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BRASIL

 

21 de Setembro: Dia Nacional de Luta Contra
a Monocultura de Eucalipto
Movimento Alerta contra o Deserto Verde

Hoje, duas manifestações aconteceram no Espírito Santo em protesto contra os impactos e a violência, causados pelo plantio da monocultura de eucalipto em larga escala no estado. O dia de hoje, como momento de protesto, foi escolhido durante o III Encontro Nacional da Rede Alerta contra o Deserto Verde em maio deste ano em Belo Horizonte, 21 de setembro é o dia da árvore: uma data bastante simbólica para este Dia Nacional de Luta.

Uma manifestação ocorreu na localidade de Vinhático, Município de Montanha, no Norte do Espírito Santo. Mais de 1000 representantes de comunidades locais, do MST e do MPA arrancaram mudas de eucalipto plantadas há 20 dias através do Programa Fomento Florestal da Aracruz Celulose, numa propriedade de cerca de 1.800 hectares. A própria Aracruz está querendo adquirir a propriedade. Nessa região, a empresa está se expandindo muito, aproveitando-se da política do governo Lula para ampliar a área de monoculturas de árvores no país com mais 2 milhões de hectares até 2007. Depois de ter arrancado milhares de mudas de eucalipto, os manifestantes seguiram para a sede do Município em marcha, onde aconteceu um ato público com cerca de 1.500 pessoas.

A outra manifestação ocorreu na comunidade de Vila do Riacho, Município de Aracruz, também no Norte do Espírito Santo, com cerca de 700 pessoas: membros da comunidade local, Índios Tupinikim e Guarani, MST, MPA e outras entidades de apoio. Cerca de 3 hectares de eucalipto recém-plantado foram destruídos. Um caminhão foi parado e sua carga, milhares de mudas de eucalipto, foi destruída. Depois, os manifestantes seguiram para o complexo de 03 fábricas de celulose da Aracruz e, em frente do complexo, cortaram algumas árvores de eucalipto e puseram fogo. Além disso, foi realizado um ato público em frente das fábricas. Ontem à

noite, mais de 1000 pessoas da comunidade de Vila do Riacho já tinham se reunido numa celebração ecumênica e caminhada para lembrar e denunciar as diversas violações praticadas contra a população local a partir das ações da Aracruz Celulose na região. Em baixo, segue Carta Aberta à População, uma carta que foi distribuída e divulgada, ontem e hoje, à população local e regional.

Por um lado, as manifestações de hoje mostram a crescente mobilização e organização popular no Espírito Santo contra a monocultura de eucalipto, um plantio que impede a realização da reforma agrária, gera pouquíssimos empregos e destrói direta e indiretamente os meios de subsistência das populações locais. Por outro lado, o caráter das ações de hoje mostra que as populações locais e movimentos sociais do campo estão indignadas e cansadas de esperar por ações concretas dos governos federal e estadual no sentido de impedir o avanço da monocultura de eucalipto. Querem construir seus próprios projetos de subsistência, baseados na diversidade, no agro-ecologia, na reforma agrária, na devolução das suas terras ocupadas por eucaliptos - como no caso dos quilombolas e dos indígenas -, e no estímulo de alternativas de reflorestamento que aproveitem o potencial das centenas de espécies nativas.

Movimento Alerta contra o Deserto Verde
21 de setembro de 2004

Carta Aberta à população

Nós, moradores(as) de Vila do Riacho, comunidades indígenas Tupiniquim e Guarani e integrantes da Rede Alerta Contra o Deserto Verde, vimos denunciar todas as formas de violência produzidas pela Empresa Aracruz Celulose contra as populações locais do seu entorno desde a sua instalação há 36 anos.

A Aracruz Celulose destruiu todas as formas de subsistência de nossas populações: destruiu os rios, destruiu a mata atlântica, invadiu nossas terras produzindo o caos social e ambiental. Como a Aracruz Celulose que pro meteu desenvolvimento, emprego, melhoria das condições vida, conseguiu, nesses 36 anos, ficar completamente impune?

As violências são inúmeras: a população de Vila do Riacho tem sido vítima de abusos constantes das polícias militar, ambiental e da milícia armada da Aracruz Celulose (VISEL). É-lhes cerceado o direito de ir e vir e de trabalhar; Trabalhadores têm seus instrumentos de trabalho apreendidos e/ou destruídos; Moradores são ameaçados; Adolescentes são ameaçados e presos; Famílias têm seus lares invadidos; cidadãos são acusados de furto sem qualquer prova; Pequenos proprietários são violados nos seus diretos, tendo a casa destruída e plantios arrancados. E aí, a população indignada pergunta: o que se deve fazer quando a polícia, que é sustentada pelo dinheiro público, que tem a função de dar segurança ao cidadão, se transforma num instrumento de terror, a serviço de interesses privados da Aracruz Celulose?

Os pescadores não têm mais o que pescar; a água de uso doméstico está contaminada, adoecendo crianças e adultos, forçando uma população desempregada a comprar água mineral ou a se deslocar quilômetros de distância para buscar água potável. Tudo isso porque a Aracruz Celulose, na sua produção, consome uma quantidade diária de água que corresponde à mesma quantidade que uma cidade de dois e meio milhões de habitantes gasta por dia, e não paga nada por isso. E mais, para atender ao seu interesse econômico não respeita qualquer princípio ético, ambiental e social: represa rios, faz transposição da bacia do Rio Doce (Canal Caboclo Bernardo), inunda propriedades, inverte cursos de rios (Rio Gimuna) e contamina as águas com uso intensivo de agrotóxico nas suas plantações. Assim produz um desastre ambiental incalculável e irreversível. A população mais uma vez pergunta: por que a Aracruz Celulose, que tem essa prática perversa, consegue ser premiada como empresa defensora do meio ambiente?

Nossas populações locais que viviam de forma autônoma como pequenos produtores, lavradores, pescadores e trabalhadores independentes hoje vivem cercadas pelos plantios de eucalipto, sem qualquer perspectiva de trabalho. Para muitos de nossos trabalhadores não resta outra alternativa imediata de sobrevivência senão a produção de carvão. Entretanto, nem isso podem fazer. A empresa com toda sua truculência tem perseguido os catadores de resíduos e os trata como se fossem bandidos, buscando cada vez mais inviabilizar a permanência das comunidades no seu entorno. A população outra vez pergunta: diante de tantos danos causados por que a empresa recebe financiamento público e privilégios fiscais? Enquanto, para nós resta o mau cheiro, a poluição, o risco tóxico e o total descaso por parte do estado e da prefeitura.

A Aracruz Celulose quer negar o seu passado destruidor da cultura e do modo de vida das populações locais. Só quer olhar para o futuro e gerar desenvolvimento. Perguntamos: desenvolvimento para quem? Para nós, discutir o passado é vital. "Perguntem aos mais antigos sobre o estrago que ela, a Aracruz Celulose, fez por aqui! Aí então vamos lembrá-la do que perdemos e quanto custa a ela reparar as perdas e danos que ela nos causou".

 

 

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