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Número 67 - Fevereiro 2003


AFRICA

COMPARTILHANDO EXPERIÊNCIAS LOCAIS

- África do Sul: plantações de árvores geram lucros para a companhia, mas geram incêndios, danos e morte para a população

Para o grupo mundial de celulose e papel Sappi, o dinheiro cresce nas árvores. De fato, o último relatório anual da companhia sugere que cresce com mais eficiência na África do Sul. O relatório assinala que a seção sul-africana da Sappi (Sappi Forest Products) representa 15 por cento das vendas do grupo, mas contribui em 36 por cento dos benefícios de exploração anuais do grupo a Setembro de 2002. "Temos uma base de custo extraordinariamente baixa na África do Sul. As vantagens competitivas desse país para a produção de fibra são únicas, pela velocidade em que crescem as árvores e pelo baixo custo de energia inerente", afirma-se no relatório.

A Sappi é uma companhia internacional de produtos florestais com sede na África do Sul, e está incluída entre os primeiros vinte fabricantes de celulose e papel do mundo. De ser uma companhia totalmente sul-africana em 1989, passou a ser uma organização internacional com instalações de fabricação em três continentes, sendo o maior produtor em seus ramos principais: papel estucado sem celulose mecânica e celulose dissolvente. A Sappi Saicor, na África do Sul, é a maior produtora mundial, com o menor custo de celulose dissolvente, utilizada para a fabricação da fibra de viscose, tendo uma participação de 15% no mercado mundial.

Durante 1998 o grupo Sappi foi reorganizado, dividindo-se em uma companhia de papel fino e outra de produtos florestais, com escritórios centrais em Londres e Joanesburgo respectivamente. A companhia de produtos florestais possui e maneja quase 540.000 hectares de plantações de monocultura de árvores na África do Sul, produzindo celulose branqueada para papel, bem como celulose sem branquear par seu próprio consumo e para o mercado da celulose.

O diretor executivo da Sappi, Eugene van As, declarou que depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001, o consumo de papel estucado (grande parte do qual é utilizado para a produção de revistas acetinadas) caiu 12%, "a queda mais abrupta que lembra a maioria dos participantes". No entanto, mesmo perdendo dinheiro nos EUA, a Sappi fechou o ano com lucros razoáveis. O diretor sublinhou os benefícios da diversidade geográfica da companhia, que possui plantas na América do Norte, Europa e África do Sul.

São boas notícias para a empresa, mas, o que acontece com a África do Sul e sua população? A companhia se orgulha pela sua "excelente eficiência operativa" na região, mas talvez isso não seja mais que uma das formas de calcular os lucros e os custos. Não é a companhia quem paga os custos humanos e ambientais decorrentes de suas atividades -que costuma chamar "externalidades". A companhia não pagará pela diminuição da água, nem pela sua contaminação, nem pela redução das florestas, nem pelos ecossistemas perdidos. Não pagará pela pobreza da população, privada de sua forma de sustento e agora dependente de magros salários que possibilitam essa "excelente eficiência operativa".

Segundo um relatório da organização ambiental sul-africana Timber Watch, as florestas típicas do país ficam restringidas às regiões sem geadas, com precipitações médias anuais de 525 mm, na região de chuvas de inverno, e maiores a 725 mm, na região de chuvas de verão. Essas florestas ficam a altitudes de 0 a 2.100 m por cima do nível do mar. Raramente pegam fogo, principalmente graças à "borbulha" de umidade que fica presa nas copas das árvores e ao denso verde dos arbustos e árvores pequenas que formam o ecotom ou margem. Em condições de calor e seca extremos (com ventos fortes e cálidos) podem ocorrer incêndios que destruam a estrutura da floresta, mas isso geralmente acontece quando a margem tem sido danificada, muitas vezes porque as plantações de árvores estão muito próximas da margem da floresta. Essas plantações e os cultivos comerciais, tais como o cultivo de cana de açúcar, têm se estendido sobre as regiões naturais incrementando a pressão.

Os impactos mais prejudiciais das plantações para as florestas são o esgotamento da umidade do solo (a organização SAWAC -Crise Sul-africana da Água- pode testemunhá-lo) e o deslocamento das comunidades humanas de suas terras de cultivo. Esses impactos produzem um amplo espectro de impactos secundários como a sobreexploração dos produtos da floresta, incluídos mamíferos e aves, o desflorestamento e queimadas para a agricultura de subsistência e uma maior exposição a doenças de plantas exóticas e aos incêndios.

