wrmcast.gif (3121 bytes)


BRASIL

 

Mulheres da Via Campesina do RS, Brasil, 26 de março de 2008.

Companheiras e companheiros

Nós, mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul – Brasil, realizamos uma intensa jornada de lutas entre os dias 04 e 06 de março que em nossa avaliação atingiu os objetivos propostos:

- fortalecer o 8 de março como dia de luta das mulheres camponesas contra o agronegócio e pela soberania alimentar do povo brasileiro;

- ocupar uma fazenda, adquirida ilegalmente pela empresa sueco-finlandesa Stora Enso na faixa de fronteira de nosso estado, para denunciar que essa empresa está burlando a legislação brasileira usando uma empresa laranja para comprar terras ampliando o deserto verde no RS;

- reivindicar a expropriação dessas áreas adquiridas ilegalmente pela Stora Enso para a reforma agrária;

- pautar na sociedade o debate sobre os verdadeiros interesses que estão por traz dos projetos que tramitam no Congresso brasileiro propondo a redução da faixa de fronteira, evidenciando que essa medida só irá beneficiar empresas estrangeiras que querem explorar nossas riquezas naturais como a Stora Enso e que para o povo o resultado será mais destruição ambiental, maior concentração fundiária e mais pobreza;

- reivindicar a retirada dos projetos do Senado e da Câmara Federal que propõem a redução da faixa de fronteira, pois isso ameaça os biomas e a soberania do Brasil.

- denunciar os impactos perversos da monocultura de eucalipto para a agricultura camponesa que já vem sendo vividos pela população rural do município de Encruzilhada do Sul, onde a Aracruz celulose tem um imenso deserto verde;

- cobrar da Polícia Federal ações efetivas para impedir a continuidade da apropriação ilegal de terras feitas pela Stora Enso na faixa de fronteira gaúcha, uma vez que o crime já foi denunciado pelo Ministério Público Federal e pelos Movimentos Sociais.

Enfrentamos a condenação dos grandes meios de comunicação gaúchos que além da histórica vinculação com o latifúndio são beneficiados com “patrocínios” das empresas de celulose como Aracruz, Votorantim e Stora Enso.

Enfrentamos a crítica inconsistente de políticos, que na verdade se pronunciaram para defender os interesses das empresas que patrocinaram suas campanhas eleitorais; A lista dos beneficiados pelas doações das empresas de celulose é encabeçada pela governadora Yeda Crusius e inclui 54 parlamentares gaúchos de diferentes partidos;

Enfrentamos, sobretudo, a truculência da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que mais uma vez mostrou que é uma força armada, mantida com dinheiro público, mas que está a serviço de interesses privados. Tanto que ao invés de combater a verdadeira criminosa, a empresa Stora Enso, a Brigada usou de extrema violência contra as 900 mulheres e as 250 crianças que ocuparam a área apropriada ilegalmente pela empresa sueco-finlandesa. O resultado foi a violação de direitos humanos fundamentais para proteger a propriedade privada comprovadamente ilegal.

As imagens da violência foram publicadas em vários meios de comunicação. Cerca de 50 mulheres e algumas crianças fizeram exames de corpo de delito evidenciando marcas de balas de borracha, de cacetetes, de estilhaços de bombas, de pisadas de cavalos, entre outras atrocidades. O pior é que esse comportamento da Brigada Militar não foi uma exceção. Pelo contrário, têm sido cada vez mais freqüentes as violações aos direitos humanos cometidos pelas polícias contra os movimentos, urbanos e rurais, para proteger o capital.

Mas, em meio a tanta violência, o que predominou foi a solidariedade, e isso foi fundamental para que nos mantivéssemos firmes na luta. Nosso sincero agradecimento:

- a todas as pessoas e organizações que se mobilizaram para denunciar a violência;

- à população de Santana do Livramento que se mobilizou para garantir alimentos e atendimento médico, especialmente as trabalhadoras(es) da Sta. Casa do município e ao Sindicato de Professores – Cpers.

- aos advogados que voluntariamente contribuíram para evitar ainda mais truculência.

- Aos poucos parlamentares que fizeram pressão nos governos federal e estadual cobrando medidas contra a Stora Enso e a punição dos responsáveis pelas violências contra as mulheres.

- As pessoas de todas as partes do mundo que nos enviaram manifestações de solidariedade, que se indignaram com a violência e apoiaram nossa luta.

Todas essas manifestações de solidariedade demonstram que apesar de todos os aparatos ideológicos do capital ainda são muitas as pessoas dispostas a lutar pelo bom, pelo justo e pelo melhor do mundo, como dizia a companheira Olga Benário.

A cada mulher que sofre violência dezenas estão se somando em nossas fileiras. A crescente presença das jovens em nossas mobilizações a cada ano demonstra que a luta das mulheres contra o capital ganha cada vez mais força. Por isso, apesar dos momentos de dor, saímos muito fortalecidas dessa jornada!

Nós mulheres camponesas trazemos em nossos corpos a força da terra, do sol, do vento, do trabalho nada leve. Nossos espíritos são talhados pela sabedoria de nossas ancestrais e pela luta cotidiana pela vida. Por isso, quanto mais nos reprimem mais certeza temos de que estamos no caminho certo!
A violência é a arma dos que não tem argumento, dos que não tem razão, dos covardes. Muitas de nós ficamos com os corpos mutilados, mas todas seguimos com as cabeças erguidas e a consciência de que estamos fazendo nossa parte para transformar o mundo e garantir um futuro digno a nossas filhas e filhos.

E quando nos perguntam que lição tiramos dessa jornada, reafirmamos o lema da companheira sem terra Roseli Nunes, assassinada brutalmente em março de 1987 aqui no Rio Grande do Sul: PREFERIMOS MORRER LUTANDO DO QUE MORRER DE FOME!

GLOBALIZEMOS A LUTA, GLOBALIZEMOS A ESPERANÇA, GLOBALIZEMOS A SOLIDARIEDADE!

Mulheres da Via Campesina do RS,
Brasil, 26 de março de 2008.

 

Ir a inicio

Movimiento Mundial por los Bosques Tropicales
Maldonado 1858 
11200 Montevideo - Uruguay
tel:  598 2 413 2989 / fax: 598 2 410 0985
wrm@wrm.org.uy