Em tempos de militarização e guerras

A violência como forma de fazer política é um elemento central na dominação dos povos do Sul global desde os processos de colonização. Até hoje, estes povos enfrentam guerras, militarização e violência que, na maioria das vezes, são ignoradas e invisibilizadas pela mídia global hegemônica.

Dito isso, o que chama a atenção neste momento é como governos imperialistas, com os Estados Unidos à frente, buscam normalizar, cada vez mais, guerras, militarização de territórios, intervenções em outros países, genocídios, embargos, bloqueios, sanções e assim por diante. Essas ações violentas são quase sempre articuladas com corporações que diretamente lucram com isso, como a indústria bélica e a petrolífera.

O petróleo tem sido uma das peças-chave que faz mover as peças desses tabuleiros bélicos. Primeiro, pelo simples motivo de que toda a maquinaria que move as guerras e a ocupação militar de territórios depende dessa fonte de energia para funcionar. Mas, sobretudo, porque o acesso e o controle sobre reservas de petróleo impulsionam guerras, sem dizer que impedir o acesso a petróleo tem sido usado como violenta estratégia política de pressão.  

Falar de crise climática poderia parecer algo menor diante desse cenário, mas não é. Não só porque a queima do petróleo é o que mais acelera o aquecimento global, mas também pela relevância do petróleo para o capitalismo. A atual ideia de energia como uma mercadoria produzida e controlada de forma centralizada por grandes corporações foi criada pelos próprios capitalistas, e o petróleo, como fonte principal de energia, tem sido decisivo para que acumulem ainda mais dinheiro e poder. (1) Na busca por controlar recursos estratégicos como o petróleo, governos imperialistas articulados com corporações, provocam violência e guerras, ao mesmo tempo em que provocam caos climático e crise ecológica, com a destruição das florestas e dos povos que delas vivem e cuidam. 

Chama atenção também a masculinidade dos governos que tem espalhado guerras, militarização e terror pelo mundo. Além de serem comandados por homens, quase sempre brancos, a forma como exercem a política é uma das principais características do patriarcado: a violência. Vale ressaltar que entre as principais vítimas desse sistema e de suas guerras estão as mulheres e as crianças: elas que mais enfrentam violência, abuso sexual, destruição das condições básicas para exercer o importante papel do cuidado, que quase sempre recai sobre as mulheres. 

Nos solidarizamos com todos os povos, especialmente mulheres e crianças, que resistem como podem contra toda essa violência. Ao mesmo tempo, enfatizamos que o enfrentamento à crise climática implica questionar e transformar a lógica de acumulação do sistema capitalista e as estruturas de dominação do patriarcado que se retroalimentam de guerras, de militarização e da exploração destrutiva de corpos e territórios.  

Em um momento em que acabamos de lembrar e celebrar a luta das mulheres pelo Dia Internacional da Mulher, reiteramos nossa solidariedade com as lutas feministas coletivas que defendem a vida e que abrem caminhos para transformar as estruturas de poder que violentam corpos e territórios e destroem as condições de vida.  

  

Referências:
    (1) WRM, 2025. A matriz do problema: precisamos falar de energia

Da mineração de níquel ao comércio de carbono: ameaças crescentes e lutas de resistência de comunidades de mangue na Indonésia

Criado em 1987, o conceito de desenvolvimento sustentável se baseia na ideia de que o desenvolvimento poderia atender às necessidades humanas sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas. No entanto, os últimos 40 anos revelaram o caráter antropocêntrico e capitalista do 'desenvolvimento sustentável’. Além disso, o capitalismo e sua constante necessidade de expansão têm levado a muito mais destruição. Tem sido o caso da Indonésia, com uma economia baseada no modelo extrativista, comprometendo o futuro de muitas comunidades locais.

Nos últimos anos, o extrativismo avançou especialmente em direção às regiões costeiras, aos oceanos e às pequenas ilhas do arquipélago. As principais ameaças a essas áreas vulneráveis ​​incluem a mineração de níquel, terras raras, areias ferríferas e estanho, a construção de fundições para processamento de minerais e metais e de novos portos voltados à exportação, a expansão da indústria de energia com usinas termelétricas (a gás e a vapor), hidrelétricas e geotérmicas. Incluem também a construção de mais infraestrutura, como rodovias com pedágio, a criação de 'novas terras' ou a apropriação de ilhas por meio de planos de reklamasi, ou seja, a apropriação de espaço para interesses e benefícios privados e públicos, como o turismo empresarial, a construção de um gigantesco muro de contenção ao longo da costa norte de Java, e a indústria da aquicultura para criação de peixes e camarões em grande escala. Muitos desses projetos, se não todos, são chamados de ‘desenvolvimento sustentável’ e ‘econômico’, e alguns, mais recentemente, propagados como contribuições à energia limpa, como a mineração de níquel para baterias de veículos elétricos.

Esses empreendimentos reduziram significativamente a área de manguezais na Indonésia, sacrificando os meios de subsistência das comunidades pesqueiras tradicionais. Essas comunidades enfrentam ainda outra ameaça: o atual estímulo a projetos de carbono em manguezais, supostamente para restaurar áreas já perdidas ou gravemente degradadas.

Manguezais na Indonésia

Em 2020, segundo a plataforma Global Mangrove Watch (GMW), a Indonésia possuía 3.092.376 hectares de mangue, o que representa 21 por cento da área total de manguezais no mundo. O Sudeste Asiático é a região com a maior área (33,6 por cento) em nível global, seguido por África Ocidental e Central (15,5 por cento), América do Norte e Central, e Caribe (14,4 por cento) e América do Sul (13,2 por cento).

De muitas maneiras, a vida e os meios de subsistência das comunidades costeiras na Indonésia estão intrinsecamente ligados aos manguezais, que lhes garantem alimentos, medicamentos, materiais de construção e outros benefícios. Isso se aplica especialmente às mulheres, cujo fardo aumenta de forma desproporcional quando os manguezais são destruídos. Por essa razão, elas costumam estar na linha de frente tanto das lutas de resistência contra a apropriação de áreas costeiras quanto dos esforços para restaurar os manguezais. (1)

Os manguezais cumprem um papel muito importante na proteção das áreas costeiras contra os efeitos das mudanças climáticas. Um exemplo é o tsunami que atingiu o Sudeste Asiático em 2004. Em Simeulue, província indonésia de Aceh, e no sul da Tailândia, os moradores foram poupados graças à presença de mangues, que se revelaram uma eficaz barreira natural para reduzir as ondas do tsunami. (2) O papel dos manguezais na proteção das comunidades pesqueiras também ficou evidente em setembro de 2018, quando um tsunami atingiu a Baía de Palu, na província de Sulawesi Central. (3)

No entanto, os manguezais ainda não são totalmente reconhecidos, e muito menos os direitos das comunidades que vivem junto a eles. Embora o Mapa Nacional de Manguezais da Indonésia indique sua presença em todas as 38 províncias, apenas 12 dos 28 governos provinciais que adotaram regulamentações sobre o zoneamento de áreas costeiras reconhecem a existência de mangues, totalizando 60.670 hectares. Enquanto isso, as 16 províncias restantes sequer os mencionam, colocando-os ainda mais em risco. (4)

As ameaças das indústrias extrativas: mineração de níquel

Na Indonésia, a destruição de manguezais se deve principalmente à expansão da aquicultura e da agricultura em grande escala, como o cultivo industrial de dendê, (5) ao desenvolvimento de infraestruturas e à mineração e à extração de minerais e metais, tudo com o apoio integral do governo. Destaca-se o crescimento extremamente rápido da mineração de níquel nos últimos anos.

As indústrias extrativas têm um longo histórico de degradação e destruição de manguezais. Um exemplo é a extração de petróleo em alto-mar na Indonésia. Durante o derramamento na Baía de Balikpapan, em 2018, em Kalimantan Ocidental, o petróleo, carregado pelo ir e vir das marés, acumulou-se nas raízes dos manguezais, causando a morte de inúmeras árvores. Essas raízes são extremamente sensíveis a depósitos de petróleo, e a recuperação das áreas contaminadas é uma tarefa praticamente impossível para as comunidades locais.

