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Número 69 - Abril 2003


ASIA

COMPARTILHANDO EXPERIÊNCIAS LOCAIS

- Laos: Banco Asiático de Desenvolvimento apoia projeto de represa Nam Theun 2

O Banco Asiático de Desenvolvimento (Asian Development Bank - ADB) está financiando um estudo de avaliação e diligência devida, no valor de US$ 1,4 milhão, da represa hidrelétrica Nam Theun 2, no Laos. Apesar dos impactos em massa que o projeto causaria nas florestas, conforme reza o novo rascunho da política florestal do Banco, o ADB não é obrigado a considerar se o projeto Nam Theun 2 satisfaz a sua política florestal.

Ainda este ano, o ADB anunciou, no seu sítio Web, que financiaria um projeto de ajuda ao "desenvolvimento do setor elétrico" no Laos. Nas palavras do Banco, o projeto visa "colaborar com o governo da República Democrática Popular do Laos na execução dos trabalhos preliminares para o desenvolvimento de um projeto hidrelétrico no país".

Respondendo a um pedido de informação adicional, o Sr. Sadiq Zaidi, do ADB, confirmou que o Banco faria um "estudo de avaliação e diligência devida da represa Nam Theun 2, para avaliar os impactos sociais e ambientais e garantir que sejam incluídas no projeto medidas de mitigação e compensação adequadas, conforme as políticas e pautas do ADB".

No início dos anos noventa, a Bolisat Phathana Khet Phoudoi (BPKP), uma empresa madeireira do Laos, administrada pelo exército, começou a limpar os 450 quilômetros quadrados da área onde ficará o lago artificial da futura represa Nam Theun 2, com mil megawatts. A BPKP também está abatendo árvores em torno do açude, inclusive, em áreas supostamente sob proteção. A empresa derrubou, até, uma área reservada como floresta comunitária, a ser usada no futuro pelos moradores reassentados.

Embora a represa, talvez, nunca chegue a ser construída, o projeto Nam Theun 2 já provocou forte impacto nas florestas da região.

Porém, os tecnocratas do ADB não serão obrigados a avaliar se o projeto satisfaz a nova proposta de política florestal do Banco. Atualmente, a política está na fase de rascunho, sendo que, segundo o Sr. Javed Hussain Mir, funcionário do Banco, o prazo para a conclusão é junho ou julho. No estranho universo do ADB, não é pelo simples fato de um projeto afetar negativamente as florestas que ele vai ter de satisfazer a política florestal do Banco.

Em 1995, o ADB apresentou uma nova política florestal, declarando com otimismo que, no futuro, "se recusará a financiar projetos de infra-estrutura rural ou de investimento público que provoquem, direta ou indiretamente, desmatamento ou degradação florestal relevante".

O ADB não cumpriu a promessa. Na região do Mekong, o Banco identificou uma série de projetos - estradas principais, estradas de ferro, represas hidrelétricas e de transmissão elétrica - que, caso fossem implementados, causariam grave impacto nas florestas da região. Em 1996, o Grupo de Trabalho das ONGs sobre o ADB publicou uma resposta à política florestal do ADB, analisando os projetos de infra-estrutura do Banco para a região do Mekong e apontando que: "não foi analisado como ou em que medida esses projetos vão contribuir para a destruição das florestas da região. De forma similar, o Banco também não disse nada a respeito da conhecida ligação entre a construção de estradas e o aumento da exploração comercial das florestas".

As estradas principais que estão sendo planejadas pelo ADB na região do Mekong têm bem pouco ou nada a ver com o fato de ajudar os produtores a que seus produtos cheguem aos mercados locais; as estradas são construídas para extrair mercadorias, e, no caso do Laos, em especial, madeira.

A estrada número 9 divide o Laos em duas partes, ligando Mukdahan, na Tailândia, ao porto de Dong Há, no litoral vietnamita. O alargamento da estrada implicará a transferência forçada de mais de 6 mil pessoas que hoje moram ao longo da estrada. A estrada número 9 é usada pelas empresas madeireiras vietnamitas para extrair madeira de Savannakhet para o Vietnã, e passa perto de duas Áreas Nacionais de Conservação da Biodiversidade. Nos documentos do projeto, o ADB admite que "embora a restauração da estrada melhore o transporte, ela também pode exacerbar o tráfico ilegal de fauna e a exportação de troncos".

