“O fogo passou por nós”: um relato do incêndio florestal no Chile

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Forest fire in Chile in 2026
Incêndio florestal no Chile em 2026 (Foto: Bastian Gygli Urrutia)

O relato a seguir nos permite sentir de perto o drama daqueles que vivem cercados por monoculturas de árvores quando veem o fogo “passando de pínus em pínus, como se fossem verdadeiros fósforos gigantes” e se aproximando de suas casas. Quem escreve é Verónica González Correa, ativista chilena que vive na comuna de Florida, na região do Biobío, centro-sul do Chile, onde há um histórico de incêndios florestais. Diretora do documentário “Chamas da desapropriação: incêndios do negócio florestal”, (1) ela vive em uma comunidade que recentemente foi vítima de incêndios florestais. Como muita gente na região, ainda não tem a dimensão exata das cicatrizes que o fogo deixou na terra onde vive e nela própria, mas sabe e explica que esses incêndios não são uma fatalidade.

Os cerca de 3 milhões de hectares de monoculturas de árvores no Chile são uma tragédia anunciada: pínus e eucaliptos são o combustível dos incêndios que se repetem periodicamente, devastando amplas áreas e deixando mortos e feridos. Esse cenário inflamável foi sendo estabelecido de forma violenta a partir da ditadura de Pinochet (1973-1990). Desde então, com apoio e financiamento do estado chileno, empresas do setor expropriaram territórios imensos e expulsaram povos indígenas e camponeses para estabelecer suas monoculturas de árvores. A maior parte dessas plantações está nas mãos de duas empresas: a Forestal Mininco, do Grupo Matte, e a Arauco, do Grupo Angelini. (2)

Foi assim, por exemplo, que o povo Mapuche da região viu seu território ser destruído e suas comunidades serem expulsas violentamente para dar lugar às monoculturas da Arauco, hoje uma das maiores empresas de celulose do mundo. Atualmente, os Mapuche lutam para recuperar parte desse território ancestral que lhes foi tomado, com o objetivo de preservar o pouco que resta de floresta intocada e de plantar para subsistência. (3)

Como Verónica deixa claro em seu relato, justamente as pequenas áreas de agricultura familiar, que resistem como ilhas em meio ao deserto verde de eucaliptos e pínus, que constituem os verdadeiros aceiros, ou seja, barreiras contra incêndios. E, se não fosse por ela ser vizinha de uma dessas áreas, pela organização comunitária para enfrentar os incêndios e por ter tecido uma rede comunitária de apoio solidária e rápida, o desfecho de sua história provavelmente teria sido outro. Fiquem com o relato.

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Na tarde de sábado, 17 de janeiro de 2026, começou o incêndio florestal na Fazenda San Lorenzo, na comuna de Florida, região do Biobío, centro-sul do Chile. Naquele dia, acordamos com a devastadora notícia da morte de 21 pessoas em decorrência de outro incêndio florestal, o de Trinitarias, o maior da temporada até então, que afetou áreas urbanas e periurbanas de Penco, Lirquén e Punta de Parra, comunas vizinhas ou muito próximas da nossa. Foram queimados 14.187 hectares, 800 casas foram destruídas e 20 mil pessoas foram danificadas. O nosso, agora, era mais um incêndio florestal que enxergávamos de casa.

No domingo, vimos o fogo avançar para o norte e passar paralelo à nossa casa, que ficava a nordeste de onde o incêndio começou. Para nossa 'sorte', do outro lado da rodovia o vento soprava de sul para norte. Já havia ocorrido um incêndio ali no ano passado, então, ingenuamente, achávamos que havia pouca biomassa disponível. Desta vez, vimos o combate aéreo ao incêndio, sentimos o calor aumentando, ouvimos o crepitar das chamas e ficamos cheios de fumaça. Mas o fogo estava ali, do outro lado. De qualquer forma, articulamos com os vizinhos um sistema de vigilância noturna por revezamento.

Naquele dia, como em muitos outros, o Sistema de Alerta de Emergência soou no telefone – uma intervenção violenta no espaço psíquico. Não é um toque de celular comum, e sim um som estridente, monótono e penetrante, que ignora se o telefone está no silencioso ou em vibração. É um bipe que acelera o pulso instantaneamente. No entanto, seu uso indiscriminado (ficou soando incessantemente por dias, devido a incêndios em outras regiões) acaba causando um pânico paralisante e uma exaustão profunda antes mesmo que o fogo chegue à porta.

