|
CONTATOS
FORÇADOS
-
‘La Fumee du Metal’: os impactos sobre a saúde do
contato*
Os 21.000 Yanomami que vivem
nos 360 assentamentos amplamente espalhados nas montanhas e colinas
com florestas entre a Venezuela e o Brasil estiveram sem contato com
os ocidentais por muito tempo, até metade do século 20.
Em seus mitos os Yanomami lembram uma época bem distante quando
viviam ao longo de um grande rio “antes de sermos afugentados
para as terras altas”, mas para o momento em que sua existência
é registrada pela primeira vez na metade do século 18,
já estavam bem estabelecidos na Serra Parima entre o Rio Branco
e o Alto Orinoco.
O contato com o mundo exterior
tem estado guiado por uma série de forças diferentes.
Uma vez que os Yanomami descobriram o valor dos metais, provavelmente
para o final do século 19, começaram a comerciar (e a
invadir) grupos indígenas vizinhos para adquirir machetes e machados,
tecidos e panelas. As ferramentas de metal facilitaram quase 10 vezes
o trabalho de cortar árvores para construção e
agricultura bem como muitas outras tarefas. Sua agricultura se intensificou,
sua população cresceu e eles começaram a deslocar-se
das terras altas para o norte, o sul, o leste e o oeste, obrigados pela
própria expansão de sua população e levados
rio abaixo por oportunidades de comércio. Ao mesmo tempo, os
exploradores, antropólogos e comissões de fronteira marcharam
para as cabeceiras desses rios para fazer conhecer essas áreas
à “ciência” e marcar os limites dos estados
nacionais em expansão. Os Yanomami ganharam uma reputação
por defender-se contra os intrusos mas isso não dissuadiu os
aventureiros. Na década de 20, o explorador britânico Hamilton-Rice
segurava uma metralhadora de mão enquanto era levado a remo às
cabeceiras do Uraricoera de ida e volta.
A partir da década de
50, sacerdotes protestantes e católicos estabeleceram postos
missionários afastados para trazer o conhecimento de Cristo aos
Yanomami. Depois, os projetos de formação nacional levaram
a construir rodovias através das florestas e a propostas para
a construção de grandes barragens. Sobretudo, as descobertas
de ouro e cassiterita levaram a invasões massivas pelos garimpeiros,
guiados por sua própria pobreza e oportunidades de riqueza.
Naturalmente, como todos os
grupos humanos, os Yanomami não estiveram livres de doenças
no passado. Os antropólogos médicos presumem que eles
tinham abrigado infeções virais tais como o herpes, o
vírus Epstein-Barr, a citomegalovirose e a hepatite por muito
tempo. O tétano também era comum no lugar e algumas infeções
por treponema não venéreas foram provavelmente endêmicas.
Os arbovírus, mantidos nas populações animais nas
florestas também estavam presentes. Acredita-se que a leishmaniose,
transmitida pelo mosquito-palha e a febre amarela, que também
infeta os monos, têm estado presentes já que os povos indígenas
mostram considerável resistência a essas doenças.
Em resumo, as situações de pré-contato não
foram um paraíso médico mas as doenças existentes
prevaleceram em níveis baixos e raras vezes fatais.
O contato com o mundo exterior,
no entanto, tem cobrado um grande número de mortes de yanomamis.
Já no início de 1900, os Yanomami do norte começaram
a sofrer freqüente epidemias de doenças estranhas no Uraricoera.
Na década de 60, os mineradores de diamantes invadiram as áreas
Yanam (Yanomami Oriental) no Alto Paragua na Venezuela e Uraricaa no
Brasil, levando à mortalidade massiva. No final da década
de 60, os trabalhadores trazidos do Rio Negro para expandir as missões
e construir pistas de pouso e decolagem infetaram os Yanomami do Alto
Orinoco com sarampo. A infeção se espalhou pelos assentamentos
e foi levada rio acima pelos povos assustados que fugiam dos surtos
rio abaixo. A febre, a dor e a debilidade prostraram vilas inteiras,
deixando os infetados deitados em suas redes, impossibilitados de caçar,
débeis demais para colher os cultivos de suas granjas, e eventualmente
desmoralizados demais até para colher lenha ou água para
beber dos córregos vizinhos. Com frio, fome e debilitados pela
doença, os Yanomami foram vítimas fáceis de outras
doenças. As infeções do aparelho respiratório
trouxeram pneumonias, febres, mais debilidade e mortes em massa. Algumas
vilas perderam até um terço de habitantes numa só
epidemia e repetidos açoites de gripe, poliomielite, coqueluche,
rubéola, varicela e a degeneração no longo prazo
trazida pela tuberculose, levou a alguns grupos a ficar completamente
destruídos.
Durante o programa de construção
de rodovias no Brasil, que envolveu a construção de uma
rodovia através do extremo do território Yanomam (Yanomami
Sul), essas epidemias repetidas reduziram o número de habitantes
Yanomami locais em até 90%. Os abalados sobreviventes começaram
a estar à margem da estrada, mendigando para os veículos
que passavam. Por sua vez, os encontros casuais com caminhoneiros e
trabalhadores da construção trouxeram doenças venéreas
antes desconhecidas nas vilas, como a gonorréia, fazendo com
que muitas mulheres ficassem inférteis e atrasando a recuperação
das perdas de pessoas.
Na década de 70, os Sanema
(Yanomami do Norte) do Alto Caura começaram a viajar rio abaixo
para trabalhar nas minas de diamantes no Paragua Médio e voltaram
trazendo um número mortal de doenças. As epidemias levaram
a perdas massivas e ao abandono da antigamente populosa missão
católica em Kanadakuni. Na década de 80, aproximadamente
25% dos Sanema do Caura tinham tuberculose, o que levou a uma perda
desmoralizante e constante de pessoas por causa da mortal doença.
