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Boletim do WRM
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COMPARTILHANDO EXPERIÊNCIAS LOCAIS - Birmânia, Tailândia e Laos: manejo florestal colonial, ontem e hoje O objetivo do manejo florestal colonial britânico do século XIX era assegurar ao Estado colonial o controle das florestas, a fim de garantir o fornecimento regular de madeira. Na região de Mekong, ainda há vestígios da abordagem colonial, onde os estados continuam disputando com as comunidades locais o controle das florestas. No final do século XVIII, as florestas de carvalho da Grã-Bretanha tinham sofrido um progressivo esgotamento, devido à demanda da Marinha Real para a construção de navios. Em 1805, os britânicos lançaram à água o primeiro navio de guerra totalmente construído com madeira de teca (Tectona grandis) de Bombai. Em meados do século XIX, existiam mais de cem navios britânicos de teca, e a voracidade britânica por essa madeira parecia insaciável. No ano 1856, os britânicos nomearam Dietrich Brandis como superintendente das florestas de teca da divisão Pegu, no leste da Birmânia. Naquele então, muitas das florestas de teca da Birmânia estavam em áreas controladas por grupos indígenas militantes, como os Karen. Brandis, um botânico alemão que posteriormente foi inspetor geral das florestas da Índia, tomou para si a tarefa de exigir o controle das florestas de teca birmanesas para o Estado. Sob o sistema "taungya" - que Brandis ajudou a estabelecer -, a nação Karen virou mão-de-obra para o desmonte, plantio e limpeza das plantações de teca. Em troca, nos primeiros anos, era permitido plantar entre as árvores. Mas quando as árvores cresciam, os moradores eram transferidos para novas terras, e o processo continuava. Como resultado desse processo, muitos tornaram-se dependentes do serviço florestal do Estado, motivo pelo qual a resistência local ao domínio estadual sobre as florestas ficou cada dia mais difícil de se fazer. Raymond Bryant, do King's College de Londres, descreve como os Karen - antigamente rebeldes - foram atraídos para o reflorestamento com árvores de teca: "O sistema de florestamento taungya era atraente, justamente, porque era um meio para regular e eliminar gradativamente o cultivo rotativo das florestas da Birmânia. Com efeito, cada acre plantado era um acre a menos que os montanheses Karen tinham para o uso deles próprios". A vizinha Tailândia nunca foi colonizada pelos britânicos, mas o sistema de florestamento taungya ainda sobrevive, prestando serviços ao Estado tailandês. Desde a década de sessenta, a Organização da Indústria Florestal (Forest Industry Organisation - FIO) da Tailândia vem criando uma série de "povoados florestais", onde os moradores locais praticam um florestamento do tipo taungya. Em 1968, a FIO fundou o primeiro povoado florestal em Mae Moh, no norte da Tailândia, objetivando uma redução do cultivo rotativo e um aumento do reflorestamento. No entanto, os moradores não têm participação alguma no manejo das plantações, como também não recebem nada pelas árvores das plantações. Sob esse sistema, eles também não possuem título das terras. Como assinalou, em 1980, o hoje falecido Ted Chapman, da Universidade Nacional da Austrália, o reflorestamento da FIO não passa do confisco da terra que os moradores locais vinham utilizando. No mês de julho de 2001, duas plantações dos povoados florestais foram certificadas através do sistema do Conselho de Manejo Florestal (FSC, em inglês) (ver o boletim 64 do WRM). Não obstante, há mais de vinte anos que os povoados da FIO são considerados anacrônicos. Em 1978, Ted Chapman afirmou, numa conferência na Tailândia, que: "É claro que reflorestamento taungya, do jeito que ele é praticado na Tailândia, não tem cabimento no conjunto das recentes recomendações da FAO, UICN e outras organizações preocupadas com o bem-estar dos habitantes dos arredores das florestas". Surpreendentemente, os