Faz pouco tempo que moramos na zona rural de Florida, mas já ouvimos muitos relatos e advertências de pessoas que tiveram que defender suas casas ou as perderam em incêndios florestais, como os de 2017, 2023 e outros. Todos nos alertavam sobre a propensão da região a incêndios, pois tem 60 por cento plantados com monoculturas de árvores, verões muito quentes e pouca chuva. Vivemos na Cordilheira da Costa, então há muitas encostas e desfiladeiros. Tomando todas as precauções e ouvindo quem veio antes, conseguimos construir uma casa de barro. Temos um perímetro de 20 metros ao redor, feito de cascalho ou pequenas pedras britadas e sem árvores, bastante água disponível e equipamentos para molhar e  proteger a casa. Conseguimos priorizar a proteção da nossa morada, tanto material quanto financeiramente. Também temos parentes e amigos prontos para ajudar.

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Protection to cut fire around the house (Photo: Verónica González Correa)
Proteção para cortar o fogo ao redor da casa (Foto: Verónica González Correa)

Na segunda-feira, dia 19, o fogo mudou de direção, do norte para o sul, mas pelo leste, então estava literalmente vindo em direção à nossa casa. O acesso à propriedade era pelo norte, e tínhamos estabelecido um ponto de referência que, se fosse atingido pelo fogo, teríamos que sair ou pelo menos tirar o carro com as nossas coisas – nada de grande valor, só equipamentos de trabalho, documentos e algumas coisas que amamos e cuidamos, como as sementes da horta. Eu vi o fogo se aproximando tanto que senti pavor, a adrenalina e o estresse percorriam todo o meu corpo, as minhas pernas tremiam, e eu não aguentava mais a angústia. Ouvi e vi o rugido do fogo, o calor e o vento que ele traz. Tivemos que decidir que alguns de nós ficariam esperando o momento certo para molhar a casa. Não podia ser muito cedo, porque a água seca instantaneamente com o calor intenso. Saí para a estrada com minhas coisas e encontrei algumas famílias com seus carros carregados de pertences e animais, encorajando umas às outras. Vi bombeiros, membros da brigada com ferramentas e pessoas com tanques de água em suas caminhonetes, muito dispostas a ajudar. Também vimos o início do combate aéreo ao incêndio e a chegada de cada vez mais bombeiros, o que foi surpreendente, pois havia 12 focos de incêndio sendo combatidos simultaneamente apenas na região do Biobío. Naquele dia fomos salvos, como dissemos em conversa com as vizinhas: tivemos o privilégio de dormir em nossas próprias casas.

Na terça-feira, 20 de janeiro, os prognósticos eram desanimadores: à tarde, haveria muito vento de oeste para leste, e estava claro que não escaparíamos. Por volta das 5 da tarde, vimos o fogo se deslocar da rodovia em nossa direção. Felizmente, o vizinho cuja propriedade nos separa da rodovia é agricultor e sua terra é desmatada exclusivamente para cultivo e não possui pínus nem eucaliptos. O vizinho ao lado dele possui pínus e eucaliptos à beira da estrada, e por isso foi o ponto de entrada do fogo.

Entre o vizinho com os pínus e a nossa propriedade, existe uma divisa natural conhecida nesta zona como cárcava, um buraco ou vala profunda, de três metros em média, formada no terreno pela erosão hídrica (o impacto da água). Dizem que é resultado da superexploração do trigo no passado e, mais recentemente, do desmatamento para plantar monoculturas de árvores. A vala estava invadida por pínus gigantes, criando um tapete de acumulação histórica de acículas, que são as folhas perenes do pínus, em forma de agulha, e que, ao cair, demoram muito para se decompor devido ao seu alto teor de resinas e ceras, o que impede o crescimento de qualquer outra vegetação e deixa o solo propício à queima. A passagem do fogo pela vala cria o que é conhecido em incêndios florestais como um 'corredor de propagação vertical', já que, sendo uma depressão profunda no terreno, essa vala funciona como uma chaminé natural. O ar quente sobe com maior força, e as paredes concentram o calor, fazendo com que o fogo avance a uma velocidade explosiva, sendo ‘sugado’ para cima. Ou seja, o fogo entrou com pelo menos 30 metros de altura. Passando de pínus em pínus, como se fossem verdadeiros fósforos gigantes, uma enorme onda de fogo avançava em alta velocidade diretamente em direção à nossa propriedade. Uma cena dantesca. O fogo passou explodindo de pínus em pínus, mas bem em frente à nossa casa havia árvores nativas que não queimaram; apenas as mais próximas dos pínus sofreram.

