Bioenergia, para quem?
Soberania alimentar, agricultura
camponesa e impactos ambientais são temas ainda pouco discutidos
quando se fala em biocombustíveis
Por Daniel Cassol,
Março de 2007 - MST Informa - Revista Sem Terra (Ed. 38)
A discussão em torno
da produção de energia de forma limpa e renovável
não é nova, mas ganhou caráter de urgência
nos últimos tempos, principalmente após a divulgação,
no início de fevereiro, do
relatório sobre aquecimento global do Painel Intergovernamental
de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).
Diante do alarme provocado, o mundo parece se dar conta de que precisa
mudar sua matriz energética, passando a adotar formas alternativas
de produzir a energia que consome.
Reunido na França, um grupo de cientistas anunciou que a
temperatura na Terra poderá aumentar em até quatro
graus neste século, devido ao aumento da concentração
de dióxido de carbono
(CO2) na atmosfera, principalmente por causa do uso de combustíveis
fósseis*. Atualmente, a matriz energética mundial
tem participação total de 80% de fontes de carbono
fóssil, sendo 36% de
petróleo, 23% de carvão e 21% de gás natural.
Nestes tempos, um nome tem ganhado destaque: biocombustível.
A produção de energia para o uso no transporte, a
partir de cana-de-
açúcar ou de sementes oleaginosas, como a soja, aparece,
literalmente, como a salvação da lavoura. E o herói
provável é o Brasil, com cerca de 200 milhões
de hectares de área agricultável,
de acordo com o Plano Nacional de Agronergia, lançado em
2006 pelo governo federal.
O principal argumento usado para apostar nos biocombustíveis
é que eles são fontes renováveis de energia,
ou seja, não se esgotam no planeta como o petróleo,
por exemplo. Mas neste cenário,
representam, de fato, uma saída para o colapso ambiental
do planeta e uma alternativa para a agricultura camponesa, ou se
constituem numa sobrevida ao agronegócio, que vai gerar impactos
ambientais tão graves quanto os combustíveis fósseis?
É um debate para o qual há pouco espaço - e
poucas vozes.
"Empresas e governos estão
fazendo uma intensa campanha para
apresentar os biocombustíveis como alternativas para combater
as mudanças climáticas, ao substituir parte do consumo
de petróleo.
Mas a lógica de fundo não é abandonar o petróleo
nem mudar os padrões de consumo que produzem o aquecimento
global, mas aproveitar a conjuntura para criar novas fontes de negócios,
promovendo e subsidiando a produção de industrial
de cultivos para estes fins", escreve Silvia Ribeiro, pesquisadora
do Grupo ETC**, em artigo para o diário mexicano La Jornada.
Ela lembra que todas as empresas que produzem sementes transgênicas,
como Syngenta, Monsanto, Dupont, Dow, Bayer e Basf, possuem investimentos
na produção de biocombustíveis, como o etanol
e o biodiesel.
Lógica capitalista
Os sinais de que o capitalismo mundial tem um projeto estratégico
para vencer a disputa pela agroenergia são cada vez mais
claros. No dia 31 de janeiro, no discurso sobre o "Estado da
Nação" ao Congresso dos Estados Unidos, o presidente
George W. Bush anunciou a meta de reduzir o consumo de gasolina
em 20% até o ano de 2017, produzindo 132,4 bilhões
de litros de combustíveis
alternativos, principalmente o etanol, a partir do milho. O tema
dos biocombustíveis também foi um dos principais assuntos
discutidos no Fórum Econômico Mundial, ocorrido em
janeiro, na cidade de
Davos (Suíça).
As movimentações
de países ricos e de grandes multinacionais em
torno do tema levam analistas e movimentos sociais camponeses a
enxergarem com relutância a entrada de países em
desenvolvimento na produção de biocombustíveis.
Os impactos ambientais gerados com o aumento das monoculturas, a
exploração sobre camponeses e trabalhadores rurais
e a ameaça à produção de
alimentos estão no rol de preocupações. No
Brasil, a aposta do agronegócio é na cana-de-açúcar
e na soja - transgênicas, é claro. "Não
há um programa de governo com linhas, critérios e
diretrizes
estabelecidas no aspecto produtivo que apontem para um novo modelo
agrícola. Além disso, o programa do biodiesel está
sendo entregue para um grupo de empresas privadas que querem comprar
grão do agricultor, sem nenhuma agregação de
valor nas comunidades rurais. E estão estimulando as monoculturas
de novo", critica Frei Sérgio Görgen, dirigente
da Via Campesina no Brasil, entidade que agrega movimentos sociais
de todo o mundo, como o MST e o Movimento dos Pequenos Agricultores
(MPA). De acordo com o Programa Nacional de Produção
e Uso do Biodiesel, do governo federal, o Brasil vai tornar obrigatória
- a partir de 2008 - a adição de 2% de óleo
diesel vegetal no óleo diesel de petróleo, percentagem
que passará a 5% em 2013. Se o mercado de biodiesel com 2%
é de 1 bilhão de litros por ano, com 5% essa demanda
cresce para até 2,7 bilhões de litros por ano. As
vedetes do governo brasileiro são a soja, vista como mais
uma tábua de salvação para os grandes produtores
de sementes transgênicas, e a mamona, que teoricamente beneficiaria
a agricultura familiar.