avaliadores da SmartWood (empresa certificadora do FSC) não reconheceram a versão de manejo florestal colonial da FIO como o sistema de exploração anacrônico que ele é. Por sua vez, através do sistema taungya, o governo do Laos pratica a sua própria versão de colonização interna. No ano passado, após uma família de uma minoria étnica do sul do Laos ter limpado e plantado com arroz dez hectares de terra, funcionários do Departamento Florestal fizeram-lhe saber que essa terra ia ser plantada com 4 mil mudas de árvores. Dessa vez, as famílias poderão colher o arroz, mas elas estão preocupadas, pois receiam que não seja permitido o uso da terra no próximo ano. Enquanto as famílias não receberam nada, o governo recebeu de graça a área limpa, para instalar a plantação de teca. O Departamento Florestal organizou os moradores locais em equipes de trabalho e os adestrou para o plantio das árvores. Uma vez plantadas, o Departamento exigiu dos moradores locais que fizessem a manutenção da plantação, o que implicará vários anos de limpeza para tirar a mata brava e controle permanente do fogo. O plantio das árvores coincidiu com o das lavouras dos moradores, motivo pelo qual o tempo de trabalho gasto em seus próprios campos ficou reduzido. Um deles explicou aos pesquisadores: "Ficamos atordoados, pois a gente não sabe por que plantou essas árvores se não vamos receber nada em troca". Ironicamente, o plantio aconteceu no Dia da Árvore. Nesse dia, segundo o artigo 46 da Legislação Florestal do Laos, as autoridades devem "revelar iniciativa, para planejar e mobilizar largamente toda a mão-de-obra e capital de todos os setores, incluindo o Exército, funcionários públicos, estudantes do primeiro e do segundo graus e a população em geral, visando ao plantio de árvores. Depois do plantio, é preciso cuidar da manutenção e proteção das árvores, para elas poderem crescer e se desenvolver". Sem dúvida, o Departamento Florestal revela iniciativa quanto ao uso da mão-de-obra de graça dos moradores locais, obedecendo a letra, mas não o espirito, da Legislação Florestal. Porém, suas ações têm azedado o relacionamento com os moradores locais, já que eles ressentem o fato de serem explorados para uma plantação de teca que não trará benefício nenhum. Por: Chris Lang, correio eletrônico:
chrislang@t-online.de - Índia: questionamento à Estratégia Florestal Revista, do Banco Mundial A Estratégia Florestal Revista do Grupo Banco Mundial, aprovada no dia 31 de outubro de 2002, faz curiosas afirmações, como, por exemplo, "existe uma estreita relação entre as formas de sustento dos pobres e as florestas" e "[é] uma idéia basicamente falsa a de que os pobres são a causa do desmatamento nos países em desenvolvimento". "Na realidade, o fluxo de fundos destinados para as florestas [...] continuará sendo ofuscado pelo investimento em atividades que podem causar impactos prejudiciais nas florestas". E: "O Banco deve avaliar os impactos de suas ações e investimentos noutros setores, ou no nível macroeconômico, nas florestas e povos que as habitam". Há tempos se argumenta - em grande medida, em vão - que a responsabilidade pela destruição das florestas e a degradação ambiental não pode ser imputada principalmente ao pobres, e que a nova economia da última década não só contribuiu para marginalizar ainda mais aqueles que já estavam à margem, mas, também, minou gravemente os recursos naturais e os meios de sobrevivência existentes nas florestas, rios, banhados e faixas litorâneas. Não obstante, a estratégia se baseia numa contradição básica: a agenda da abertura do mercado se faz ouvir com estrondo, embora, neste caso, tentando utilizar uma porta lateral. Surge às claras uma mensagem central: o dinheiro é a chave para salvar as florestas do mundo. A participação do setor privado é considerada vital. Relaciona-se, também, com os Planos Nacionais de Ação Florestal (PNAF) respectivos. O PNAF da Índia, elaborado em 