Quênia: os Sengwer, uma cultura tradicional à beira da extinção

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Os Sengwer, uma cultura tradicional de colhedores, caçadores e apicultores, são um grupo étnico indígena, do vale Rift do Quênia, que costumava viver em pequenos grupos espalhados por grandes áreas nas chapadas de Kapchepkoilel (Trans Nzoia) e parte de Uasin Gishu.

No início do século XX, chegaram os europeus e ocuparam esses territórios. Os Sengwer não sabiam que a terra deles tinha sido dividida pelo governo colonial e entregue aos colonos a partir de 1911. Por volta de 1930, os europeus já estavam bem estabelecidos e começaram a afugentar os Sengwer e outros grupos étnicos, chegando, até, a queimar suas casas. Aos poucos, os Sengwer começaram a entender a situação, mas já era tarde demais. Viram-se confinados nas florestas de Cherangany, fonte de numerosos arroios, mananciais e rios, alguns desembocando no rio Nilo e outros no lago Turkana. No entanto, foram privados de todo direito à terra.

Quando da independência, no ano 1963, os Sengwer acharam que iriam recuperar as suas terras, mas começou a assimilação, as práticas culturais foram influenciadas e a situação sócioeconômica dos Sengwer não melhorou, como aconteceu com outros grupos étnicos. Por esse motivo, para os Sengwer, não houve diferença nenhuma entre o governo colonial e o governo do Quênia.

A perda das terras ancestrais forçou eles a abandonar muitos dos seus costumes e formas de sustento e a participar numa economia que os discrimina sistematicamente. Trinta e nove anos depois do Quênia ter-se tornado independente, os Sengwer ainda lutam pelo reconhecimento legal do governo e são um dos grupos étnicos mais marginalizados do Quênia. Estão à beira da extinção. A sua população é de aproximadamente 60 mil habitantes, sendo que muitos deles foram assimilados por outras comunidades da região e apenas 5 mil continuam habitando seu território original, na floresta Embobut, em Marakwet. Ao perder suas terras, os Sengwer não só perderam um lugar onde morar, mas, também, um lugar do qual a comunidade se beneficiava, caçando, colhendo frutos e raízes e cultivando plantas e ervas com valor medicinal.

Os Sengwer têm escassa ou nenhuma representação no governo local e nacional, e não foram favorecidos pelas políticas de restituição de terras das últimas décadas. O governo apossou-se de parte do território ancestral Sengwer, transformando uma parte dele em Áreas de Chá, sem o consentimento da comunidade. Por outro lado, a comunidade não recebe benefício nenhum, não fica com nenhuma percentagem do produzido nem recebeu compensação alguma. Além disso, eles têm que suportar a falta de respeito do governo para com a sua identidade, nas recomendações oficiais que estabelecem que as comunidades pequenas devem ser fusionadas e assimiladas pelas de maior tamanho.

David Yator Kiptum, coordenador executivo do Projeto de Desenvolvimento Indígena Sengwer (Sengwer Indigenous Development Project - SIDP), uma organização sem fins lucrativos dedicada à defesa e promoção dos direitos dos Sengwer, pinta um panorama alarmante das dificuldades desse povo: "Somos discriminados em todos os projetos de desenvolvimento, recrutamento para escolas de capacitação, emprego, e a terra ancestral que nos foi tirada no período colonial, a partir desse momento, foi entregue a integrantes de outras comunidades, funcionários públicos, políticos, etc., sem levar em conta o nosso povo".

O SIDP tem uma agenda ampla, voltada para a aprovação de "projetos rentáveis e sustentáveis que melhorem a educação, a situação sócioeconômica, a saúde familiar e os direitos humanos (por exemplo, a luta contra a violência doméstica contra a mulher e contra a violência doméstica em geral)" e para "a defesa, preservação e revitalização da língua, da cultura, das tradições, do meio ambiente e do conhecimento sobre cura com ervas dos Sengwer".

Artigo baseado em informação enviada por David Yator Kiptum, Sengwer Indigenous Development Project, correio eletrônico: sengwer.idp@africaonline.co.ke , sítio Web: http://www.multimania.com/sengwer ; "The Sengwer Indigenous Peoples of Kenya", http://membres.lycos.fr/sengwer/