wrmcast.gif (3121 bytes)


 

Boletim do WRM

Para descer o boletim como documento do Word, clique aqui
Para assinatura de graça
Números anteriores

 

Número 65 - Decembro 2002


ASIA

 

COMPARTILHANDO EXPERIÊNCIAS LOCAIS

- Birmânia: desmatamento nas bacias altas e criação de camarão estão destruindo o mangue

O WRM vem denunciando a vasta destruição das florestas da Birmânia, resultante dos processos de desmatamento --entre os quais a atividade madeireira comercial desempenha um papel fundamental--, que trazem como conseqüência graves impactos no meio ambiente e nas formas de sustento da população local.

Um desses impactos é a sedimentação dos rios. Em toda a região central da Birmânia, o desmatamento nas florestas de terras altas é o desencadeante de diversas alterações ambientais, como o desabamento de terra e a erosão do solo. Uma vez privado das várias funções de proteção, coesão e integridade oferecidas pela floresta, o solo é propenso a sofrer deslizamentos e a criar depósitos no leito dos rios, resultando em processos de sedimentação, com os conseguintes impactos rio-abaixo. Um desses impactos é o que atinge o mangue.

O rio Irrawaddy (consultar o boletim n° 54 do WRM) possui a quinta taxa de sedimentação mais alta do mundo, depois dos rios Amarelo, Ganges, Amazonas e Mississipi. O lodo depositado no rio Irrawaddy traz conseqüências para o mangue da foz do Irrawaddy, um dos mangues litorâneos da Birmânia, um dos sistemas de mangue mais degradados ou destruídos do Indo-Pacífico. Segundo estimativas prévias, caso se mantiver o ritmo de sedimentação existente entre 1977 e 1986, todas as florestas de mangue sumiriam em cinqüenta anos.

Além disso, cada dia mais, o mangue é transformado num lugar de produção industrial de peixe e camarão, principalmente voltada para a exportação. Em 1990, o Conselho Estatal para a Paz e o Desenvolvimento (State Peace and Development Council - SPDC) em exercício declarou a Birmânia "aberta à livre-empresa". Para o Serviço Comercial dos Estados Unidos, a Birmânia oferece "boas oportunidades" para a criação do camarão. No dia 2 de maio de 2001, a Shwe Ayeyar Co. Ltd. e a Regal Integrated Marine Resources Ltd. assinaram um Memorandum de Entendimento, para um projeto de criação de camarão em Kan Maw Island, na divisão de Tanintharyi. Segundo se disse, trata-se do maior projeto com investimento estrangeiro do setor de criação de animais. Na Birmânia, o desenvolvimento da indústria de criação do camarão vem ganhando força desde 1998, espalhando-se rapidamente ao longo do litoral todo. Os dados oficiais referentes ao ano fiscal 1999-2000 declaravam uns 50 mil hectares com reservatórios para peixes, um drástico incremento se comparado à década anterior.

Para piorar a situação, existem denúncias de que o processo de criação industrial do camarão está ligado ao trabalho forçado, no contexto de uma economia fortemente controlada pelos militares. Segundo o Serviço de Informação Mon, o atual regime militar mantém um projeto do governo para criação de camarão, nos povoados de Kyauk Minaw e Kanyawbyin, no município de Lauglon, totalmente baseado no trabalho forçado e na extorsão da população local e dos produtores de camarão. É exigido dos produtores locais de camarão que forneçam camarões jovens, segundo cotas fixadas pelo governo, ao passo que diversos povoados locais tiveram de servir como mão-de-obra, para a construção de todas as instalações e reservatórios necessários.

No extremo oposto dessa cadeia, o camarão importado da Birmânia é servido a consumidores bem-alimentados (ou é oferecida a aquisição de móveis de teca, obtida a partir de árvores derrubadas de forma não-sustentável nas florestas birmanesas), sem eles terem consciência de que estão contribuindo para a destruição social e ambiental generalizada dos recursos do país e dos meios de subsistência do seu povo. As tais bondades da globalização!

