O Mato Grosso do Sul, estado brasileiro em que 83 por cento das propriedades privadas são latifúndios, o maior índice do país, (1) vem sendo projetado como vitrine do setor da celulose. Nessa região de Cerrado – bioma conhecido por ser a ‘caixa d’água’ das bacias hidrográficas do país e por sua rica biodiversidade – a monocultura de eucalipto avança rapidamente. A cidade de Três Lagoas foi elevada ao título de 'capital mundial' da celulose. A região leste do estado, por sua vez, passou a ser promovida, inclusive na legislação, como o 'Vale da Celulose', (2) que inclui principalmente os municípios de Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas, Água Clara, Brasilândia e Selvíria. Juntos, esses municípios somam quase 1,5 milhões de hectares de monoculturas de eucalipto, que servem aos interesses de quatro corporações internacionais: Suzano, Eldorado, Bracell e Arauco. (3)
O discurso é sedutor: emprego, modernização e desenvolvimento. Mas, para além do marketing, a realidade impõe perguntas incômodas.
O que se observa é uma forte concentração de investimentos voltada, principalmente, ao atendimento de uma demanda externa, em grande medida criada pelas próprias empresas. (4) Em contrapartida, muitos resultados em termos do dito ‘desenvolvimento local’ são ignorados pelo discurso disseminado de promoção do progresso. Persistem, nos municípios do 'Vale da Celulose', problemas estruturais como insegurança alimentar, crise hídrica e deficiências em saneamento básico, educação, habitação e infraestrutura urbana. (5)
Somam-se a isso impactos sociais e ambientais que nos obrigam a perguntar: a quem está servindo esse modelo de monocultivos e de indústria, que se empenha em se autopromover e esconde o fato de que gera concentração de terras, aumenta a concentração de renda, seca nascentes, diminui a biodiversidade e expulsa agricultores do campo? Ganhos para quem e para quê? Para investidores do mercado internacional, sem dúvida.
As obras, as indústrias: quem ganha e quem perde?
Os municípios selecionados para instalação das unidades de processamento de celulose, desde a implementação da primeira fábrica — a Fibria, atual Suzano, em 2006 — foram conquistados pelas expectativas de aumento do PIB e de melhorias para suas populações. A realidade, porém, mostrou-se bem diferente. (6) Entre 2006 e 2012, o crescimento populacional abrupto, impulsionado pela construção das fábricas da Fibria (2006) e da Eldorado (2009) levou diversas reportagens a apelidarem Três Lagoas de 'cidade dos alojamentos', (7) mostrando as condições de trabalho precário, volátil e instável no complexo celulose-papel. A especulação imobiliária impulsionada pela alta demanda por moradia dos que chegavam para trabalhar nas fábricas, levou os aluguéis da região a valores próximos aos de grandes capitais, dificultando a permanência da população local. (8) Esse crescimento populacional, aliado à expansão das atividades de produção de eucalipto e de processamento de celulose, engendrou um colapso nos serviços de saúde e transporte. A BR-262 passou a ser conhecida como 'rodovia da morte', em razão dos graves acidentes, muitos deles com vítimas fatais, provocados pelo intenso fluxo de carretas e pela demora na duplicação da via.
Os governantes afirmam ter aprendido com os erros, mas, quase duas décadas depois, a situação não é muito diferente. A construção da terceira linha de produção da Suzano, no município de Ribas do Rio Pardo, a partir de 2021, reproduziu problemas já conhecidos pelo aumento populacional vertiginoso: sistema de saúde sobrecarregado, disparada dos aluguéis e aumento no preço dos alimentos.
Com a entrada da fábrica em operação, em 2024, o canteiro de obras e seus problemas apenas mudaram de endereço, pois no mesmo ano a papeleira chilena, a Arauco, passou a erguer, no município de Inocência, o que promete que será a maior fábrica de celulose do mundo. E os canteiros de obras já avançam também para o município de Bataguassu, onde outra papeleira de capital estrangeiro, a Bracell, obteve licenciamento ambiental em 2025, em tempo recorde, para mais uma planta industrial.
