Declaração
de Nyélény – Foro Mundial pela Soberania Alimentar
Nyéléni, Selingue,
Malí
Quarta-feira 28 de fevereiro de 2007
Nós, mais de 500 representantes
de mais de 80 paises, de organizações camponesas, agricultores
familiares, pescadores tradicionais, povos indígenas, povos
Sem Terra, trabalhadores rurais, migrantes, pastores, comunidades
florestais, mulheres, jovens, crianças, consumidores, movimentos
ecologistas e urbanos, nos reunimos com o povo de Nyélény
em Selingue, Mali, para fortalecer o movimento global pela soberania
alimentar. O fizemos, tijolo por tijolo, vivendo em cabanas construídas
a mão, segundo a tradição local e comendo a alimentação
produzida e preparada pela comunidade de Selingue... Damos a nosso
trabalho o nome de Nyeleni, como homenagem, inspirados na legendária
camponesa maliense que cultivou e alimentou sua gente.
A maioria de nós somos
produtores e produtoras de alimentos e estamos dispostos, somos capazes
e temos a vontade de alimentar a todos os povos do mundo. Nossa herança
como produtores de alimentos é fundamental para o futuro da
humanidade. Este particularmente é o caso de mulheres e povos
indígenas que são criadores de conhecimento ancestrais
sobre alimentos e agricultura, e que são desvalorizados. Para
esta herança e esta capacidade de produzir alimentos nutritivos,
de qualidade e em abundancia, se vêm ameaçadas pelo neoliberalismo
e o capital global. Frente a isto, a soberania alimentar nos aporta
à esperança e ao poder para conservar, recuperar e desenvolver
nossos conhecimentos e nossa capacidade de produzir alimentos.
A soberania alimentar é
um direito dos povos a alimentos nutritivos e culturalmente adequados,
acessíveis, produzidos de forma sustentável e ecológica,
e seu direito de decidir seu próprio sistema alimentício
e produtivo. Isto coloca aqueles que produzem, distribuem e consomem
alimentos no coração dos sistemas e políticas
alimentárias, por cima das exigências dos mercados e
das empresas. Defendendo os interesses de, e inclusive às futuras
gerações. Nos oferece uma estratégia para resistir
e desmantelar o comércio livre e corporativo e o regime alimentício
atual, e para ENCAUZAR os sistemas alimentários, agrícolas,
pastoris e de pesca para a prioridade das economias locais e os mercados
locais e nacionais, e outorga o poder aos camponeses e à agricultura
familiar, a pesca artesanal e o pastoreio tradicional, e coloca a
produção alimentícia, a distribuição
e o consumo sobre as bases da sustentabilidade meio ambiente, social
e econômica. A soberania alimentar promove o comercio transparente,
que garanta o ingresso digno para todos os povos, e os direitos dos
consumidores para controlarem sua própria alimentação
e nutrição. Garanta que os direitos de acesso e a gestão
de nossa terra, de nossos territórios, nossas águas,
nossas sementes, nossos animais e a biodiversidade, estejam nas mãos
daqueles que produzimos os alimentos. A soberania alimentar supõe
novas relações sociais livres de opressão e desigualdades
entre homens e mulheres, grupos raciais, classes sociais e gerações.
Em Nyéléni, graças
a muitos debates e a intensa interação, estivemos aprofundando
em nosso conceito de soberania alimentar, e temos intercambiado acerca
da realidade das lutas de nossos respectivos movimentos para conservar
a autonomia e recuperar nosso poder. Agora entendemos melhor os instrumentos
que necessitamos para criar um movimento e promover nossa visão
coletiva.
Em prol de quem lutamos?
Um mundo em que...
... todos os povos, nações
e estados possam decidir seus próprios sistemas alimentários
e políticas eu proporcionem a cada um de nós alimentos
de qualidade, adequados, acessíveis, nutritivos e culturalmente
apropriados.
... se reconheçam e respeitem
os direitos e o papel das mulheres na produção de alimentos
e a representação das mulheres em todas as instâncias
de tomada de decisões.