Atualmente, a mineração de níquel, concentrada no leste da Indonésia, passou a ser uma ameaça para as comunidades pesqueiras. Em poucos anos, o país se tornou o maior produtor mundial de níquel. Enquanto sua contribuição para a produção global era de 30,72 por cento em 2020, em 2024, essa participação já ultrapassou a metade: 62,26 por cento. (6) Os impactos devastadores, como o desmatamento de manguezais e a contaminação da água com materiais tóxicos, não se limitam apenas às atividades de mineração, e são ainda mais graves devido ao desenvolvimento de infraestruturas e instalações relacionadas, como a construção de fundições para processamento e refino de minério bruto, que geram impactos semelhantes. (7)

O próprio governo está impulsionando ainda mais a destruição em grande escala devido à sua chamada política de 'hilirisasi', que visa estimular o beneficiamento nacional de matérias-primas extraídas no país – por exemplo, a construção de fundições no caso da mineração de níquel – com o argumento de que agregaria valor internamente. (8)

A ameaça dos projetos de carbono em manguezais

O fato de a Indonésia abrigar 21 por cento da área total de manguezais do mundo confere ao seu governo uma responsabilidade especial de liderar a luta por sua conservação e também pela restauração do que foi destruído como resultado direto de suas próprias políticas. Porém, como mencionado anteriormente, a tendência atual é a continuidade e a intensificação da apropriação de terras e oceanos em grandes quantidades, em benefício de interesses empresariais. 

Apesar disso, nos últimos anos, atores públicos e privados têm pressionado cada vez mais pela conservação de manguezais, principalmente em Sumatra, Kalimantan e Sulawesi. Esses atores alegam que seus projetos e programas de 'carbono de mangue' ajudarão a restaurar manguezais destruídos e degradados. Porém, em vez de uma preocupação genuína com isso e com as comunidades que dependem dos manguezais, o que parece motivar esses atores é a oportunidade de comercializar carbono com base em áreas de mangue. Na verdade, seus documentos e suas declarações enfatizam a extraordinária capacidade dos manguezais para armazenar carbono, que, segundo estudos, é várias vezes maior do que a das florestas terrestres.

Essa tendência crescente no sentido de iniciativas de carbono em florestas de mangue ignora o completo fracasso de quase 20 anos de experiência em mitigação das mudanças climáticas com a compensação de carbono florestal por meio dos chamados programas e projetos de REDD. (9) As empresas que compram créditos de carbono de projetos de REDD continuam queimando combustíveis fósseis e acelerando ainda mais as mudanças climáticas. Além disso, os projetos de REDD nunca enfrentaram as causas estruturais do desmatamento e  têm sido marcados por escândalos relacionados a fraudes nos cálculos e superestimação dos chamados benefícios do carbono.

No entanto, os projetos de carbono florestal não fracassaram para todos. Eles são uma maneira barata para que empresas poluidoras possam alegar ser 'neutras em carbono', e grandes ONGs, governos, consultorias e empresas estão lucrando com esse negócio. Por exemplo, o Banco Mundial aprovou um empréstimo de 419 milhões de dólares para o governo indonésio em 2022, com o objetivo de apoiar seu plano de restaurar 600 mil hectares de manguezais no país, com foco em quatro províncias: Riau, Sumatra do Norte, Kalimantan Oriental e Kalimantan do Norte. (10) Grande parte dos documentos do projeto é dedicada a cálculos de carbono. O próprio Ministério do Meio Ambiente da Indonésia afirma que a reabilitação de manguezais é uma oportunidade para iniciativas de compensação e comercialização de carbono. (11)

Em Kalimantan Oriental, o programa do Banco Mundial pretende restaurar 15 mil hectares de mangue. Em 2025, o WRM conversou com um piscicultor (12) do distrito de Kutai Kartanegara, que trabalhava no projeto. Em 2023, ele e outros moradores aceitaram participar, na esperança de melhoras na produção de peixes, que estava em declínio. A principal atividade foi o plantio de um único tipo de árvore – a rizófora – para criar um sistema de silvopiscicultura nos viveiros de peixes. Ele recebeu apoio financeiro para plantar e manter as árvores durante três anos.

O piscicultor fez observações críticas sobre o projeto do Banco Mundial. Em primeiro lugar, reclamou que se tratava de um projeto imposto de cima para baixo – por exemplo, os moradores locais não foram consultados sobre as atividades. Ele afirma ter proposto outro método para restaurar o mangue, baseado em sua preocupação com a necessidade de lhe restituir a função de barreira natural à contaminação da água por indústrias extrativas, principalmente a extração de petróleo e carvão transportados pelo rio e pelo mar próximos. Ele também plantaria mais tipos de árvores, não apenas uma, e mencionou que muitas morreram devido a uma doença.

A morte de árvores plantadas também parece ser o que aconteceu em um dos primeiros projetos privados voluntários de carbono em manguezais na Indonésia: o Livelihoods Fund Project, localizado na costa leste das províncias de Aceh e Sumatra do Norte. Esse projeto afirma ter reconstruído uma barreira natural de mangue de 5 mil hectares, com a plantação de 18 milhões de mudas entre 2011 e 2014. (13) O que chama a atenção na propaganda do projeto, elaborado pela Fundação Yagasu, além de slogans como '20 mil pessoas impactadas', é a provável superestimação dos créditos de carbono gerados. Uma comparação entre imagens de satélite de 2009 e 2024 de mais de 450 'lotes de plantio' mostrou que menos de 30 por cento da área do projeto tinham manguezais em 2024. (14)

Enquanto enfrentam os impactos da extração de petróleo fóssil e a atual onda de projetos de carbono em manguezais, as comunidades costeiras indonésias também estão entre as que mais sofrem com as mudanças climáticas. Exemplos disso são a redução dos períodos de pesca e a crescente tendência a desastres naturais. (15) E os projetos de carbono nos manguezais pouco contribuem para a mitigação das mudanças climáticas, visto que as empresas que os apoiam usam o argumento para se tornar 'neutras em carbono', enquanto continuam queimando petróleo fóssil e emitindo mais dióxido de carbono na atmosfera. A disparidade entre essas falsas afirmações sobre a capacidade das árvores plantadas para mitigar a crise climática e a realidade  se torna ainda pior quando as árvores plantadas para armazenar carbono morrem. (16)

A experiência da comunidade de Tiwoho: cultivar manguezais sem plantar

A vila de Tiwoho está localizada no Parque Nacional Marinho de Bunaken, na província de Sulawesi do Norte. O manguezal dessa área foi destruído em 1991 para a criação de viveiros comerciais de camarão. A Agência de Recuperação de Terras (BRLKT), um órgão do Ministério das Florestas na época, facilitou o desmatamento de cerca de 20 hectares de mangue, apesar de supostamente ser uma área de conservação devido ao seu alto nível de biodiversidade. (17)

Mas a empresa operou a instalação de aquicultura por apenas seis meses antes de falir. Depois disso, abandonou a infraestrutura da fazenda de camarão, deixando uma paisagem aquática degradada atrás de diques que interrompiam a conexão natural entre a terra e o mar, impedindo que as marés renovem a água.

Entre 1995 e 2004, o Ministério das Florestas tentou reflorestar a área de 20 hectares dos viveiros abandonados. A abordagem adotada foi um exemplo clássico de silvicultura convencional, com seis a sete plantios diferentes durante um período de nove anos. A causa principal do fracasso foi negligenciar a importância dessa renovação da água pelas marés e não fazer qualquer esforço para solucionar o problema, seja rompendo os diques ou reparando o sistema de drenagem obstruído.

Em outubro de 2003, ocorreu uma virada, quando os moradores se reuniram nos planos de lama do ecossistema que ficou depois da fazenda de camarão. (18) Primeiro, destruíram os diques que bloqueavam a circulação da água do mar na área. Como resultado, as ondas do oceano passaram a banhar periodicamente a terra, trazendo sementes e mudas de mangue, nutrientes dissolvidos e material sedimentar em suspensão, essencial para o acúmulo de terra. Em segundo lugar, reabilitaram os canais de drenagem construídos anteriormente para drenar o viveiro, a fim de restaurar o tempo natural de retenção de água na área e evitar que o ecossistema sofresse secas extremas durante o ciclo de maré baixa (maré de quadratura).

Em seguida, foi escavada uma rede de pequenos canais sinuosos que simulam um estuário natural e distribuem o fluxo de água para a zona terrestre. Depois disso, o próprio viveiro foi reabastecido com água para facilitar a colonização do manguezal, evitando que as mudas afundassem abaixo de um certo nível de água na maré alta. (19) Além disso, os moradores da comunidade concordaram em replantar periodicamente os propágulos de mangue costeiros que coletam espalhados pelo solo do manguezal.

Como resultado, centenas de famílias da vila de Tiwoho agora podem coletar produtos de pescarias rasas, como caranguejos, e obter materiais para medicamentos fitoterápicos. Elas também transformaram a área de mangue recuperada em um centro de ecoturismo (KGK).