Não obstante, a estrada número 9 faz parte do "corredor leste-oeste", um dos "programas-emblema" do ADB. Segundo o Banco, os governos da região do Mekong "devem garantir que o componente nacional dos programas-emblema tenha prioridade em seus programas de investimento público". Ao que parece, os "programas-emblema" são mais importantes do que a política florestal do Banco. Assim, em dezembro de 1999, o Banco aprovou um empréstimo de US$ 32 milhões, para o Laos, e um outro de US$ 25 milhões, para o Vietnã, para a reconstrução das estradas que deverão fazer parte do corredor leste-oeste. O governo japonês fornecerá verba adicional para o projeto.

Em junho do ano 2000, a apenas cinco anos do lançamento da política florestal, o ADB iniciou um processo de revisão da mesma. Nesse ano, um funcionário do Banco declarou, de forma anônima, a Walden Bello que: "todo mundo sabe, dentro do Banco, que quase todos os projetos florestais fracassaram".

Mas, desta vez, o Banco não vai cair na armadilha de fazer promessas que não pode cumprir. Embora o rascunho da nova política fale da importância da participação, a consulta, a consciência de gênero, a redução da pobreza, a geração de capacidade e a segurança ambiental, o que falta nesse rascunho é uma análise (ou, inclusive, a consciência) dos impactos causados pelos projetos de infra-estrutura financiados pelo ADB na população e nas florestas da região.

Caso seja aprovada pela diretoria do Banco na formulação atual, a nova política florestal permitiria ao Banco financiar a represa Nam Theun 2 e outros projetos de infra-estrutura altamente nocivos, sem levar em conta os impactos diretos e indiretos desses projetos nas florestas.

Por Chris Lang, correio eletrônico: chrislang@t-online.de


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- Malásia: a difícil situação das trabalhadoras nas plantações de dendê

As mulheres somam mais da metade da mão-de-obra nas plantações malaias (cerca de 30 mil operárias). Historicamente, elas têm sido contratadas como trabalhadoras temporárias, para fazer o trabalho menos qualificado e pior remunerado. A urbanização e a industrialização empurram homens e rapazes para o trabalho em novas áreas industriais, enquanto as mulheres ficam e continuam aceitando qualquer tipo de trabalho que permita aceder à moradia e aos serviços básicos fornecidos pela empresa dona da plantação; caso contrário, elas não teriam essa possibilidade. Assim, as mulheres vêm desempenhando uma dupla função: fornecer mão-de-obra barata e estabilidade social.

No início da década de sessenta, quando o consumo de borracha sintética, controlada pelos países industrializados, tinha pulado para mais de 60% no mundo todo, o preço da borracha caiu drasticamente. As plantações de caucho da Malásia não conseguiram permanecer na concorrência e, portanto, o setor foi forçado a se diversificar, introduzindo o dendê como cultura alternativa. Posteriormente, o país virou o número um na produção e exportação de dendê, num ímpeto que provocou (e continua provocando) a forte oposição dos povos indígenas, como os de Sarawak, que defendem suas terras e florestas tradicionais contra programas de monocultura devastadores, que permitem que o país fique inserido na economia mundial, mas privando o povo de seus meios de subsistência.

A lavoura de dendê requer um "cuidado" mais intensivo para o combate às pragas, motivo pelo qual o uso de praguicidas virou requisito essencial. As mulheres foram contratadas para espargir praguicidas e fertilizantes; calcula-se que aproximadamente 30 mil mulheres realizam esse trabalho no país todo, a maior parte delas indígenas. A organização Tenaganita (Força das Mulheres) vem trabalhando com as operárias das plantações desde 1991. Informação compilada sobre o trabalho e a vida das trabalhadoras das plantações e estudos de caso sobre a exploração enquanto mulheres e trabalhadoras permitiram à organização dar notícia do calvário dessas mulheres "envenenadas e silenciadas", num relatório elaborado em parceria com a Rede Ação contra Pesticidas (Pesticide Action Network), da Ásia e o Pacífico (o relatório, na íntegra, está disponível em http://www.evb.ch/index.cfm?page_id=1300).

