NOSSA OPINIÃO
-
Florestas e povos das florestas no Fórum Social Mundial 2004
O desmatamento é via
de regra percebido como um problema ambiental cujo resultado é
a perda de biodiversidade e impactos nos recursos hídricos
e do solo. Entretanto, isso é apenas uma parte do problema.
De fato, as florestas são
habitadas por milhões de pessoas cujo sustento depende dos
recursos que elas fornecem: alimento, madeira, combustível,
remédios, fibras, forragem, etc. Portanto, a preservação
das florestas é vital para satisfazer as necessidades de subsistência
desses milhões de pessoas, que só na Índia foram
calculadas em cerca de 150 milhões.
Na maior parte dos países,
o desmatamento e a degradação das florestas promovidos
pelos governos, resultado da extração de madeira em
escala industrial, das barragens, da mineração, da exploração
de petróleo, da criação industrial de camarão,
das plantações e da agricultura voltada para a exportação,
não diminuíram em nada, provocando graves impactos numa
quantidade enorme de pessoas.
A resposta dos governos ao
desmatamento – a demarcação de áreas protegidas
– também atinge as comunidades que habitam as florestas
ou delas dependem, visto que são expulsas do seu território,
ou impedidas de utilizar os recursos contidos nesse território.
Na maioria dos casos, o absurdo e injusto dessa abordagem de conservação
é que os expulsos são justamente aqueles que garantiram
por séculos um manejo sustentável da floresta hoje declarada
“sob proteção”.
Em decorrência disso,
achamos que a questão das florestas deve ser tratada no Fórum
Social Mundial, como forma de ressaltar o seu aspecto social e, nesse
contexto, tentar avançar rumo à proteção
das florestas e dos direitos dos povos das florestas. As atividades
resenhadas abaixo congregaram ativistas e povos das florestas, possibilitando
uma empolgante troca de experiências e idéias em torno
da questão.
Mais importante ainda: tais
atividades tornaram possível a elaboração de
um rascunho de declaração de princípios (a “Iniciativa
de Mumbai para as Florestas”), visando a criação
de um movimento mundial baseado num critério comum de conservação
das florestas e de respeito pelos direitos dos povos que as habitam
(veja a matéria abaixo).
Essa abordagem comum baseia-se
no reconhecimento dos direitos dos povos das florestas e na necessidade
de fortalecer o seu papel de custódios e administradores da
floresta. No marco desse enfoque, a principal função
do Estado é a criação de um ambiente propício,
para as comunidades poderem manejar as florestas de forma adequada.
A sociedade civil (beneficiária dos serviços e produtos
fornecidos pelas florestas) também deve desempenhar um papel
central de apoio às comunidades em seu esforço por manejar
e conservar a floresta.
Estamos totalmente certos
de que a Iniciativa de Mumbai para as Florestas é uma resposta
adequada ao problema dos povos das florestas, os quais desejam proteger
suas florestas, precisam de proteção contra agentes
de fora e possuem o conhecimento necessário para manejá-las
de forma adequada. Esperamos que todos aqueles que concordam com esta
abordagem se juntem a esse processo, fortalecendo assim a luta pela
conservação das florestas e a proteção
dos direitos dos povos das florestas.
|
início |
próxima página |
|