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Boletim do WRM
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NOSSA OPINIÃO - O quinto aniversário do Boletim Neste número, o boletim do WRM faz cinco anos, e desejamos parabenizar vocês e nós mesmos por isso. Esse parabéns em dose dupla não é simples formalidade. Com efeito, para nós, o boletim é essencialmente o resultado de uma constante e frutífera interação entre pessoas e organizações que, no mundo todo, trabalhamos, desde a razão e o sentimento, pela defesa das florestas tropicais e daqueles que nelas habitam. Ele retrata, portanto, visões e objetivos partilhados e se nutre da experiência de milhares de pessoas que, em diferentes níveis, lutam para atingi-los. Isso se evidencia, direta ou indiretamente, nos artigos publicados no boletim. No caso dos artigos sobre países, na maior parte dos casos, descrevem e analisam lutas concretas, nas quais participam tanto comunidades locais quanto organizações de apoio da sociedade civil. O boletim cumpre a função de divulgar suas lutas, experiências e aspirações, mas são elas mesmas que se encontram na origem dos fatos concretos que descrevemos e analisamos. Inclusive, muitas vezes, os artigos são escritos pelas próprias pessoas envolvidas. Mas, em todos os casos, cientes ou não, elas constituem a base essencial do nosso trabalho e são elas quem confere vida ao boletim. A informação difundida através do boletim constitui uma contribuição que, juntamente com outras, promove a mobilização de muitas pessoas e organizações no mundo todo, para apoiar esses movimentos de resistência, quer no nível nacional ou internacional, incrementando assim as possibilidades de sucesso daqueles que se deparam, em luta desigual, com poderosas forças locais e transnacionais. Por sua vez, essas mobilizações solidárias fortalecem o trabalho em redes, quer elas sejam temáticas, regionais ou por país, gerando assim laços de confiança cada vez mais profundos entre pessoas e organizações com aspirações coincidentes. O crescimento dessas redes solidárias é, para nós, de vital importância, para garantir o futuro das florestas e daqueles que nelas habitam. O boletim procura retratar, também, os processos internacionais capazes de atingir, positiva ou negativamente, as florestas e sua gente. Referimo-nos a processos tais como as convenções de Biodiversidade e Mudança Climática, o Fórum das Nações Unidas sobre Florestas, o Banco Mundial, a FAO, a Organização Mundial do Comércio, etc. Aqui, também, ele se nutre da experiência de numerosas pessoas e organizações que participam nesses processos, quer no nível local, nacional ou internacional, procurando influir neles positivamente. Como forma de democratizar a participação, tentamos transmitir os elementos essenciais desses processos, a fim de facilitar a sua compreensão pelo maior número de pessoas possível, com o objetivo de possibilitar a sua incidência nos mesmos. Ao atingir seus cinco anos de vida, também temos mais uma coisa para celebrar com vocês: a partir deste número, às já existentes versões em espanhol e inglês, juntar-se-ão as versões em francês e português (esta última, por enquanto, contendo apenas o editorial e a seção sobre a América Latina). Isso permitirá a participação e o envolvimento de um número de pessoas ainda maior e uma democratização da informação ainda mais ampla. Por fim, queremos agradecer a tod@s vocês sua contribuição e apoio, os quais, mês após mês, possibilitam que o boletim se transforme na ferramenta de luta e de conscientização almejada desde o início. Para todas e todos: Feliz aniversário! LUTAS LOCAIS E NOTÍCIAS AMERICA LATINA - Argentina: engenharia genética provoca desmatamento A Engenharia Genética (EG) é a última atualização da Revolução Verde. Ela representa o aprofundamento de um modelo no qual a monocultura, a concentração de terra e a dependência --da tecnologia, da semente-- tornaram-se a norma. A EG foi introduzida sob os mesmos auspícios da Revolução Verde: um instrumento para satisfazer a fome no mundo. Seus defensores tentam fazer com que os críticos se sintam culpados: "No dia em que olharem para os olhos de uma pessoa com fome, a sua opinião sobre os cultivos transgênicos mudará... Na atualidade, existem 24 mil pessoas que morrem diariamente por causa