Durante a década de 80,
a invasão massiva dos territórios dos Yanomami brasileiros
por 50.000 mineradores, levou a mais problemas até para os grupos
mais isolados. Os mineradores não apenas viajaram enfrentando
muitas dificuldades através das colinas com florestas onde os
rios eram inavegáveis, mas também voaram para as pistas
missionárias usando aeroplanos. Cortou-se mais floresta para
fazer novas pistas, em áreas previamente não penetradas.
Além de epidemias virais freqüentes e mais problemas com
doenças venéreas, os Yanomami também contraíram
as três formas de malária trazida pelos mineradores Plasmodium
vivax, P. ovale e a mais mortal P. falciparum. Equipes de médicos
voluntários que vieram para ajudar a mitigar essa devastação
estimam que os Yanomami brasileiros, no conjunto, perderam 15-20% de
sua população por causa das doenças trazidas pelos
mineradores.
Obviamente essas tragédias
têm tido mais do que impactos médicos sobre os Yanomami.
O trauma das mortes massivas tem marcado várias gerações
e perturbado os antigos conceitos sobre a existência, a doença,
a cura e a morte. Tradicionalmente, os Yanomami costumavam ver a maioria
das doenças como conseqüência de comer animais caçados,
enquanto a maioria das mortes eram percebidas como o resultado de atos
de pajés de vilas distantes que enviavam feitiços a longas
distâncias ou espreitavam nas florestas vizinhas para soprar pós
venenosos as transeuntes desprevenidos. As mortes massivas eram desconhecidas
mas, em diferentes ocasiões levaram a vilas isoladas a assumir
que estavam sob ataque espiritual de comunidades vizinhas incitando-os
a realizar ataques de represália para vingar-se dos presumíveis
assassinos.
No entanto, não passou
muito tempo para que os Yanomami perceberam que as terríveis
epidemias que sofriam eram conseqüência de seus contatos
com os “brancos”. Entre os Yanomam brasileiros (Yanomami
do Sul), cresceu a crença que as doenças eram a “fumaça
do aço” um cheiro de morte que vinha das caixas onde os
artigos de metal eram armazenados, uma exalação na própria
respiração de seus sinistros visitantes brancos, uma fumaça
debilitante e repugnante como as fumaças dos motores de seus
aeroplanos.
“Uma vez que fumaça
esteve entre nós, causou nossa morte. Tivemos febre. Nossas peles
começaram a repicar. Foi apavorante. As pessoas idosas reclamavam
“o que é que temos feito para que nos matem?” e diziam
para os mais jovens que queriam vingar-se “não vão
vingar-se dos brancos … não vão, insistiram, não
vão matá-los com setas, porque são homens armados,
e nos vão atacar com seu rifles’.”*
Como as epidemias continuavam,
alguns dos Yanomami mais idosos instaram a uma retirada às cabeceiras
para evitar maior contato, mas as doenças os seguiram até
nas terras altas, trazidas às missões por oficiais do
governo e pacientes Yanomami que retornavam de hospitais, o que levou
à crença que os brancos eram canibais insaciáveis
que se alimentavam dos espíritos Yanomami.
Se pudermos ver além
de nossas próprias explicações científicas
da causa das doenças e das mortes, veremos que os diagnósticos
dos Yanomami da calamidade médica que estavam suportando estavam
próximos da verdade. Eles identificaram com agudeza a cobiça
da civilização que os estava subjugando, sem considerar
as conseqüências da intrusão.
Nos último anos, missionários,
antropólogos, ONGs, agências governamentais e crescentemente
os próprios Yanomami têm estado fazendo esforços
para trazer assistência médica à área e deter
o acesso descontrolado à região. Na década de 90,
aproximadamente 8,5 milhões de hectares do Alto Orinoco na Venezuela
foram declaradas Reserva da Biosfera e no Brasil, outros 9,9 milhões
de hectares foram destinados para um “Parque” Indígena.
O governo da Venezuela está considerando agora reconhecer mais
3,6 milhões de hectares no Alto Caura como um “hábitat”
indígena. Enquanto isso, na Venezuela os programas médicos
continuam sendo limitados (apesar do abundante financiamento da Reserva
da Biosfera pela União Européia e o Banco Mundial); no
Brasil uma campanha concertada de vacinação e cuidado
primário da saúde, junto com medidas para expulsar os
mineradores da região têm levado a melhorias.
A experiência Yanomami
ensina várias lições, sendo uma das mais óbvias
que o contato descontrolado pode ter conseqüências terríveis
para grupos previamente isolados. No caso dos Yanomami, o contato com
o mundo exterior era procurado pelos próprios indígenas,
mas os esquemas de penetração unilaterais que consideraram
pouco os efeitos médicos, exacerbaram enormemente o que de qualquer
jeito tivesse sido um encontro desmoralizante e perigoso. No século
19 e antes, poderia ter sido possível alegar ignorância
dos prováveis resultados desse contato. Agora sabemos, sem qualquer
dúvida, que o contato forçoso com grupos indígenas
isolados na Amazônia com certeza vai levar a perdas massivas de
vidas.
Por: Marcus Colchester, Forest
Peoples Programme, e-mail: marcus@forestpeoples.org
* O título e citação
é de Bruce Albert, (1988, La Fumee du metal: histoire et representation
du contact chez les Yanomami (Brazil) L’Homme (106-107): XXVIII
(2-3) :87-119)
início
-
África Central: perda de terras e degradação cultural
para os Twa dos Grandes Lagos
O povo indígena “pigmeu”
Twa da região dos Grandes Lagos da África Central é
originalmente um povo caçador-coletor das montanhas, que habita
as florestas de grande altitude que rodeiam os Lagos Kivu, Albert e
Tanganyika, áreas que agora fazem parte de Ruanda, Burundi, Uganda
e o leste da República Democrática do Congo (RDC). Estima-se
a população atual de Twa está entre 82.000 e 126.000
pessoas.