A experiência da comunidade Kinamang: restaurando a soberania por meio da restauração de recifes de coral e manguezais

Para os pescadores da vila de Kinamang, em Manado, em Sulawesi do Norte, o plantio de manguezais é muito mais do que uma questão de conservação; é seu meio de sobrevivência. Diante do avanço do desenvolvimento que gradualmente tomou e destruiu os recifes de coral e suas áreas de pesca, a comunidade resistiu, restaurando seu espaço vital.

Sua experiência de restauração comunitária começou em 2019, quando o governo planejou construir infraestrutura de proteção costeira para 'quebrar' as ondas fortes antes que atingissem a costa. Mas a comunidade protestou porque a infraestrutura ameaçava deslocar seus ancoradouros, e os moradores pressionaram o governo para que ela fosse feita mais para dentro do mar.

A estratégia deles funcionou, e o governo construiu o quebra-mar mais afastado, criando uma área de águas 'calmas' entre ele e a costa. Além de garantir uma zona segura para ancorar seus barcos, a comunidade, por meio do fórum dos pescadores costeiros de Kinamang, discutiu e organizou uma estratégia dupla. (20) Primeiro, eles 'lidaram com o mar', restaurando recifes de coral e criando uma 'linha de frente', tendo percebido que o coral é o 'lar' dos peixes, a espinha dorsal de sua economia. Com a restauração dos recifes, as espécies de peixes, muitas das quais haviam desaparecido, voltaram para casa, e as pessoas também perceberam que estavam indiretamente recuperando suas áreas de pesca tradicionais. Em segundo lugar, a comunidade de Kinamang 'lidou com a orla marítima', a área logo atrás dos recifes de coral. Eles restauraram o manguezal plantando espécies com raízes profundas como proteção contra a erosão.

Embora as estruturas dos recifes tenham sido destruídas por tempestades e as ondas do mar tenham levado as jovens mudas de mangue mais de uma vez, o povo de Kinamang não tinha a opção de desistir, de forma que inventou e construiu mais estruturas de proteção visando dar tempo para que manguezais e corais crescessem e criassem raízes no fundo do mar. Após seis anos, os esforços finalmente deram resultado. Os manguezais, inicialmente frágeis, transformaram-se em um cinturão verde exuberante e robusto. As raízes entrelaçadas asseguravam e reforçavam a soberania de Kinamang contra as ameaças de erosão e invasão. E, sob o mar, os recifes de coral prosperam, entrelaçando-se novamente em um espaço antes destruído, mas que agora convida diversas espécies marinhas a voltar para casa.

Ilha Pari: mulheres na linha da frente da luta por justiça climática e conservação dos manguezais

Os habitantes da Ilha Pari, ao norte de Jacarta, capital da Indonésia, estão entre os quatro milhões de pessoas que enfrentam cada vez mais inundações no país, principalmente devido à subida do nível do mar resultante das mudanças climáticas. É por isso que, em 2022, quatro deles entraram com uma ação judicial contra uma das maiores emissoras de dióxido de carbono do mundo e, consequentemente, uma das principais responsáveis ​​pelo aumento das inundações que a comunidade enfrenta: a fabricante de cimento Holcim, com sede na Suíça. (21) Em dezembro de 2025, em uma decisão inédita, um tribunal suíço declarou a ação admissível, abrindo caminho para uma avaliação do mérito. (22)

Além das inundações, os moradores de Pari têm enfrentado muitas outras ameaças ao longo dos anos, incluindo a extração de areia e projetos de 'reklamasi', ou desenvolvimento de áreas, que afetam gravemente a ilha e seus manguezais. O último desses projetos ocorreu em 2015, quando a maior parte da ilha foi privatizada para o turismo por uma empresa chamada PT Bumi Pari Asri, subsidiária do grupo Bumi Raya Utama. Como resultado, a comunidade tem enfrentado violência, criminalização e prisões.

O que chama a atenção em Pari e em muitas comunidades da Indonésia é que as mulheres têm estado na linha de frente. Parte dessa resistência consiste no replantio de manguezais e algas marinhas de acordo com suas práticas tradicionais de conservação, transformando a área em um novo local de 'ecoturismo' na ilha, chamado de 'Pantai Rengge', em homenagem à sua amiga Rengge. (23) Todas as sextas-feiras à tarde, as mulheres da Ilha Pari se reúnem para cultivar hortaliças, limpar a praia e plantar novas mudas de mangue. A renda proveniente da colheita de hortaliças e das atividades de ecoturismo é distribuída igualmente entre todas as integrantes do grupo Mulheres da Ilha Pari. Uma delas expressou o que desejam da seguinte forma: “Nós, pescadoras, não esperamos nada sofisticado nem de marca. Nós queremos apenas viver aqui como moradoras do litoral, como habitantes da ilha, em harmonia com o mar e todo o ecossistema”. (24)

Secretariado Nacional da Coalizão Popular pela Justiça na Pesca (KIARA) e Secretariado Internacional do WRM
 

Referências:
    (1) WRM, 2022. Lutando para não submergir: o povo da Ilha Pari, na Indonésia, contra a injustiça
    (2) Djamaluddin Rignolda, 2018. Mangrove: Biologi, Ekologi, Rehabilitasi, dan Konservasi. Manado: Unsrat Press. Pg. 160.
    (3) Arif Ahmad, 2018. Mangrove Efektif Redam Tsunami di Teluk Palu. Kompas.id.
    (4) Ridwanuddin Parid, Saragih Fikerman, 2023. Negara Melayani Siapa? Potret Ocean Grabbing di Pesisir, Laut, dan Pulau Kecil Dalam 28 RZWP3K di Indonesia, p. 17.
    (5) Cahyaningsih A. P., Deanova A. K., Pristiawati C. M., Ulumuddin Y. I., Kusumaningrum L., Setyawan A. D., 2022. Review: Causes and impacts of anthropogenic activities on mangrove deforestation and degradation in Indonesia. International Journal of Bonoworo Wetlands, Vol. 12 No. 1.
    (6) National Minerals Information Center, Nickel Statistics and Information.
    (7) Kementerian Energi dan Sumber Daya Mineral, 2021. Rencana Strategis Direktorat Jenderal Mineral dan Batubara Tahun 2020-2024. Hlm. 6.
    (8) Ibid, pg. 23
    (9) WRM, 2022. REDD significa Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal. Uma avaliação de 15 anos de REDD pode ser encontrada nesta publicação: 15 anos de REDD: Um esquema corrompido em sua essência
    (10) World Bank Group. Critical role of mangroves for livelihoods, resilience, and climate
    (11) TV Brics, 2025. Indonesia to restore peatlands and mangroves for major economic potential
    (12) Seu nome não é mencionado por razões de segurança.
    (13) Livelihoods. INDONESIA: mangroves revitalizing coastal villages with fishery & new businesses
    (14) Essa análise foi feita pelo WRM.
    (15) WRM, 2019. Indonésia: o destino das vilas de pescadores na crise climática e o fracasso do “Carbono Azul”
    (16) Também desenvolvendo projetos de carbono em manguezais no Senegal e na Índia, as seguintes empresas os usaram para alegar “neutralidade de carbono”: a companhia de agronegócio Danone; a multinacional Francesa Schneider Electric; o grupo financeiro francês Credit Agricole; a fabricante francesa de produtos de luxo Hermès International; o grupo francês de turismo Voyageurs du Monde; a empresa francesa de serviços postais La Poste Group; a fabricante de pneus Michelin; a empresa de fragrâncias e aromas Firmenich; a instituição financeira pública francesa Caisse des dépôts et consignations e a empresa alemã de software e tecnologia SAP. WRM, 2019.  Indonésia: o destino das vilas de pescadores na crise climática e o fracasso do “Carbono Azul”  
    (17) The dynamics of mangrove forests in relation to die-back and human use in Bunaken National Park, North Sulawesi, Indonesia – UQ eSpace – The University of Queensland, 
    (18) Foi nesse momento que se alterou a metodologia. O conhecimento da comunidade sobre manguezais e gestão costeira, baseado em saberes locais, foi combinado com o conhecimento de cientistas comprometidos com a comunidade, usando os princípios da Reabilitação Ecológica de Manguezais (REM), incluindo a Universidade Sam Ratulangi (UNSRAT), organizações não governamentais como a Fundação Kelola, o Mangrove Action Project (MAP) – Indonésia e a Blue Forests, além de ecologistas como Ben Brown e Rignolda Djamaluddin, e o especialista em restauração R. R. Lewis.
    (19) Blue Restoration – Building Confidence and Overcoming Barriers Frontiers.
    (20) A comunidade recebeu apoio da fundação KELOLA e de outras entidades, com destaque para a contribuição de Rignolda Djamaluddin, defendendo veementemente que o mar não é algo separado das pessoas, e sim parte do seu “lar”, do seu “quintal”, e que restaurar a natureza é sinônimo de defender a soberania popular.
    (21) Lutando para não submergir: o povo da Ilha Pari, na Indonésia, contra a injustiça
    (22) Swiss court accepts climate lawsuit against Holcim
    (23) Que as incentivou e apoiou para que dessem início à experiência.
    (24) Land Right Now. Save Pulau Pari!

