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BRASIL

O eucalipto e a questão social - Resumo
Aracruz, 14 de agosto de 2001
CIMI - Conselho Indigenista Missionário

O CIMI - Conselho Indigenista Missionário - é um órgão ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), criado em 1972, em plena ditadura militar, com o objetivo de apoiar os povos indígenas no Brasil na defesa de seus direitos, principalmente na luta pela terra.

Em 1978, o CIMI encontrou no Espírito Santo dois povos, os Tupinikim e os Guarani, vivendo numa situação de extrema miséria, ocupando apenas algumas dezenas de hectares de terras. O CIMI definiu, a partir desta realidade, que havia necessidade de se desenvolver um trabalho permanente em apoio a estes povos.

Os Tupinikim viviam até meados dos anos 60 em mais de 40 aldeias, distribuídas numa área de pelo menos 30.000 hectares de mata atlântica no atual município de Aracruz, cheio de córregos e rios, suprindo todas as necessidades básicas deste povo. Os Guarani chegaram do Sul numa caminhada de mais de 40 anos em busca da Terra sem Males. Chegando na região em meados dos anos 60 receberam de Deus (Nhãnderu) a revelação de que este lugar oferecia as condições para o Guarani viver o seu modo de vida. Num processo devastador, a partir de 1966-1967, a Aracruz Celulose ocupou as terras expulsou os índios das suas aldeias, destruiu as matas e plantou eucalipto.

Os Guarani foram transferidos no início dos anos 70 para Minas Gerais pela FUNAI, sempre um fiel aliado da política da Aracruz Celulose. Porém a resistência dos Guarani foi mais forte. Seis anos depois voltaram para Espírito Santo e ocuparam, junto com os Tupinikim, uma área de mata de cerca de 300 hectares que estava prestes a ser convertida em eucalipto. Esta mata existe até hoje.

A partir deste momento, iniciou-se um processo de resgate das terras, da cultura, da organização social, da identidade, resultando hoje numa outra realidade, a partir da demarcação física de 7.559 hectares após duas lutas extremamente difíceis. Este resultado se deu em primeiro lugar pela determinação dos índios, sua fé em Deus - Nhãnderu e sua resistência perante o projeto da Aracruz. Em segundo lugar, houve uma articulação forte da sociedade civil organizada a nível estadual, nacional e inclusive internacional em apoio à luta dos Tupinikim e Guarani.

Durante vários anos a Aracruz Celulose negou a identidade indígena dos Tupinikim e os seus direitos sobre suas terras, e até hoje nega ter derrubado a mata que existia nas terras indígenas. Provamos o desmatamento realizado pela Aracruz através de fotos aéreas antes e depois da chegada da empresa na região, além dos testemunhos vivos dos índios,. Ela sempre tem se beneficiado do poder que ela exerce sobre os governos federal e estadual para conseguir seus objetivos empresariais. Ao mesmo tempo mostra uma fragilidade extrema quando se trata de se defender dos argumentos das comunidades indígenas, alegando até que os Guarani foram atraídos para o Espírito Santo pela empresa em busca de melhorias econômicas, mostrando total desrespeito à cultura deste povo que valoriza, antes de mais nada, o espiritual, o ser humano e a natureza,

A situação atual parece ser uma repetição dos acontecimentos nos anos 60 e 70. Aracruz novamente está numa fase ofensiva, comprando terras e construindo mais uma fábrica, sendo financiada novamente pelo governo brasileiro através do BNDES com R$ 1 bilhão. Mais uma vez ela usa seu poder para obter facilidades do governo para a realização dos seus planos.

Se hoje a Aracruz já não passa mais o trator para derrubar a mata nativa, ela continua 'tratorando' as autoridades locais, a mídia, os municípios, as comunidades locais e todos os atores que precisam estar sintonizados com seu projeto. Porém, a sociedade civil também está mais organizada hoje. O Movimento Alerta contra o Deserto Verde, não aceita outra vez um processo no qual os índios e tantas outras comunidades sofreram impactos negativos, muitos deles ainda em curso. Primeiro é preciso restaurar aquilo que foi perdido. Recuperar as matas é praticamente impossível, mas o reconhecimento de que ela ocupa terras legalmente declaradas como indígenas e promover a devolução das mesmas, são fundamentais. E assim em relação aos demais impactados: comunidades de quilombos, pescadores, carvoeiros, desempregados, trabalhadores terceirizados, ex-trabalhadores mutilados, etc.

A lei do deputado estadual Nasser Youssef é um instrumento importante neste processo de resgate de dívidas do passado e de valorização do ser humano no processo de desenvolvimento local e regional no nosso estado.

 

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