Sabe-se amplamente que os Twa
foram os primeiros habitantes das florestas na região dos Grandes
Lagos. Isso fica evidenciado com os registros históricos e pesquisas,
bem como com os próprios relatos dos Twa sobre suas origens,
que enfatizam que os Twa são “daqui” enquanto as
histórias orais de grupos étnicos vizinhos falam de sua
chegada de outros lugares por causa de guerras, migrações
e conquistas. Os rituais locais também afirmam simbolicamente
o papel dos Twa como os primeiros ocupantes da terra. Por exemplo, os
Twa desempenharam e ainda desempenham um papel crucial nas cerimônias
de entronização dos proprietários de terras tradicionais
não indígenas, os reis “Tutsi” e os chefes
(Mwamis), “licenciando” simbolicamente a terra ao soberano
entrante. Os Twa também eram indispensáveis para os ritos
anuais de caça real que afirmavam a autoridade mística
dos Mwami sobre a terra e sua fertilidade. Efetivamente, a raiz –twa
é um termo Banto utilizado em toda a África subsaariana
para referir-se diferentes grupos de pessoas de muito baixa posição
social, em quase todos os casos caçadores-coletores e antigos
caçadores-coletores reconhecidos como os primeiros habitantes
da área, incluindo os “pigmeus” e “bosquímanos”.
Os Twa, como outros caçadores-coletores
da floresta da África, têm tido contatos com grupos agricultores
vizinhos por muitos séculos, em base a relações
de intercâmbio recíproco, nas que os produtos da floresta
eram trocados por amidos, ferramentas metálicas e outros produtos,
como por exemplo o sal. Por muitos séculos os Twa foram provavelmente
capazes (como muitos outros povos indígenas das florestas africanas)
de retirar-se à vontade para as florestas e desse jeito controlar
em grande proporção a natureza e alcance de seu contato
com o mundo exterior. No entanto, como as florestas começaram
a ser cortadas, os Twa foram crescentemente forçados a contatar-se
com os agricultores e pastores, e ficaram envolvidos em relações
comerciais e de trabalho desfavoráveis, nas que o âmbito
para negociar ficou mais e mais limitado.
O desmatamento na região
dos Grandes Lagos começou há vários séculos,
com a chegada de povos agricultores e pastores que começaram
a cortar florestas para a agricultura e para pastagem. Grande parte
da região fica fora das principais rotas de escravos e a densidade
da população aumentou enquanto outros povos procuraram
refúgio nessa área. As áreas com florestas retrocederam
enquanto a agricultura se expandia sobre os ricos solos vulcânicos.
No início e em meados do século 20, as populações
cresceram rapidamente, resultando em uma das densidades de população
rural mais altas da África; por exemplo 800 pessoas/km2 na região
vulcânica do noroeste de Ruanda. Para a década de 80, a
maior parte da terra disponível, fora das áreas reservadas
para a conservação da fauna e flora e a proteção
ambiental, estava cultivada, particularmente em Ruanda e Burundi. As
pressões sobre as florestas se intensificaram com a produção
de cultivos para exportação: a metade das florestas ao
redor dos vulcões no norte de Ruanda foram cortadas para deixar
o caminho livre para plantações de piretro na década
de 60 e as áreas ao redor da floresta Nyungwe de Ruanda foram
cortadas, cedendo o passo a grandes extensões de cultivo de chá.
A produção de quinina e café na RDC também
reduziu a cobertura de florestas. Durante o século 20 a área
com florestas de Ruanda se reduziu de 30% da área total de terras
para o atual 7%; a cobertura natural de florestas de Burundi diminuiu
de 6% para 2% da área de terras entre 1976 e 1997.
Como as florestas foram cortadas,
as áreas de caça e coleta dos Twa diminuiu, inaugurando-se
um período no que os Twa foram ficando progressivamente com menos
e menos terras e no que sua tradicional cultura baseada na floresta,
inclusive sua religião e rituais e (de acordo com algumas fontes)
sua língua, se erodiram. Em muitas áreas os Twa procuraram
manter o controle sobre suas terras através da defesa armada.
Um exemplo disso são as façanhas dos famosos Twa basebya
no final do século 19 no que é o sudoeste de Uganda atualmente.
Nas terras altas Bushivu do leste da RDC os Twa também combateram
muito tempo em sangrentas guerras com os povos agrícolas que
tentavam cortar as terras de florestas dos Twa para estabelecer cultivos
–e lutaram de forma contínua até aproximadamente
o ano 1918. O impacto do desmatamento sobre a cultura dos Twa foi apontado
pelos primeiros missioneiros, como Van den Biesen, que disse sobre o
futuro dos Twa em Burundi em 1897: “Quando essas florestas tenham
sido destruídas por qualquer razão, nossos Batwa não
vão poder continuar sua vida tradicional.”
Como as florestas foram cortadas,
alguns grupos Twa adotaram meios de vida alternativos, baseados no artesanato
(cerâmica, cestaria, trabalhos em metal) ou se vincularam com
pessoas poderosas e ricas, transformando-se portanto em cantores, bailarinos,
mensageiros, guardas, guerreiros e caçadores de reis e príncipes;
outros se transformaram em clientes dos proprietários de terras
locais. Em alguns casos esses serviços eram pagados com gado
ou terras, mas a maioria dos Twa ficou sem quaisquer direitos a terras
reconhecidos em nível local.
Outros grupos de Twa puderam
continuar usando a floresta remanescente para atividades de subsistência
e comércio de produtos da floresta, tais como peles, trepadeiras,
óleos essenciais, mel, postes e caça, com comunidades
agrícolas vizinhas e caçando animais como elefantes, macacos
colobus, javalis e leopardos, dos quais davam porções
selecionadas aos chefes e subchefes locais como tributo. Em troca dessas
oferendas podiam receber cabeças de gado.