Investimentos atuais e expansão de monoculturas de árvores na África

Em 2020, o WRM denunciou e alertou sobre um relatório do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e do WWF Quênia. O relatório chamava as instituições financeiras a apoiar o estabelecimento de 500 mil hectares de novas monoculturas de árvores na África subsaariana, ignorando os impactos nocivos, muitas vezes violentos, que essas plantações têm sobre as comunidades locais. (1) O relatório também recomendava a criação de novos mecanismos de financiamento visando gerar mais lucros para os investidores. Este artigo analisa em que medida essas recomendações se concretizaram desde então, descrevendo investimentos recentes em plantações industriais de árvores e a expansão dessa atividade na África.

Investimentos recentes e mecanismos financeiros impulsionam a expansão das monoculturas de árvores

Nos últimos anos, instituições públicas e privadas têm investido na expansão de plantações industriais de árvores na África para aumentar seus lucros. As três iniciativas a seguir fornecem algumas informações sobre como o negócio funciona, ou seja, quem está investindo, onde, como e com qual finalidade.

Africa Sustainable Forestry Fund – ASFF (operado pela Criterion African Partners)

Em 2019, quando foi publicado o relatório BAD-WWF Quênia mencionado acima, a empresa privada Criterion Africa Partners (CAP), com sede nos Estados Unidos, autodescrevia-se como “a maior investidora privada no setor de silvicultura sustentável da África”. (2) Desde então, por meio de seu Fundo Africano de Silvicultura Sustentável (ASFF II), a CAP tem administrado 150 milhões em investimentos. Alguns deles vieram do BAD, enquanto a maior parte veio de governos do Norte Global por meio de suas instituições financeiras, como Banco Europeu de Investimento (BEI), FMO (Holanda), BIO (Bélgica), FinDev Canada (Canadá). (3)

Os dados disponíveis indicam que a CAP controla atualmente pelo menos 135 mil hectares de plantações industriais de eucalipto, pínus e teca em vários países do continente africano, como África do Sul, Tanzânia, Moçambique, Uganda, Gana, Gabão e Namíbia. (4) Mais recentemente, em 2025, a empresa anunciou uma nova rodada de captação de recursos para estabelecer um novo instrumento de investimento, o ASFF III, (5) que visa arrecadar 180 milhões de dólares, e já garantiu 30 milhões do banco de desenvolvimento holandês FMO. (6)

African Forestry Impact Platform – AFIP (operada pelo grupo New Forests)

Outra iniciativa recente e expressiva foi a criação da Plataforma Africana de Impacto Florestal (AFIP) em 2022, que conta com um investimento de 200 milhões de dólares dos governos da Noruega, da Finlândia e do Reino Unido, por meio de suas instituições financeiras de desenvolvimento. A AFIP é gerida pela New Forests, uma das maiores gestoras privadas de terras e plantações industriais de árvores do mundo, que supervisiona mais de 8 bilhões de dólares em ativos e mais de 4 milhões de hectares em nível global. (7)

A primeira ação da AFIP foi adquirir a Green Resources, que se autoproclama “a maior empresa de desenvolvimento ‘florestal’ e beneficiamento de madeira da África Oriental”. (8) O longo histórico de violações da Green Resources contra comunidades rurais na Tanzânia, (9) em Uganda (10) e em Moçambique (11) parece ser irrelevante para os seus novos proprietários e investidores do Norte. Mais recentemente, em 2025, a AFIP adquiriu outra empresa de plantações de madeira, a Rance, expandindo suas operações para a África do Sul (12) e ampliando sua área de controle para mais de 50 mil hectares de monoculturas de eucalipto e pínus.

ASC Impact Forestry Fund (operado pela Nixdorf Impact Movement Management)

Uma terceira iniciativa relevante e recente foi o lançamento do Fundo para a Silvicultura de Impacto ASC, em 2022, pela família austríaca Kirchmayer. O ASC Impact já captou mais de 40 milhões de dólares e atualmente controla mais de 60 mil hectares de monoculturas de árvores na Etiópia, na República do Congo e em Angola. (13) O objetivo é ampliá-lo para 200 milhões e expandir a área de plantio a até 150 mil hectares. (14) O ASC prometeu aos investidores um retorno anual de 20 por cento. A aposta parece arriscada, visto que o fundo já começou a gerar desconfiança entre comunidades nativas da Etiópia devido a falta de transparência e processos de consentimento pouco claros. As comunidades temem que a iniciativa leve à expropriação e à perda de seus meios de subsistência. (15)

O que essas propostas empresariais têm em comum?

Nenhuma das iniciativas acima nem outras que encontramos ao escrever este artigo correspondem exatamente ao modelo de financiamento que o WWF Quênia e o BAD defenderam em 2019, mas uma comparação da arquitetura financeira das três propostas revela alguns aspectos em comum. Chama a atenção, por exemplo, o fato de as três iniciativas de investimento estarem registradas em paraísos fiscais: a ASFF, inicialmente registrada no Canadá, agora tem registro em Maurício (Ilhas Maurício); (16) a AFIP está registrada em Singapura; (17) e o ASC, na Suíça. (18) Esses três paraísos fiscais oferecem algumas das condições mais favoráveis ​​para a prática de abuso fiscal empresarial, ou seja, a redução artificial dos lucros tributáveis ​​de empresas para diminuir – ou até mesmo zerar – impostos. (19) Isso faz com que governos percam receitas que poderiam financiar serviços públicos, principalmente nos países onde a atividade econômica de fato ocorre.

Outro aspecto que essas três iniciativas têm em comum, e que também é compartilhado pelo WWF Quênia e pelo BAD, é sua visão sobre o plantio de árvores na África. Eles usam os seguintes argumentos: as oportunidades de mercado para produtos de madeira são imensas porque a demanda global está em ascensão (uma demanda que é impulsionada, pelo menos em parte, por um lobby empresarial permanente, como o WRM alertou em um artigo recente); (20) as vastas e baratas 'terras vazias' da África são um terreno promissor para investimentos lucrativos de longo prazo; “qualquer expansão da produção doméstica seria benéfica” para a África; (21) e, por fim, a crise climática apresenta a oportunidade de multiplicar investimentos e aumentar lucros por meio de créditos de carbono e de biodiversidade. Os documentos dos projetos apresentados pelas empresas envolvidas se assemelham mais a folhetos de propaganda para atrair ou justificar investimentos do que a fontes sérias de informação sobre o contexto de expansão das plantações industriais no continente. Mas essa estratégia tem conseguido mobilizar dinheiro do Norte global para investimentos nessas plantações, com os três fundos de investimento mencionados acima já tendo arrecadado quase 500 milhões de dólares.

Com quantias tão significativas de dinheiro fluindo do Norte global para a expansão das monoculturas de árvores na África, será que a área dessas plantações industriais aumentou no ritmo esperado?

O que realmente se expandiu? 

Uma das formas de descrever a expansão das plantações industriais de árvores é como costumam fazer instituições internacionais como a FAO, por exemplo: em termos de hectares. Outra forma de abordar essa expansão é citar a multiplicação dos conflitos e da violência contra as comunidades que enfrentam a invasão das monoculturas em seus territórios. Discutiremos isso mais adiante neste artigo.

Em termos de área, os dados da FAO indicam que, entre 2020 e 2025, as plantações comerciais de árvores cresceram quase 600 mil hectares na África, menos apenas que a expansão ocorrida na Ásia. (22) Analisando por região, o aumento ocorreu principalmente na África Subsaariana, em especial nos países das regiões Ocidental e Central, onde a área total de plantações ultrapassou a da África Austral e Oriental. Ambas as regiões ultrapassaram os 5 milhões de hectares, como mostra o gráfico, com a área total no continente em 2025 chegando a 11,8 milhões de hectares, segundo os dados da FAO.

