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BRASIL

 

Relatório de Avaliação da V&M Florestal Ltda. e da Plantar S.A. Reflorestamentos ambas certificadas pelo FSC - Forest Stewardship Council
Brasil, Novembro 2002 (*)

sumário

Capítulo 5
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este relatório não tem como objetivo reduzir a importância do FSC e da certificação florestal em geral. Ao contrário, este trabalho busca contribuir para que se alcance um objetivo fundamental que vem sendo defendido pelo próprio FSC desde sua criação: garantir que o consumidor que compra produtos com o selo do FSC tenha segurança de que sua compra é procedente de um área de manejo florestal sustentável, que traz benefícios sociais, econômicos e ambientais, no contexto local aonde for praticado. Após ter realizado a avaliação da certificação das empresas V&M Florestal e Plantar S.A., sendo que a V&M se tornou em 1998, com mais de 235 mil hectares, a maior empresa com o selo FSC para plantações florestais no Brasil, concluímos, com muita segurança, que esta certeza hoje, no caso das plantações, não existe.

Acreditamos que os membros do próprio FSC, que receberão primeiramente este relatório, precisam reavaliar, e claro, também baseado em outros estudos e relatórios, onde é preciso corrigir a certificação de plantações florestais para garantir a credibilidade do selo, considerando os princípios e critérios, mas também os procedimentos hoje adotados em relação às empresas certificadoras e as formas como elas conduzem o processo de certificação, bastante questionado neste relatório.

Contribuindo para este debate, queremos considerar o seguinte:

- Este estudo de caso mostra claramente o contraste enorme entre a "pobreza" social, econômica e ambiental da monocultura de eucalipto do ponto de vista das populações e economias locais, comparada com a "riqueza" social, cultural, econômica e ambiental do manejo da floresta natural, neste caso o cerrado. Seria uma falta de transparência e credibilidade perante o consumidor final se um mesmo produto tivesse o selo FSC, sem que este consumidor tomasse conhecimento se o produto comprado é procedente de uma plantação "industrial" realizada por uma mega-empresa com plantios exóticos, instalados em meio ao cerrado; ou de uma cooperativa de comunidades locais que manejam de forma sustentável o cerrado e suas espécies endógenas e próprias. Aumentaria significativamente a credibilidade do FSC se ele separasse a certificação de áreas de vegetações nativas (floresta natural, cerrado, etc.) de áreas de monoculturas de árvores, uma totalmente distinta da outra.

- A necessidade desta separação fica ainda mais evidente quando consideramos que os primeiros nove princípios e critérios da FSC foram elaborados para o manejo de florestas nativas e não para monoculturas de árvores. Criou-se o Princípio 10, especificamente para corresponder à realidade das plantações, porém exigindo o cumprimento dos princípios 1 a 9. Este relatório mostra que muitos dos questionamentos citados em relação aos princípios 1 a 10 valem para todas as monoculturas de árvores em larga escala, hoje certificadas pelo FSC. Alguns exemplos:

- os benefícios da floresta (Princípio 05) se limitam a um só (o eucalipto para um determinado objetivo (carvão, celulose, etc.), sempre gerando conflitos com usos tradicionais e coletivos das vegetações originais de uso das comunidades locais;

- a implantação do manejo moderno de monoculturas, substituindo vegetações nativas, nunca consegue conservar a diversidade ecológica e seus valores associados (Princípio 06), ao contrário, sempre causam impactos significativos sobre quantidade e qualidade de água, biodiversidade de flora e fauna, e proteção do solo;

- Os benefícios sociais e econômicos das plantações (Princípio 10) de produtos como carvão para siderurgia ou madeira para celulose, nas regiões onde as plantações são implementadas, são extremamente pequenos, comparados aos impactos sociais negativos sobre a vida dos trabalhadores, e os impactos sócio-econômicos negativos sobre a vida das comunidades locais, tão bem documentados em inúmeras publicações em muitos países no mundo onde existem plantações de monoculturas de árvores em larga escala.