1999 pelo Ministério Unificado do Meio Ambiente e Florestas, estabelece que são necessários aproximadamente US$ 28 bilhões para proteger as florestas. Mas será realmente correta essa "abordagem centrada no dinheiro"? Só na década de 90, a Índia pediu emprestados ao Banco quase US$ 350 milhões para a Fase I dos Projetos Florestais em Maharashtra, Bengala ocidental, Andhra Pradesh (A.P.), Madhya Pradesh (M.P.), Uttar Pradesh (U.P.) e Kerala. Será que isso serviu realmente para proteger e restaurar as florestas? Ficou garantido o sustento dos povos que dependem das florestas? Os pobres tiveram algum benefício? São várias as perguntas que devem ser respondidas para ter uma clara noção dos impactos causados pelos projetos. Existem inquietações e denúncias generalizadas que afirmam que as atividades da Fase I não foram transparentes, que os grupos tribais foram expulsos das florestas, que surgiram conflitos internos nos povoados e entre povoados e que, em última instância, eles ajudaram a aprofundar as desigualdades existentes e as estruturas de poder que estão no próprio bojo da questão do manejo e conservação das florestas. Enquanto isso, foi aprovada a Fase II dos Projetos Florestais em A.P. e M.P., com dotações de US$ 108 milhões para cada um, tendo sido liberada a primeira parcela para A.P. Isso remete à questão da mitigação da pobreza, a qual, segundo o Banco, é central na Estratégia Florestal Revista. Aqui, também, podem ser percebidas enormes contradições. Numa passagem do texto, o documento parece aceitar as definições mais recentes de pobreza, definindo-a como uma situação gerada pela falta dos recursos (físicos, econômicos, humanos e sociais) necessários para alcançar um sustento adequado e sustentável. Mas, ao mesmo tempo, recorre-se repetidamente à definição de pobreza mais simplista: "a pobreza continua sendo um problema mundial de dimensões gigantescas. Dos seis bilhões de pessoas que vivem no planeta, 2,8 bilhões, quase a metade, vivem com menos de US$ 2 por dia. Desses, 1,2 bilhão vivem com menos de US$ 1 por dia". Não são pesquisadas a fundo nem a pobreza nem suas possíveis causas reais, como também não as devidas soluções a longo prazo. Nesse contexto, chama a atenção a seção do resumo executivo intitulada "Aproveitamento do potencial das florestas para a redução da pobreza". Ali é espreitada a melhora da qualidade de vida rural. A idéia subjacente a essa estratégia é um mundo em desenvolvimento, em que os habitantes gozam de uma qualidade de vida significativamente não inferior à dos habitantes urbanos; o meio rural oferece a todos seus habitantes oportunidades econômicas eqüitativas (sem importar renda, condição ou gênero); ele vira um lugar cheio de vida, sustentável e atraente, onde morar e trabalhar; contribui para o desenvolvimento nacional e a economia global, e mantém uma relação dinâmica com as áreas urbanas. Trata-se de uma elaboração bem distante da realidade do mundo em que vivemos. Nada mais longe da verdade, especialmente num país como a Índia, que é rural num 70% e basicamente agrícola. Ali não são tratadas a enorme pobreza e as privações padecidas nalgumas regiões da Índia rural, como também não é analisada a existência de desigualdade e exploração, nem o fato de existirem um monte de necessidades a serem satisfeitas. Mas e a Índia urbana, hoje? Ela está colapsando sob o seu próprio peso. A poluição do ar e da água não tem limite, os bairros pobres crescem sem qualquer ordem, os serviços básicos, como água potável e saneamento, são totalmente inadequados, o desemprego é altíssimo, da mesma forma que o índice de criminalidade. É evidente que não há justificação para a natureza geral das afirmações e inferências da estratégia do Banco, pois, ainda hoje, partes importantes do meio rural são bem dotadas de recursos, ricas e poderosas. Existem áreas cheias de vigor e vitalidade, onde as comunidades continuam vivendo em paz, felicidade e em razoável harmonia