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Elaborado pelo WRM a partir da agregação de dados específicos de cada país
Fonte: Elaborado pelo WRM a partir da agregação de dados específicos de cada país, disponíveis em https://fra-data.fao.org/.

Em nível nacional (ver mapa), os dados mostram que a significativa expansão das plantações industriais na África Ocidental e Central não foi impulsionada por um único país nem por alguns países específicos; pelo contrário, parece ser um fenômeno generalizado. Enquanto isso, na África Oriental e Austral, o aumento se concentrou em Moçambique, Etiópia e Uganda.

Mapa – Dinâmica das plantações comerciais de árvores por país entre 2020 e 2025:*

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Mapa africano en portugues
*Somente os países com uma área de plantações superior a 15.000 hectares foram coloridos. Para os países cuja variação da área foi inferior a 1 por cento, considerou-se que a área permaneceu igual (amarelo).

Uma narrativa violenta, com consequências violentas

Os dados da FAO indicam que a expansão de 500 mil hectares prevista pelo BAD e pelo WWF Quênia em 2019 para os países da África Subsaariana basicamente se concretizou. Embora a confiabilidade desses dados seja incerta, o que ‘é’ certo é que as terras onde as árvores foram plantadas não estavam 'prontamente disponíveis', como afirmam o WWF Quênia e o BAD. Afinal, o 'mito da abundância de terras' ignora o fato de que áreas frequentemente rotuladas como 'vazias' geralmente sustentam pastoreio, agricultura itinerante, coleta, práticas culturais e outros aspectos fundamentais para as comunidades rurais tradicionais. (23) Dito de outra forma, essa terra está longe de ser vazia, entre outros motivos, porque é fértil – e por isso interessa a quem investe em plantações.

Essa forma corporativa de se referir à terra na África, que, ironicamente, é o continente com a maior parcela de sua população vivendo e em áreas rurais e delas dependendo (quase 80 por cento em vários países), reflete o mesmo espírito e as mesmas intenções das iniciativas de investimento mencionadas anteriormente neste artigo. Trata-se de uma forma de encarar um determinado território segundo a qual, se a terra ainda não está produzindo mercadorias conectadas aos mercados capitalistas, ela é considerado 'prontamente disponível' para empreendimentos capitalistas. Nos cálculos não divulgados dos investidores, é possível que os conflitos que surgem com as iniciativas de plantações, assim como as próprias comunidades, sejam simplesmente omitidos ou incluídos na matriz de investimento como 'riscos' ou 'custos'.

Lutas e resistência comunitárias

A consequência prática dessa visão é que não há como as plantações industriais se expandirem sem gerar conflitos. Não é mera coincidência que o recente crescimento da área de monoculturas de árvores na África tem sido diretamente associado a diversas lutas comunitárias nos últimos cinco anos.

Na Tanzânia, nos distritos de Iringa, Mufindi e Kilombero, as plantações de eucalipto e pínus, promovidas como 'solução' climática e operadas pela Green Resources – agora pertencente à Plataforma Africana de Impacto Florestal (AFIP) – continuam associadas a apropriação ilegal de terras, desmatamento, destruição de pastagens, conflitos fundiários, insegurança alimentar e promessas não cumpridas. Esses impactos agravam o empobrecimento e a desintegração social das comunidades afetadas. (24)

No Gabão, na província de Haut-Ogooué, a empresa Sequoia alega ter obtido 60 mil hectares para estabelecer um projeto de monocultura de eucalipto com o objetivo de vender créditos de carbono. Apesar da rejeição do projeto pelas comunidades locais e da ausência de consulta prévia, livre e informada, os responsáveis pelo projeto continuam avançando com ele. (25)

Em Serra Leoa, no distrito de Port Loko, a empresa Carbon Done Right, que planeja estabelecer 25 mil hectares de plantações industriais de árvores para o mercado de carbono, tem violado direitos consuetudinários sobre a terra e desrespeitado o direito das pessoas ao consentimento livre, prévio e informado, de acordo com pesquisa realizada com moradores de 25 aldeias da região. (26)

Em Moçambique, nas províncias de Zambézia e Manica, persistem problemas como apropriação de terras, esgotamento de fontes de água, condições de trabalho precárias e promessas não cumpridas da Portucel (subsidiária da empresa europeia de celulose e papel The Navigator Company). (27) Cansadas de viver cercadas e encurraladas por eucaliptos, as comunidades se uniram para lutar contra os impactos das monoculturas. (28) As mulheres dessas comunidades tomaram a iniciativa e começaram a recuperar áreas anteriormente ocupadas por eucaliptos para cultivar alimentos.

Exemplos como os mencionados acima mostram a forma com que as plantações introduzem diferentes formas de violência, que as comunidades continuam enfrentando à medida que essas monoculturas invadem cada vez mais seus territórios. Mas esses exemplos também revelam que, em muitos lugares, as comunidades estão lutando para defender e retomar suas terras.

'Restauração de terras degradadas': uma ideia enganosa usada para promover monoculturas de árvores

Por fim, é importante destacar um argumento enganoso usado para apoiar a expansão das monoculturas de árvores, principalmente na África: a ideia de que essas plantações contribuem para a 'restauração de terras degradadas'. Primeiro, não existe uma definição única de 'terra degradada'. A definição varia não apenas em termos biofísicos, mas também de acordo com a percepção, os valores e os objetivos de quem fala. Para uma comunidade que construiu uma relação com a terra ao longo de gerações, usando um sistema que, em algum momento, foi rotulado por pessoas de fora como agricultura itinerante ou de pousio, não faz sentido avaliar suas terras unicamente pelos parâmetros da 'agricultura moderna'. Principalmente quando 'agricultura moderna' significa ser altamente dependente de insumos químicos sintéticos, maquinário pesado e sementes modificadas.

Dentro da lógica da agricultura empresarial, o único parâmetro que importa na avaliação da terra é a riqueza monetária que ela produz ou poderia produzir. Por isso, para acessar as áreas onde querem estabelecer suas monoculturas, as empresas de plantação industrial de árvores analisam a fertilidade do solo, as fontes de água e a proximidade de infraestruturas, como estradas e portos. Ao mesmo tempo, buscam influenciar políticas de uso da terra e planos governamentais. Com frequência, procuram terras classificadas como 'subutilizadas', que geralmente pertencem a comunidades. Essas terras não estão totalmente cultivadas, pois parte delas foi deixada 'parada' para recuperar sua fertilidade ou talvez seja usada para caça, pesca, coleta de alimentos ou plantas medicinais e práticas culturais e espirituais. No entanto, empresas e governos tendem a considerar esses sistemas de uso da terra improdutivos e afirmam que “a silvicultura sustentável hoje significa cultivar árvores [monoculturas] em terras previamente degradadas”, como declarado reiteradamente no relatório da British International Investment. (29)

Em outras palavras, essas empresas estão interessadas principalmente em lucros, os quais exigem a maior produção possível por meio de monoculturas que, por sua vez, dependem de terras férteis. É verdade que existem terras naturalmente menos adequadas para a agricultura (por exemplo, terras que sofreram processos de salinização ou acidificação, solos com drenagem deficiente ou regiões com disponibilidade limitada de água), mas essas não são as 'terras degradadas' que as empresas procuram. Na prática, a principal função do argumento sobre a restauração de terras degradadas é encobrir a apropriação de terras e o deslocamento de comunidades. Além disso, a própria ideia de restaurar solos degradados por meio de grandes monoculturas que inevitavelmente reduzem a biodiversidade e secam nascentes e riachos deveria, por si só, ser considerada uma contradição.

Considerações finais

A expansão das monoculturas industriais de árvores na África subsaariana deve ser entendida como parte de uma dinâmica mais ampla de controle de terras e extração de recursos no Sul global, impulsionada por atores do Norte. Por trás do discurso da 'silvicultura sustentável' e da 'restauração', instituições financeiras, bancos de desenvolvimento e investidores privados do Norte continuam canalizando grandes somas de dinheiro para projetos em países do Sul, que concentram terras, deslocam comunidades e aprofundam conflitos existentes. A atual expansão das plantações industriais de árvores na África subsaariana revela que os padrões coloniais persistem como uma característica marcante em toda a implementação dessa atividade. No entanto, em todo o continente, as comunidades continuam denunciando a apropriação de terras e defendendo seus territórios, reafirmando que suas terras não estão 'vazias' nem disponíveis para empreendimentos externos para gerar lucro.