Em relação ao
etanol, o Brasil vai priorizar mais uma vez a produção
de cana-de-açúcar. A estimativa é que a produção
aumente em 50% em relação às atuais 460 toneladas
de cana, de acordo com a
União da Agroindústria Canavieira de São Paulo
(Unica).
Um novo Pró-Álcool?
Em resumo, diante de uma possibilidade real de mudar o modelo de
produção agrícola, o Brasil entra na produção
de biocombustíveis reforçando práticas insustentáveis
do ponto de vista ambiental e social, beneficiando grandes empresas
e jogando os pequenos agricultores em armadilhas já conhecidas,
além de prejudicar a produção de alimentos
para o consumo interno.
"Há um risco de
repetir o Pró-Álcool do Brasil. Você tem um
combustível limpo, produzido de maneira suja, além
de ambientalmente insustentável no processo de produção
e socialmente perverso na maneira como aloca mão-de-obra
e trata os trabalhadores", avalia Frei Sérgio. Criado
na década de 1970, o Programa Nacional do Álcool incentivava
pequenos e médios produtores a instalarem destilarias de
álcool. Por razões políticas, como a proibição
do auto-consumo do álcool como combustível, o Pró-Alcool
beneficiou apenas os grandes usineiros, com suas práticas
de trabalho escravo nas lavouras de cana e consideráveis
impactos ambientais.
Cerca de 30 anos depois, os
mesmos riscos estão postos. A indústria canavieira
se anima com a possibilidade de abertura de mercado para o etanol
brasileiro nos Estados Unidos. Por sua parte, o próprio presidente
Luiz Inácio Lula da Silva anuncia que "soja boa a gente
come, e soja transgênica a gente faz biodiesel", sinalizando
a prioridade que está sendo dada aos grandes produtores e
multinacionais do grão. Mesmo a criação do
H-Bio, um derivado de óleo vegetal e petróleo desenvolvido
pela Petrobras, é visto como uma forma de favorecer o agronegócio
mundial e a indústria petrolífera.
Na avaliação
do governo federal, porém, a criação do Selo
do Combustível Social será uma espécie de salvaguarda
para a agricultura familiar. O programa prevê incentivos às
indústrias que
adquirirem sementes oleaginosas produzidas por pequenos agricultores.
"Nós percebemos os agricultores interessados em retomar
o cultivo de algodão, girassol, amendoim, gergelim e outras
oleaginosas. Assim, os agricultores não cairão na
arapuca da monocultura. Se o governo tivesse lançado um programa
de biodiesel sem esse incentivo à agricultura familiar, por
certo que ele
seria produzido unicamente da soja, que é a grande oleaginosa
brasileira", avalia o gerente executivo de Desenvolvimento
Energético da Petrobras, Mozart Schmitt de Queiroz. No entanto,
mesmo projetos alinhados ao Combustível Social apresentam
problemas, principalmente por apostarem na monocultura da mamona
nas Regiões Sul e Nordeste do país, e na compra direta
de
grãos dos agricultores, colocando-os em um sistema de integração
com grandes empresas, como acontece nas cadeias do fumo e do leite,
em que são freqüentes os casos de exploração
econômica a que são submetidos os pequenos agricultores.
Diversificar a produção
Enquanto isso, as organizações de agricultores camponeses
vêem a entrada nos biocombustíveis com um alto grau
de desconfiança, mas também com a certeza de que é
neste campo que se travará
uma disputa estratégica entre dois modelos de produção
antagônicos. Para organizações como a Via Campesina,
existem alguns requisitos básicos para que os camponeses
entrem na produção de biocombustíveis sem cair
em armadilhas: priorizar a produção de alimentos,
consorciar a produção de energia com outras culturas
e evitar sistemas de integração com grandes empresas,
participando do maior número possível de etapas na
cadeia de produção. "A pequena propriedade de
economia familiar não tem como viabilizar sua sustentação
no modelo de monocultura. A grande viabilidade das pequenas propriedades
é o sistema de produção diversificada, passando
para um modelo agroecológico. É fundamental construir
sistemas que possam produzir biocombustível
e alimentos. Aí entra a importância do bom aproveitamento
dos resíduos da extração de óleos. Com
isso, as pequenas propriedades poderão aumentar a produção
de ovos, leite, carne, viabilizando
ainda mais os sistemas de produção nas economias familiares",
explica o engenheiro agrônomo Alexandre Borscheid, que atua
na Cooperbio***, uma cooperativa de biodiesel formada por
agricultores ligados à Via Campesina do Rio Grande do Sul.