com o meio ambiente. Ali sobrevivem economias prósperas que, num país como a Índia, são as que, de fato, promovem o desenvolvimento nacional. Qual é, pois, a conclusão que podemos tirar da estratégia revista do Banco? Em primeiro lugar, que coloca em baixo de um enorme ponto de interrogação as credenciais do próprio Banco. As confusões são óbvias, as contradições são graves, e a idéia subjacente é tão errada, que resulta difícil acreditar que ela tenha sido concebida. Se os próprios alicerces são tão frágeis, melhor nem pensar no edifício que vai se sustentar neles. Portanto, pode essa estratégia contribuir realmente para a salvaguarda das florestas e o auxílio aos pobres? Certamente, poderíamos tentar dar algumas respostas, mas, no fundo, a questão é se terá alguém disposto a escutar. Artigo adaptado de "Can
this save the forests?", The Hindu, 23 de fevereiro de 2003,
http://www.hinduonnet.com/thehindu/mag/2003/02/23/stories/2003022300180700.htm,
por Pankaj Sekhsaria, Kalpavriksh, correio eletrônico: kvriksh@vsnl.com,
enviado pelo autor. - Laos: a opinião do WWF-Tailândia sobre a represa Nam Theun 2 A projetada represa Nam Theun 2 (NT2), no planalto de Nakai, região central da República Democrática Popular do Laos, teria 48 m de altura, 320 m de comprimento e uma potência de cerca de mil megawatts. Seria construído um lago artificial de 450 km2, com 3 bilhões de metros cúbicos. A água do lago circularia através de túneis de 40 km, até uma central elétrica localizada na base do planalto de Nakai, na beira do rio Xe Ban Fai. O porte do projeto e a sua localização terão um impacto substancial na diversidade biológica e nos povos da região. Este breve relatório resume alguns dos prováveis impactos e explica a posição do WWF-Tailândia a respeito da represa. Na década passada, o conceito 'diversidade biológica' foi ampliado, de sorte a incluir os padrões de distribuição de biota, os processos ecológicos associados e as paisagens regionais (geralmente, vastas) em que acontecem essas interações. A conservação a longo prazo da biodiversidade e a garantia do sustento humano no nível local exigem uma mudança de abordagem para escalas espaciais maiores e, dentro delas, para a identificação pró-ativa das oportunidades de conservação. A represa Nam Theun 2 fere esses princípios emergentes, porquanto trata de forma isolada partes de um ecossistema mais vasto. O planalto de Nakai é formado por uma bacia levemente curva de 1.200 km2, a 600 metros de altitude, e faz parte do ecossistema das montanhas Annamite. Cerca de um terço do planalto fica na Área Nacional sob Proteção Nakai-Nam Theun, de relevância mundial para o futuro de fauna escassa e endêmica, como o muntjac gigante com chifres e o saola. Não se trata, porém, de uma área prístina. Como acontece na maior parte das áreas de conservação no mundo, os seres humanos alteraram a sua paisagem, praticando a agricultura de subsistência, pescando em suas águas e caçando nas florestas por milhares de anos. Do ponto de vista da conservação, isso não diminui a importância da área, tanto no que diz respeito à biodiversidade quanto aos modos de sustento locais. Aproximadamente um terço do planalto de Nakai poderia ser inundado pelo lago artificial da represa NT2, o que implicaria a destruição certa de hábitats e populações de fauna que, hoje, desempenham um papel importante no funcionamento ecológico da região. Da perspectiva tradicional da riqueza de espécies, a área sob proteção de Nakai-Nam Theun é uma das mais importantes do mundo. Nela vivem mais de 400 espécies de pássaros, um dos totais mais altos no conjunto de áreas sob proteção do sudeste asiático continental. Delas, 50 espécies estão em perigo de extinção. Como parte da área sob proteção de Nakai-Nam Theun, o planalto de Nakai cumpre uma função especial na conservação dessas espécies ameaçadas: 35% delas só se encontram nesse lugar, incluindo populações de relevância mundial de patos de