Está em curso, no sul da Amazônia equatoriana, um projeto de ‘energia limpa’ devastador: a Hidrelétrica Santiago. Localizada na província de Morona Santiago, a hidrelétrica pode ser a maior do Equador e uma das 10 maiores da América Latina, com 3.600 MW de potência. O projeto prevê colocar debaixo d'água 3 mil hectares, destruir uma vasta região rica em biodiversidade e comprometer a vida de mais de 91 mil pessoas que habitam no entorno da obra. Embora as obras ainda não tenham saído do papel, o governo tem trabalhado para que isso aconteça o quanto antes, entre outras medidas, criminalizando a resistência a projetos que, como esse, são apresentados como ‘estratégicos’ para o ‘desenvolvimento’.
Por ora, a empresa pública de eletricidade do Equador (Corporación Eléctrica del Ecuador) é quem está encarregada pelo projeto. A barragem seria construída no rio Santiago, a cerca de 2 quilômetros rio abaixo do ponto de confluência entre os rios Namangoza e Zamora. Dos 3 mil hectares que podem ser submergidos, 70 por cento é de floresta nativa. A biodiversidade nessa área é enorme, são 532 espécies da flora, 205 espécies de animais terrestres, 193 espécies de aves e 29 espécies de peixes, muitos deles em risco de extinção. (1)
A capacidade de armazenamento da área que seria submersa é de cerca de 1,64 bilhão de metros cúbicos de água. Isso faria simplesmente desaparecer 45 km do rio Namangoza e 24 km do rio Zamora. Desse modo, pelo menos 45 comunidades e 9 paróquias no curso desses rios seriam diretamente afetadas. (2)

Quem mais sofreria esses impactos é o Povo Shuar, principal habitante da região. Duas comunidades desse povo, a Yuquianza e a La Unión, correm o risco de serem inteiramente submersas e suas populações reassentadas. As demais comunidades sofreriam com a inundação de terras onde cultivam alimentos, com mudanças significativas no rio do qual vivem, mudanças no transporte fluvial, no fluxo natural do rio e na própria dinâmica de pesca, que será impactada de forma drástica e irreversível, com extermínio de espécies migratórias e mortandade de peixes, ameaçando duramente a soberania alimentar dessas populações. Especificamente as comunidades de Mayaik, Paantam, San Luis, San Ramón, Shariam, Yunkumas e Coangos perderiam a sua principal rota de conexão com a submersão do rio. (3)
O rio Santiago é também a principal artéria de transporte para os Shuar no Equador e para a nação Wampis e Awajún no Peru. (4) Para esses Povos, o rio Santiago é conhecido como Kanus. A destruição do fluxo natural do rio ameaça isolar social e economicamente as comunidades, interrompendo rotas milenares de navegação usadas para o comércio, comunicação familiar e intercâmbio de alimentos, espécies e saberes. Atualmente parte dessa rota também é usada para o turismo.
Para os Shuar essa região tem um significado que não cabe em estudos de impactos ambientais técnicos. É um território sagrado. As águas do rio Santiago, ou melhor, do Kanus, são habitadas por Tzunki, espírito sagrado que mantém o fluxo da vida nessas águas. (5) A lógica de compensação de megaprojetos destrutivos e a cosmovisão do capitalismo verde são incapazes de compreender as consequências que o sepultamento debaixo d’água de cachoeiras, rios e mesmo de territórios ancestrais como a Cueva de los Tayos trariam para o modo de vida dos Shuar.
Além disso, é preciso ter em conta que a destruição que a construção e a operação de um projeto como esse inevitavelmente provocarão, vão muito além do que sofrem os que são diretamente impactados. As mudanças no ambiente, nos fluxos do rio e nas dinâmicas populacionais e econômicas que uma obra dessa magnitude provocam já são conhecidas. Aumento populacional desordenado, aumento de conflitos por posse de terra e ameaça aos modos de vida tradicionais da população local. Soma-se a isso, aumento do desmatamento, contaminação dos rios, maior risco de contaminação pelos projetos de mineração que ocorrem no rio Santiago, erosão agressiva e o aumento da sedimentação - que pode, inclusive, comprometer o próprio funcionamento da hidrelétrica. Tudo isso afetaria negativamente pelo menos 91 mil pessoas, algumas cujos antepassados vivem em territórios no entorno desse projeto há milhares de anos.
Apesar de todos esses impactos, desde 2023, o projeto já possui licença ambiental e o governo tenta avançar a toque de caixa para que as obras comecem como uma parceria Público-Privada, um modelo de investimento que permite que empresas privadas se associem ao Estado e, assim, lucrem com o projeto. A previsão do governo é de que a construção leve 6 anos e a operação comercial da hidrelétrica seja iniciada até 2032.
Para as organizações indígenas, camponesas e de defesa dos direitos humanos e da natureza que se opõem a megaprojetos de mineração ou a hidrelétricas como a de Santiago, resistir tem se tornado cada vez mais arriscado. Entre janeiro de 2024 e junho de 2026, o governo do Equador decretou mais de 25 estados de exceção, adotando um novo marco normativo que tem servido para enfraquecer o Estado de Direito.
Como costuma acontecer em muitos países latino-americanos, a justificativa oficial para esse estado de exceção tem sido o suposto combate ao crime organizado, mas a realidade é bastante diferente. Essas medidas ampliaram a capacidade do Estado de vigiar indevidamente defensoras e defensores dos direitos humanos e da natureza, intensificando a criminalização de pessoas e organizações indígenas e camponesas, a repressão violenta e a ausência de respostas estatais em termos de responsabilização e reparação às vítimas.
É necessário estar atento ao que está acontecendo no Equador: sob o silêncio forçado imposto pelo Estado, avançam projetos extrativistas e destrutivos, como a Hidrelétrica Santiago, enquanto defensoras e defensores dos direitos humanos e da natureza enfrentam graves ameaças.
Secretariado Internacional do WRM
Referência:
(1) Presentación: ”Hidroelectrica rio Santiago: ¿Destruir la naturaleza para construir vida humana?¿Hay alternativas?”, de Kashyapa A.S Yapa.
(2) Proyecto Hidroeléctrico Santiago (Phs) Con Una Potencia De 3600 Mw Estudio De Impacto Ambiental Definitivo (EIAD), Resumen Ejecutivo
(3) Idem.
(4) Mongabay, 2025. La fuente de la fuerza shuar es amenazada por una hidroeléctrica
(5) GK, 2022. La amenaza hidroeléctrica para el río Santiago