A determinação
de áreas de conservação, que começou no
período colonial, não teve muito impacto no início
sobre as atividades de caça e coleta dos Twa –e provavelmente
os beneficiou ao proteger as florestas do corte dos agricultores. No
entanto, na década de 60 e de 70, as regulamentações
baseadas na ideologia de conservação prevalecente, que
proibiam que as áreas protegidas fossem habitadas por humanos
e restringiam os direitos tradicionais de uso, começaram a ser
aplicadas mais rigorosamente. Durante as décadas de 70 e 80,
os Twa foram reassentados involuntariamente fora do Parque Nacional
dos Vulcões e da Floresta de Nyungwe em Ruanda e dos Parques
Nacionais Kahuzi-Biega e Virunga no leste da RDC, em alguns casos através
do uso da força armada. Os Twa das florestas de Bwindi e Mgahinga
de Uganda foram oficialmente expulsos na década de 60, mas finalmente
excluídos do uso das florestas em 1991 quando foram declaradas
parques nacionais. Os Twa deslocados não receberam qualquer compensação,
nem em dinheiro nem em terras alternativas. No despejo do Kahuzi-Biega,
a compensação foi paga aos proprietários Banto
terras locais, mas não aos Twa que não eram considerados
titulares de direitos à terra.
O caso da floresta Gishwati
em Ruanda é um outro caso notório de expropriação
de terras Twa. Os últimos habitantes Twa que habitavam as florestas
em Ruanda, os Impunyu, foram expulsos da floresta Gishwati nas décadas
de 80 e 90 para deixar o caminho livre para projetos de plantações
e lacticínios, financiados pelo Banco Mundial. O objetivo desses
projetos era proteger a floresta natural, mas tiveram o efeito contrário:
para o ano de 1994, dois terços da floresta original tinham sido
transformados em pastagem, e a maior parte dessa área foi alocada
a amigos e parentes do Presidente. O próprio Banco Mundial concluiu
que o projeto tinha fracassado e o tratamento dos povos indígenas
tinha sido “altamente insatisfatório”. Desde essa
época os refugiados têm estado estabelecidos na floresta
remanescente, resultando em sua destruição total, mas
a maioria dos Twa da floresta Gishwati ainda estão sem terras.
As comunidades Twa de toda a
região dos Grandes Lagos tinham sido desapossadas de suas terras
sem o devido processo legal, em violação de disposições
constitucionais e de normas internacionais que estabelecem que as comunidades
reassentadas devem receber uma compensação adequada. Alguns
Twa puderam adquirir pequenas parcelas de terra, principalmente como
presentes da realeza e chefes no passado. Mas desde a época colonial
não tem havido quase distribuição de terras entre
os Twa: em Ruanda por exemplo, em 1995, 84% dos Twa que possuíam
terras ainda estavam vivendo em terras originalmente entregues a eles
pelos Mwamis. Umas poucas comunidades Twa têm recebido terras
através de planos do governo em Ruanda e Burundi e através
de compra privada por um fundo fiduciário para a conservação
e de benfeitores privados em Uganda. Algumas comunidades se têm
assegurado direitos de uso outorgados pelos proprietários de
terras locais na RDC, pagando a taxa estabelecida de acordo com as leis
consuetudinárias Banto.
No entanto, os recentes levantamentos
socioeconômicos mostram que a situação dos Twa em
matéria de propriedade da terra continua sendo extremamente séria.
Tanto em Ruanda quanto em Burundi a falta de terras agricultáveis
é 3,5 vezes mais comum entre as famílias Twa que entre
as que não são Twa. Em Ruanda, 43% das famílias
Twa carecem de terras agricultáveis, e em Burundi 53%. O tamanho
das parcelas dos Twa que têm terras agrícolas é
bem menor e geralmente de menor qualidade que o das parcelas da população
não Twa. Em Uganda, até 40% das famílias Batwa
não têm nem sequer terras onde construir uma cabana.
A pressão sobre a terra
na região dos Grandes Lagos continua intensificando-se com o
crescimento da população e o retorno dos refugiados que
precisam ser reassentados. Na RDC ainda há áreas de floresta
(apesar de que sob o controle de proprietários de terras tradicionais)
acessíveis para as comunidades Twa, mas em Ruanda, Burundi e
Uganda, os Twa sem terras não têm qualquer lugar aonde
ir. Continuam sendo intrusos transitórios, procurando constantemente
um lugar onde possam alojar-se até serem deslocados.
“Essas pessoas que nos
deixam ficar em suas terras, nos chamam para que as cultivemos. Se não
quisermos fazê-lo, dizem “Fora daqui, já não
queremos que fiquem aqui”. Não estamos estabelecidos aqui
porque outros povos locais estão pressionando os proprietários
de terras dizendo “Para que precisam os Twa?” E em qualquer
momento devemos mudar-nos e estabelecer-nos em outra parte. Se os proprietários
são compassivos, nos trasladam a outra parcela que fertilizamos
para eles ao morar lá. Os proprietários de terras não
deixam que coloquemos banheiros porque não querem nada permanente
em suas terras ou buracos que possam ser um problema para o cultivo
no futuro. Mas se nos pegam defecando no campo, ficam zangados. Eles
pegaram minha filha e a obrigaram a que tirasse as fezes com as mãos.”
(Mulher Twa de meia-idade, Nyakabande/Kisoro, Uganda, maio de 2003)
Atualmente uma grande proporção
dos Twa há três ou mais gerações que foram
afastadas de seus meios de vida baseados na floresta que sustentavam
sua sociedade e cultura tradicionais e têm perdido grande parte
do conhecimento e das práticas tradicionais relacionadas com
a floresta. A geração mais velha lembra a época
da caça e da coleta como uma idade de ouro quando as famílias
podiam alimentar-se sem problemas e a vida era fácil. Atualmente,
a maioria dos Twa se ganha a vida com dificuldade, através de
estratégias de subsistência marginais tais como trabalhos
assalariados casuais nas granjas de outras pessoas, levando carregamentos,
fazendo cerâmica e outras ocupações, cantando e
dançando nas festividades e mendigando. Em termos de habitação,
educação, saúde e renda, são dos grupos
mais pobres numa região que já é muito pobre. Eles
têm recebido muito pouca assistência do governo para manejar
a difícil adaptação à vida fora da floresta.