asas brancas e águias pescadoras. Até o recente início da exploração madeireira associada à represa, o planalto de Nakai abrigava a maior floresta primária de pinheiros da região, com variações únicas na composição de espécies de árvores. Um dos hábitats mais ameaçados do sudeste asiático é o dos rios com caudal lento, em terras baixas com florestas ribeirinhas. O planalto de Nakai, apesar da degradação de seu hábitat, continua sendo um dos melhores exemplos desse tipo de hábitat na República Democrática Popular do Laos; caso for construída a represa, após a inundação, sumiria praticamente tudo (180 km). A diversidade de hábitats do planalto de Nakai inclui, também, florestas caducifólias, florestas semi-perenifólias, florestas secundárias, banhados estacionais e veredas permanentes, os quais, junto com a terra generosa em que jazem, proporcionam excelentes condições físicas para altas densidades de grandes mamíferos, uma situação que está se tornando cada dia mais rara em qualquer outro lugar da República Democrática Popular do Laos e na região. Apesar dessas altas densidades terem diminuído fortemente devido à caça, elas continuam sendo significativas em relação a outras áreas florestais do país. E mais importante ainda, os grandes mamíferos do planalto vivem numa das maiores e menos fragmentadas extensões de floresta da região, o que aumenta suas chances de sobrevivência e recuperação. Por exemplo, o gaur e o elefante são cruciais, e interagem com populações regionais maiores através de ligações intocadas com as áreas florestais em torno deles. O papel central do planalto no funcionamento ecológico da região pode ser exemplificado por essa comunidade intocada de grandes mamíferos, cujos membros podem manter movimentos estacionais de grande dispersão no nível da paisagem. No planalto, uma série relativamente grande de animais de presa, formada por sambares, javalis e o muntjac indiano, serve de alimento para tigres em perigo de extinção. O rio Nam Theun abriga, pelo menos, 80 espécies de peixes, 16 delas endêmicas. A distorção da função hidrológica e a migração de peixes que traria a represa conduziriam à perda de muitas dessas espécies. Além disso, o esquema de desvio da água da represa implica a alteração de uma outra bacia hídrica (a do rio Xe Bang Fai). Todas as ONGs internacionais que trabalharam no planalto reconhecem a enorme importância da área do ponto de vista da conservação. Existe a possibilidade de cuidar da biodiversidade e das formas de sustento locais existentes no planalto de Nakai, mas é necessário desenvolvê-la através da colaboração da população local com o governo, com o pessoal da área sob proteção e com organizações conservacionistas. Isso não aconteceu ainda. As atividades da passada década, como a exploração madeireira e a construção de infra-estrutura para uma represa que, talvez, jamais seja construída, já trouxeram conseqüências ecológicas e econômicas negativas de longo alcance. Dizer que a causa de tamanho transtorno no planalto de Nakai é a solução, evidentemente, é um erro. Não é possível mitigar aquilo que está em risco de se perder, tanto em termos ecológicos quanto culturais. A represa Nam Theun 2 não é inevitável. O povo do Laos e a comunidade conservacionista não têm obrigação de aceitar como inevitável esse projeto de energia hidroelétrica que somente deixará restos ecológicos, para eles se virarem como puderem; no planalto de Nakai existem oportunidades positivas bem mais atraentes. O WWF também faz notar que o fundamento dado para a represa Nam Theun 2 não é claro. A viabilidade econômica do projeto é duvidosa, e a futura demanda de energia, produto da represa, é altamente questionável, se levarmos em conta que prevê-se uma queda na demanda de energia na Tailândia (mercado para o qual seria exportada a energia produzida pela NT2). Além disso, existem importantes fontes de energia alternativa, tanto na Tailândia quanto no Laos, incluindo energia renovável e conservação da energia. Estas foram ignoradas e não foram avaliadas de maneira suficiente. Em síntese, os impactos negativos do projeto nos ecossistemas locais são claros, mas a justificação para a represa e sua superioridade em relação a outras alternativas disponíveis não são. Por esse motivo, o WWF-Tailândia é contra a construção. Por: WWF-Tailândia,