O estudo revela que o equipamento de aspersão vaza e que a manutenção é ruim, o atendimento médico e a infra-estrutura de primeiros socorros nas plantações são insuficientes e, nalguns casos, não existe equipamento de proteção. No caso das mulheres, em particular, a falta de controle médico e a total incompreensão da forma como são afetadas por esses produtos químicos fazem com que seja muito difícil avaliar o grau do impacto causado nelas, na saúde reprodutiva e na gravidez. Porém, os impactos são bem reais.

Sendo a pele o órgão que reveste o corpo inteiro, é através dela que dá-se 90% da exposição aos praguicidas; mas a pele das mulheres é fina e favorece um alto grau de absorção de produtos químicos pelo corpo. Bem poucas mulheres sabem que o local de absorção mais importante é a região genital. Depois da aspersão dos produtos, elas experimentam uma sensação de severa queimadura na região genital, mas sofrem em silêncio, pois têm vergonha de falar no assunto com o pessoal do hospital - o mais das vezes, homens - e, portanto, o problema não é detectado. Os sintomas comuns de cansaço, dor nas costas, forte dor de cabeça, náuseas, tontura, sensação de opressão e dor no peito e inflamação nos seios são sinais da exposição a praguicidas do tipo organofosforados e carbamatos.

Apontando os responsáveis, o relatório salienta que os donos e os administradores das plantações só tomam decisões - quanto às tarefas, o método de aspersão, o tipo de praguicida a ser usado, os serviços de saúde e as medidas a serem implementadas - quando surge uma reclamação. A indústria das plantações nem criou comissões de segurança nem cumpre as disposições da Lei de Segurança no Trabalho. Pior ainda, ela não fornece às trabalhadoras informação adequada sobre os venenos que manipulam e empregam no trabalho. Embora saiba dos riscos envolvidos, ela continua usando os praguicidas de maior toxicidade. Não obstante, a indústria vem desenvolvendo estratégicas, para não ter de prestar contas a ninguém; o trabalho de aspersão, por exemplo, foi incluído na categoria "trabalho subcontratado". Assim, as trabalhadoras são supervisionadas diretamente pela empresa subcontratada. Muitas possuem vínculo empregatício temporário, de sorte que a indústria se livra de sua responsabilidade. A única preocupação é com o lucro, ficando excluída a vida de trabalhadoras que geram a riqueza da indústria.

Quanto à indústria de praguicidas, embora trabalhe em estreita ligação com a indústria das plantações mas sem contato direto com as trabalhadoras, ela deve garantir que os praguicidas que produz e distribui não vão envenenar nem as trabalhadoras nem a população em geral nem o meio ambiente. No entanto, ela não faz nada para resolver esses problemas - quando fez, foi lenta demais - e, com freqüência, é muito mais enfática na hora de negar que possa ter havido um envenenamento.

A Divisão de Praguicidas e o Departamento de Saúde e Segurança no Trabalho devem garantir a segurança e proteção das trabalhadoras contra a ação desses produtos tóxicos. Em geral, não é feito nenhum controle de venda, uso e impacto dos venenos nas plantações. A escassa implementação das disposições no setor tem levado ao envenenamento diário de trabalhadoras. Além disso, os médicos e o pessoal de atendimento à saúde não foram devidamente formados para tratar casos de envenenamento por praguicidas. Nesse sentido, o governo também é responsável pela atual crise na saúde das trabalhadoras que fazem a aspersão nas plantações.

Embora integrado num 60% por mulheres, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Plantações (National Union of Plantation Workers - NUPW) não consegue dar conta da medonha situação das trabalhadores e sua diária exposição a venenos. A diretoria negociou salários levemente superiores para as trabalhadoras que fazem a aspersão, pois se trata de um trabalho "de alto risco". A falta de perspectiva de gênero é percebida na ausência de programas para a mulher e na falta de dirigentes mulheres no próprio Sindicato.

A contratação de trabalhadores imigrantes - o mais das vezes, empregados na modalidade de mão-de-obra contratada - é uma questão emergente. Com freqüência, as operações são subcontratadas a empresas ou agentes que fornecem a mão-de-obra para realizar diversos trabalhos nas plantações, mas esses empregados não se tornam funcionários das mesmas. Eles não contam com a proteção da legislação trabalhista, são altamente móveis e correm o risco de serem apresados, levados à cadeia e deportados. Assim, esses trabalhadores, também, são altamente vulneráveis e sujeitos a graves problemas de saúde, porquanto não têm acesso nem a tratamento nem a atendimento médico.