Precisamente, em julho de 2002, ocorreram vários incêndios graves na província de Mpumalanga, causando muitos danos, inclusive feridos e vítimas mortais. Embora estejam permitidas, as queimadas fogem de controle. As explicações apontavam às condições de seca e muito vento, ao fenômeno El Niño e às mudanças climáticas repentinas. No entanto, é bom lembrar que a Sappi estabeleceu em Mpumalanga 245.000 hectares de plantações de árvores para celulose e troncos para serrado, bem como uma fábrica de celulose e papel que incentivou a exploração florestal. Será apenas coincidência?

Artigo baseado nas informações obtidas em: Sappi Shows Strong Growth in Region's Fertile Ground, John Fraser, http://allafrica.com/stories/200301030360.html ; MBendi Information for Africa, http://www.mbendi.co.za/cosp.htm ; Forests in South Africa Under Threat, Timber Watch, http://www.timberwatch.org.za/forests_in_south_africa_under_threat.htm ; Forest Fires in South Africa, 12 de Julho de 2002, http://www.fire.uni-freiburg.de/current/archive/za/2002/07/za_07122002.htm


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- Camarões: comunidades Baka deslocadas pelos Parques Nacionais Lobéké e Boumba

"Nascemos no bosque a aí fazemos tudo: colher, caçar e pescar. Onde querem que arranjemos sustento? Dizem que não podemos ir ao bosque, onde se supõe que devemos ir?", diz um membro de uma comunidade Baka da região Lobéké e Boumba.

O Parque Nacional Lobéké foi estabelecido em 1999 no suleste de Camarões, em mais de 220.000 hectares de terras ricas em flora e fauna, a maior parte das quais tinham sido usufruídas até esse momento pelas comunidades Bantus e de "Pigméus" na sua maioria Baka, para seu sustento. Estas comunidades principalmente colhem e caçam nos extensos bosques que cobrem a região. A noroeste de Lobéké e junto ao rio Boumba estende-se o Parque Nacional Boumba, estabelecido em forma oficial com posterioridade a Lobéké. A área entre o rio Boumba e o Parque Lobéké é o lar de várias comunidades que cultivam, caçam, pescam e apanham principalmente para seu sustento. Também é cenário das atividades das companhias de safáris que funcionam nas enormes áreas de caça esportiva (mais de 400.000 hectares) criadas em torno do Parque Lobéké, e alberga ao mesmo tempo áreas de caça de menor porte manejadas pelas comunidades e grandes concessões para a exploração madeireira.

A proximidade dos dois parques com as fronteiras da República Centro-Africana e da República do Congo, junto com a enorme quantidade e variedade de grandes mamíferos que povoam os bosques da região, fizeram desta área um objetivo cobiçado por caçadores e traficantes furtivos de carne de animais silvestres, assim como pelos buscadores de troféus que pagam elevados montantes às companhias de safári para poder caçar. Os papagaios vivos, o marfim e outros recursos dos bosques obtidos ilegalmente são extraídos ou contrabandeados em forma regular através da zona, e a isso soma-se a atividade de numerosas companhias madeireiras.

Para os povos caçadores e recolhedores de Camarões, o Parque Nacional Lobeké é importante porque o Ministério do Meio Ambiente e Bosques de Camarões, junto com várias ONGs internacionais, estabeleceram o requisito de uma autorização legal oficial para o acesso estritamente regulamentado dos Baka e outras comunidades locais a um setor menor do parque para realizar caça e pesca de subsistência, fato que, em condições normais seria contrário às leis camaronesas. Os atuais planos das organizações conservacionistas que trabalham na área (incluídas WWF e GTZ) são os de assegurar que cada uma das áreas recentemente redefinidas em torno dos parques sejam alocadas em forma clara às partes interessadas que, com o tempo deverão participar no manejo das suas áreas de bosques. Entre os atores chaves dos bosques dos quais muitos Baka dependeram, há grupos conservacionistas (dentre os quais, organizações conservacionistas importantes do hemisfério Norte), grupos comerciais (especialmente empresas de caça esportiva e companhias madeireiras); caçadores furtivos e comerciantes de carnes de animais silvestres que muitas vezes têm um respaldo político importante e as comunidades Bantú (sobre tudo os Bagando) que dependem principalmente da agricultura mas também de outros produtos dos bosques que rodeiam suas comunidades.