A perda de uma forma de vida
baseada na floresta parece estar associada com mudanças sociais
e culturais. Originalmente os Twa tinham um determinado prestígio
como especialistas da floresta, envolvidos em relacionamentos recíprocos
com os agricultores, fornecendo-lhes produtos úteis da floresta,
de um ambiente que os agricultores não entendiam, ou até
temiam. Isso foi reforçado por seu papel como caçadores
e buscadores de troféus para os reis. Como os Twa perderam suas
florestas e se transformaram em um grupo empobrecido às margens
da sociedade, foram crescentemente considerados como párias,
e a discriminação e o prejuízo contra eles se intensificaram.
Isso tomou a forma de um estereótipo negativo, segregação
reforçada e denegação de seus direitos; as comunidades
Twa sofreram altos níveis de abuso e violência física
por grupos vizinhos, incluindo casos de violações e homicídios.
Presos entre o mundo definhado da floresta e a sociedade agrícola
estabelecida à que ficou claro que não pertenciam, os
Twa chegaram a sentir-se subestimados, desvalorizados e excluídos
–um “povo esquecido”- e a estar totalmente conscientes
de suas privações. Muitas das comunidades Twa estão
submetidas a enormes níveis de estresse por causa da incessante
e rigorosa pobreza, os prejuízos e os conflitos de seus vizinhos
e fricções internas entre famílias; ao mesmo tempo
sofrem os impactos devastadores das guerras freqüentes e contínuas
na região, nas que os Twa têm sido alvo freqüentemente
das forças armadas de todos os bandos.
Tradicionalmente, os povos “pigmeus”
da floresta têm instituições sociais igualitárias
e fluidas, nas que ninguém têm autoridade sobre os outros,
e os recursos são distribuídos de forma justa entre os
membros do grupo. As mulheres têm acesso aos recursos da floresta
por direito próprio e não em decorrência de sua
relação com os homens. As sociedades Twa ainda são
relativamente igualitárias, e as mulheres têm um papel
proeminente na tomada de decisões na comunidade. No entanto,
como os Twa se têm estabelecido e adotado a agricultura, estão
absorvendo as normas patriarcais dos grupos agricultores vizinhos, incluindo
a poligamia e sistemas de posse nos que os homens são proprietários
da terra e as mulheres apenas podem obter direitos de uso através
de seus maridos.
Em muitas famílias Twa
as mulheres são agora as principais abastecedoras econômicas,
e também continuam sendo as que cuidam das crianças e
das pessoas idosas. Geralmente decidem como despender o dinheiro que
têm ganhado. No entanto, quando os homens tem desbravado terras
para cultivar, o trabalho inicial que realizam tende a fazer com que
eles se sintam com direito a controlar as despesas realizadas com o
dinheiro obtido pelo cultivo, apesar do fato de que as mulheres plantaram,
capinaram e colheram. O aumento na dependência da agricultura
entre os Twa pode portanto reduzir a independência econômica
das mulheres Twa. Muitas mulheres Twa também devem enfrentar
violência doméstica e falta de cuidado da família
em decorrência do abuso do álcool dos homens Twa. O alcoolismo
acontece em muitas comunidades indígenas que estão enfrentando
um colapso cultural e onde os homens já não são
capazes de desempenhar seus papeis tradicionais como caçadores
e abastecedores respeitados da família.
Enfrentados com a perda de suas
florestas ancestrais e a necessidade de achar meios de sobrevivência
em circunstâncias instáveis, os Twa da região dos
Grandes Lagos têm exprimido uma série de diferentes aspirações.
Particularmente entre comunidades que vivem perto das áreas de
florestas das que seus antepassados foram expulsos, os Twa querem ter
acesso seguro e direitos de uso das florestas e manter seus vínculos
com a floresta, mas nem todos desejam retomar a forma de vida de caçadores-coletores.
As comunidades próximas aos parques nacionais querem uma porção
maior das receitas do turismo. Em toda a região os Twa também
querem ter suas próprias terras para cultivar como parte de sua
combinação de estratégias de sobrevivência.
Para impor suas reivindicações,
as comunidades Twa estão procurando organizar-se de novas formas
e desenvolver novas instituições representativas que possam
defender e negociar efetivamente com estruturas governamentais e órgãos
influentes. As novas ONGs e associações de base comunitária
dos Twa e seus grupos de apoio na região estão fazendo
campanhas para que os governos desenvolvam políticas específicas
para atender os problemas específicos que os Twa enfrentam em
decorrência de sua identidade ética. Em ausência
de leis e políticas que considerem os direitos à terra
dos povos indígenas, as organizações Twa estão
convocando para uma ação positiva com relação
à alocação de terras e ao reconhecimento pelos
governos da imensa injustiça histórica pela qual os Twa
foram despojados de suas terras de florestas e meios tradicionais de
vida, forçando-os à pobreza extrema.
Os Twa querem ser respeitados
e considerados como membros da sociedade, usufruir livremente seus direitos
humanos e ter o mesmo acesso aos serviços que outras pessoas.
No processo de sobrevivência como povo da floresta deslocado das
florestas e de adaptação ao difícil ambiente social
e físico no que se encontram atualmente, alguns grupos e pessoas
querem manter sua distinção cultural; outros querem integrar-se
com a sociedade dominante. Eles têm o direito de escolher livremente
como querem relacionarse com a sociedade nacional e participar na mesma,
bem como o direito de poder tomar suas próprias decisões
sobre o futuro.
Por: Dorothy Jackson, Forest
Peoples Programme, e-mail: djackson@gn.apc.org
início
-
Assentamento e Deslocamento: a sedentarização dos Malapantaram
em Kerala
Os Malapantaram são uma
comunidade nômade de aproximadamente 2000 pessoas que moram nas
florestas altas das Montanhas Ghat no sul da Índia. Os primeiros
escritores as descreviam como “povos selvagens” e como “montanheses
errantes incertos” e tendiam a percebé-los como isolados
sociais, como sobreviventes de alguma cultura da floresta prístina.