Em suma, a redução ou prevenção da toxicidade ligada ao uso de praguicidas no país implicaria, entre outras ações, a proibição e/ou estrita restrição do uso de substâncias perigosas, como os praguicidas, a promoção de alternativas para combater quimicamente as pragas no país, e a integração da perspectiva de gênero na análise dos riscos dos praguicidas no trabalho.

Uma organização de mulheres vem se manifestando com força. Ela tem dado voz às "silenciadas", num esforço por compensar os efeitos nocivos de um modelo de produção errado, de plantio de monoculturas em grande escala, artificial, incerto e que reforça a exclusão da mulher, sem benefício para o povo em geral.

Artigo baseado em: "Poisoned and Silenced. A Study of Pesticide Poisoning in the Plantations", Tenaganita, correio eletrônico: tenaganita@yahoo.co.uk ou tnita@hotmail.com, http://caramasia.gn.apc.org/tn_page0.html; e Pesticide Action Network (PAN) Asia and the Pacific, correio eletrônico: panap@panap.net, http://www.panap.net/.


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- Timor Leste: sobrevivência, petróleo e soberania

"A estratégia consistiu em sobreviver". Essa foi a resposta dada pela população de Timor a uma comitiva da Oilwatch, presente no país uma semana após ter conseguido a independência. Manter-se com vida diante da massacre organizada e perpetrada pelo presidente da Indonésia. Eles disseram, inclusive, que o atual presidente de Timor Leste, Xanana Gusmão, quando da sua detenção em 1992, fez as vezes de mago para preservar a vida, com sua arte de prestidigitador. À magia, pois, ele deve a vida.

Timor Leste tornou-se república independente no dia 20 de maio de 2002, mas seu nascimento veio acompanhado de uma grande dúvida: era uma vantagem, ou uma desvantagem, estar sobre um gigantesco depósito de petróleo?; pode crescer a soberania entre as pressões das multinacionais? Talvez, hoje, depois da invasão dos Estados Unidos no Iraque, a resposta seja mais simples que naquele momento.

Da pequena ilha com 32 mil quilômetros quadrados, 19 mil pertencem a Timor Leste. Tudo na ilha dá fé da longa guerra travada a partir da invasão, em dezembro de 1975, pelo regime de Suharto, ditador da Indonésia. A invasão aconteceu a apenas dez dias de ter deixado de ser colônia portuguesa. Com a Revolução dos Cravos Vermelhos, Portugal abriu mão das colônias e Timor Leste começava a sonhar com a soberania.

O exército do governo ditatorial de Suharto, chegado ao poder da mesma forma que a maior parte dos tiranos, apoiado pelos Estados Unidos, matou metade da população timorense. A intervenção foi realizada com o beneplácito de Washington, que temia uma virada de Timor para o socialismo, como aconteceu com outras ex-colônias portuguesas.

Derrubado Suharto, e com a demora habitual das Nações Unidas, foi convocado um referendum em que 78,5% do eleitorado de Timor Leste votou a favor da independência. A votação só não foi maior, devido aos programas de colonização da ilha impostos pelo governo da Indonésia. Uma vez concluído o referendum, a matança recrudesceu, instigada pelo governo da Indonésia e com a costumeira impotência das Nações Unidas. Timor Leste conquistou a sua independência porque teve a coragem de se manter vivo.

Hoje, apesar de ter conseguido a soberania territorial, Timor deve enfrentar sérias dificuldades e travar uma nova batalha pela soberania patrimonial.

O novo país nasce com florestas degradadas pela ação militar. O exército da Indonésia desmatou vastas áreas, derrubando, até, florestas, para combater a guerrilha.

Com um pouco de café que exporta e outro pouco de extração de sândalo, arrasado desde a época dos portugueses, Timor tem dificuldades para equacionar propostas que o tornem soberano em matéria de alimentação.

E o que dizer da soberania energética!? Além da lenha, as fontes de energia que possui são o querosene, a gasolina e o diesel importados da Indonésia, mas que não chegam à maior parte da população.

Mas, por outro lado, sob o subsolo há grandes reservas de petróleo e gás, não só de cru off-shore (existente em três regiões), mas, também, duas áreas com afloramentos naturais, uma de gás e a outra de óleo.