Secretariado internacional do WRM


Referências
    (1) WRM, 2020. O Banco Africano de Desenvolvimento e a indústria de plantações de árvores.
    (2) KVTC. Creating value, Conserving forests - Kilombero Valley Teak Company: A model for responsible forestry in Sub-Saharan Africa
    (3) Africa Sustainable Forestry Fund II and Africa Forestry Fund II 
    (4) Criterion Africa Partners
    (5) O ASFF III segue seus predecessores, o ASFF II (2018) e o ASFF I (2010))
    (6) FMO
    (7) New Forests
    (8) Green Sources
    (9) WRM, 2021. Comunidades na Tanzânia enfrentam problemas causados pelas plantações de árvores da Green Resources
    (10) The Oakland Institute, 2019. Evicted for Carbon Credits
    (11) JÁ, 2017. Conflitos de terra entre a Green Resources Moçambique e as comunidades locais levados a discussão na Noruega e na Suécia 
    (12) New Forests, 2025. New Forests expands portfolio in Africa by acquiring Rance Timber
    (13) SECA. ASC Impact Profile
    (14) ASC Impact
    (15) Farm Land Grab, 2026. Confusion and alarm over ASC Impact’s carbon plantations in Gambella, Ethiopia
    (16) BII, Africa Forestry Fund II
    (17) BBII, Africa Forestry Fund II
    (18) SECA, 2025. Year Book 2025
    (19) Tax Justice Network, 2025. The world’s Biggest enablers of corporate tax abuse
    (20) WRM, 2025. Quem precisa de mais papel e celulose?
    (21) Como declarado no relatório do WWF Quênia e do BAD (p. 22), disponível em: uncclearn.org
    (22) Os dados sobre a área fornecidos aqui correspondem aos mais recentes da FAO sobre “Florestas Plantadas”, disponíveis em data.fao.org. Observe que, na prática, a FAO depende de dados nacionais que podem ou não ser precisos, e que sua definição de “floresta plantada” inclui grandes áreas com árvores de uma única espécie, idade uniforme e espaçamento homogêneo, destinadas à colheita após alguns anos para fins comerciais (ver a definição completa em FRA 2025, p. 25). Em 2025, essas “florestas” plantadas representavam quase 85% da categoria mais geral de “Florestas Plantadas” da FAO no continente africano, com 83% da área coberta por espécies exóticas (não nativas). Chamar essas plantações de “florestas” é deliberadamente enganoso e uma forma indireta de apoiar empresas madeireiras, de celulose e papel e de borracha cujas atividades comerciais são, na verdade, uma causa de fundo da destruição florestal.
    (23) The Oakland Institute, 2025. Nota à imprensa: Debunking the Myth of Land Abundance - Africa Must Reclaim Its Lands from False Climate Solutions and Corporate Capture]
    (24) WRM, 2021. Comunidades na Tanzânia enfrentam problemas causados pelas plantações de árvores da Green Resources
    (25) WRM, 2024. Gabão: Controvérsia sobre o projeto de monocultura de eucalipto nos Planaltos Batéké
    (26) Heks Eper, 2024. Controversial carbon offset project spells hardship for local communities
    (27) WRM, 2024. A Portucel/Navigator e o eucalipto em Moçambique: “O que essa empresa deixa para a população é 0%”
    (28) WRM, 2025. Resistência em pé: comunidades se unem contra os impactos da monocultura do eucalipto em Moçambique
    (29) BII, 2024. Relatório de investimentos da British International Investment

Argentina: a organização comunitária como resistência e esperança diante dos incêndios na Patagônia

A Floresta Andina da Patagônia, no sudoeste da Argentina, voltou a arder. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, mais de 77 mil hectares foram consumidos pelas chamas nas províncias de Neuquén, Río Negro, Chubut e Santa Cruz. (1) Famílias inteiras assistiram enquanto as chamas cercavam suas moradias, tentando salvar o que podiam: ferramentas de trabalho, animais e memórias de toda uma vida. Centenas de casas foram reduzidas a chapas retorcidas e alicerces enegrecidos.

Isso se soma aos enormes danos causados pelos incêndios do verão anterior, quando pelo menos 32 mil hectares foram queimados, (2) grande parte em zonas de transição entre áreas rurais e urbanas. Na localidade de Epuyén, em Chubut, um incêndio que começou em uma grande área de espécies exóticas de pinheiro consumiu mais de 70 casas no primeiro dia, no 15 de janeiro de 2025. Entre os que vieram ajudar estavam famílias da província de Mallín Ahogado, 60 quilômetros ao norte, que duas semanas depois tiveram que suspender o auxílio e se organizar para enfrentar outro grande incêndio em seu próprio território, que havia começado em uma área densamente povoada por pinheiros-do-oregon. “O fogo avançou muito rapidamente em direção à nossa área, ajudado por fortes rajadas de vento, mas também através dos pinheirais, que eram mais abundantes no leste, destruindo tudo em seu caminho”, lembra o morador Darío Anden. Na ocasião, o incêndio causou a morte de uma pessoa e destruiu 370 construções, incluindo casas, galpões, alpendres, plantações de frutas e hortaliças e criações de animais. Durou quase dois meses e devastou cerca de 4 mil hectares. (3)

Um dos principais fatores que agravam os incêndios ano após ano é a monocultura de pinheiros, que se tornou uma praga na Patagônia argentina. Eles são altamente inflamáveis e, pior ainda, o fogo provoca a germinação de suas sementes, de modo que cada incêndio contribui para sua propagação. (4) Além disso, eles absorvem grandes quantidades de água do solo. Numerosos relatos e estudos mostram que algumas nascentes já secaram e que a vazão dos rios foi reduzida em mais de 60 por cento com a bacia repleta de pinheiros. (5)

Hoje em dia, segundo dados oficiais, existem aproximadamente 116 mil hectares de plantações de monoculturas de árvores na Patagônia Andina, das quais 90 por cento são de pinheiros, concentrados principalmente nas províncias de Neuquén, Río Negro e Chubut. (6) A isso se deve somar a área de invasão após os incêndios, em alguns setores, que é ainda maior que a área inicial das plantações.

As monoculturas começaram a ser estabelecidas na década de 1960, quando a floresta passa a ser substituída por plantações de espécies exóticas de rápido crescimento por meio de planos silvícolas e subsídios promovidos pelos governos provinciais e nacional. A princípio, o objetivo era reduzir a pressão da extração de madeira sobre as florestas nativas. Posteriormente, a finalidade passou a ser abastecer uma futura indústria de celulose e papel. Já nas últimas décadas, evocam-se compromissos estatais no mercado de carbono. Com frequência, as plantações de pinheiros foram e continuam sendo um pretexto para a apropriação e a privatização de terras públicas e a expulsão de seus habitantes. (7)

Nesse contexto, muitas plantações ficam abandonadas, sem controle nem manutenção, espalhando-se muito mais rapidamente do que as florestas nativas e se tornando um perigoso combustível.

Durante os incêndios de 2021, Mirta Ñancunao, da Comunidade Mapuche Las Huaytekas, em Río Negro, explicou o que os pinheiros representam para seu povo: “Entre nós que ainda permanecemos no território, temos evidências claras e experiências associadas a imposição, subjugação, abusos, expropriação, deslocamentos forçados, processos judiciais, modificação do habitat, alteração de ecossistemas e fontes de água, perda de pastagens para animais, perda da coleta de ervas para o lawen [medicina Mapuche], frutas e lenha”. (8) Em novembro daquele ano, o jovem mapuche Elías Garay Cayicol, de 29 anos, foi assassinado enquanto participava de uma retomada de território ancestral na província de Río Negro. Dois homens ligados ao empresário Rolando Rocco, da indústria da silvicultura, foram condenados pelo crime. (9)

O povo Mapuche costuma ser criminalizado pelo estado sempre que ocorrem incêndios. (10) Neste verão, enquanto as chamas ainda ardiam, o governador de Chubut, Ignacio Torres, e seus colaboradores lançaram uma campanha midiática apontando as comunidades Mapuche como responsáveis pelos incêndios. Organizações sociais, moradores e líderes territoriais denunciaram prontamente essas acusações sem provas (11) que buscavam, por um lado, criminalizar as comunidades e sua justa luta por territórios ancestrais e, por outro, desviar a atenção das reais condições que favorecem os incêndios: monoculturas de pinheiros, ausência de políticas públicas para o manejo de plantações exóticas e prevenção de incêndios, e desfinanciamento de políticas de proteção da floresta nativa. (12) Tudo isso ocorre em um contexto de crise climática com secas recorrentes.