Mas desde épocas remotas os Malapantaram têm uma história
de contato e inter-relação com comunidades de casta vizinhas
das planícies e têm feito parte de uma economia mercantil
mais ampla e ainda são primariamente coletores de importantes
produtos da floresta tais como madeira de sândalo, gengibre, cardamomo,
resina de dâmar, mel e várias plantas medicinais. Os Malapantaram
portanto combinam colheita de alimentos para subsistência, essencialmente
inhame, caça miúda –monos, caxinguelês, búceros,
almiscareiros– com armas de fogo municiadas pela boca ou a ajuda
de cães, e a colheita do que são chamados em nível
local de “produtos menores da floresta”. Durante a estação
principal do mel, março a maio, a colheita do mel se transforma
em sua atividade econômica principal.
A maioria dos Malapantaram são
habitantes nômades da floresta, que passam a maior parte de sua
vida em acampamentos na floresta ocupados por uma a quatro famílias.
Esses acampamentos consistem em dois a quatro abrigos de folhas feitos
com folhagem de palmeiras ou folhas de tanchagem. Esses acampamentos
são temporários; as pessoas residem numa localidade particular
apenas por uma semana aproximadamente antes de deslocar-se a outros
lugares.
Os Malapantaram percebem-se
a si mesmos e são descritos pelos estranhos como kattumanushyar
– “povos da floresta”, porque se identificam de perto
com a floresta, que não é apenas uma fonte de meios de
vida, mas também um ambiente onde podem sustentar um nível
de autonomia cultural e independência social. Portanto eles tendem
a viver e mover-se constantemente nas margens da floresta, o que lhes
permite realizar facilmente transações de mercado –
geralmente envolvendo um tipo de troca contratual –enquanto ao
mesmo tempo podem evitar o controle, assédio e menosprezo –até
a violência– que geralmente experimentam dos oficiais do
governo, comerciantes e comunidades camponesas locais. Portanto para
os Malapantaram a floresta não é apenas seu lar mas um
lugar onde podem refugiar-se para evitar a imposição de
estranhos.
Com o estabelecimento do domínio
colonial e o estado Travancore, as colinas de florestas das montanhas
Ghats se transformaram em reservas florestais sob a jurisdição
do departamento florestal. Em 1911 proferiram-se regulamentos para o
“Tratamento e Manejo dos Montanheses” que estipularam que
os povos tribais como os Malapantaram iam estar sob o controle do departamento
florestal e ser localizados em assentamentos permanentes. Os Malapantaram
ficaram portanto essencialmente “sob a custódia”
do departamento florestal e lhes foram negados quaisquer direitos à
terra- já que as florestas eram consideradas essencialmente como
propriedade do estado. Depois da independência os Malapantaram
vieram sob a jurisdição do Departamento de Bem-Estar Harijan
e foram feitos esforços para promover o bem-estar da comunidade
através do estabelecimento de escolas e centros de saúde
e através de esforços para que se assentassem e para induzi-los
a adotar a agricultura. Como em outras partes, o estilo de vida “nômade”
e de procura de alimentos foi proibido pelos oficiais do estado e os
esforços para “melhorar” a situação
dos Malapantaram se têm centrado no estabelecimento de “assentamentos”
–o que foi descrito como “esquema de colonização”
e seu objetivo principal foi transformar e economia Malapantaram em
uma economia de agricultura permanente. O esquema demonstrou ser um
fracasso singular, já que a terra alocada aos Malapantaram foi
apropriada, em grande medida, pelos comerciantes locais de uma vila
próxima. Parece que os Malapantaram eram extremamente contrários
à adoção da agricultura e portanto a cortar os
vínculos que os unem à floresta –o meio ambiente
com o que eles se identificam tão poderosamente e sabem que é
seu único paraíso realmente seguro.
Por: Brian Morris, Goldsmith
College, e-mail: brianmo@onetel.net.uk
início
-
Primeiro contato na Papua Nova Guiné: um choque de visões
do mundo
Quando no final da Primeira
Guerra Mundial os australianos assumiram o controle da colônia
alemã da Nova Guiné de acordo com um mandato da Liga de
Nações para proteger os povos nativos, acreditava-se que
a Nova Guiné tinha apenas uma população escassa,
cuja maioria estava ao longo da costa. Acreditava-se que o interior
montanhoso era uma mistura de colinas tropicais quase vazias e impenetráveis.
No entanto, agora se sabe que os vales montanhosos da Nova Guiné
têm estado por muito tempo entre as áreas agrícolas
mais densamente povoadas do mundo.
Os vales montanhosos da Papua
Nova Guiné foram contactados pela primeira vez por australianos
na década de 30 e achou-se que estavam habitados por mais de
um milhão de pessoas, constituídos por várias centenas
de diferentes grupos étnicos que tinham estado cultivando seus
vegetais básicos e criando seus porcos nos solos férteis
das terras altas por mais de nove mil anos. Apesar de que estes povos
comerciavam, através de muitos intermediários, com a costa,
os habitantes das montanhas também desconheciam o que havia além
de seus territórios. Como habitante das montanhas Gerigl Grande
lembrava na década de 80: “nós apenas conhecíamos
os povos que viviam ao redor de nós. Por exemplo, os Naugla eram
nossos inimigos e nós não podíamos passar por seus
territórios. Portanto não sabíamos nada do que
havia além. Pensávamos que não existia ninguém
além de nós e nosso inimigos”. A perplexidade e
incompreensão mútuas dessas duas culturas, quando se encontraram
pela primeira vez, foi quase completa.
Os oficiais australianos e mineradores
apenas souberam dessas montanhas povoadas em 1930, quando o aventureiro,
Michael Leahy, subiu às montanhas pela primeira vez desde a costa
leste, em busca de ouro. O Território sob o Mandato era percebido
pelos australianos como uma proposta comercial, os homens locais eram
chamados de “boys” (serventes) e os grupos isolados do interior,
eram chamados pejorativamente “bush kanakas” em pidgin.
Os povos indígenas eram considerados selvagens, traiçoeiros
e sanguinários, remanescentes de uma raça inferior condenada
à extinção. Como um colonizador apontou: “os
nativos deste Território são pobres de espírito,
canalhas e ladrões e a educação apenas lhes dá
mais astúcia”.