Artigo baseado em informação obtida em: "Myanmar Coast mangroves", WWF, http://www.worldwildlife.org/wildworld/profiles/terrestrial/im/im1404_full.html ; The U.S. Commercial Service, http://www.usatrade.gov/website/CCG.nsf/CCGurl/CCG-BURMA2002-CH-2:-0045F7E4; "Boycott imports from Burma", CFOB, http://www.cfob.org/CanadianPolicy/imports.shtml.


inicio

- Camboja: política florestal contra comunidades rurais

Dos mais de 10 milhões de cambojanos que atualmente habitam áreas rurais, mais de 8,5 milhões dependem dos recursos naturais para seu sustento. Embora a maior parte se dedique à lavoura de arroz, há apenas uma colheita ao ano, complementada com uma variedade de produtos florestais, que também cumprem uma função essencial em sua forma de sustento.

Enquanto recurso de propriedade comum (ao qual todos têm acesso), a floresta é um meio pelo qual os lares cambojanos diversificam as atividades geradoras de renda e meios de subsistência, otimizando os recursos nas diferentes estações e fornecendo um "seguro" contra o risco de perda da lavoura. Além disso, a população sem terra, com pouco dinheiro para investir e escassas alternativas para se sustentar, com freqüência, ainda pode colher produtos da floresta para subsistir. Assim, os recursos naturais do Camboja não só são a base que garante a alimentação, a renda e o emprego da maioria da população, mas, também, funcionam como uma "rede de proteção" para a população rural pobre.

Não obstante, na década passada, os modos de sustento rurais viram-se enfrentados a desafios cada dia maiores, devido à rápida diminuição dos recursos. O corte ilegal e não-sustentável --praticado por empresas comerciais, o exército e autoridades locais-- e o crescimento da população rural trouxeram como resultado altas taxas de degradação e perda de florestas. A informação sobre cobertura florestal sugere que a taxa de desmatamento aumentou drasticamente de 1993 a 1997 (último ano em que há dados disponíveis). Embora os cálculos do governo, a partir de 1997, indiquem que ainda restam 10,6 milhões de hectares de cobertura florestal no Camboja, os mesmos baseiam-se numa interpretação das imagens satelitais, sendo que não incluem uma relação dos recursos florestais "dissimulados", o que poderia revelar muito sobre a qualidade e/ou degradação das florestas que ainda restam de pé.

Estudos de caso revelam que a diminuição dos recursos florestais, nas áreas próximas aos povoados, está forçando os moradores a satisfazer suas necessidades de sustento em áreas mais afastadas. As causas da diminuição dos recursos disponíveis são, segundo se afirma, as atividades de corte ilegal e/ou não-sustentável e o fato de ficar restrito o acesso às áreas florestais em concessão. Na medida em que a escassez faz subir os custos de obtenção dos recursos naturais (em termos de tempo, mão-de-obra, dinheiro e risco), os lares rurais devem arcar com essas despesas, já que muitos produtos florestais não são facilmente substituíveis.

Por outro lado, foram impostas restrições importantes, limitando o acesso da população rural aos recursos naturais. De 1975 a 1989, não existiu a modalidade de propriedade privada. Em 1989, o governo permitiu, pela primeira vez, que os cidadãos tivessem a propriedade privada das casas e das terras que ocupavam. Contudo, ainda não é permitida a propriedade de terra não-residencial. A Lei de Terras do Estado do Camboja, de 1992, ampliou os direitos de propriedade privada, para incluir os direitos de posse temporária, usufruto, uso e servidão. Isso permitiu ao governo alugar grandes parcelas dos recursos mais produtivos do Camboja a interesses privados. Dos 18,1 milhões de hectares de território cambojano, cerca de 5,5 milhões atualmente encontram-se em regime de concessão --inclusive 4,24 milhões destinados para a exploração florestal--, o que tem levado a um aumento da população sem terra e ao surgimento de conflitos entre os madeireiros comerciais e os sub-empreiteiros e usuários locais das florestas. Geralmente, os conflitos acontecem por ter sido negado o acesso aos recursos naturais, pela perda de recursos naturais, devido aos danos causados pela atividade madeireira, e/ou pelo clima de intimidação resultante das medidas de segurança das empresas concessionárias.

O processo de "consulta pública" --cujo prazo acaba no dia 30 de novembro-- iniciado pelo governo, supostamente, para analisar os "planos de manejo florestal sustentável" apresentados por 13 das 14 concessionárias em atividade no Camboja, e para possibilitar o debate entre os diversos "sócios", foi questionado. Algumas ONGs denunciam o "arremedo" de transparência, o qual, elas suspeitam, tem por fim, principalmente, legitimar a exploração comercial que violará os direitos das comunidades atingidas por um processo que implica uma reforma da política florestal e que conta com o apoio --nada surpreendente-- do Banco Mundial, através de um empréstimo de cinco milhões de dólares.