O afrouxamento da legislação ambiental para plantações de eucalipto, vigente no estado do MS desde 2007 (9) e recentemente expandido para todo o país pela lei da 'boiada do eucalipto' (Lei nº 14.876/2024) (10) favoreceu diretamente as papeleiras instaladas no chamado 'Vale da Celulose', ao excluir as monoculturas do rol de atividades poluidoras. Trata-se do resultado direto do lobby corporativo na formulação de políticas públicas, beneficiando grandes empresas em detrimento de comunidades locais e da proteção das águas, solo e biodiversidade
Enquanto isso, no campo, os plantios de eucalipto avançam e dominam a paisagem. Fecham horizontes e cercam os poucos núcleos camponeses que ainda produzem alimentos em uma região historicamente marcada pelo latifúndio. A reforma agrária, já limitada, sofre pressão crescente, com os assentamentos de famílias camponesas vivendo situações de isolamento, asfixiados pelos ‘paredões verdes’. É raro encontrar quem consiga escapar do eucalipto como vizinho.
Mas, os impactos estão longe de ser apenas visuais. Agrotóxicos das monoculturas frequentemente atingem hortas, pomares e quintais, comprometendo o sustento de famílias camponesas, muitas vezes baseado na produção agroecológica. Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente (APP), que pela legislação brasileira deveriam estar livres dos efeitos das monoculturas, tampouco são poupadas. Os venenos utilizados pelas empresas de produção de eucalipto contaminam espécies endêmicas do Cerrado e afetam a fauna que ali vive e se reproduz.
As abelhas estão entre as mais impactadas, com registros frequentes de mortandade. A recente denúncia de um apicultor da região é uma pequena mostra disso. Em vídeo divulgado pelo WRM e gravado em dezembro de 2025, o apicultor mostra que as abelhas de suas 20 colmeias estavam quase todas mortas depois da aplicação irregular do veneno fipronil, pela empresa Suzano, sobre árvores nativas em época de floração, como os camboatás mostrados no vídeo. Trata-se de um crime ambiental expressamente endereçado pelo principal órgão ambiental brasileiro, o IBAMA. (11) Segundo o apicultor, a Suzano pediu que ele calculasse o prejuízo, ao que ele respondeu: “Não, eu não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. [Seria] uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo”.
Além dos prejuízos aos apicultores, isso ameaça o próprio Cerrado e sua biodiversidade, que depende dos polinizadores — sem eles, muitas espécies deixam de se reproduzir. A fauna silvestre, privada de alimento nos reduzidos fragmentos de vegetação nativa, busca sustento nas áreas camponesas, agravando as dificuldades da produção agrícola. É praticamente impossível encontrar alguma comunidade que conviva com a expansão do deserto de eucaliptos em que agricultores não relatem o aumento de insetos-praga e de animais invadindo suas hortas e roças. Assim, o sonho de viver e produzir da própria terra torna-se cada vez mais inviável.
Para quem convive diariamente com os monocultivos, a lógica do capital é evidente. O setor investe pesadamente em uma narrativa verde: a de que planta 'florestas' sustentáveis, tentando convencer a sociedade de que atua em nome do bem comum. Mas, quem vive no Cerrado sabe que monocultivo de eucalipto não é floresta. Florestas significam diversidade, equilíbrio e vida. Não exigem uso e agrotóxicos, não expulsam animais nem comunidades rurais.
A tentativa de maquiar os impactos não apaga a realidade: trata-se da exploração intensiva de terras consideradas 'disponíveis', impulsionada por uma demanda fomentada em grande parte pelo lobby das próprias empresas. Terra e água, tratadas como recursos abundantes, são sugadas em ritmo acelerado.
As consequências já são sentidas. Comunidades rurais relatam poços e nascentes secando, açudes e córregos com níveis drasticamente reduzidos - em pleno Cerrado, conhecido como o 'berço das águas' do país. Somente no município de Selvíria, que conta com mais de 100 mil hectares de eucalipto, a prefeitura identificou mais de 350 nascentes que precisam de recuperação devido à redução na infiltração da água no solo e ao consumo excessivo de água pelas monoculturas em expansão. (12) Ainda que defensores do setor neguem relações de causa e efeito, o eucalipto está associado à drenagem de áreas úmidas em diversas partes do mundo. Publicações científicas, além da experiência vivida pelas próprias comunidades afetadas, comprovam tal associação. (13) Também não é irrelevante que o próprio setor busque variedades menos consumidoras de água.