Os mineradores abriram o caminho
para o interior à força, levando bagagem leve e vivendo
da terra. Exigiam alimentos aos povos nativos, que pagavam com ferramentas
metálicas e apreciadas conchas de mar, para continuar suas expedições.
Em sua pressa para chegar às terras do ouro que sonhavam, espalharam
confusão e conflitos. Quando os guerreiros bloquearam seu caminho
com setas e ameaças, em vez de retornar à costa, os mineradores
utilizaram armas com conseqüências mortais para abrir caminho
para atingir seus objetivos. Com certeza de que sua superioridade tecnológica
era, ao mesmo tempo, evidência de sua supremacia moral, os mineradores
nunca pensaram que o que estavam fazendo estava errado, e menos que
os povos locais poderiam ter suas próprias razões e interesses
para escolher desenvolver suas interações de forma diferente.
O abismo de incompreensão
era vasto para ambas as partes. Tentando entender esses visitantes com
roupas estranhas e pele branca, a maioria dos habitantes das montanhas
assumiram que eram espíritos ancestrais, parentes perdidos que
voltavam do leste onde acreditava-se que os mortos moravam ou seres
ambíguos, até seres maus, míticos dos céus.
Gopu Ataiamelahu da Vila Gama perto de Goroka lembra que: ‘Eu
me perguntei, quem são essas pessoas? Devem vir do céu.
Eles têm aparecido para matar-nos ou que? Queríamos saber
se esse poderia ser o nosso final e isso nos fazia sentir tristes. Nós
dissemos “não devemos tocá-los”. Estávamos
terrivelmente apavorados.” Um outro lembra que: “Essas pessoas
estranhas tinham um cheiro tão diferente. Pensamos que poderia
matar-nos e portanto cobrimos nossos narizes com as folhas de um arbusto
especial que cresce perto dos pepineiros. Tinha um cheiro particularmente
agradável e cobria o deles’.
Uma vez que se soube que os
seres estranhos levavam incalculáveis riquezas com eles, muitas
comunidades queriam que os visitantes permanecessem com elas e não
continuassem para as terras de seus rivais e inimigos. Os equívocos
foram quase inevitáveis. Um conflito típico aconteceu
em 1933, enquanto os mineradores acompanhados por um oficial colonial
tentaram abrir caminho à força para o Monte Hagen. Ndika
Nikints lembra a situação.
“Os Yamka e Kuklika e
todas as pessoas ao redor de nós estavam fazendo muito ruído,
gritando e emitindo gritos de guerra. Diziam que queriam arrebatar tudo
o que era dos brancos. Algumas pessoas apanharam coisas dos veículos,
tais como latas e mercadorias. Então Kiap Taylor [o oficial colonial]
estourou essa coisa que estava carregando e antes de que percebêssemos
nada o ouvimos explodir. Tudo aconteceu subitamente. Todos se mijaram
e cagaram de medo. Mamãe! Papai! Eu estava horrorizado. Queria
fugir … os mosquetes atingiram as pessoas –seus estômagos
se saíram, suas cabeças se desprenderam. Três homens
foram mortos e um foi ferido…Eu disse “Oh, Mamãe!”
mas isso não ajudou. Respirei profundamente, mas isso não
ajudou. Estava realmente desesperado. Por que vim aqui? Nunca deveria
ter vindo. Pensamos que era um raio que estava devorando as pessoas.
Que era essa coisa estranha, uma coisa que tinha descido do céu
para devorar-nos? Que está acontecendo? Que está acontecendo?”
Este padrão de incompreensão
mútua que leva à violência e ao terror ia repetir-se
uma e outra vez quando os oficiais coloniais e mineradores se sentiam
obrigados a abrir caminho à força em áreas sem
contato prévio para atingir seus próprios objetivos. Um
outro caso bem documentado vem da década de 30, quando uma patrulha
colonial com o fim de realizar um reconhecimento rio acima do Rio Strickland
e através das montanhas ao norte do Lago Kutubu, abriu-se caminho
à força pelas terras de seis povos diferentes com os que
não tinha havido contato antes. Como levavam provisões
suficientes para apenas um mês de uma viagem que acabou levando
mais de cinco, tiveram que comerciar logo com as comunidades locais,
que procuravam evitar qualquer contato com os estrangeiros.
Aparecendo primeiro nas terras
do povo Etoro, a patrulha emergiu subitamente das florestas à
vista de uma comunidade. “Pulamos de surpresa” conta uma
pessoa idosa. “Ninguém tinha visto nada como isso antes
ou sabia o que era. Quando vimos as roupas dos estrangeiros pensamos
que eram como as pessoas que se visualizam num sonho: “devem ser
espíritos que viraram visíveis”. Quando esses espíritos
se aproximaram, os Etoro ficaram ainda mais apavorados e enquanto mais
insistentes eram os espíritos em oferecer-lhes presentes os Etoro
ficavam mais assustados. Os Etoro estavam convencidos de que se aceitavam
presentes ficariam obrigados com o desconhecido mundo dos espíritos,
unindo portanto dois reinos que deveriam estar separados, para que o
mundo não se desfizesse e todos morressem. Pouco depois, num
encontro confuso, um Etoro foi ferido com um tiro e morto, o que confirmou
aos Etoro sua visão sobre essas pessoas.
Mais adiante do caminho, a patrulha
achou sinais de proibição, claras indicações
de que os povos locais não queriam que os estrangeiros passassem.
A patrulha continuou sem fazer caso dos sinais e achou uma mulher idosa
à que pressionaram com presentes de contas. Quando ela retornou
para seu povo, que estava escondido na floresta e lhes mostrou os presentes,
eles ficaram ainda mais apavorados, imaginando que o mundo inteiro voltaria
a seu ponto de origem se o mundo dos humanos e dos espíritos
não ficasse separado. Sua consternação foi ainda
maior quando retornaram a suas cabanas e acharam presentes de tecidos,
machados e machetes pendurados das vigas. Inseguros do que poderia acontecer
se os tocavam, deixaram os objetos pendurados lá. “Que
são essas coisas? Por que não as pegam?” perguntou
um visitante de uma vila vizinha. “Temos medo. Quem sabe de onde
provêm essas coisas. Talvez são do Tempo da Origem’.
