Camarões e Serra Leoa: mulheres se levantam contra a Socfin

As comunidades tradicionais, e especialmente as mulheres nessas comunidades, vêm denunciando há décadas as graves violações que a Socfin, a corporação multinacional que opera plantações industriais de seringueiras e de dendê em diversos países da África Ocidental, lhes inflige. As mobilizações e a resistência inabalável das mulheres nas comunidades cujas terras foram invadidas pela Socfin infligiram um duro golpe econômico à empresa. Em fevereiro deste ano, o Fundo de Pensões Estatal da Noruega, o maior fundo soberano de pensões do mundo, vendeu sua participação no Grupo Bolloré, um dos principais acionistas do Grupo Socfin. A decisão do fundo de pensões norueguês segue uma medida semelhante tomada pelo maior fundo de pensões da Suíça, o BVK.

O Grupo Socfin foi fundado em 1909 e controla cerca de 370.000 hectares de terra em oito países africanos e dois países asiáticos para a produção industrial de dendê e de seringueiras. (1) A lista de acusações contra várias subsidiárias da Socfin nesses países é longa e grave: grilagem de terras, violência sexual contra mulheres e meninas por parte de trabalhadores da empresa e de homens que trabalham como guardas nas plantações, restrição da liberdade de movimento das comunidades rodeadas pelas plantações, assédio, violência, intimidação, bem como contaminação das águas e dos solos.  

Por todos esses motivos, a Associação de Mulheres Vizinhas da Socapalm Edéa (AFRISE) é enfática sobre a decisão do fundo norueguês: "Já era hora de os investidores tomarem medidas contra a Socfin e a Bolloré". O apelo foi feito em um comunicado de imprensa coletivo, assinado por 32 organizações, para divulgar a decisão do Fundo de Pensões Estatal da Noruega e encorajar outros investidores a seguirem caminhos semelhantes. (2) 

As mulheres da AFRISE sabem bem do que estão falando. A AFRISE vem se organizando há anos para resistir às violações que as mulheres sofrem em suas próprias terras pelos representantes da subsidiária camaronesa da Socfin, a Socapalm. A Socapalm, certificada pelo sistema internacional de certificação Mesa Redonda sobre Óleo de Palma Sustentável (RSPO, pela sigla em inglês), apesar de todas as acusações contra ela, controla quase 60.000 hectares de plantações industriais de dendê em Camarões. Grande parte desta área foi grilada ou tomada à força de comunidades tradicionais. Este é o caso da comunidade de Apouh à Ngog, em Édea. Ali, a Socapalm ocupa há mais de 40 anos de forma irregular as terras que tomou de empresas que, por sua vez, grilaram terras no período colonial. (3) 

Em 2023, a AFRISE lançou uma petição internacional como parte de uma campanha para recuperar o seu território e impedir que a Socapalm retomasse as suas plantações industriais de dendê ao redor das casas e túmulos ancestrais da comunidade. (4) Na ocasião, as mulheres da organização afirmaram: “Não temos vida aqui. Porque a vida sem terra não é nada. Queremos a terra para poder sobreviver”, e concluem: “Vivemos como estrangeiras em nossa própria terra. Eles têm liberdade, mas nós não somos livres.” (5)  

As consequências disso são severas, especialmente para as mulheres, para quem a coleta e o processamento do óleo de dendê é uma prática tradicional e essencial para sustentar suas famílias. “Nós, mulheres, estamos sendo abusadas por esta empresa, estamos sendo realmente abusadas por conta da situação diária de nossas vidas, a situação que nos deixa fragilizadas, que nos leva a ir às plantações buscar nozes de dendê caídas”, denuncia a AFRISE. Em uma carta enviada ao então presidente de Camarões, como parte da mesma campanha, as mulheres da AFRISE descreveram a gravidade de sua situação: “Negociamos a entrada na plantação entregando nossos corpos aos guardas da Socapalm, que impõem isso como condição para o acesso à terra. Como ladras e escravas sexuais por gerações, perdemos nossa dignidade como mulheres ao perdermos nossos direitos mais básicos. Somos regularmente vítimas de muitos outros abusos e violência devido à presença desta empresa na terra dos nossos antepassados”. (6)  