de desnutrição. Por isso, quando no Norte, na Europa, decidem não empregar essa tecnologia, é moralmente inaceitável", são as palavras do Dr. Clive James, experto em biotecnologia do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas (International Service for the Acquisition of Agri-Biotech Applications - ISAAA). No ano 1996, o governo argentino aprovou entusiasticamente a introdução de soja transgênica, transformando o país num produtor mundial de primeira ordem de soja Roundup Ready (RR), do grupo Monsanto, fundamentalmente para exportação. No entanto, a fome continua aumentando. Apesar das colheitas recorde, quase metade d@s argentin@s vive na pobreza. Desde maio de 2002, 18 milhões de pessoas, quase 50% de uma população de aproximadamente 37 milhões, não têm acesso à satisfação de suas necessidades básicas. Há mais de vinte anos, o economista e Prêmio Nobel Amartya Sen demonstrou que a fome e a esfomeação podem acontecer, e com freqüência acontecem, em situações onde não há escassez de alimentos. Sen explica que, mesmo em situações de fartura geral de alimentos, a capacidade dos lares adquirirem alimentos através de meios legais vê-se reduzida devido à queda na propriedade de bens (colheitas, gado, propriedade, emprego, entre outros), motivo pelo qual esses lares se deparam com a fome, a menos que exista algum tipo de seguridade social que os proteja. Os biotecnologistas também sustentam que os cultivos transgênicos ajudam a proteger o meio ambiente, porquanto aumentam a produtividade das terras cultivadas, reduzindo, assim, a derrubada de florestas ou a destruição de outros hábitats importantes às mãos da agricultura. Não obstante, o enorme aumento na produção de soja, na Argentina, é resultado de um incremento da área cultivada e não da produtividade. Esse incremento é obtido a partir da substituição de outros cultivos, em boa medida à custa de terras que pertenciam a estabelecimentos de médio e pequeno porte, de natureza familiar, dedicados ao consumo local e nacional, e a partir do desmatamento. Um estudo do Greenpeace revela como a soja transgênica vem contribuindo para o agravamento da destruição da floresta de Yungas, na província nortista de Salta, uma das mais pobres da Argentina, do ponto de vista econômico, mas, biologicamente, das mais ricas do país. A floresta de Yungas, mata úmida montanhosa, ou mata de nuvens, é provavelmente a área com maior diversidade biológica da Argentina. Ela pode ser dividida em quatro sub-regiões, de acordo com a altitude, que vai de 300 metros para mais de 4 mil metros. A primeira sub-região, chamada de Floresta Pedemontina (floresta ao pé da montanha), é a mais ameaçada. Essa sub-região concentra 30% de toda a biodiversidade desse valioso ecossistema. No entanto, menos de 20% de Yungas ainda está em boas condições para a sua preservação ou uso, através de atividades de desenvolvimento sustentável. A população rural pobre está perdendo um ecossistema capaz de lhe fornecer numerosos bens, como alimentos, remédios, matéria-prima para o artesanato, ou produtos que podem entrar no mercado. Como no caso da Revolução Verde, a Engenharia Genética falhou em sua tentativa para alimentar o mundo. Para a indústria da biotecnologia, o assunto sempre foi simples questão de dinheiro. Artigo baseado em informação obtida em: "Record harvest-record hunger", Greenpeace, junho de 2002, http://archive.greenpeace.org/~geneng/reports/food/record_harvestembargo.pdf - Brasil: enquanto o povo se revolta, Aracruz festeja É impressionante a forma como a Aracruz Celulose S/A lida com a realidade na qual ela está inserida e que tem mostrado inúmeros impactos negativos das suas atividades no Espírito Santo e na Bahia. Neste momento, a empresa está terminando um aeroporto privado, suficientemente grande para que o avião presidencial do Fernando Henrique Cardoso possa aterrissar no próximo dia 02 de agosto quando será inaugurada oficialmente sua terceira fábrica que ampliará a produção anual de celulose de eucalipto de 1,3 para 2 milhões de toneladas. No dia da inauguração, devem se reunir em torno do presidente brasileiro os mais altos representantes dos governos municipal, estadual e federal, fiéis aliados da empresa ao longo da sua existência no Brasil. Também marcará presença a imprensa estadual que já