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BRASIL

MAURÍCIO THUSWOHL *
Agencia Carta Maior
RIO DE JANEIRO
27/4/2004

A insustentável produtividade da celulose

A verdadeira selvageria – utilizar extensões de terra para uma monocultura que agride o país ambientalmente, gera lucros para uma minoria e em nada contribui para combater a desigualdade social – ainda não foi percebida pela “elite pensante”.

“Os inconformistas quase nunca tem razão nos precisos termos em que se manifestam. Mas, quase sempre tem razão na identificação do problema que os inconforma e no sentido geral da solução que eventualmente lhe será dada. Aos inconformistas só a história, nunca os contemporâneos, pode dar razão”. (Boaventura de Souza Santos)

No calor do abril vermelho, nenhuma outra ação patrocinada pelas organizações do movimento sem terra provocou tanta indignação na “elite pensante” brasileira quanto as invasões das plantações de celulose de mega-empresas como a Klabin e a Veracel (leia-se Aracruz Celulose) em Santa Catarina e na Bahia. “Sem terra agora invadem terras produtivas”, apressarem-se a alardear, quase agradecidas pela munição que lhes era oferecida, as manchetes e chamadas dos principais jornais e telejornais brasileiros. Afinal de contas, não seria mesmo indefensável a ocupação de terras de empresas rentáveis, que empregam mão-de-obra nacional e pagam (quase sempre) em dia seus impostos? O senso comum – e disso se aproveitaram alguns respeitáveis colunistas de economia – parece dizer que sim. Entretanto, uma análise mais próxima impõe o seguinte questionamento: “Sim, a terra é produtiva. Mas, produtiva para quem, cara pálida?”.

Neste artigo, vamos utilizar o exemplo da Aracruz (a Klabin fica para uma segunda oportunidade). A Aracruz Celulose é uma empresa transnacional controlada pelos grupos Lorentzen, da família real norueguesa, Safra e Votorantin, com cada um possuindo 28% do capital votante. A empresa se instalou no Espírito Santo há 35 anos e hoje é a líder mundial da produção de polpa branca de celulose de eucalipto, respondendo por 31% da oferta do produto em todo o planeta. Das primeiras terras adquiridas no Brasil, no município de Aracruz, ela deu um salto e possui hoje 247 mil hectares plantados com eucalipto nos estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Sua capacidade nominal de produção no Brasil é de 2,4 milhões de toneladas de polpa de celulose por ano. Apenas a unidade de Barra do Riacho (ES), onde existem três fábricas de celulose, é responsável pela produção de 2 milhões de tonelada/ano.

O detalhe é que cerca de 95% da polpa de celulose produzida no Brasil é destinada ao mercado externo, sobretudo para a União Européia e os Estados Unidos. Nesses lugares, cerca de 80% a polpa importada do Brasil é transformada em papel higiênico e lenços de nariz. O retorno financeiro para a Aracruz é muito alto: em 2003, a empresa registrou um lucro líquido de R$ 870 milhões, o maior desde sua criação. Com o beneplácito do BNDES no governo de Fernando Henrique Cardoso – em 2002 o banco injetou R$ 840 milhões na construção de uma nova fábrica – a Aracruz foi a empresa que teve maior aumento nos ganhos em 2003 se comparado ao ano anterior, obtendo um aumento de 7.000%.

Atualmente, a menina dos olhos da Aracruz é a Veracel Celulose, empresa criada em sociedade com outra gigante do setor, a Stora Enso (50% do capital para cada). A Veracel já tem 70 mil hectares de eucalipto plantado no sul da Bahia e seu complexo industrial fabril, com entrada em operação prevista para 2005, será capaz de produzir 900 mil toneladas de celulose por ano.

Como se vê, é muita riqueza, e é isso que parece entusiasmar os defensores das “terras produtivas” da Veracel/Aracruz na grande imprensa. O problema é que essa riqueza é distribuída, sim, entre as poucas famílias acionistas da empresa e não para “a sociedade brasileira” como se quer fazer crer. Mesmo a propalada geração de empregos é um mito, como já comprovaram estudos realizados pela Universidade Federal do Espírito Santo e pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) que demonstraram que a monocultura do eucalipto é altamente mecanizada em todas as suas fases e demanda pouca mão-de-obra nos locais onde está instalada. A Veracel, com todo o seu faturamento e gigantismo, promete gerar cerca de cinco mil empregos diretos e indiretos no Brasil, sem especificar por quanto tempo, ao passo que o desenvolvimento de um programa de agricultura familiar variada pode gerar até 30 postos de trabalho permanente por hectare. Ao contrário, a monocultura do eucalipto expulsa o trabalhador do campo, como nos mostra o exemplo de Vitória. Antes da Aracruz, a capital abrigava 15% da população capixaba, atualmente abriga 50%.

Existem ainda os prismas histórico e ambiental. Sob o primeiro, é difícil negar – mesmo para os inebriados acionistas da empresa que se esbaldam nas festas de São Paulo – que a consolidação da Aracruz Celulose no Brasil se confunde com o deslocamento forçado, a repressão e o assassinato de indígenas, quilombolas e outras populações tradicionais em Minas, na Bahia e, sobretudo, no Espírito Santo. Para lutar contra os danos que a monocultura do eucalipto causa ao meio ambiente, mais de cem organizações ambientalistas brasileiras criaram a Rede Deserto Verde, para evitar a continuidade da compra de terras pela Aracruz no Brasil. Além da evidente perda da biodiversidade provocada pela monocultura, o eucalipto é acusado de exaurir os lençóis de água subterrâneos num curto espaço de tempo.

A última novidade surgida sobre o impacto ambiental das atividades da Aracruz foi revelada em estudo da FASE publicado em março deste ano, após seis meses de análise dos rios Sahy, Guaxindiba e Doce, localizados em reservas indígenas Tupiniquim e Guarani no norte do Espírito Santo. De acordo com a análise, a empresa estaria se apropriando da maioria dos recursos hídricos da região e deixando as aldeias sem água. Após adquirir 90% das terras em torno das fontes de recursos hídricos, a Aracruz consome por dia, sem pagar nada por isso, o equivalente ao consumo de 2,5 milhões de pessoas, o que representa quase a população de todo o Estado.

Ciente dessas informações, somente por má vontade alguém pode querer criminalizar os sem terra por invadir as “terras produtivas” da celulose, sejam elas pertencentes a Veracel/Aracruz ou a Klabin. O fato é que, enquanto milhões de brasileiros ainda passam fome no campo, esse setor, por mais que queira se travestir de moderno e gerador de divisas, nos revela a face (talvez a cara de pau, se me permitem o trocadilho) de um capitalismo excludente para o povo e inserido numa lógica mundial onde o Brasil ainda é um quintal produtor de matérias primas ou secundárias para atender as metrópoles.

Em um ato visto como selvageria pelos defensores dessas “terras produtivas”, as três mil e quinhentas famílias que invadiram a fazenda da Veracel em Porto Seguro derrubaram 25 hectares de eucalipto e, em seu lugar, plantaram milho e feijão. A verdadeira selvageria – utilizar largas extensões de terra boa para uma monocultura que agride o país social e ambientalmente, gera lucros indecentes para uma minoria e em nada contribui para que seja combatida nossa terrível desigualdade social – ainda não foi percebida pela “elite pensante”. Talvez não tenham entendido o que disse, na sua sabedoria, o trabalhador rural flagrado pelas câmeras de televisão em terras da Veracel: “Estamos com fome, uai, eucalipto não se come!”.


* Maurício Thuswohl é editor de Meio Ambiente da Agência Carta Maior.

 

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