- Uma separação do selo FSC em um novo selo, somente para produtos de florestas nativas, e um outro selo para produtos de plantações de árvores, necessariamente exige a elaboração de novos princípios e critérios para plantações florestais. Acreditamos que a base destes novos princípios e critérios só se constrói a partir de um debate profundo sobre o que seria um manejo considerado sustentável nos termos da silvicultura moderna. E, este debate remete a uma outra discussão ainda mais profunda: que tipo de sociedade sustentável nós queremos?

- Nós, como representantes de organizações não-governamentais da área ambiental, social, indígena e sindical, pensamos que a nova "sustentabilidade" das plantações de árvores em larga escala dependerá, primeiramente, da sua aceitação pelas comunidades locais, que necessariamente seriam os principais convidados para este debate, junto aos membros do FSC. É claro que qualquer sistema de silvicultura nunca se iguala ao bioma do cerrado, extremamente rico em serviços ambientais, sociais, culturais e econômicos. Ao mesmo tempo, temos certeza que o modelo atual é totalmente inadequado porque não oferece praticamente nenhum benefício para a população local, ao contrário, causa sobretudo impactos negativos.

- Acreditamos que o novo modelo de silvicultura necessita criar uma certa diversidade na composição das plantações de árvores, isto é, a nível do talhão e não através dos "corredores ecológicos". A perda de homogeneidade das plantações resultará com certeza numa perda de produtividade de madeira, porém, ao mesmo tempo, aumentará os possíveis benefícios sociais, ambientais e econômicos, além de que garantirá mais equilíbrio ecológico, conforme os princípios que a agroecologia já tem provado. Com isso, aumentaria a adaptação e a inserção das plantações florestais no seu ambiente local, não só do ponto de vista ecológico, mas também social, econômico e cultural.

Esperamos que muitos membros do FSC, inclusive grupos de consumidores e os representantes das empresas, queiram participar deste novo debate, já bastante aprofundado com bons resultados em diversas áreas da agricultura. Ao mesmo tempo, sabemos que a lógica do mercado, por exemplo da celulose, dificulta este tipo de debate sobre o modelo. A concorrência somente permite debates com o objetivo de aumentar mais ainda a produtividade, mais importante do que qualquer outro parâmetro. Mas acreditamos que é preciso fazer este esforço, mesmo com pouca adesão no início, lembrando todos aqueles que por causa do modelo atual de plantios de larga escala de eucalipto e outras monoculturas:

- perderam suas terras, suas áreas de uso coletivo, suas bases de sustentação;

- se acidentaram e morreram nas atividades de extração de madeira e carvoejamento ou foram envenenados através da aplicação de agrotóxicos;

- perderam suas fontes de água e peixe;

- perderam seu emprego nas empresas;

- perderam suas infâncias e a esperança de uma vida melhor.....

Muitas vezes, esses impactos reais aconteceram em função de um consumo sempre crescente dos consumidores, sobretudo nos países do Norte. Este fato apresenta outro desafio para o FSC, pensando num mundo futuro verdadeiramente sustentável.

Pensamos que o FSC está perante dois caminhos:

- conquistar uma grande parcela do mercado com a contínua certificação de mega-plantações como a da V&M Florestal, e, ao mesmo tempo, sofrendo denúncias contínuas que danificam cada vez mais sua credibilidade;

- rever de forma profunda sua política em relação a certificação de plantações florestais, recuperando assim sua legitimidade na qual tanta gente, no Norte e no Sul, incluindo nós que escrevemos este relatório, ainda estão dispostos apostar.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

- ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MINAS GERAIS. Lei 13.965/01: cria o programa mineiro de incentivo ao cultivo, à extração, ao consumo, à comercialização e à transformação do Pequi e demais frutas e produtos nativas do cerrado. Deputado Estadual Rogério Correia. Belo Horizonte, 27-07-2001.
- ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MINAS GERAIS. CPI das Carvoarias: Relatório Final. Deputado Adelmo Carneiro Leão - Presidente da CPI. Belo Horizonte, 11-06-2002.
- BASE DE DADOS TROPICAL (BDT). Cerrado - Impactos do Processo de Ocupação. Brasília: WWF: 1995.
- CARTA COMPROMISSO DO RIACHÃO. Montes Claros, 13-07-2001.
- DAYRELL, Carlos Alberto. Geraizeiros e biodiversidade no Norte de Minas: a contribuição da agroecologia e da etnoecologia nos estudos dos agroecossistemas tradicionais. Dissertação apresentada à Universidade Internacional de Andalucia. Sede Ibero Americana, setembro de 1998.
- FOREST STEWARDSHIP COUNCIL (FSC). FSC Principles and Criteria. FSC, Oaxaca, México, 2002 (www.fscoax.org)
- GRUPO DE TRABALHO DO FSC (CONSELHO DE MANEJO FLORESTAL) NO BRASIL. Padrões de certificação do FSC - Forest Stewardship Council- Conselho de Manejo Florestal em Plantações Florestais. Brasil, abril de 2001 (www.fsc.org.br).
- GUERRA, Cláudio. Meio Ambiente e Trabalho no Mundo do Eucalipto. Belo Horizonte: Associação Agência Terra, 1995.
- GUIMARÃES ROSA, João. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S/A (18ª ed.), 1985.
- MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO: Procuradoria Regional do Trabalho da 3ª Região; Coordenadoria de defesa dos interesses difusos e coletivos - CODIN. Ação Civil Pública (com pedido de liminar). Belo Horizonte, 03-06-2002.
- REDE CERRADO DE ORGANIZAÇÕES NÃO-GOVERNAMENTAIS. Carta de Montes Claros. Montes Claros, 20-06-1999.
- SCIENTIFIC CERTIFICATION SYSTEMS (SCS). Sumário Público 01 - Plantar S.A. (Curvelo - Unise MG-02). Oakland (EUA), março de 2001.
- SOCIETÉ GÉNÉRALE DE SURVEILLANCE (SGS) FORESTRY - QUALIFOR PROGRAMME. Forest Certification Public Summary Report: Mannesman Florestal Ltda (MAFLA) (resumo público com relatórios do 1º, 2º e 3º monitoramento). London, 17-01-1999.
- UMS SIM OUTROS NÃO. Política. Revista ISTOÉ. 15-07-1998.
- UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Cerrado, Caracterização e Recuperação de Matas de Galeria. Brasília: Embrapa, 2001.
- WWW.PLANTAR.COM.BR
- WWW.VMTUBES.COM.BR

Lista de abreviações

ACMaior - Ação Corretiva Maior
ACMenor - Ação Corretiva Menor
AMDA - Associação Mineira de Defesa Ambiental
APP - Área de Preservação Permanente
CAA - Centro de Agricultura Alternativa
CAT - Comunicação de Acidente de Trabalho
COPAM - Conselho Estadual de Política Ambiental
CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito
CPT - Comissão Pastoral da Terra
DRT - Delegacia Regional de Trabalho
EIA/RIMA - Estudo e Relatório de Impactos Ambientais
FETAEMG - Federação dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais em Minas Gerais
FITIEMG - Federação de Trabalhadores da Indústria Extrativa em Minas Gerais
FSC - Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal)
IEF - Instituto Estadual de Florestas
LER - Lesão por Esforço Repetitivo
MAFLA - Mannesman Florestal Ltda. (mudou em 2000 em V&M Florestal Ltda.)
MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
MG - Minas Gerais (estado brasileiro)
MPT - Ministério Público (Federal) de Trabalho
OIT - Organização Internacional de Trabalho
Plantar - Plantar S.A. Reflorestamentos
PIDESC - Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
RCA/PCA - Relatório e Plano de Controle Ambiental
RP - Resumo (sumário) Público do relatório de avaliação para certificação
SCS - Scientific Certification Systems
SENAR - Serviço Nacional de Aprendizado Rural
SGS - Societé Générale de Surveillance
STR - Sindicato de Trabalhadores Rurais
UFLA - Universidade Federal de Lavras
UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais
UMF - Unidade de Manejo Florestal
UNIMONTES - Universidade Estadual de Montes Claros
V&M - Vallourec&Mannesman Florestal Ltda.

 

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