... todos os povos de cada um
de nossos paises possam viver com a dignidade de seu trabalho, e possam
ter a oportunidade de viver em seus locais de origem;
... a soberania alimentar seja
considerada um direito humano básico, reconhecido e respeitado
pelas comunidades, os povos, os estados e as instituições
internacionais;
... possamos conservar e habilitar
as comunidades locais, zonas pesqueiras, paisagens e os alimentos
tradicionais, baseando-se em uma gestão sustentável
da terra, do solo, da água, das sementes, dos animais e da
biodiversidade;
... valoremos, reconheçamos
e respeitemos a diversidade de nosso conhecimento, alimentação,
línguas e nossas culturas tradicionais, e o modo em que nos
organizamos e nos expressamos;
... exista uma verdadeira reforma
agrária integral, que garanta aos camponeses pleno direito
sobre aterra, defendam e recuperem os territórios indígenas,
garanta às comunidades pesqueiras o acesso e o controle das
zonas de pesca e ecossistemas, que reconheça o acesso e o controle
das terras e das rotas de migração de pastoreio garanta
empregos dignos com salários justos e direitos trabalhistas
para todos os trabalhadores, e um futuro para os jovens do campo,
onde as reformas agrárias revitalizem a interdependência
entre produtores e consumidores, garantam a sobrevivência da
comunidade, a justiça econômica e social, a sustentabilidade
ecológica e o respeito pela autonomia local e a governanza
com igualdade de direitos para as mulheres e os homens... onde se
garanta o direito aos territórios e a autodeterminação
de nossos povos;
... compartilhamos nossos territórios
em paz e de maneira justa entre nossos povos, sejamos nós camponeses,
comunidades indígenas, pescadores artesanais, pastores nômades
e outros;
... em se vivendo catástrofes
naturais e provocadas pelas pessoas, e situações posteriores
aos conflitos, a soberania alimentar atue como uma autêntica
garantia que fortaleza os esforços de recuperação
local e diminua o impacto negativo. Em que se tenha presente que as
comunidades afetadas desamparados não são incapazes,
e onde uma sólida organização local para a recuperação
por meios próprios constitua a chave para a recuperação;
... se defenda o poder dos povos
para decidir sobre suas heranças materiais, naturais e espirituais.
Contra que lutamos?
O imperialismo, o neoliberalismo,
o neocolonialismo e o patriarcado, e todo sistema que empobreça
a vida, os recursos, os ecossistemas e as agentes que os promovem,
como as instituições financeiras internacionais, a Organização
Mundial do Comércio, os acordos de livre comércio, as
corporações multinacionais, os governos quer que prejudicam
a seus povos;
O dumping de alimentos apreços
abaixo do custo de produção na economia global;
O controle de nossos alimentos
e de nossos sistemas agrícolas nas mãos de empresas
que privilegiam os ganhos às pessoas, a sua saúde e
ao meio ambiente;
Tecnologias e práticas
que desgastam nossa capacidade de produção alimentária
no futuro, danificam o meio ambiente e põe em perigo nossa
saúde. Estas últimas incluem os cultivos e animais trangênicos,
tecnologia terminator, aqüicultura industrial e práticas
pesqueiras destrutivas, a chamada “revolução branca”
e as práticas industriais no setor lácteo, as chamadas
“novas e velhas revoluções verdes”, e os
“desertos verdes” dos monocultivos e agrocombustiveis
industriais e outras plantações;
A privatização e
a mercantilização dos alimentos, serviços básicos
públicos, conhecimentos, terras, águas, sementes, animais
e nossos patrimônio natural;
Projetos/modelos de desenvolvimento
e industrias de extração que despejam, expulsam a população
e que destroem nosso meio ambiente e nossa herança natural;
Guerras, conflitos, ocupações,
bloqueios econômicos, fome, despejos forçados e confiscação
de suas terras, e todas as forças e governos que os provocam
e os apóiam; e os programas de reconstrução após
conflitos e catástrofes que destroem nosso meio ambiente e
capacidades;
A criminalização
de todos aqueles que lutam por proteger e defender nossos direitos;
A ajuda alimentaria que encobre
o dumping introduz OGMs comunidades locais e os sistemas alimentários
e crie novos padrões de colonialismo;
A internacionalização
e a globalização dos valores paternalistas e patriarcais
que marginalizam as mulheres e as diversas comunidades agrícolas,
indígenas, pastoris e pesqueiras no mundo;
Que podemos fazer e faremos a respeito
Da mesma maneira em que estamos
trabalhando com a comunidade de Selingue para criar um espaço
de encontro em Nyéléni, nos comprometemos a construir
nossos movimentos coletivos para a soberania alimentar, construindo
alianças, apoiando nossas diferentes lutas e fazendo que nossa
solidariedade, força e criatividade cheguem aos povos de todo
o mundo que tem um compromisso com a soberania alimentar. Cada luta
pela soberania alimentar, independentemente em que lugar do mundo
se libere, é uma luta de todos.
Acordamos uma série de
ações coletivas para compartilhar nossa visão
de soberania alimentar como todos os povos do mundo, que estão
detalhadas em nosso documentos de síntese. Levaremos a cabo
estas ações em cada uma de nossas respectivas áreas
locais e regiões, em nossos próprios movimentos e conjuntamente
em solidariedade com outros movimentos. Compartilharemos nossa visão
e nossa agenda de ação para a soberania alimentar com
aqueles que não puderam estar conosco em Nyéléni,
para que o espírito de Nyéléni se dissemine em
todo o mundo e se converta em uma poderosa força que faça
da soberania alimentar uma realidade para os povos de todo o mundo.
Por último, damos nosso
apoio incondicional e absoluto aos movimentos camponeses de Mali e
ao ROPPA em sua luta para que a soberania alimentar se converta em
uma realidade em Mali e em toda África.
É hora de Soberania Alimentar!!