iniciou a divulgação do grande fato, como sempre, enaltecendo a contribuição da empresa para o desenvolvimento econômico do Estado. Também assistirão a solenidade ONG´s como o "Instituto Terra da Gente", financiada pela própria Aracruz, e que lhe deu o troféu "Mata Atlântica", uma piada de mal gosto, especificamente quando se trata de uma empresa que derrubou milhares de hectares da mesma mata atlãntica. Sem dúvida, estarão presentes as associações e sociedades de engenheiros florestais que se empolgam mais com milhões de eucaliptos, idênticos, clonados e de alta produtividade, do que com a tarefa de compreender a complexidade fascinante de uma floresta natural. Com certeza, também o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social não perderá a festa, já que investiu 1 bilhão de reais brasileiros no projeto da 3ª fábrica, em vez de investir valores equivalentes no fortalecimento da abalada agricultura familiar no Estado. Vale a pena lembrar que os US$ 630 milhões de investimentos na nova fábrica consistem na sua quase totalidade de máquinas produzidas na Europa e segurados com créditos de garantia para sua exportação. O que sobra para o Brasil são somente 172 empregos permanentes nessa nova unidade industrial. Ainda assim, às custas de um débito do Estado do Espírito Santo para com a Aracruz de cerca de 100 milhões de reais, relativo a créditos acumulados pela empresa por não incidir impostos sobre a cadeia produtiva de produção de celulose para exportação. O clima entre os gerentes e diretores da empresa tem ficado mais festivo ainda com a notícia do Supremo Tribunal Federal no início do mês de junho, quando este Tribunal decidiu considerar inconstitucional a lei estadual que proibiu o plantio de eucalipto para fins de celulose, até que se realize um zoneamento agro-ecológico do Estado para definir onde deve ser plantado eucalipto. Com certeza, os ministros do Tribunal, na sua decisão, não olharam para a situação desesperadora das mais de 100 famílias do município de Vila Valério que foram expulsas das suas terras, compradas pela Aracruz Celulose. Tampouco consideraram os US$ 230 milhões de dólares sobre os quais a empresa dispõe para adquirir novas terras, 200 vezes mais dinheiro do que o valor previsto anualmente no Estado para fins de reforma agrária, uma necessidade pela qual 50 mil famílias no Estado estão esperando até hoje. E o Tribunal não levou em conta também os resultados positivos das audiências públicas regionais do zoneamento agro-ecológico, que conseguiram devolver um pouco da consciência para o povo, um pouco do direito de opinar sobre o futuro dos seus filhos e da sua região. Vale lembrar ainda que a Aracruz teve até a arrogância de afirmar que avaliará se vai processar ou não o Estado pelos prejuízos que a lei estadual de zoneamento trouxe para ela. E o Jornal A Gazeta fez o que um jornal descente nunca faria: divulgou na primeira página que a liberação do plantio de eucalipto gerará 25 mil empregos, um número sem fundamento, sem argumento, sem o mínimo de veracidade. Depois, quando o deputado Nasser, autor da lei de zoneamento, elaborou uma lei parecida que foi aprovada na Assembléia Legislativa no dia 26 de junho, o partido dele, o mesmo do Presidente Fernando Henrique, decidiu não dar mais legenda para ele nas próximas eleições. Mais uma vez ficou evidente que qualquer ação contra a Aracruz Celulose custa caro. É neste clima que se aproxima o dia da inauguração da nova fábrica. De um lado, uma mega-empresa que quer festejar, que nega qualquer impacto e não admite critica ou qualquer controle sobre suas ações por parte da sociedade civil da qual ela faz parte. De outro lado a grande maioria do povo capixaba, principalmente a população rural, cada dia mais revoltada com a ação da Aracruz, sabendo também que precisa resistir se quiser ter um futuro minimamente digno. É esta mensagem que o Movimento Alerta contra o Deserto Verde, que agrega segmentos representativos da população rural e urbana, busca mostrar para toda a sociedade durante a Ia. Quinzena de Resistência ao Deserto Verde. Serão 15 dias de atividades paralelas à inauguração da nova fábrica pela Aracruz Celulose e ao depoimento do Erling Lorentzen, o Presidente norueguês da empresa, na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a extensa lista de irregularidades cometidas pela empresa. Vale lembrar que, como é de se imaginar, a imprensa local está boicotando totalmente esta importante e inédita investigação. A quinzena mostrará durante 15 dias para a opinião pública que a sociedade continuará resistindo a um modelo que exclui a maioria da população, mesmo se este modelo se impõe e domina esferas públicas e não-públicas que deveriam defender em primeiro lugar os interesses do povo. Movimento Alerta contra o Deserto Verde no
Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro - Chile: oposição à estrada que destruiria florestas e povos Perdido no meio de remotas montanhas no litoral sul do Pacífico, no Chile, encontra-se o último remanescente incólume de floresta litorânea, um dos ecossistemas com maior diversidade das Américas. Calcula-se que uma terceira parte da floresta temperada existente no mundo se encontra na zona sul do Chile e da Argentina. A floresta temperada do Chile, resguardada das geleiras pela Cordilheira do Litoral, é o remanescente daquilo que um dia foi a extensa floresta de Valdivia. A cordilheira do litoral possui ecossistemas que se desenvolveram durante milênios com mínima intervenção humana, constituindo um patrimônio natural e cultural único. É uma área identificada como um dos 25 ecossistemas mundiais que reúnem elementos únicos no planeta. Além do huillín (nútria de rio) habitar em seus rios, e de possuir as únicas matas de pequena oliveira litorânea (Aextoxicon punctatum), espécie endêmica apenas existente na floresta valdiviana, quanto à diversidade cultural, a cordilheira do litoral alberga a presença ancestral das comunidades indígenas Mapuche Huilliche. Nos meados do ano 2001, o governo chileno decidiu continuar um projeto de construção de uma Estrada Litorânea, amplamente rejeitada a nível local e internacional. Essa estrada ameaça com destruir vastas áreas de floresta prístina dessa impressionante ecoregião, através da combinação de derrubada rente e substituição por espécies exóticas, extração de madeira e habilitação do terreno para a pecuária. Importantes empresas florestais estão por trás da construção dessa estrada de 320 quilômetros de longitude, a segunda que uniria o país de norte a sul, provocando calamitosos impactos nas florestas e sua gente. As comunidades Huilliche fazem firme oposição a isso. "A saúde do povo mapuche está na floresta. As empresas florestais já causaram muito estrago; roçaram e queimaram a melhor madeira, para, depois, enfiar pinheiro e eucalipto. Sumiram o carvalho-pellín, o lingue, o loureiro, o coigüe, a pequena oliveira. Não escutamos mais o canto dos pássaros, e águas e solos estragaram. A gente não quer mais poluição", diz Anselmo Paillamanque, lonko (chefe) de Cuinco, quem luta pela defesa das terras de dezoito comunidades e faz parte da Coligação de Organizações Cidadãs para a Preservação da Cordilheira do Litoral (CCCC). "Sofremos os mais terríveis desmandos por parte de pessoas físicas e de empresas nacionais e transnacionais; foram suprimidas leis que nos beneficiavam e as compras fraudulentas se multiplicaram. A estrada provocaria grande estrago ecológico e mataria a gente enquanto povo; portanto, não estamos dispostos a aceitar". Em pleno inverno do ano 2001, com o poncho encharcado por causa da chuva, perante a Comissão de Meio Ambiente do Congresso Nacional, Martín Paillamanque, lonko de Maicolpi e representante de dez comunidades do setor litorâneo de São João da Costa, advertia os deputados: "Em nome do desenvolvimento está sendo provocada a ruína e inclusive o extermínio das comunidades. Foi feito um trabalho de pesquisa sério e acurado, o qual revelou a vontade das comunidades contra a construção da estrada litorânea em nosso território. Nós vamos nos opor até o fim, e, caso o Estado insista, saberemos o que fazer. Queremos desenvolvimento, mas com identidade, e vamos continuar contra um projeto que não nos beneficia. Vamos lutar para impedir que as comunidades sejam fragmentadas e que, mais uma vez, botem máquina na gente. Por isso estamos propondo alternativas". Recentemente, e em virtude do Acordo de Cooperação Ambiental Chile-Canadá assinado por ambos governos no mês de fevereiro de 1997, várias organizações chilenas apresentaram um recurso de natureza internacional, com