Sem respostas institucionais para suas reivindicações, a AFRISE decidiu seguir por conta própria a luta pelo seu território. Em janeiro de 2025, as mulheres plantaram alimentos, como bananas e feijões, em aproximadamente 35 hectares de terra que recuperaram depois que a Socapalm desmatou o terreno para renovar sua plantação.Com determinação e amplo apoio internacional, a comunidade bloqueou máquinas pesadas e enfrentou dura repressão das forcas armadas, até que autoridades e as forças militares do Governo de Camarões e suas forças militares entraram em cena para defender os interesses da Socfin. (7) A comunidade pode ter tido que recuar da área que retomaram, mas a luta dessas mulheres segue.

As violações que as mulheres de Apouh à Ngog enfrentam diariamente estão longe de ser uma exceção. Muitas mulheres situações semelhantes em outros países e também para defender os seus direitos e denunciar o Grupo Socfin e as violações ligadas às operações de plantação da empresa. (8) É o caso das mulheres de Malen, no sul de Serra Leoa. Desde que chegou à região em 2011, a Socfin arrendou terras em larga escala por meio de um processo violento que impactou aproximadamente 52 comunidades e mais de 32.000 pessoas que vivem na área. Onde antes viviam comunidades, hoje existem mais de 12.000 hectares de plantações de dendê. (9) 

Hannan Deen, presidente da Associação de Proprietários e Usuários de Terras de Malen (MALOA), relembra uma época de dignidade e autossuficiência, quando viviam em paz e tinham comida suficiente proveniente de suas fazendas. Mas desde que a terra foi tomada pela Socfin, a vida, especialmente para as mulheres, tornou-se muito difícil. "Em certo momento, até consideramos mudar de local porque temíamos por nossa segurança, mas em vez de ir embora, decidimos ficar e nos organizar Foi assim que formamos a MALOA para defender os nossos direitos”, explica Hannan Deen num documentário produzido em parceria com a organização Rede de Mulheres Contra a Injustiça nas Plantações Rurais. (10) Nesse mesmo vídeo, Aminata Faba, uma líder comunitária, explica que uma das principais atividades da MALOA é alertar sobre as Leis dos Direitos à Terra, uma legislação adotada pelo governo da Serra Leoa em 2022 que fortalece os direitos da comunidade à terra. Aminata lembra da recusa do chefe de sua aldeia em vender as terras da comunidade. "Não há terras à venda!", teria dito ele e, por conta disso, foi preso e acusado de traição. Como as mulheres explicam no documentário, isso acontece com muitos proprietários de terras que se recusam a vender ou alugar suas terras para as corporações multinacionais: eles são coagidos, às vezes por meio de força física, a ceder suas terras para as plantações de dendê da empresa. 

Enfrentar os interesses de uma multinacional como a Socfin pode ser intimidante, especialmente quando se é mulher. O documentário inclui relatos de várias mulheres de Malen que estão defendendo os direitos de suas comunidades e de mulheres que sofreram assédio e abuso enquanto trabalhavam para a Socfin. A resposta da empresa sempre foi a mesma: negar qualquer irregularidade, perseguir e criminalizar indivíduos. 

Aminata Sowa, ex-chefe da cidade de Sinjo Malen, fala sobre momentos de tensão após levantar a voz contra as injustiças perpetradas por Sofcin e sobre ter que superar o medo: "Fui suspensa [do meu cargo] simplesmente por defender a justiça e os direitos das nossas mulheres. E ela continua: “Descobri que aqueles que se opõem à empresa foram colocados na lista de pessoas sujeitas a açoitamento público Temendo por minha segurança, fugi de Malen. Deixei meus filhos para trás; essa separação causou muito sofrimento à minha família”.