Timor Leste começou sua vida independente às voltas com uma crise econômica total e uma dependência absoluta da ajuda internacional, principalmente das Nações Unidas - muito embora, como costuma acontecer nesses casos, as tais ajudas sejam auto-ajudas, e mais de 80% da verba investida em programas de reabilitação seja para pagar assessores estrangeiros.

A situação piora cada dia mais. Em 23 de julho de 2002, Timor virou novo membro do Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD), cuja tradição é investir em megaprojetos e, hoje, na linha de redução da pobreza do tipo FMI e Banco Mundial, apoia processos de liberalização e privatização. No BAD, como no Banco Mundial, as decisões dependem dos votos, sendo que o peso de cada voto é calculado segundo o investimento feito no Banco, fato que permite ao Japão ter um peso de 13,1 nas decisões, frente ao O,3 de Timor.

Os planos para Timor não são apoiar sua soberania; pelo contrário, estão voltados para privá-lo de seus direitos. Timor se esforça para exercer controle sobre suas reservas de petróleo, numa luta desigual com a Indonésia e a Austrália e pressionado por grandes empresas, como a Shell e a Conoco-Philips, que primeiro procuram saber com quem vão tirar maior vantagem e, assim, decidir com quem vão negociar, além de estarem preocupadas com a intenção de Timor de criar novos impostos. O petróleo de Timor é uma armadilha dupla: uma contínua ameaça à sua soberania e um risco de cair num modelo econômico desejoso apenas de rentabilidade.

As expectativas de receita oriunda do gás e do petróleo são muito fortes. Calcula-se que Timor poderia arrecadar de 8 a 38 bilhões de dólares nos próximos 30 anos, dependendo do limite estabelecido. Para ter uma noção do que esses números significam, basta dizer que o orçamento do governo para o ano que vem é de apenas US$ 77 milhões.

O debate sobre a soberania tem muitas arestas. O custo humano pago por Timor Leste para assumir o processo de independência territorial foi tamanho. Hoje, periga todo o seu patrimônio, pois reservas dessa magnitude têm potencial para destruir o país.

Xanana Gusmão e a sua equipe de governo terão de lançar mão novamente da magia, desta vez, para reconquistar a soberania patrimonial. Tomara que eles continuem acreditando tanto nela quanto na necessidade de ser soberanos.

Por Esperanza Martínez, Oilwatch, correio eletrônico: tegantai@oilwatch.org.ec


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- Vietnã: começa reassentamento para ceder lugar à enorme represa de Son La

Na montanhosa região noroeste do Vietnã, o Comitê Popular de Son La transferiu os primeiros 52 moradores, de um total de 91 mil que serão obrigados a abandonar seus lares, para ceder lugar à enorme represa de Son La. Em março, as autoridades transferiram oito famílias da aldeia indígena White Thai para um novo lugar a 200 quilômetros de seus lares, no distrito de Muong La. Não menos de 13 grupos indígenas habitam os 275 quilômetros quadrados a serem inundados pelo lago artificial atrás da represa.

No mês de dezembro de 2002, a Assembléia Nacional autorizou a represa de 2.400 megawatts em Son La. Essa represa, cuja construção é planejada 200 quilômetros rio acima da represa de Hoa Binh, no rio Da, seria a maior do Vietnã e exigiria o maior despejo de moradores da história do país.

O projeto tem um custo estimado em US$ 2,5 bilhões, dos quais o governo vietnamita pretende conseguir, no mínimo, US$ 750 milhões de fontes internacionais. A empresa pública de eletricidade, Electricity of Vietnam, espera que a construção da represa seja iniciada em 2005 e a geração de energia elétrica em 2012.

Além dos 3 mil hectares de floresta a serem inundados pelo açude, a represa causaria forte impacto nas florestas do noroeste do Vietnã. A maior parte dos arrozais da província de Lau Chau seria inundada pelo açude. A fim de fornecer terra para a lavoura e moradia das pessoas despejadas do vale do rio Da, seria preciso derrubar as florestas nas encostas em torno do lago artificial. A construção da represa exigirá um volume importante de madeira. Quando da construção da represa Hoa Binh, rio abaixo, 70% da produção estadual de madeira da bacia do rio Da teve por destino o local de construção da represa.

O projeto de Son La tem sido objeto de intensos debates na Assembléia Nacional do Vietnã. Em maio de 2000, a Assembléia Nacional pediu informação adicional sobre os planos de reassentamento e compensação e a realização de estudos de viabilidade de uma versão da represa de pequenas dimensões.