o objetivo de que a Comissão para a Cooperação Ambiental Chile-Canadá (ACACC) investigue as graves violações à legislação ambiental no tocante ao processo de avaliação ambiental e construção do Caminho Litorâneo Sul desenvolvido pelo Ministério de Obras Públicas (MOP) na X Região. Segundo o advogado dos requerentes, Miguel Fredes, do CEADA, "não se sabe _até a presente data_ de nenhuma outra denúncia submetida à investigação da Comissão que registre um recorde tão alto de violações à legislação ambiental quanto o caso do Caminho Litorâneo Sul". Waldemar Monsalve, um dos requerentes que há muito tempo vem denunciando as irregularidades do MOP, afirma que a construção do Caminho Litorâneo causou sérios estragos ambientais na área de Osorno. "Além disso, com a documentação anexada à petição, podemos provar que a Diretoria de Viação do MOP provocou, em 1998, a derrubada ilegal da floresta nativa na área sob proteção Rio Contaco, em Osorno". Entre outras coisas, é peticionada uma sanção contra o MOP, devido à falta de cumprimento das condições de aprovação do Caminho Litorâneo Sul, e contra a Diretoria de Viação e a Construtora Río Bueno, pelos estragos ambientais provocados no Rio Contaco e seus recursos hidrobiológicos. Caso não sejam tomadas medidas imediatas para a sua proteção, a história da floresta nativa da Cordilheira do Litoral da X Região dos Lagos terá o mesmo destino que a VII, VIII e IX regiões do Chile, nas quais, praticamente, desapareceu a riqueza de flora e fauna das florestas temperadas, onde a floresta foi substituída por verdadeiros desertos verdes de plantações industriais de espécies exóticas, como o pinheiro e o eucalipto. O povo Huilliche não confia muito nas autoridades, as quais, em todo o tempo, deixaram ele para trás; portanto, também fizeram-lhes saber que "Nossos lonkos existiram sempre, desde muito antes da chegada dos conquistadores. Não surgimos da noite para o dia, e vamos lutar pelos nossos direitos". Artigo baseado em informação fornecida pela Coligação para a Preservação da Cordilheira do Litoral, e-mail: coalicioncc@terra.cl, http://www.ccc.terra.cl recolhida de Defensores da Floresta Chilena, http://www.elbosquechileno.cl informação enviada por Miguel Fredes, Centro Austral de Direito Ambiental (CEADA), e-mail: ceada@entelchile.net; http://www.ceada.org - Costa Rica: dólares japoneses para a promoção de monoculturas florestais O novo Presidente da Costa Rica, Abel Pacheco, parece ter boas intenções em matéria ambiental, mas, ao mesmo tempo, demonstra um certo vazio de conhecimento quanto às espécies de árvores nativas de seu país. Com efeito, essas contradições tornaram-se evidentes no último dia 2 de junho, quando de um ato na Casa Presidencial, realizado por ocasião de uma doação do governo do Japão (feita através do Banco Mundial), de US$ 300 mil, destinados a promover as plantações florestais comerciais. Nessa cerimônia, o Presidente Abel Pacheco enfatizou a necessidade de lutar pelas espécies autóctones e para deter o "nazismo" vegetal. Ao que parece, o Presidente não estava a par de que as espécies a serem plantadas _ melina e teca _ não são autóctones, mas ambas são oriundas da Ásia. Com efeito, o projeto, que será financiado com a doação do governo do Japão, tem por objetivo o plantio de 50 mil hectares por ano com teca e melina, num período de dez anos. Isso significa que tenciona-se cobrir um pequeno país como a Costa Rica nada menos que com 500 mil hectares de monoculturas florestais. A doação vem acompanhada _ como sempre _ do discurso ambiental, social e econômico correspondente, para justificar esse tipo de "desenvolvimento" florestal. O próprio nome do projeto (Projeto de Reativação do Reflorestamento Comercial na Costa Rica - REFORESTA) passa a mensagem enganosa de estar "reflorestando", quando, na verdade, estaria "monoculturizando". Além disso, Constantino González, presidente do Fundo que administrará os recursos doados, afirmou que essa atividade geraria entre 20 milhões e 30 milhões de dólares, nos próximos dez anos, e que permitiria satisfazer a demanda local de madeira, assim como, também, eliminar a pressão sobre as florestas e diminuir a derrubada ilegal. Isso tudo soa muito bonito, mas não concorda com a realidade, nem na Costa Rica nem em qualquer outro