Este enfoque da conservação centrado nas partes interessadas é elogiável e reflete uma tendência mais ampla em grande parte da África subsahariana orientada à devolução da autoridade do manejo da terra. Mas da perspectiva dos direitos humanos há problemas graves com a matriz das áreas de conservação em torno de Boumba e Lobéké, especialmente com relação à forma em que se estão menoscabando os direitos dos Baka sobre os recursos do bosque por pressões conservacionistas externas à região. Por exemplo, as comunidades Baka são partes interessadas chave nos bosques da área porque são populações numerosas e dependem na sua maioria dos recursos do bosque para sua supervivência. Mas, apesar disso, seus pontos de vista foram praticamente ignorados durante as consultas sobre o estabelecimento dos parques, e foram praticamente marginados da maioria dos programas supostamente tendentes a favorecer a participação e na tomada de decisões local no manejo dos diferentes tipos de áreas protegidas, incluídos os parques e vários tipos de "áreas de amortecimento" criadas.

Um dos novos mecanismos para habilitar a participação local nestas áreas zonificadas é o estabelecimento de Áreas de Interesse Cinegético de Manejo Comunitário (Zones d'Intéret Cynégétique à Gestion Communautaire - ZICGC) nas quais, as comunidades possam explorar a fauna e a flora, sujeito à elaboração de planos de manejo supostamente dirigidos pelas comunidades sob o controle das autoridades governamentais de conservação. A integração do grupo de delegados das comunidades responsável do manejo das ZICGC está completamente dominado pelas elites locais estabelecidas, e os métodos e critérios de seleção da comissão (que inclui o domínio do francês) conspiram contra a integração da comunidade Baka. Por exemplo, em novembro de 2002, na ZICGC 9, localizada entre o rio Boumba e o parque Lobéké a oeste da estrada Moloundu, menos de 10% dos delegados provinham da maioria Baka e tinham sido designados na sua maioria pelos chefes Bantos locais e não pelos próprios Baka.

A conseqüência dessa falta de participação dos Baka é que as decisões da comissão comunal de manejo do bosque de permitir às companhias de safári aceder às melhores áreas de caça das ZICGC (geralmente por um pequeno montante), por exemplo, podem entrar em conflito direto com as estratégias de subsistência dos Baka, que dependem dessas áreas para seu sustento. A organização Forest Peoples Programme tem conhecimento de numerosos casos ocorridos nos últimos dois anos em que guardas de companhias de safári expulsaram aos Baka das suas áreas tradicionais de caça, localizadas fora dos parques. O dinheiro que pagam os usuários autorizados aloca-se à comissão de manejo, que pode usar estes fundos para projetos de desenvolvimento comunitário; ou seja, que os investimentos comunitários são decididos por um grupo que não representa a toda a comunidade.

A maioria dos encarregados da conservação da região concordam em que a caça de subsistência dos Baka, tanto dentro como em torno das áreas protegidas no suleste de Camarões não representam uma ameaça séria para a biodiversidade. O consenso atual dos atores relacionados com a conservação em Camarões é que a caça comercial, especialmente para carne de animais silvestres, representa a ameaça mais grave para as espécies em risco, e que o processamento industrial da madeira legal e ilegal é a principal ameaça para os hábitats únicos ou em perigo. De momento, as autoridades de conservação locais não acharam suficientes incentivos locais adequados para evitar o comércio ilegal de carne de animais silvestres, e a política de gestão do setor madeireiro de Camarões foi cronicamente fraca, portanto esses perigos prevalecem ainda na região de Lobéké, apesar da presença de numerosos projetos internacionais de conservação. As prioridades dos círculos conservacionistas internacionais continuam colocando em segundo plano a subsistência local e os direitos tradicionais das comunidades, e no lugar de centrar-se no comércio ilegal de carne de animais silvestres e limitá-lo através da aplicação da lei, as medidas de proteção atualmente em vigor, centram-se naqueles que têm mais a perder. O paradoxo é que isso se faz para proteger os recursos e o hábitat que os povos locais, especialmente os Baka, já conhecem e apreciam, mas não podem proteger por não ter direitos assegurados sobre seus bosques.

