Manifesto
das Mulheres da Via Campesina
Março
2008
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Carta a companheiras
e companheiros
Mulheres
da Via Campesina do RS, Brasil, 26 de março de 2008
Nós mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul estamos
mais uma vez mobilizadas, nesta semana do 8 de março, para
intensificar nossa luta contra o agronegócio e em defesa da
soberania alimentar da população brasileira.
A soberania alimentar é o direito dos povos de produzir sua
comida respeitando a biodiversidade e os hábitos culturais
de cada região. Hoje em nosso país as riquezas naturais
estão sob domínio das empresas multinacionais do agronegócio
e a população tem cada vez menos acesso à terra,
à água e aos alimentos.
Nós mulheres somos as primeiras a serem expulsas das atividades
agrícolas nas áreas onde avança o agronegócio.
Nosso trabalho é importante em uma agricultura camponesa porque
sabemos produzir alimentos. Mas as empresas do agronegócio
não estão preocupadas em produzir comida, só
em produzir lucro transformando o campo em desertos verdes (de eucalipto,
de soja, de cana). Um dos desertos que mais cresce em nosso Estado
é o de eucalipto para celulose.
As empresas de celulose estão fechando fábricas nos
Estados Unidos e na Europa e vindo para a América Latina. Aqui
encontram muita terra, água, clima favorável e governos
dispostos a atender seus interesses. Mais de 90% da produção
de celulose do Brasil é para exportação. Assim,
reduzimos a produção de comida, destruímos a
biodiversidade, aumentamos a pobreza e a desigualdade para atender
a demanda de lucro das empresas e um estilo de vida consumista nos
países ricos. Esse é o papel horroroso que o Brasil
cumpre hoje no mundo.
Uma das empresas responsáveis pelo avanço do deserto
verde no Rio Grande do Sul é a Stora Enso, multinacional sueco-finlandesa.
Pela lei brasileira estrangeiros não podem ter terra em uma
faixa de 150 km da fronteira do Brasil com outros países. Acontece
que a Stora Enso já tem milhares de hectares plantados no Uruguai
e é exatamente próximo da fronteira gaúcha com
este país que essa gigante do ramo de papel e celulose quer
formar uma base florestal de mais de 100 mil hectares.
Inicialmente a Stora Enso tentou comprar as terras em nome da empresa
Derflin, o braço da multinacional para produção
de matéria prima, que por ser estrangeira não conseguiu
legalizar as áreas.
Para viabilizar sua implantação a multinacional criou
uma empresa laranja que está comprando as terras em seu nome:
a agropecuária Azenglever Ltda, cujos donos são dois
importantes funcionários da Stora Enso. Eles se tornaram os
maiores latifundiários do estado, sendo “proprietários”
de mais de 45 mil hectares. Essa operação ilegal é
de conhecimento dos Ministérios Públicos Estadual e
Federal, do Incra, da Polícia Federal, mas nada de concreto
foi feito para impedir o avanço do deserto verde. Decidimos
então romper o silêncio que paira sobre esse crime.
Nossa ação é legítima. A Stora Enso é
que é ilegal. Plantar esse deserto verde na faixa de fronteira
é um crime contra a lei de nosso país, contra o bioma
pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado que está
cada vez mais sem terras para produzir alimentos. Estamos arrancando
o que é ruim e plantando o que é bom para o meio ambiente
e para o povo gaúcho.
Alguns parlamentares gaúchos ao invés de combaterem
a invasão dos estrangeiros estão propondo reduzir a
Faixa de Fronteira para legalizar o crime. Usam o argumento de que
a faixa de 150 km impede o desenvolvimento econômico dos municípios.
Mas isso é uma grande mentira. Todos sabem que a Metade Sul
não se desenvolve por causa do latifúndio e das monoculturas.
Tanto que a faixa de fronteira também vigora na metade norte
do estado e nessa região a economia é dinâmica.
As empresas de celulose prometem gerar emprego e desenvolvimento.
Mas onde elas se instalam só aumenta o êxodo rural e
a pobreza. Os trabalhos que geram são temporários, sem
direitos trabalhistas, em condições precárias.
Um exemplo é a Fazenda Tarumã em Rosário do Sul,
de 2,1 mil hectares onde a Stora Enso gera somente dois empregos permanentes
e alguns empregos temporários. Se essa área for destinada
para a reforma agrária podem ser assentadas 100 famílias
gerando no mínimo 300 empregos diretos permanentes. Portanto,
a Reforma Agrária e a Agricultura Camponesa é que são
a melhor alternativa para preservar a biodiversidade, gerar trabalho
e renda para a população do campo e alimentos saudáveis
e mais baratos para quem mora nas cidades.
O projeto que tramita no Senado propondo reduzir a Faixa de Fronteira
brasileira não inclui a Amazônia porque entende que isso
seria uma ameaça para a floresta. Ou seja, admite que a redução
da Faixa de Fronteira irá aumentar a destruição
ambiental. Para nós todos os biomas brasileiros são
importantes e entendemos que o Cerrado e o Pampa também precisam
ser preservados.
Nós mulheres da Via Campesina reivindicamos das autoridades
brasileiras:
- Anulação das compras de terra feitas ilegalmente pela
Stora Enso na faixa de fronteira e expropriação dessas
áreas para a reforma agrária. Somente nos 45 mil hectares
que estão em nome da empresa laranja, a Agropecuária
Azenglever daria para assentar cerca de 2 mil famílias, gerando
6 mil empregos diretos. Atualmente 2.500 famílias estão
acampadas no Rio Grande do Sul e o Incra alega não ter terras
para fazer assentamento.
- Retirada dos projetos no Senado e na Câmara Federal que propõem
a redução da Faixa de Fronteira. Essa medida só
vai beneficiar empresas como a Stora Enso que querem se apropriar
das terras para transformá-las em deserto verde, destruir nossas
riquezas naturais como o aqüífero guarani e o bioma Pampa.
Para o povo gaúcho essa redução da faixa de fronteira
só vai provocar aumento do êxodo rural, do desemprego,
da destruição ambiental e o fim soberania alimentar
pois vai faltar terra para produzir alimentos.
Sabemos que por lutar contra o deserto verde podemos sofrer a repressão
do governo gaúcho. É prática desse governo tratar
os movimentos sociais como criminosos e proteger empresas que cometem
crimes contra a sociedade. Vamos resistir. Nossa luta é em
defesa da vida das pessoas e do meio ambiente. Estamos aqui em 900
mulheres, mas carregamos conosco a energia e a coragem das milhares
de camponesas que em todo o mundo lutam contra a mercantilização
das riquezas naturais e da vida. Como dizia a companheira sem terra
Roseli Nunes, assassinada covardemente em março de 1987 aqui
no Rio Grande do Sul, “preferimos morrer lutando do que morrer
de fome!”.
Mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul,
Brasil, 04 de março de 2008.