lugar do mundo. É triste que um país como a Costa Rica, possuidor de uma extraordinária diversidade florestal, entre na jogada dos japoneses, de se tornar fornecedor de madeira barata para esse e outros mercados insaciáveis do mundo industrializado, em vez de cuidar da restauração de suas florestas destruídas por outros processos de "desenvolvimento" (como o pecuário) que, no passado, reverteram em destruição ambiental e social. Adoraríamos ver o novo Presidente da República "lutando pelas espécies autóctones" e enfrentando o "nazismo vegetal" promovido, no caso, pelo governo do Japão e seu intermediário, o Banco Mundial. Esperamos ver isso acontecer. Artigo elaborado a partir de informação de: "Reactivan reforestación comercial", de Lisbeth Huertas Jiménez, Semanario Universidad, 19 de julho de 2002, enviada por Juan Figuerola, e-mail: juaneco@racsa.co.cr - Paraguai: sociedade civil em defesa das florestas de Concepção O Paraguai possui uma área de 406.752 km2. O rio Paraguai divide o país em duas biorregiões bem diferentes: a região Oriental e a Ocidental, ou Chaco. Ambas regiões apresentam grande diversidade cultural e de ecossistemas. Devido à maior densidade demográfica e à constante expansão da fronteira agrícola, a região Oriental suporta uma pressão muito elevada sobre seus ecossistemas. Nessa região, apenas 0,6% da área se encontra sob alguma forma de proteção. A região Oriental perdeu a maior parte da cobertura florestal nos últimos 40 anos. Em 1945, possuía quase 9 milhões de hectares de floresta, o eqüivalente a 55% da área total da região. No entanto, em 1991, essa cobertura tinha caído para apenas 15%. A taxa média aproximada de desmatamento, no período compreendido entre 1985 e 1991, foi de 290 mil ha/ano, chegando eventualmente a 500 mil ha/ano, constituindo, assim, uma das mais altas do mundo. Nalgumas áreas da região Oriental, como é o caso do Departamento de Concepção, os maiores índices de desmatamento deram-se nos últimos 10 anos. O desmatamento no Departamento de Concepção, assim como no resto do país, é estimulado por empresas madeireiras brasileiras que possuem serrarias na área de fronteira. Assim, a madeira é processada muito exiguamente no Paraguai e enviada ao Brasil, onde é "nacionalizada" e colocada no mercado internacional como madeira oriunda das florestas brasileiras. A sociedade civil de Concepção, alarmada com a crescente quantidade de serrarias no Departamento (de 8 serrarias passou para 50, sendo que, o mais das vezes, elas não cumprem as normas legais), organizou-se para lutar contra essa situação, formando a Comissão Multissetorial para a Defesa dos Recursos Naturais de Concepção. Essa Multissetorial seria integrada pela associação dos carpinteiros e marceneiros, por estudantes, docentes, comerciantes e pequenos proprietários de florestas. Todos eles, com o apoio das autoridades locais, promoveram a promulgação de um Mandato Departamental, proibindo a derrubada de várias espécies florestais da região, como o trevo (amburana cearesis), o incenso (myrocarpus frondosus) e o lapacho (tabebuia heptaphylla). Essas três espécies são as de maior valor econômico e, em conseqüência, as mais ameaçadas. A medida de regulamentação iria sofrer o ataque dos proprietários de terra (na grande maioria, pecuaristas), dos donos de serrarias e, inclusive, do próprio Governo Federal, que aludia a problemas de incompatibilidade entre o Mandato Departamental e a Lei Florestal federal. Assim sendo, a medida foi declarada ilegal pelo Governo Federal. O resultado é que o desmatamento continua sendo praticado a passos alarmantes, na região toda, diante do olhar cúmplice das autoridades do Serviço Florestal Federal (órgão encarregado do controle e da regulamentação do setor florestal). A sociedade civil de Concepção continua com novas medidas, entre as quais estão incluídas a capacitação, a informação e a resistência, para deter um processo que redunda em prejuízo para muitos e em benefício para bem poucos. Por: María José López, Bosques Sobrevivencia/FoE Paraguay, correo electrónico: bosques@sobrevivencia.org.py ** As seguintes seções estão
em espanhol, já que, por enquanto, a versão em portugês
do boletim inclui o editorial e os artigos sobre a America Latina ** |
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