Muitos Baka enfrentados a restrições a cada vez maiores sobre os bosques, expressaram seu desejo de iniciar um diálogo justo sobre planos de conservação com as autoridades que administram as áreas protegidas, mas até o momento não se habilitou mecanismo formal algum que o permita. Baseados na sua experiência anterior com as autoridades de conservação, os Baka são céticos quanto ao compromisso das organizações conservacionistas com os princípios de abertura, justiça e negociação. Será necessário criar novos modelos de colaboração entre as comunidades Baka e as autoridades, se querem assegurar o sucesso de esquemas "participativos" como Lobéké, e se desejam garantir o direito da população local às suas terras e, por tanto, à sua subsistência.

Este artigo está baseado em informação obtida de entrevistas à comunidade, realizadas no suleste de Camarões durante um período de dois anos, para um projeto que se propunha documentar o impacto das áreas protegidas sobre as populações indígenas em sete países africanos, assim como promover a aplicação dos novos princípios de conservação contidos, entre outros, na "Declaração de princípios sobre os povos indígenas e a conservação" de WWF, as resoluções da World Conservation Union sobre Povos Indígenas, a Comissão Mundial sobre Áreas Protegidas e as disposições pertinentes do Convênio sobre Diversidade Biológica, assinado por mais de 177 países.

Este novo modelo de conservação baseia-se em princípios que reconhecem os direitos dos povos indígenas a usar, possuir e controlar seus territórios tradicionais, e que tentam proteger seu conhecimento e capacidades tradicionais. A nova focalização aponta a gerar associações de trabalho com os povos indígenas baseadas em princípios de anuência total e informada e uma distribuição eqüitativa dos benefícios resultantes das atividades de conservação.

Este projeto é realizado pelo Forest Peoples Project e seus sócios locais, com financiamento da Community Fund, do Reino Unido. Para obter maior informação consulte o sítio www.forestpeoples.org

Por: John Nelson, FPP, correio eletrônico: johnnelson@blueyonder.co.uk


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- República Democrata do Congo: a sobrevivência dos povos Mbutti das florestas está ameaçada

Não é conhecido o número total de "pigmeus" Mbutti caçadores-recolhedores que moram na floresta tropical de Ituri, embora as estimativas indiquem que 30.000 "pigmeus" ocupam 50% dos 37.860 km2 de Mambasa. A sua existência já é extremamente frágil: seu direito à terra não é reconhecido pelos sistemas legais, nem pelos sistemas tradicionais dos povoados vizinhos. As autoridades dos 13.000 km2 de Reserva de Fauna e Flora Okapi não permitem a caça de grandes animais. Agora, eles sobrevivem da caça de animais pequenos e da troca, com os povos Bantu dos arredores, de trabalho, lenha e produtos da caça por comida.

A floresta, e portanto também o fornecimento de alimentos dos Mbuti, estão cada dia mais ameaçados pela rápida expansão das plantações comerciais das companhias madeireiras na Uganda, bem como pelo número crescente de minas de coltan (o coltan é um componente importante para a fabricação de capacitores, que regulam a voltagem e armazenam energia nos telefones celulares).

Embora as relações entre os caçadores-recolhedores Mbuti e os pescadores-agricultores tradicionais Bila (que praticam a agricultura migratória) geralmente sejam boas e envolvam o uso sustentável dos recursos da floresta, a pressão sobre a floresta também tem aumentado cada dia mais por causa do surgimento dos buscadores de ouro. Eles têm determinado a presença de intrusos que desmatam regiões de floresta para criar campos permanentes onde plantar produtos, que depois vendem a preços exorbitantes aos próprios buscadores de ouro, alterando não somente a economia e a ecologia local, mas também a forma de sustento tradicional dos Mbuti, deixando-os em situação de extrema vulnerabilidade.