A seguir, relatos de membros das comunidades afetadas que demonstram como, diante da pouca ou nenhuma assistência governamental, a organização comunitária foi e continua sendo fundamental no combate aos incêndios e na sustentação dos esforços de reconstrução. Esses relatos foram escritos por moradores de vilarejos nas montanhas da província de Chubut (a área mais afetada pelos incêndios recentes), membros de assembleias de bairro e parte de uma rede de solidariedade que se fortalece a cada dia.

Puerto Patriada: o início e a propagação do incêndio

Relato de Gabriel Verge

Em 5 de janeiro de 2026, um incêndio florestal começou na região de Puerto Patriada, uma área repleta de pinheiros jovens que já haviam queimado anos antes. O incêndio se alastrou rapidamente pelas encostas ao redor do Lago Epuyén, destruindo milhares de hectares de floresta andina patagônica e dezenas de casas. Em poucos dias, o fogo atingiu as cidades vizinhas de Epuyén, Lago Puelo, El Maitén e Cholila.

Apenas alguns meses antes do incêndio, apesar da seca, da condição extremamente precária da rede de distribuição elétrica e do acúmulo descontrolado de lixo e pinheiros por todo o território, as autoridades locais concederam licenças a vários complexos turísticos e campings na cidade de El Hoyo, que invadiram os arredores do lago com suas construções. Entre elas, havia quase 300 fogueiras que permaneceram acesas simultaneamente e sem qualquer controle efetivo durante as comemorações de Ano Novo. A má gestão era evidente e o desastre era apenas questão de tempo.

Embora não tenha sido possível determinar a causa do incêndio, a combinação de fatores que o precederam só precisou de uma faísca para desencadear o desastre. Os bombeiros e as brigadas locais foram sobrecarregados pela magnitude do fogo e não conseguiram contê-lo. Os densos pinheirais, que haviam brotado novamente após incêndios anteriores, serviram de pavio para a rápida propagação do fogo, marcando de forma clara e precisa o caminho das chamas que deixaram uma cicatriz na paisagem e nos corações.

Assim que o incêndio começou, outro problema grave veio à tona: a crise hídrica. Os governos provincial e municipal haviam ordenado cortes no fornecimento para a população, e diversas áreas afetadas pelo fogo ficaram sem água para proteger suas casas, simplesmente porque nada saía das torneiras. Com as margens do rio Epuyén privatizadas e bloqueadas por cercas e portões que impediam bombeiros e brigadistas voluntárixs de acessar os pontos de reabastecimento de água, a resposta demorou ainda mais.

Naquele momento de emergência, centenas de moradorxs evacuaram suas casas por conta própria, enquanto outrxs formaram brigadas de voluntárixs, organizadas em redes solidárias de apoio para tentar apagar o fogo e compensar a ausência do estado.

Em poucos dias, o incêndio que começara em Puerto Patriada já havia se alastrado. Foram queimados não apenas pinheiros e florestas nativas habitadas por uma rica biodiversidade, incluindo o huemul (animal raro que é um Monumento Natural em perigo de extinção), ninhos de condor e o caburé-grande. Além de casas e de meios de produção e subsistência, também queimou a própria identidade do povo, aqueles lugares onde a vida cotidiana se desenvolvia, além de outros lugares de valor histórico e cultural único e insubstituível, como as pinturas rupestres.

O problema não termina com o fogo. A reconstrução das casas queimadas é sustentada constantemente pelo espírito e pelas mãos de redes de solidariedade que não podem esperar pelas promessas do governo, cujas assistência e reparações são limitadas, seletivas e discriminatórias.

Epuyén: a auto-organização comunitária durante e após o incêndio. Relato compilado por Aguayala. (13)

Os recursos aéreos mobilizados pelo estado e pelas diversas brigadas de bombeiros foram insuficientes para conter todas as frentes de avanço do fogo. Diante dessa realidade, foram organizadas brigadas de bairro, reforçadas também por brigadistas voluntárixs que chegaram de outras partes do país.

Essas são as palavras de Eliseo Juan Ignacio Avella, o Mago, brigadista que veio de Buenos Aires para apoiar o combate ao fogo na Patagônia argentina: “Ternura e amor são a melhor revolução que um autoconvocade pode conhecer; com toda essa dor da natureza queimando, aquela impotência transformada em coragem, aquele esforço para subir um pouco mais a montanha e alcançar o fogo, e poder enfrentar esse mal que tanto nos faz sofrer, estamos evoluindo a partir de tudo o que nos aflige. Por isso, nossas ferramentas são uma mochila de água, uma motosserra, um pulansky, um derky (ferramentas especiais que os bombeiros usam para cortar raízes ou remover cinzas quentes), uma enxada”. E ele continua: “Enfrentamos medos e dores físicas por um bem comum: ver as florestas verdes e as comunidades vivendo do sustento que elas proporcionam. Nada nos detém porque o amor sempre triunfa; é o melhor aliado da esperança, que muites perdem devido ao cansaço. Mas existem seres de luz que vêm para dar tudo de si e depois retornam a seus lares. São brigadistas autoconvocades de todo o país e do mundo. Obrigado a todes por abrir seus corações com humildade e humanidade”.

Na comunidade afetada de Epuyén, vizinhos solidários organizaram todas as áreas necessárias para lidar com o desastre. Uma instituição de ensino, disponibilizada durante o período de férias, serviu como centro de operações. Foram criadas 'Zonas de Alívio', onde diferentes terapias holísticas (Reiki, medicina chinesa, massagens, curas) eram oferecidas quando os brigadistas retornavam, ao final do dia. Articulando uma rede colaborativa de ervanários, naturopatas e horticultores, recebiam-se e se preparavam medicamentos fitoterápicos e diversos produtos para proporcionar atenção primária aos necessitados. 

A cozinha comunitária, que funcionou durante todo o ano de 2025, continuou preparando refeições para as diferentes frentes de combate a incêndios, bem como para os mutirões de reconstrução que começaram assim que os incêndios foram controlados. É preciso destacar a ajuda solidária que recebemos de lugares próximos e cidades distantes, com contribuições financeiras, roupas, ferramentas e materiais de construção. E também devemos reconhecer a imensa dedicação dos voluntárixs de todo o país, que foram alojados no ginásio municipal ou receberam abrigo gratuito em campings.

Também foram muito importantes os espaços de logística e coordenação de todas as áreas mencionadas, bem como áreas para fornecimento e manutenção de motosserras e bombas d’água, gestão e recebimento de alimentos na cozinha e a área de coleta de doações para as vítimas.

Graças à eficiente articulação entre brigadistas voluntárixs, bombeiros, a Direção Provincial de Florestas, o Plano Nacional de Manejo do Fogo e outros órgãos, não houve mortos nem feridos.

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Brigadistas en Argentina
Brigadistas e voluntários de mutirões

El Maitén: “Sabemos que não estamos sozinhos”

Relato de Aymara Bares, da rádio comunitária Mapuche Petü Mogeleiñ

Em El Maitén, na província de Chubut, os incêndios começaram cedo este ano, mas a resposta da comunidade foi mais rápida do que em outros anos. Aprendemos! No dia 8 de janeiro, o incêndio que acabava de atingir Cerro Pirque devastou a floresta e as casas em seu caminho. O cerco durou semanas e deixou metade da estrada em tons de marrom, preto e cinza. Durante esses dias, foram instalados importantes pontos de controle em locais estratégicos. Nós, moradores de El Maitén, nos organizamos para ajudar, seja como brigadistas voluntárixs ou fornecendo refeições e recursos para quem estava arriscando a vida. Também houve vários dias de vigilância para garantir que o fogo não atravessasse a estrada e colocasse a cidade em perigo. Infelizmente, os corredores de pinheiros permitem que o fogo se alastre.

Cintia, uma companheira que participa das campanhas de brigadistas voluntárixs, diz: “Nós entendemos, há muito tempo, que temos que defender Ñuke Mapu. (14) É por isso que fazemos todos os cursos que podemos ao longo do ano, esperando o verão e o próximo incêndio. Sabemos que não estamos sós e que nunca é a última batalha contra o fogo. Sabemos que, a cada anúncio de chuva, os revezamentos já estão sendo organizados; sabemos que há pessoas cozinhando o dia todo para nos sustentar; sabemos que, em algum lugar do país, alguém está pegando carona para vir ajudar”.

“Se for preciso chorar - pois a cabeça começa a doer com tanta fumaça, fogo, sono e vigília, ou pela saudade da família que espera -, sempre há abraços disponíveis, principalmente de pessoas que você acabou de conhecer, mas que olham para você e estão na mesma frequência, na mesma luta, com a mesma ideia de não desistir até termos dado tudo de nós para defender nossos lares e as árvores nativas.

