
Rio Grande do Sul, correo electrónico: terrajana@gmail.com
inìcio