correio eletrônico: wwfthai@wwfthai.org - Laos: segredos, mentiras e plantações de árvores Até o fim do ano, a diretoria do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, em inglês) decidirá se financia um projeto intitulado "Plantio de árvores para melhorar a subsistência" no Laos, o qual está sendo elaborado por um consórcio de consultores. Não obstante, os preparativos estão acontecendo sem debate público e aberto. Segundo Akmal Siddiq, economista chefe de projetos do ADB, "os rascunhos redigidos até agora não estão prontos para distribuição ao público e somente estarão disponíveis depois da aprovação da diretoria". Caso a diretoria decida a favor, esse será o segundo projeto de plantações financiado pelo ADB no Laos. O Projeto de Plantações Industriais de Árvores do ADB - de 11,2 milhões de dólares - foi iniciado em julho de 1994, tendo por fim o estabelecimento de mais de 9 mil hectares de plantações de árvores de rápido crescimento. De acordo com a descrição feita pelo próprio ADB, o novo projeto "apoiar-se-á nos sucessos e nas lições deixadas pelo Projeto de Plantações Industriais de Árvores ainda em curso". No ano passado, Bartlet W. Édes, funcionário de assuntos externos do ADB, escreveu um artigo para a publicação interna do banco, ADB Review, sobre a ligação do Banco com as plantações do Laos. No artigo intitulado "Volta às árvores", Édes diz que o projeto do ADB "protege a floresta natural, envolve os moradores locais na tomada de decisões e impulsiona um novo e promissor setor na economia do Laos". De fato, o projeto não faz nada disso. As plantações financiadas pelo ADB estão substituindo florestas por monoculturas. Os moradores locais não têm ingerência significativa em decisões que resultam na perda de suas terras e florestas para plantações de eucalipto. Economicamente, as plantações apenas são viáveis graças aos subsídios concedidos pelo ADB e o governo do Laos. Conforme reza a Lei Florestal do Laos, as plantações estão isentas de pagamento de imposto sobre a terra, sendo que a empresa BGA Lao Plantation Forestry - beneficiária dos empréstimos brandos do ADB - apenas paga cinco por cento de imposto de renda. Além disso, o governo deu em arrendamento à BGA, de graça e por um período de cinqüenta anos, terras para plantações, em troca de participação no projeto (ver o boletim 43 do WRM). No artigo mencionado, Édes declara: "porquanto as plantações são instaladas em terras degradadas, e não em áreas de floresta natural, o desenvolvimento delas, na República Democrática Popular do Laos, dificilmente tenha as conseqüências ambientais adversas, associadas ao estabelecimento de plantações, registradas, sim, em outros países asiáticos". Os documentos do projeto do ADB contradizem a afirmação de Édes. Segundo um relatório de 1995, da consultora Jaakko Poyry, as plantações serão instaladas em "áreas florestais sem ou com escassas árvores" (em inglês: unstocked forest land). Os consultores do ADB as definem como "áreas previamente cobertas por floresta, em que a densidade de copa reduziu-se a menos de 20%", e como "áreas de agricultura migratória abandonadas" (em barbecho). Essa definição permite que as empresas definam as florestas das comunidades locais, suas terras em barbecho, seus pastos e terras de uso comunitário como "áreas florestais sem ou com escassas árvores". Bartlet W. Édes afirma que, no projeto do ADB, foi estabelecido "um marco de políticas para o desenvolvimento de plantações florestais industriais sustentáveis". Porém, nem o marco nem os estudos sobre políticas para o ADB estão