Felizmente, com o fogo, vieram os brigadistas e nos disseram: “Tem que deixar passar; a casa de vocês não corre perigo, está isolada e molhada”. Nosso galpão, nossas árvores frutíferas e nossa horta estavam a salvo. Por rádio, conseguimos organizar a segurança dos moradores, com assistência dos brigadistas. Os parentes e amigos voltaram para controlar todos os focos de incêndio possíveis. Naquela noite, adormecemos apagando pequenas fogueiras, mas a nossa casa ainda estava lá, onde a havíamos construído.

Após o incêndio, passamos 22 dias apagando focos, com vários episódios importantes de combustão, que conseguimos controlar. O saldo do incêndio na Fazenda San Lorenzo foi de 4.300 hectares queimados, 30 casas destruídas e sabe-se lá de quantos agricultores que perderam suas plantações, pela passagem do fogo ou pela impossibilidade de irrigá-las. Ninguém na nossa região teve a casa completamente destruída, acredito que porque as nossas casas são relativamente próximas umas das outras, e a monocultura de árvores nos cerca, mas não está nas nossas terras. Porém, eu tenho certeza de que ninguém saiu completamente ileso. Minha família, nossos animais e a natureza em geral foram afetados, as cores ao nosso redor mudaram, com os diversos tons de verde substituídos por uma camada bege escuro, queimada. Ficamos devastados emocionalmente, e eu não acredito que nenhum ser humano conseguiria suportar isso todos os verões.

Agora que a emergência passou, é urgente identificar as causas e os responsáveis ​​por colocar o material combustível ali e por autorizar ou financiar o que foi feito. Porque viver rodeado por 3 milhões de hectares de pínus e eucaliptos cria as condições para que o fogo se alastre como vimos passar e arrasar tudo. A responsabilidade por isso recai principalmente sobre o estado chileno, que promoveu e financiou o modelo de plantação de árvores, e sobre duas famílias que lucraram imensamente: a família Angelini, com 1,1 milhão de hectares de plantações de pínus e eucaliptos e 50 por cento da capacidade de produção de celulose do país, e a família Matte, com 700 mil hectares de plantações de monocultura.

Não é falta de brigadistas (vimos centenas chegarem, inclusive do México), nem apenas a mudança climática, pois esta região sempre foi quente no verão; o problema é o excesso de combustível. O modelo de plantação de árvores criou uma paisagem onde a rentabilidade das empresas se baseia no risco vital para as comunidades. Quando o fogo entrou na nossa terra com chamas de 30 metros de altura, não era a 'natureza atacando', e sim o resultado de décadas de abandono de resíduos, falta de aceiros adequados e evasão da responsabilidade de empresas e do estado.

Tomamos conhecimento da Declaração das Organizações do Biobío, que é inequívoca: “A vida, a água e os territórios estão sendo devastados”. (4) Apoiamos veementemente as 15 reivindicações descritas na Declaração e chamamos a atenção para a denúncia de que “o governo tem insistido em favorecer o modelo de plantação de árvores. Um exemplo disso é o Plano de Fortalecimento Industrial do Biobío de 2024, concretizado em uma estratégia de 32 medidas para ‘acelerar’ os investimentos de e para projetos públicos e privados, de modo que sejam ‘implementados com a maior celeridade possível’. Isso inclui uma ‘estratégia para aumentar as plantações de árvores no território’. Em outras palavras, o Estado continua aprofundando o extrativismo predatório sem levar em conta a vida nesses territórios”.