Para completar, os grupos rebeldes do Movimento de Liberação Congolês (MLC), bem como a União Congolesa pela Democracia-Nacional (RCD-N), com o apoio da Uganda, tem praticado uma perseguição feroz contra os Mbuti através de ações terroristas que incluem casos de execução, estupro, seqüestro, tortura e até canibalismo e canibalismo forçado. Nos últimos meses, dezenas de milhares de civis têm fugido para escapar dos avances do MLC, da RCD-N e da União de Patriotas Congoleses, que esperam obter o controle dos recursos minerais, incluindo coltan, ouro e diamantes. Mais de 10.000 refugiados de Ituri têm cruzado a fronteira com a Uganda. Foi informado que 100.000 pessoas têm procurado refugio em Beni. Relatórios recentes sugerem que ao menos 3.000 "pigmeus" tem fugido da floresta ("pela primeira vez em anos", segundo a Missão das Nações Unidas na República Democrata do Congo - MONUC). Um grupo de pelo menos 1.000 Mbuti tem procurado refúgio no povoado de Mangina, enquanto existem outros acampamentos de refugiados em Mambasa e Beni. A falta de segurança tem impedido que as organizações de ajuda comunitária trabalhem em Ituri, ficando os Mbuti sem proteção, amparo, nem alimentação adequada.

Em conseqüência, os Mbuti precisam de maior apoio. Eles são vítimas de uma guerra civil na que eles não têm parte e que tem causado inumeráveis violações dos direitos humanos. Os seus direitos territoriais à floresta, que é seu lar ancestral, não são reconhecidos; o fornecimento de alimentos foi reduzido, pois os programas de conservação impedem o acesso a suas fontes habituais de proteína; seu território tem sido invadido por soldados, mineiros de coltan e ouro, e agricultores de outras regiões; a diversidade da sua floresta tropical está sendo substituída por plantações de monocultura de árvores. É preciso fazer alguma coisa, e rápido!

Por: Lucy Mulvagh, FPP, correio electrônico: lucy@fppwrm.gn.apc.org , http://forestpeoples.gn.apc.org. Para obter informações adicionais sobre à situação em Ituri, os leitores podem consultar as seguintes fontes: UN Office for the Coordination of Humanitarian Affairs: http://www.irinnews.org , ReliefWeb: http://www.reliefweb.int/w/rwb.nsf
Refugees International, 'Forgotten People: In the Ituri District of the Democratic Republic of the Congo', 15 de Janeiro de 2003,
http://www.refugeesinternational.org/cgi-bin/ri/other?occ=00568&spotlight=1


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- República Democrática do Congo: vendendo a biodiversidade com a assistência do Banco Mundial

Há alguns anos, Karl Ammann, fotógrafo e ativista pela defesa dos animais silvestres, apresentou ao presidente do Banco Mundial, Sr. Wolfensohn, evidência vinculando a exploração madeireira industrial à comercialização de carne de animais silvestres em quase toda a África Central.

Wolfensohn respondeu que "a prevenção desse tipo de abuso que o senhor descreve é uma responsabilidade que, obviamente, corresponde à indústria, bem como às autoridades governamentais competentes".

Em dezembro de 2002, Karl Ammann respondeu através de carta aberta. Nela, ele denunciava que, na República Democrática do Congo (RDC), o Banco Mundial parecia estar na primeira linha de assistência, com a proposta de uma forte reativação do setor florestal.

Segundo Ammann, as projeções apresentadas por um experto do Banco Mundial num ajuda-memória "são, no mínimo, terríveis, considerando que estamos falando da metade restante da bacia do Congo que ainda não foi afetada pela exploração madeireira industrial:

- a abertura, sob a forma de novas concessões para extração madeireira, de 60 milhões de hectares de floresta tropical primária;
- uma extração/exploração projetada de 6 a 10 milhões de metros cúbicos, o que, em essência, duplicaria a produção da região centro-africana;
- uma receita estimada de 60 a 360 milhões de dólares, decorrente do "imposto às concessões";
- um volume anual de produção da indústria de 1 a 2 bilhões de dólares, a maior parte permanecendo, é claro, como renda em algumas contas extraterritoriais;
- a criação de uns 60 mil empregos.