Nesse contexto, permanecer na terra, resistir e sobreviver tornam-se desafios cotidianos. Ainda assim, os povos do campo persistem e resistem contra o expansionismo do eucalipto-celulose e da sua lógica do campo sem gente.
É nesse âmbito que criamos o Fórum de Enfrentamento aos Impactos do Eucalipto, no inverno de 2024, (14) que reúne camponeses, acadêmicos, sociedade civil e pessoas preocupadas com essa realidade, a fim de compartilhar e levar a público os impactos que o eucalipto provoca no Cerrado, no cotidiano de toda a região Leste de MS. O Fórum também se propõe a construir coletivamente estratégias de denúncia e mobilização social, dando visibilidade às contradições e consequências ocultadas pelo discurso de desenvolvimento associado ao chamado 'Vale da Celulose'.
Fórum de Enfrentamento aos Impactos do Eucalipto
Referências:
(1) Brasil de Fato, 2017. 83% dos terrenos privados do Mato Grosso do Sul são latifúndios.
(2) O título de Capital Mundial da Celulose foi conferido ao município de Três Lagoas (MS) por meio da Lei Estadual nº 4.336/2013. Posteriormente, o município recebeu também o título de Capital Nacional da Celulose, instituído pela Lei Federal nº 14.142/2021. Em maio de 2025, a Lei Estadual nº 6.404/2025 oficializou a denominação “Vale da Celulose” para a região de Três Lagoas e municípios vizinhos, como Ribas do Rio Pardo e Inocência.
(3) O estado do Mato Grosso do Sul é o maior complexo industrial de celulose no Brasil, já que é lá onde estão as maiores indústrias do setor. Mas Minas Gerias ainda é o estado com maior área plantada de monocultura de celulose: são mais de 2 milhões de hectares.
(4) WRM, 2025. Quem precisa de mais papel e celulose?
(5) AgFeed, 2023. Projeto de R$ 22 bi da Suzano faz cidade do MS explodir no bom e no mau sentido;
Campo Grande News, 2025. Inocência tem explosão nos preços e aluguel da quitinete já custa R$ 3.500 ;
Campo Grande News, 2025. Prostituição segue dinheiro da celulose e migra de Ribas para a pacata Inocência
(6) Mongabay, 2025. Fábrica de celulose com histórico de contaminação se instala em área prioritária para conservação do Cerrado
(7) Jornal do Trabalho, 2012. O trabalho precário, volátil e instável no complexo celulose-papel em três lagoas (MS)
(8) Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros, 2019. A especulação imobiliária versus o acesso à habitação: temos que fazer a luta pela terra, a luta pela moradia;
Campo Grande News, 2013. Para driblar aluguel "astronômico", Três Lagoas vive boom imobiliário, Pelos quatro cantos, outdoors propagandeiam imóveis e terrenos para todos os gostos e bolsos ;
Midiamax, 2011. Explosão imobiliária torna o aluguel de imóvel em Três Lagoas o mais caro de MS.
(9) Resolução SEMAC Nº 17 DE 20/09/2007.
(10) Agência Pública, 2024. “Boiada do eucalipto”: ambientalistas apontam lobby em lei que facilitou silvicultura
(11) O IBAMA chegou até mesmo a determinar que as empresas de veneno incluíssem a seguinte frase no rótulo do produto: “Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental.” Veja mais aqui.
(12) Prefeitura de Selvíria, 2025. Estudo revela impacto ambiental do eucalipto em assentamentos
(13) WRM, 2016. Impactos das plantações industriais de árvores sobre a água - Testemunhos locais e estudos científicos que desmentem as empresas
(14) Fórum de Enfrentamento aos Impactos do Eucalipto, 2024. Carta política do fórum de enfrentamento aos impactos do eucalipto