É neste sentido que caminham alguns dos projetos constituídos
pelas organizações da Via Campesina no Brasil. O biodiesel
poderá
ser produzido a partir de múltiplas sementes, como girassol,
amendoim e canola, cujos resíduos serão utilizados
na alimentação animal ou na adubação
orgânica. Cooperativas de pequenos
agricultores poderão construir suas próprias unidades
de esmagamento, para vender o óleo para as empresas, ficando
com os resíduos das oleaginosas. "A conclusão
a que estamos chegando é
que o carro-chefe tem que ser as oleaginosas perenes, para o agricultor
camponês. Numa pequena área, ele terá uma grande
produção", explica Frei Sérgio, citando
o uso de árvores como o
pinhão-manso e o tungue, na Região Sul, e o dendê,
na Região Norte. No caso do álcool combustível,
a cana-de-açúcar pode ser acompanhada da mandioca
e da batata-doce, por exemplo. Da mesma forma como a produção
de biodiesel, a intenção é consorciar com produção
de alimentos e vender produto com valor agregado para as indústrias.
Transnacionais X camponeses
"Os sistemas camponeses de produção são
os mais adequados, porque conseguiriam garantir uma combinação
muito boa entre produção de alimento e energia, além
de garantir sistemas de
policultivos, com produtos de valor agregado que dariam sustentabilidade
para as unidades de produção camponesas. As grandes
monoculturas não vão ser eficientes com girassol,
mamona,
amendoim, pinhão-manso, ou seja, não conseguirão
ser eficientes com as oleaginosas que têm maior percentual
de óleo. Elas se adaptam melhor aos sistemas de camponeses.
E a agricultura
camponesa tem melhores condições de resolver a equação
entre a produção de energia e a produção
de alimentos", analisa Frei Sérgio. Na opinião
do dirigente da Via Campesina, a Petrobras é um dos poucos
canais dentro do governo federal que abre caminho para a inserção
soberana da agricultura camponesa na produção de biodiesel.
Mozart Queiroz, da Petrobras,
explica que a empresa definiu por adquirir o óleo dos agricultores
e não as sementes. "Assim, ela está incentivando
as cooperativas a montarem as suas esmagadoras.
Com isso, a agricultura familiar poderá ficar com um produto
a mais e agregar mais valor à sua organização,
ao gerenciar esse produto que poderá ser transformado em
leite, ovos, carne. Estamos
trabalhando para compartilhar o benefício da industrialização,
para que o agricultor participe da cadeia produtiva, na etapa da
industrialização, pelo menos na fase do esmagamento.
Ao mesmo
tempo, estamos incentivando o cultivo de várias oleaginosas,
trabalhando para evitar a monocultura", diz.
Para o agrônomo Alexandre
Borscheid, a disputa pelo mercado e pelo modelo de produção
dos biocombustíveis já começou e, do jeito
que está, o campo está limpo para o avanço
das transnacionais do agronegócio. "Se não houver
uma intervenção do Estado para priorizar as políticas
para a agricultura camponesa, a tendência é as transnacionais
ocuparem esse mercado, que é extremamente promissor economicamente.
Elas vão avançar para cima das áreas agrícolas
e isso coloca a agricultura familiar em risco. Os agricultores têm
que ter produção com autonomia, com projetos próprios,
em que se possa garantir a produção de energia líquida
preservando os sistemas de produção de alimento",
avalia. O gerente executivo da Petrobras reconhece os riscos da
corrida desenfreada pela produção de biocombustíveis,
seja nos impactos
ambientais gerados pelas monoculturas, no prejuízo à
soberania alimentar e no aumento da exploração econômica
sobre os pequenos agricultores. Para ele, antes de discutir essas
questões,
porém, a humanidade precisa repensar o seu padrão
de consumo energético. "Ainda que toda a superfície
da Terra fosse utilizada para produzir biocombustíveis, não
conseguiria manter o consumo
no patamar que hoje o Planeta consome de combustíveis fósseis.
Fica claro que é urgente repensar a matriz energética
mundial", conclui.
Bio(agro)combustíveis
No Fórum de Soberania Alimentar, ocorrido no final de fevereiro
em Mali, na África, a Via Campesina Internacional decidiu
que o termo "biocombustível" deve ser substituído
por "agrocombustível". Isso
porque a organização social avalia que o incentivo
a esse tipo de combustível tem levado a políticas
de crescimento das monoculturas (e não da pequena produção
diversificada), ameaçando os
camponeses e a soberania alimentar. Como "bio" significa
"vida" - o contrário do que na prática se
verifica hoje, a entidade passou a adotar o termo "agrocombustível".
A Via Campesina Internacional,
da qual o MST faz parte, reúne movimentos sociais rurais
de todo o mundo.