Quanto têm de realistas essas projeções à luz dos resultados obtidos (em boa medida, sob a supervisão do Banco Mundial) em quaisquer dos países vizinhos? Os funcionários do Banco estão em melhores condições para responder a esta e a outras perguntas sobre os custos e benefícios reais resultantes da derrubada de florestas tropicais primárias. Baseado nos números de que disponho, são apenas ilusões. Mas esse tipo de ilusão, apresentada oficialmente por expertos do Banco Mundial, faz com que qualquer esforço pela conservação (especialmente a criação de novas áreas sob proteção) seja uma tarefa muito mais difícil".

Ammann considera que, "quanto à derrubada sustentável de 60 milhões de hectares de floresta tropical primária, permitida por um período de 5 a 10 anos, existem declarações de expertos do Banco Mundial que afirmam o seguinte: 'Não vamos tentar definir o Manejo Florestal Sustentável (MFS), pois ninguém consegue concordar nisso'. É provável que isso seja mais certo na África Central do que em qualquer outro lugar. Também tenho cópia de atas de reuniões, onde funcionários do Banco Mundial declaram que: 'Na África Central, os governos disfuncionais devem ser considerados um fato'".

A carta continua afirmando que é bem provável que, uma vez extraída a maior parte da madeira mais valiosa, os 35 milhões de pessoas que, segundo as estimativas, hoje dependem dessas florestas ficarão mais pobres ainda. Se as projeções e propostas atuais vingarem, na maioria das regiões não haverá mais proteínas provenientes da fauna.

O ajuda-memória do Sr. Debroux, negociador e assessor chefe do Banco, datado em março de 2002, deixa claro que o Banco participou ativamente na elaboração da nova legislação florestal, assinada pelo Presidente Kabila em agosto de 2002.

Ammann lembra que as palavras "fauna" ou "vida animal" não aparecem nem uma só vez no ajuda-memória, como também não se faz referência alguma ao fato da indústria madeireira ter de aceitar a responsabilidade pelo manejo ativo da fauna dentro de suas concessões. Pelo contrário, o documento parece sugerir que essa responsabilidade será transferida aos departamentos governamentais competentes, com a idéia de obter renda através de impostos sobre a caça esportiva (para captura e exportação) e produtos derivados, como marfim, chifres de rinoceronte, peles, dentes, rabos, crânios, etc. Trata-se de "uma abordagem que não funcionou em nenhum outro lugar", destaca Ammann.

Seguindo o conselho do Banco Mundial, as autoridades resolveram, de forma consciente, que a fauna do Congo poderia virar um preço a ser pago nesse processo de obtenção da máxima renda possível pelo setor florestal, pelo menos nas áreas localizadas fora das áreas sob proteção. Os acontecimentos que se seguiram provam que nem os funcionários locais nem os expertos do Banco Mundial levam em consideração o conceito básico de tentativa de conservação da biodiversidade.

"Num país onde existia uma certa esperança de que uma nova abordagem na exploração madeireira industrial fosse possível, percebemos com clareza que estamos retrocedendo", é a frustrada conclusão de Karl Ammann.

Artigo baseado em informação obtida em: "An Open Letter to the World Bank President", de Karl Ammann, correio eletrônico: kamman@form-net.com; divulgado por Jane Dewar, Gorilla Haven; enviado por Philip Owen, correio eletrônico: owen@soft.co.za.


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- Senegal: projeto de mulheres restaura a natureza beneficiando a comunidade

Dois ecossistemas naturais diferentes formam a reserva natural de Popenguine-Guéréo, localizada a 45 quilômetros ao sul de Dakar, capital do Senegal: uma parte continental, com colinas recortadas, que constitui uma floresta primária, e uma faixa marítima formada principalmente por um hábitat rochoso, lugar de desova dos peixes.

Em 1986, a área foi classificada como reserva natural, para combater a degradação causada pelo desmatamento, o esgotamento das pradarias e as contínuas secas que levaram a uma perda importante da biodiversidade.

Por sua vez, no ano 1987, e como resposta da comunidade, 116 mulheres criaram, de maneira voluntária e espontânea, o RFPPN (Coletivo de mulheres de Popenguine para a proteção da natureza), como forma de contribuir para a consecução de objetivos de conservação e restauração da biodiversidade da região. Essas mulheres arriscaram a sua reputação e, até, o seu casamento, pois empregaram o seu tempo e energia na criação de uma reserva natural para a comunidade, quando, na opinião dos vizinhos, deviam se dedicar às tarefas domésticos de esposas e mães senegalesas. Porém, as dinâmicas mulheres da aldeia Popenguine e arredores acabaram convencendo seus detratores. Lentamente, elas demonstraram que podiam regenerar e conservar seu ambiente, promover o ecoturismo, garantir a repovoação florestal e a sobrevivência da flora e fauna, beneficiando a comunidade toda.