Artigo baseado em informação obtida em: "Forest Policy: The 'public consultation' on concession management plans ends in a climate of defiance", Cambodge Soir nº 1653, 29 de novembro de 2002; "Natural Resources and Rural Livelihoods in Cambodia: A Baseline Assessment", Bruce McKenney e Prom Tola, carta eletrônica da RECOFTC nº 2002.20, 21 de novembro de 2002, correio eletrônico: info@recoftc.org, http://www.cdri.org.kh/; "Closing address of Samdech Hun Sen, Primer Minister of the Royal Government of Cambodia, at the Government-Donor monitoring Meeting, 29 de janeiro de 2001, http://www.camnet.com.kh/ocm/government64.htm.


inicio

- Indonésia: a destruição dos ecossistemas de mangue

O mangue é um ecossistema litorâneo primário, de grande diversidade biológica, próprio das regiões tropicais e subtropicais, que tradicionalmente foi a base de sustento da população local, fornecendo, entre outros produtos, alimentos --o mangue é área de desova e criação de muitas espécies marinhas--, lenha, carvão e madeira.

Além disso, o mangue desempenha uma função de redução das enchentes, ajuda a evitar a erosão das margens dos rios e serve para amortecer o marulho produzido pelas tempestades e, em menor medida, também pelos ventos fortes, ambos fenômenos climáticos associados a muitas tempestades tropicais e subtropicais. Embora as tempestades fortes possam bater e danificar as barreiras litorâneas de mangue, este volta a crescer naturalmente e sem custo algum, à diferença de qualquer barreira de proteção litorânea criada pelo ser humano. Não obstante, os ecossistemas de mangue estão sendo destruídos propositadamente, para realizar atividades industriais não-sustentáveis.

Os banhados indonésios, entre os quais estão incluídas as florestas de mangue, pântanos e turfeiras, vêm diminuindo significativamente, passando de uma área total de 42,5 milhões de hectares, em 1987, para 33,8 milhões de hectares no presente ano. A destruição dos banhados tem sido a causa de diversas catástrofes no país, incluindo enchentes anuais, seca e a perda de diversidade biológica.

Na Indonésia e noutros lugares do sudeste asiático, importantes áreas de mangue foram "desenvolvidas", para criar reservatórios para a produção comercial de peixe e camarão. Calcula-se que a área de floresta de mangue caiu de 3,2 milhões de hectares, em 1986, para 2,4 milhões, em 1996, devido à sua conversão em reservatórios para a criação de peixe e camarão.

Os resultados de uma pesquisa realizada pelo International Institute for Aerospace Survey and Earth Science, na foz do rio Mahakam, na região oriental de Kalimantan, revelam que, no período compreendido entre 1982 e 1996, sumiram aproximadamente 17.429 hectares de floresta de mangue, que foram destinados para outros usos, principalmente reservatórios para a criação industrial do camarão.

Hajrul Junaid, da ONG indonésia Network for Forest Conservation (SKEPHI), afirmou que os banhados do país foram gravemente danificados e que faz-se necessária a aplicação de uma política integrada por parte do governo central. "Mas o governo tem de agir logo, pois os banhados correm riscos evidentes", explicou.

Artigo baseado em informação obtida em: "The Late Friday News, 107th Edition", Mangrove Action Project, correio eletrônico: mangroveap@olympus.net, http://www.earthisland.org/map/index.htm; "The world of mangroves", http://www.mangroveweb.net/html/mangrov.htm; "Monitoring Mangrove Forests using Remote Sensing and GIS", Yousif Ali Hussin Mahfud M. Zuhair Michael Weir, http://www.gisdevelopment.net/aars/acrs/1999/ps5/ps5126pf.htm.


inicio

- Malásia: impactos ambientais por dessecação de pântanos de turfa

Os países do sudeste asiático --em especial, a Indonésia e a Malásia-- possuem mais de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o eqüivalente a 60% das turfeiras tropicais do mundo todo. Os pântanos de turfa estão localizados no interior, adjacentes à área de manguezais litorâneos, e, com freqüência, se expandem de 3 a 5 km sobre as planícies de inundação dos rios. Caracterizam-se por uma grossa camada de turfa de 8 a 20 metros, principalmente constituída de matéria vegetal semidecomposta acumulada por mais de 8 mil anos. Enquanto o solo de turfa estiver saturado de água, o ecossistema de pântanos conserva o seu equilíbrio. Os pântanos de turfa são como esponjas que absorvem o excedente da água de chuva e dos rios, dessa forma controlando as inundações no período de chuvas e liberando fontes de água muito necessárias na estação da seca.