Minha experiência com o vizinho agricultor em comparação com o vizinho que planta pínus demonstra que a pequena agricultura é um verdadeiro aceiro. No entanto, o modelo exerce pressão para esvaziar o campo, deixando apenas árvores para exportação. Muitas pessoas na minha região sofrem por viver aqui, e enfrentar a ameaça real a cada verão lhes rouba o desejo de viver em paz no campo.

A Fundação Keule (5) denuncia com precisão e clareza o negócio das plantações de árvores: “Se uma atividade existe para gerar lucros, ela também deve assumir integralmente os custos e riscos que gera. (...) Do ponto de vista jurídico, o princípio da responsabilidade estabelece que quem exerce uma atividade arriscada deve responder pelos danos que ela venha a causar. O princípio da prevenção nos obriga a antever e mitigar os riscos previsíveis, em vez de reagir depois que o dano já ocorreu. O princípio de que o poluidor paga (internalização das externalidades) impede transferir para a sociedade os custos de uma atividade privada. As externalidades não podem ser transferidas para a população, nem justificadas como ‘eventos inevitáveis’. Se ocorre um dano, a responsabilidade recai sobre quem projetou, gerenciou e lucrou com o sistema de produção”. Segundo essa lógica, a responsabilidade pelo incêndio que se alastrou por aquela vala repleta de pínus não é do vento, nem do azar, nem do meu vizinho, e sim de quem concebeu essa paisagem visando o lucro e não a vida. Exigir que arquem com os custos não é apenas uma reivindicação econômica; é o direito fundamental de não viver em constante medo sempre que faz muito calor.

Vinte e dois dias depois, ainda estávamos apagando incêndios. Mas quem apaga o medo? O artigo intitulado “O luto invisível após o incêndio: saúde mental em meio à crise dos incêndios no Chile” trata sobre esse tema. (6) É esse esgotamento de não conseguir dormir, de olhar para o vento com desconfiança, de saber que o seu refúgio – sua casa, suas árvores frutíferas – fica por um fio a cada verão. Esse trauma não é individual; é um dano socioterritorial. Fomos forçados a viver em um corredor de incêndios. O luto não é apenas pelas casas queimadas ou pelas pessoas que morreram em Lirquén e Penco, não é só pela solastalgia (dor crônica causada pela destruição da paisagem familiar e cotidiana), mas também pela perda da biodiversidade, da água que não corre mais pelos riachos e da paz de espírito que o extrativismo nos roubou.

Depois que o fogo passar, o caminho continua sendo a organização comunitária e a ação sobre a paisagem. Não esperaremos por soluções daqueles que planejaram o desastre; hoje, avançamos na gestão de nossas terras por meio de ferramentas como a criação estratégica de cabras (7) e a implementação de mais obras de conservação de águas e solos, transformando biomassa em vida, em vez de combustível. Não há mais necessidade de convencer o vizinho sobre os perigos de suas plantações; a evidência ficou gravada na terra. Para ele, e para todos e todas, ficou claro que vivemos em um barril de pólvora que só precisava de uma faísca para explodir. Nossa resposta é e será a reconstrução comunitária de um território habitável.

Verónica González Correa é chilena. Há 15 anos, participa de diversos projetos socioambientais; trabalhou junto a comunidades locais e povos originários na defesa de territórios e ecossistemas. É diretora do documentário “Llamas del despojo”, entre outros.
 

Referências:
    (1) Resumen TV, 2022. Llamas del Despojo: Incendios del Negocio Forestal
    (2) WRM, 2018. Chile: megaincêndios florestais, crimes empresariais e impunidade
    (3) WRM, 2023. Chile: Resistência ao modelo florestal em Wallmapu, território mapuche 
    (4) Organizations from the Biobío region, 2026. La vida, el agua y los territorios están siendo devastados 
    (5) A Fundação Keule é uma organização que atua na região centro-sul do Chile, dedicada à proteção do ecossistema e de espécies ameaçadas de extinção, como a árvore Queule (Gomortega keule), que é um Monumento Natural. 
    (6) Revista Resumen, 2026. El duelo invisible tras el fuego: salud mental en medio de la crisis de los incendios en Chile
    (7) Buena Cabra. Prevención ecológica de incendios forestales