Ano após ano, foram sendo introduzidos milhares de árvores da flora indígena. Aos poucos, foi sendo restaurada a fauna, tendo ressurgido 195 espécies de pássaros, antílopes gerogríficos, duikers ou pequenos antílopes cinzas, chacais rajados, mangostas, gatos de algália, macacos da família dos callithrix (tities ou tamarinos).

No decorrer do tempo, os objetivos estritamente ambientais foram evoluindo até incluir, também, demandas de ordem sócioeconômica das mulheres envolvidas (geração de renda, solução para a demanda de cereais e combustível, entre outras). Assim, surgiu um programa de desenvolvimento sustentável que prescinde dos modelos impostos de fora e que, pelo contrário, é baseado na conservação do ambiente local a partir de uma abordagem empírica gerada na base.

Desde 1995, o grupo vem ampliando o seu raio de ação e juntando esforços para restaurar um espaço vital, de aproximadamente 100 km2, chamado Espaço Comunitário Ker Cupaam, em homenagem ao espirito feminino protetor do lugar. Ao todo, esse espaço abrange a Reserva de Popenguine-Guéréo e os territórios de oito aldeias em volta da reserva. As aldeias são representadas pelos GIE (Grupos de interesse econômico das mulheres), os quais formam o coletivo COPRONAT, com 1.555 membros, para a defesa da natureza.

Atualmente, o programa do RFPPN se articula em torno a:

a) gestão da restauração da floresta: criação, em cada aldeia, de viveiros com espécies indígenas madeiráveis, como fonte de energia, árvores frutíferas e plantas ornamentais para a venda; manejo da floresta da aldeia; criação de uma rede de distribuição de combustíveis, para evitar a derrubada de espécies madeiráveis;

b) gestão da saúde: organização da coleta e classificação do lixo doméstico, tratamento e transformação em compost, construção de latrinas;

c) gestão alimentar: criação de bancos de cereais e hortas familiares;

d) formação em gestão comunitária de áreas sob proteção: formação em tratamento do lixo, horticultura e gestão de espaços naturais, iniciação em informática, hotelaria, construção de um centro de formação, equipamento informático e audiovisual, com vistas, também, à capacitação dos jovens;

e) gestão em turismo: ampliação e infra-estrutura da área de camping turístico.

Para reverter a erosão, foram construídos muros de pedra e diques de contenção, a fim de reduzir a velocidade das águas pluviais. Também traçaram o objetivo de reabilitar os mangues do lago Somone, na fronteira sul do território.

As mulheres de Popenguine exibem com orgulho o seu trabalho, os reluzentes mangues e a lagoa bem cheia, apesar das escassas chuvas. Há uma década, a restauração do lago Somone e da região de Popenguine era apenas um sonho. Woulimata Thiaw, presidenta do coletivo de mulheres, está orgulhosa dos frutos do seu trabalho. Sorrindo, ela repete que o sucesso teve preço: o trabalho duro; e que desenvolvimento sustentável significa "ter consciência dos efeitos dos nossos atos no futuro e no futuro dos nossos filhos e netos. Sustentabilidade é isso, as decisões que nós tomamos. Devemos ter certeza de que haverá continuidade".

Artigo elaborado a partir de informação obtida em: "Ker Cupaam: ejemplo para el desarrollo sostenible", enviado por Liliana Marcos Barba, Canal Solidário, lilianita_81@hotmail.com ; Cultivant la Diversité - Afrique de l'Ouest, La gestion de l'espace communautaire Ker Cupaam, http://www.grain.org/gd/fr/case-studies/cases/wa-abstract-senegal-fr.cfm ; Etude de cas, La Réserve Naturelle de Popenguine (Sénégal): une expérience de développement durable basée sur la conservation de la biodiversité, Paul Ndiaye, http://www.cdr.dk/sscafrica/ndi2-f-s.htm.


 

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