Não obstante, a elaboração do projeto prosseguiu. Em agosto de 2001, funcionários do governo vietnamita aprovaram uma parcela de US$ 660 milhões para as operações de reassentamento. Numa visita à província de Lai Chau, o vice-primeiro-ministro, Nguyen Cong Tan, disse às autoridades provinciais que "tinham começado a deslocar os moradores, para poder concluir o reassentamento no fim do ano 2005".

Em março de 2002, a Assembléia Nacional adiou para o fim desse ano a decisão sobre a continuação dos preparativos para a represa. Mai Thuc Lan, vice-presidente da Assembléia Nacional, declarou ao jornal vietnamita Tuoi Tre que "a elaboração do projeto hidrelétrico de Son La não foi feita com o devido cuidado".

A represa proposta vem sendo estudada há mais de trinta anos. Várias consultoras internacionais se beneficiaram com contratos para produzir estudos sobre a represa de Son La, entre elas, o Instituto Moscovita de Hidreletricidade e Indústria, a Companhia de Eletricidade e Distribuição de Energia (do Japão), a Empresa de Pesquisa de Desenho e Produção (de Moscou) e a SWECO (da Suécia).

Embora funcionários do Banco Mundial afirmem que a instituição não financiará o projeto de Son La, o Banco financiou estudos sobre a represa. No Relatório de Avaliação do Banco Mundial, de abril de 1995, consta que o Banco financiou "estudos de engenharia para o projeto hidrelétrico de Son La". Quatro anos depois, um estudo do Banco Mundial sobre o setor de energia elétrica no Vietnã argumentava que, do ponto de vista econômico, "a planta hidrelétrica de Son La parece promissora".

Em 1999, um joint venture entre a SWECO e a Harza, uma empresa estadunidense de engenharia, obteve um contrato de US$ 1,3 milhão, outorgado pelo governo vietnamita, para a atualização dos planos de construção da represa de Son La. Foi informado que a empresa Montgomery Watson Harza (nome pelo qual é conhecida a Harza desde a fusão, em 2001, com a companhia de água Montgomery Watson) anda atrás do contrato de administração do projeto de construção da represa. A Montgomery Watson Harza também faz parte de um joint venture com a Electricité de France, que espera construir a represa Nam Theun 2, no Laos.

No ano 2001, um executivo da Montgomery Watson Harza, desiludido, talvez, com o demorado processo de decisão da Assembléia Nacional sobre Son La, declarou ao Engineering News Record que o Vietnã era "o pior de todos os mundos". E acrescentou: "terão de reduzir o nível de centralização do controle".

Uma das maiores preocupações, em relação à represa de Son La, é com o fato de ela ser eventualmente construída numa região propensa a terremotos. Em fevereiro e março de 2001, vários terremotos assolaram as províncias de Lai Chau e Son La. Não houve mortes, mas o estrago causado a prédios e estradas foi calculado em cerca de US$ 14 milhões.

A represa de Hoa Binh, localizada águas abaixo do local onde ficaria a represa de Son La, no rio Da, foi construída com ajuda financeira e assistência técnica da União Soviética. Os expertos soviéticos advertiram que a ocorrência de grandes enchentes poderia provocar o colapso da represa de Hoa Binh, recomendando a construção de uma segunda represa rio acima.

Os riscos são tamanhos. Se um terremoto provocasse o colapso da represa de Son La, produzir-se-ia uma grande onda que inundaria o trecho inferior do rio Da, ameaçando primeiro a represa de Hoa Binh e, depois, Hanói, localizada a 300 quilômetros de distância.

Dao Van Hung, gerente geral da Electricity of Vietnam, não parece estar preocupado com o perigo potencial de construir uma represa numa área de terremotos. A rádio Voz do Vietnã informou que, em novembro de 2002, o gerente disse à Assembléia Nacional que "hoje, existem mais de 300 projetos de energia hidrelétrica no mundo cujas represas têm de 100 a 350 metros de altura. A represa da planta hidrelétrica de Son La possui apenas 115 metros. Portanto, acho que os trabalhadores e os cientistas vietnamitas estão totalmente capacitados para calcular a quantidade de material de construção e a estrutura necessária, para garantir condições de segurança máxima".

Por Chris Lang, correio eletrônico: chrislang@t-online.de


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