disponíveis para o público. Em 1999, o ADB financiou um estudo denominado "Atuais restrições que afetam o investimento privado e do Estado em plantações florestais industriais, na República Democrática Popular do Laos" (ver o boletim 52 do WRM). Snimer Sahni, executivo de projetos do ADB, disse que o documento não está disponível para o público. A partir desse momento, começou a ser redigida, pelos consultores do ADB, uma "Estratégia Nacional para Plantações Florestais Sustentáveis". Akmal Siddiq, do ADB, recusou-se a responder os pedidos de acesso a esse documento. Conforme diz Bartlet W. Édes, "as companhias florestais negociam com os moradores locais o uso das terras florestais. As terras comunitárias, as terras em barbecho, as terras de pastoreio e as florestas comunitárias contam com a proteção dos próprios moradores, os quais devem apresentar por escrito o seu consentimento para qualquer uso comercial que se faça delas". Mais uma vez, a afirmação de Édes é ilusória. Os moradores locais não têm poder nem informação suficiente sobre os impactos das plantações de eucalipto, como para poder negociar com as empresas florestais. Por exemplo, em seus documentos, a BGA classifica até 48 mil hectares da terra arrendada à companhia como cultivos rotativos, pastos ou floresta degradada. Em outras palavras, essa é a terra que hoje está sendo usada pelos moradores locais. Quando os moradores locais ficam sabendo dos problemas decorrentes do plantio de árvores de rápido crescimento, eles relutam em entregar suas terras às empresas. No início do ano 2001, o líder do subdistrito de Xiang, no distrito de Xaibouli, fez a seguinte declaração a pesquisadores independentes: "as plantações de eucalipto estão causando a degradação da floresta, do solo e da água. Eu não quero mais ninguém plantando eucalipto no meu subdistrito". A peça mais flagrante da desinformação de Bartlet W. Édes é a sua afirmação de que "não são usados herbicidas; ao invés disso, usa-se um produto biodegradável chamado glifosato, para combater a mata brava". O glifosato é, com certeza, um herbicida. Ele é o componente ativo de uma variedade de produtos fabricados pela Monsanto. Em 1974, essa empresa começou a vender o Roundup, o primeiro herbicida com base em glifosato. A partir desse momento, as vendas anuais de herbicidas com glifosato pularam para até 1,2 bilhão de dólares. Segundo a empresa, "os herbicidas com base em glifosato produzidos pela Monsanto estão entre os mais largamente usados no mundo". A Monsanto define os produtos com glifosato como "herbicidas não seletivos de largo espectro". Para dizer de forma mais simples, o herbicida com base em glifosato mata qualquer coisa verde com a qual entra em contato. Esses herbicidas são espargidos três vezes por ano entre as fileiras de árvores de eucalipto das plantações financiadas pelo ADB. O herbicida garante que não crescerá nada, exceto árvores, nas plantações. Conforme a floresta vai virando monocultura, o conhecimento dos moradores acerca do uso de uma infinidade de plantas que crescem na mata vai sendo destruído. Talvez, não surpreenda ninguém o fato do ADB relutar em promover um debate aberto sobre os impactos das plantações que ele financia. O Banco organizou duas oficinas em que participaram o World Wildlife Fund (WWF), a World Conservation Society e o World Conservation Union (IUCN). Para Akmal Siddiq, do ADB, isso prova que o projeto está sendo elaborado com "a consulta e a ativa cooperação de todos os atores envolvidos". Siddiq eximiu-se de responder a perguntas sobre a anterior participação do Banco na promoção de plantações de monoculturas florestais no Laos, e recusou-se a fornecer qualquer documento do projeto. Ao invés disso, afirmou que "o estudo de viabilidade do projeto será concluído em maio" e que "a aprovação da diretoria do ADB é esperada para outubro". Por: Chris Lang, correio eletrônico:
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