A dessecação dos pântanos de turfa para o plantio do dendezeiro e do caucho, a atividade madeireira, a aquicultura e a construção de moradias, ou a extração de estanho e turfa, implica numerosos problemas. O canais abertos na turfa esvaziam o conteúdo de água do pântano. Quando o nível da água desce, a camada superior de matéria vegetal seca, transformando-se em combustível, em especial, no período da seca.

A diminuição do nível das camadas freáticas e a abertura do dossel da floresta aumentam o risco de incêndios nos solos de turfa. No mês de outubro de 1995, 16 hectares da reserva de floresta Bukit Tunggal, adjacente à floresta pantanosa Selangor Norte, em Batang Berjuntai, foram devorados pelo fogo. No início de 1989, um incêndio em Batang Berjuntai causou estragos durante três meses. Em 1997, a organização Wetlands International informou a respeito de quatro incêndios na Malásia, na floresta pantanosa Pahang Sul-oriental e nas reservas de floresta Raja Musa e Sungai Karang, que fazem parte da floresta pantanosa Selangor Norte, em Sabak Bernam, Selangor, e em partes do pântano de Kuala Langat Norte, também em Selangor. O incêndio de turfa mais divulgado foi o de Kampung Penadah, em Pekan, Pahang, onde o fogo arrasou 160 hectares de floresta. Foram necessárias duas semanas para extinguir as labaredas. Os incêndios de turfa produzem uma quantidade de fumaça por hectare bem maior do que os outros incêndios florestais, sendo que é quase impossível extingui-los sem restaurar os níveis de água nos pântanos.

As turfeiras dessecadas não podem mais desempenhar, entre outras, as seguintes funções ecológicas: absorver e armazenar água para mitigar inundações e agir como captadoras de água; proteger as terras litorâneas contra a intrusão da água salgada do mar; filtrar substâncias poluentes que, do contrário, degradariam lagos, rios e lençóis de água subterrâneos; fornecer madeira e produtos não-madeireiros e servir de hábitat para a fauna e a flora em situação crítica, em particular, o rinoceronte da Sumatra, em perigo de extinção. Uma vez seca, a turfa se oxida e se decompõe, causando o colapso do solo. As turfeiras também funcionam como depósitos de carbono. A vegetação semidecomposta contém grande quantidade de carbono, evitando que escape à atmosfera como bióxido de carbono, o maior responsável pelo aquecimento global. Se as turfeiras da Malásia continuarem sendo dessecadas, os incêndios de turfa na própria Malásia, juntamente com os incêndios de turfa na Indonésia, aumentarão ainda mais a vasta poluição atmosférica produzida na região pelas densas nuvens de fumaça resultantes dos incêndios. Os demorados incêndios de turfa liberam enormes quantidades de bióxido de carbono na atmosfera, contribuindo, assim, para o aquecimento global e a alteração do clima a longo prazo.

Quase todas as florestas de turfa do Estado estão destinadas para o estabelecimento de granjas, plantações, moradias ou instalações industriais, destinos esses que exigem a dessecação da floresta de turfa. Dos 800 mil hectares de turfeiras da península, hoje só restam 340 mil. Desses, apenas 200 mil hectares estão sob proteção, como reservas de floresta e vida silvestre. As turfeiras mais importantes que ainda subsistem estão localizadas em Pahang e Selangor.

Em Perak, as florestas pantanosas Melintang e Teluk Intan foram transformadas, quase totalmente, em plantações de dendezeiro.

Artigo tirado da página Web da Sahabat Alam Malaysia: "Peat Swamps". http://surforever.com/sam/a2z/content4.html.

página anterior

início  

  próxima página

 

Ir a inicio - Recomendar esta página

Movimiento Mundial por los Bosques Tropicales
Maldonado 1858 
11200 Montevideo - Uruguay
tel:  598 2 413 2989 / fax: 598 2 410 0985
wrm@wrm.org.uy