E o que não se pode salvar? Se reconstrói! Por aqui, o verbo 'mingar' é bastante usado. As mingas[mutirões] são uma oportunidade para trazer esperança, unir forças, meter as mãozinhas no barro, se emocionar a cada passo, celebrar cada pinheiro erradicado e do qual brote a nossa resiliência. Porque somos Küme che (gente do bem), nós não queimamos a floresta, nós a defendemos. Rume mañum”. (15)

Parque Nacional Los Alerces: Os dias do fogo

Relato de Nicolás Palacios, de Luan, Coletiva de Ação Fotográfica

A fumaça demora para sair da montanha. Mesmo quando as chamas se apagam, ela permanece suspensa entre as colinas, como uma memória recente. Cena recorrente: florestas enegrecidas, troncos ainda fumegantes e moradores caminhando pelas cinzas quentes em busca de focos que possam reavivar o incêndio.

Durante dias, brigadistas, bombeiros, moradores e brigadas autoconvocadas combateram as diversas frentes ativas em meio a montanhas íngremes, ventos variáveis e altas temperaturas. Do ar, helicópteros e aviões-tanque lançavam água sobre focos de incêndio que, vistos do solo, pareciam intermináveis.

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Combatiendo el fuego
Combatentes do fogo na Floresta Andino-Patagônica (Foto: Nicolás Palacios/Colectiva de Acción Fotográfica)

O fogo se alastrava rapidamente. Em questão de horas, podia descer um barranco, cruzar uma estrada e subir novamente a encosta seguinte. Para quem estava no terreno, um dia era medido em metros ganhos ou perdidos diante de uma frente que parecia nunca ser contida completamente. Mas, em muitas áreas, o fogo encontrou um aliado silencioso: os pinheiros. Os pinheirais queimaram com uma intensidade feroz. Muitos brigadistas descrevem a situação de maneira simples: ao entrar em um pinheiral, o incêndio se transforma.

Após várias semanas, quando o fogo finalmente foi controlado, a paisagem ficou em silêncio, a montanha, escura, e o cheiro persistente de madeira queimada.

O incêndio no Parque Nacional Los Alerces começou com um raio em uma área de difícil acesso. O prefeito, mais preocupado com a expulsão de uma comunidade Mapuche, recusou a ajuda oferecida pelos bombeiros de localidades vizinhas. Essa demora permitiu que o incêndio se alastrasse para além dos limites do parque. Durante semanas, o fogo se espalhou em várias direções, pondo em risco localidades vizinhas e queimando mais de 26 mil hectares de floresta, e acabando por se encontrar, ao norte, com o incêndio que começara em Patriada. Somente o enorme esforço de voluntárixs, junto a recursos estatais, impediu mais danos. A ação solidária contrastou fortemente com a lenta resposta do estado.

Dias depois das últimas brasas se extinguirem, moradores, amigos e voluntárixs começaram a chegar. Caminhonetes carregadas de doações, ferramentas compartilhadas, mãos dispostas a levantar paredes mais uma vez. Muitas casas foram reconstruídas coletivamente, em jornadas comunitárias de trabalho onde cada um contribuía com o que podia. Uns cortam madeira, outros erguem estruturas, outros, ainda, preparam comida para os que trabalham o dia todo. Entre mates, poeira e martelos, as casas começaram a tomar forma. Na Comarca Andina, essa lógica tem uma antiga tradição: quando alguém perde tudo, surge a organização comunitária.

Na cordilheira patagônica, depois do fogo, sempre resta mais do que devastação: resta a memória do desastre, mas também a obstinação daqueles que reconstroem suas vidas no mesmo lugar onde as chamas tentaram apagá-las.

De Cholila: o verde fugindo do fogo na pintura de Sara Miranda.

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Pintura Sara

Vamos despinheirizar! 

Já se alertou, desde cedo, que subsidiar plantações de pinheiros no contexto do aquecimento global é semear futuras catástrofes, como aquelas que estamos vivenciando cada vez com mais frequência. Estudos afirmam que os incêndios florestais na Patagônia aumentarão substancialmente durante a primeira metade do século XXI. E alertaram, como hipótese que agora vemos se confirmar, que o plantio contínuo de árvores exóticas inflamáveis aumentará o alcance ou a gravidade dos incêndios extremos. (16) Cada incêndio gera mais material combustível: onde havia mil pinheiros por hectare, após o incêndio, brotam 20 mil e até mesmo, mais de 100 mil pinheiros. (17)

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Rebrote de pinos
Rebrota de pinheiros após o incêndio de janeiro de 2025 em pinares de Epuyén

Os pinheiros se espalham para além dos limites das plantações originais, invadindo campos vizinhos e acostamentos de estradas. Crescem mais rápido do que as árvores nativas, tanto pela capacidade de extrair água das profundezas do solo quanto por emitir substâncias que inibem o crescimento delas. Assim, sufocam essas árvores nativas, invadindo e criando corredores de material altamente inflamável.

Um número cada vez maior de pessoas está se conscientizando da necessidade de controlar essa invasão verde. Aqui e ali, surgem mutirões (às vezes com mais de 30 moradores) para remover pinheiros, seja manualmente, usando serras ou motosserras, ou anelando as árvores para que sequem em pé. As sementes de pinheiro continuam germinando por até quatro anos após um incêndio e, portanto, a tarefa precisa ser repetida nos anos seguintes.

Lamentavelmente, enquanto a degradação territorial causada por essas plantações se torna cada vez mais evidente, o estado e o setor privado seguem promovendo seu cultivo, inclusive para transformar a região em exportadora de madeira. (18) Mas os mutirões e as organizações comunitárias continuam semeando e construindo outros mundos possíveis.

Trabalho de autoria coletiva compilado por Aguayala, um coletivo de pesquisa, difusão e ação focado na água – como bem comum – em Abya Yala. (19)

 

Referências:
(1) Greenpeace, Incendios forestales en la región Andino Patagónica, fevereiro de 2026.
(2) Greenpeace, Se cuadruplicó la superficie de bosques patagónicos afectada por incendios forestales, maio de 2025.
(3) Testemunho de Darío Anden, Mallín Ahogado, Río Negro. Março de 2026
(4) Raffaele, E.; Franzese, J.; Ripa R.; Moreyra A.; Pissolito, C.; e Blackhall, M.; Una nueva degradación de la tierra en Patagonia: retroalimentación positiva entre fuego e invasión de pinos, 2018.
(5)  Pizzolon, Lino; Hermosilla Rivera, Cristian; Richeri, Marina. Impacto hidrológico de las plantaciones de pinos en las nacientes del Río Chubut y sus posibles consecuencias en el valle inferior, Universidad Nacional de la Patagonia San Juan Bosco, 2022.
(6) Secretaría de Agricultura y Pesca de la Nación, Tablero de Plantaciones Forestales. Última atualização: dezembro de 2025.
(7) Lara, Susana. La forestación como instrumento de despojo, 2011.
(8) Boletim do WRM, Megaplantações de pinus na Patagônia Argentina: invasão territorial, incêndios e falta de água, janeiro de 2022.
(9) Agencia Tierra Viva, Condenaron a los asesinos del joven mapuche Elías Garay Cañicol, dezembro de 2022.
(10) Agencia Tierra Viva, Sin acciones concretas para combatir el fuego, el Gobierno responsabiliza al Pueblo Mapuche por los incendios, 13 de janeiro de 2026.
(11) Tiempo Argentino, Incendios en la Patagonia: denuncian que el Gobierno apela al racismo para evadir responsabilidades, 16 de janeiro de 2026.
(12) Agencia Tierra Viva, Milei y una Argentina sin protección de los bosques nativos, outubro de 2024.
(13) Coletivo dedicado à pesquisa, disseminação e ação sobre a água – como um bem comum – em Abya Yala, com foco especial na região andino-patagônica. Participam moradorxs locais, membros a comunidade mapuche, professorxs, cientistas, trabalhadorxs florestais (atuais e antigxs), militantes de assembleias, comunicadorxs e artistas. Sediado em Esquel e na Comarca do Paralelo 42.
(14) “Mãe terra” em mapuzungun, a língua Mapuche.
(15) “Muito obrigado” em mapuzungun, a língua Mapuche.
(16) Thomas T. Veblen; Andres Holz; Juan Paristsis; Estela Raffaele; Thomas Kitzberger e Melisa Blackhall. Adapting to global environmental change in Patagonia: What role for disturbance ecology?, 2011. Austral Ecology. 36:891-903.
(17) Idem 3.
(18) Mesa Foresto Industrial, 2026.
(19) Idem 13.