BRAZIL

 

International Seminar about Eucalyptus and its Impacts Statement
Vitória, 21 August 2001

CARTA DE VITÓRIA

Nós, entidades que cornpôem o Movimento Alerta Contra o Deserto Verde, o Fórum de Agricultura Familiar, o Fórum de Lutas do Campo e da Cidade e outros signatários, nacionais e internacionais, participantes do Seminário Internacional sobre Eucalipto e seus Impactos, preocupados com a expansão da monocultura de eucalipto para produção de celulose no Espírito Santo e no extremo sul da Bahia, queremos apresentar as seguintes reivindicações:

- Exigimos da Assembléia Legislativa do Espírito Santo que garanta a aprovação do Projeto de Lei no. 252/2001 de autoria do deputado estadual Nasser Youssef, derrubando assim o veto desta lei por parte do governador José Ignácio Ferreira. Esta lei significa um instrumento importante para regulamentar o plantio de eucalipto no estado do Espírito Santo, seja diretamente pela Aracruz, seja pelo fomento florestal, considerando as características de solo, água e clima para a definição do plantio e condicionando o mesmo à recuperação da Mata Atlântica.

- Exigimos das autoridades governamentais no Espírito Santo e na Bahia que intervenhani imediatamente no processo de compra indiscriminada de terras pela Aracruz Celulose, quando oferece preços bem acima dos de mercado, concentrando terra, impondo-se corno única alternativa para a crise do café e da pecuária, crescendo em meio à ausencia de políticas agrícolas e reforma agrária. Como exemplo, a compra da fazenda Barba Negra, em Jaguaré, onde habitam 12 famílias. A Aracruz Celulose arrancou o café, deu um prazo de 60 dias para as famílias sairem, causando desespero e indignação em toda a cidade PrQpomos que a intervenção dos governos dos dois estados seja feita através de urna auditoria conjunta, incluindo todas as terras da empresa, verificando a legalidade do processo de aquisição e plantio posterior de eucalipto, como também esclarecendo a quantidade real de ocupação de terras pela empresa no Espírito Santo e na Bahia.

- Exigimos das entidades que representam as categorias empregadas na eucaliptocultura, como as de engenheiros agrônomos e florestais, que realizem debates mais profundos sobre os impactos sociais, ambientais e econômicos da monocultura do eucalipto, sobretudo envolvendo as comunidades locais que perderam suas terras, seus córregos, sua pesca e caça. Defendemos a ética profissional e repudiamos urna visão unilateral, que privilegia eventos patrocinados pelas empresas plantadoras de monoculturas de eucalipto, como acontecerá no próximo dia 27 de agosto em Vitória.

- Exigimos da Aracruz Celulose que ela pague suas dívidas fundiárias com índios Tupinikim e Guarani, negros remanescentes de quilombos e outras comunidades rurais, devolvendo de forma definitiva suas terras que ela continua ocupando. Pedimos à empresa que reconheça o desmatarnento qtre ela praticou e ajude a recuperar e proteger os recursos hídricos, fauna e flora, ameaçadas de extinção, e resolva os problemas causados aos pescadores. Deve acatar as reivindicações dos trabalhadores, muitos com processos trabalhistas sem definição, assim como assumir a responsabilidade na terceirização de seus serviços nas carvoarias, provocando a exploração dos trabalhadores e o trabalho infantil.

- Por fim, exigimos da Aracruz Celulose mais coragem, para participar de seminários corno este, quando a sociedade capixaba, com a participação de especialistas nacionais e internacionais, debate durante três dias sua atividade. E a empresa não aparece, mesmo tendo direito à fala, ou melhor, o dever da fala. Isto diz muito sobre a forma autoritária com a qual a Aracruz trata a população capixaba, a mesma população que cedeú suas terras para ela, que plantou e cortou seus eucaliptos, que construiu suas fábricas e que produziu e continua produzindo sua celulose.

Para construirmos o futuro, precisamos recuperar o passado, resgatando direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Se no passado as populações capixaba e baiana eram meros alvos de um processo de desenvolvimento ditado de cima para baixo, hoje exigimos um processo que coloque estas populações em primeiro lugar, como sujeitos e pat-ticipantes ativos da construção de urna sociedade mais justa e de um modelo de viewpoint desenvolvimento que resulte em urna vida digna para todos.

Vitória, 21 de agosto de 2001

Assinam
Fórum Deserto Verde
Fórum Campo-Cidade
Fórum da Agricultura Familiar
 



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