Quanto mais avançava
a patrulha, mais freqüentemente tinha que recorrer a violência
para garantir alimentos. Num encontro com os Wola a patrulha achou-se
num desfiladeiro estreito e a luta começou depois de mais equívocos
e incompreensão cultural. Os devastadores rifles e os tiros diretos
com revólveres de serviço mataram mais de quatorze Wola.
Leda lembra: “Eles mataram meu primo cruzado Huruwumb, e eu fui
vê-lo. Seu fígado tinha ficado exposto. Eles me mandaram
buscar água para que ele bebesse porque tinha sede. Eu ia e voltava
trazendo água para ele. Viveu em agonia três dias. No quarto
dia morreu” Uma das mulheres Wola, Tensgay, lembra outras feridas
horríveis:
“Kal Aenknais tinha suas
coxas e tronco inferior dilacerados. Completamente pulverizados aqui
e aqui. Ele gemia, “Oh! Ah!”. Eu vi ele. Morreu depois.
Estava ferido nos intestinos, que estavam perfurados. Quando lhe deram
água para beber para calmá-lo, a água se esguichava
pelos buracos de seu corpo. Depois estava Obil. Seus olhos se desprenderam
de sua cabeça. Quando caíram no chão, ficaram dando
voltas e voltas por muito tempo. Ele também morreu. E depois
estava aquele pobre moço –aah- cujas entranhas se saíram
com o tiro. Seus intestinos e estômago explodiram fora de seu
corpo …”
Depois da massacre, os oficiais
brancos enviaram os policiais costeiros para trazer alimentos da vila.
Ao aproximar-se à cabana da vila acharam que as mulheres e crianças
estavam escondidas dentro. Tengsay lembra a situação:
“Estávamos apavorados…
Eles romperam a porta de nossa casa para abri-la e exigiram tudo. A
mãe de Puliym liberou os porcos um a cada vez e levou os porcos
fora onde os esperavam … eles arrancaram o frente da casa, a atacaram
com machados e machetes…Levaram-se os porcos um a cada vez e os
mataram fora. Depois de matá-los eles chamuscaram as cerdas sobre
um fogo feito com a madeira que tiraram de nossa casa. Então
os abateram para levá-los… Depois de ter matado e preparado
os porcos se voltaram para nós. Não vimos o que estava
acontecendo. Nós estávamos escondidos dentro. Voltaram
e ficaram parados lá [a aproximadamente três metros] e
dispararam tiros à casa. Dispararam contra Hiyt Ibiziym, Bat
Maemuw, minha irmã, Ndin, Maeniy e contra mim. Eramos seis…
Estávamos tão apavorados que ficamos confundidos e desfalecidos…Caímos
num tipo de estado de estupefação. Quem ia vendar nossas
feridas com musgo e folhas?…apenas entramos dentro. Não
pensamos qualquer coisa. Somente sentíamos terror e confusão.
Eu estava quase inconsciente…Bem, eles não violaram nenhuma
mulher. Isso o fizeram as patrulhas posteriores, quando roubaram não
apenas nossos porcos mas também nossas mulheres e irromperam
em nossas casas e destruíram nossas propriedades, como nossos
arcos e coisas. Até defecaram em nossos fogões”.
A tarefa das autoridades coloniais
no Território sob Mandato da Nova Guiné, conforme ordenou
a Liga de Nações era proteger os povos nativos. Portanto
as terras altas foram declaradas uma “área controlada”
na qual o acesso era permitido apenas a aquelas pessoas que tivessem
licenças. Havia regulamentações escritas estritas,
sobre o que aquelas pessoas que tinham licenças poderiam fazer
se entrassem na área controlada. Não deviam ingressar
nas vilas nativas; não deviam permitir a seus carregadores (portadores
costeiros) comerciar com os povos locais sem supervisão; e deviam
garantir que todos os acampamentos tivessem latrinas para evitar a poluição
das águas locais. As armas iriam ser usadas apenas como último
recurso, em autodefesa. No entanto, o poder colonial carecia não
apenas dos recursos e pessoas para controlar o acesso efetivamente,
mas também queria incentivar o desenvolvimento econômico
do interior. As licenças para ingressar às “áreas
controladas” foram portanto emitidas a mineradores e os próprios
oficiais locais vacilaram sobre a conveniência das regulamentações.
Muitos dos colonos, no entanto,
tinham a certeza de que se ia haver “desenvolvimento” a
forma de vida dos povos nativos mudaria. Como um editorial no “Rabaul
Times” de 25 de setembro de 1936 apontava:
“Um dos maiores fatores
que contribuem com os serviços insatisfatórios fornecidos
por trabalhadores nativos neste país é sua independência
econômica. Porque não devemos esquecer que cada nativo
é um proprietário de terras, e a natureza tem outorgado
à Nova Guiné um solo fecundo, que fornece sustento adequado
com um mínimo de trabalho. A demissão do emprego, se eles
não desempenharem suas tarefas, não implica qualquer medo
para os nativos da Nova Guiné. É a sombra da demissão
que flutua sobre o empregado branco o que faz com que ele trabalhe.
A menos e até que nossos nativos atinjam um estágio de
desenvolvimento desse tipo em que devam trabalhar para obter sua sustentação
ou um meio de vida, não vão trabalhar apropriadamente
sob contrato para o residente branco médio”.
Desse ponto de vista, os contatos
executados e a integração dos habitantes das montanhas
no mundo moderno, foram passos necessários para atingir um tipo
de “desenvolvimento”. Uma determinada quantia de derramamento
de sangue poderia então estar justificada como uma parte inevitável
do processo de mudança social. Talvez se aqueles do mundo exterior
não tivessem tanta pressa e pudessem apreciar melhor que as pessoas
de outros mundos têm diferentes prioridades e crenças,
as coisas poderiam ter sido diferentes.
Por Marcus Colchester, Forest
Peoples Programme, e-mail: marcus@forestpeoples.org
página anterior |
início |
|
|