Gadi Rut Maguna teve uma experiência semelhante. Ela era a Secretária de Recursos Humanos e Presidente da Comissão de Igualdade de Gêneroo que respo: "Sim, eu trabalho para a Socfin, mas estou lado dos trabalhadores porque sou uma deles. (…) Se eu falhar em defender os direitos deles, isso afetará a todos nós agora e no futuro”. Gadi Maguna relata que as mulheres trabalhavam exaustivamente sem ter quaisquer direitos garantidos. “Como presidente da Comissão de Igualdade de Gênero, eu também tinha um dever com as diversas mulheres afetadas. Mantive minha posição, exigi justiça para as trabalhadoras", explica ela no documentário. Ela foi demitida e, após entrar com uma ação judicial contra a Socfin exigindo seus direitos trabalhistas, foi processada pela empresa. Ela chegou a ser presa e teve sua libertação condicionada à retirada das acusações, mas recusou e permaneceu firme em sua busca por justiça. Após oito dias detida, uma massiva intervenção das mulheres da região em apoio a ela fez com que fosse libertada. Mas o processo da Socfin contra Gadi se arrasta há 5 anos.

Em Malen, assim como em Apouh à Ngog, a principal luta das mulheres é pela terra. Jenebra Samai, uma moradora local que foi espancada por defender interesses contrários aos da Socfin, relata: "Desde que nossas terras foram tomadas, a vida tem sido extremamente difícil. Ela nos ajuda a imaginar a gravidade do que eles vivenciam diariamente: “Imagine que algumas crianças vieram passar férias, foram colher frutos de para comer enisso, são pegas, apanham, inclusive suas mães”. Comenta explicando o motivo que leva as mulheres a s forçadas a coletar os frutos de dendê deixados no chão dentro das plantações após a colheita – uma ação que a empresa e as autoridades estatais declararam ilegal e que está causando violência e abusos nas plantações da Socfin na África Ocidental e Central. “Porque se você não comer durante dias, o que vai esperar?”, explica ela. O documentário apresenta histórias de várias pessoas que foram presas e agredidas por colherem dendê em áreas que a Socfin alega pertencerem à empresa. Jenebra descreve o que muitos cujas terras foram tomadas pelos Socfin vivenciam: "Em Malen, é insuportável". "Não temos mata, não temos meios de sobrevivência e não temos para onde ir", explica.

O Grupo Socfin tem trabalhado para se distanciar dessas alegações. Para esse fim, a empresa chegou a contratar a Earthworm, uma ONG especializada em limpar a imagem de empresas envolvidas em violações de direitos tão graves quanto as da Socfin. Os relatórios da Earthworm listam e reconhecem alguns dos conflitos relatados, sem fazer nada de concreto para resolvê-los. (11) A estratégia da Socfin ao contratar a Earthworm parece ter sido, acima de tudo, ganhar tempo, a impressão de que algo está sendo feito e, ao aparentar tomar medidas para resolver os conflitos de longa data com as comunidades, evitar, ou pelo menos atrasar, a ação dos acionistas, como a decisão do fundo de pensão estatal norueguês de vender sua participação na empresa Bolloré devido aos conflitos contínuos com as comunidades.

Na Libéria a multinacional também tem causado conflitos de longa data com as comunidades em relação à terra. A Earthworm também preparou um relatório sobre os conflitos entre as subsidiárias da Socfin no país, Salala Rubber Corporation (SRC) e Liberia Agriculture Company (LAC), e as comunidades por conta das plantações da SRC e da LAC. "Os relatórios descrevem um progresso que simplesmente não existe", disse um líder comunitário sobre os relatórios do projeto Earthworm para os anos de 2024-2025. “O que vivenciamos diariamente é abuso, negligência e intimidação.” (12)

“Durante muito tempo, o Grupo Bolloré alegou não ser responsável pelos abusos que enfrentamos nas proximidades das plantações da Socfin e, como resultado, os abusos continuaram. Isso não pode continuar”, exige a AFRISE em comunicado coletivo à imprensa, em reação à decisão do fundo de pensões estatal norueguês de vender suas ações do Grupo Bolloré. A referência feita ao grupo francês Bolloré, vale também para o acionista majoritário da Socfin, a família belga Hubert Fabri – juntos, eles detêm 93 por cento das ações da multinacional.

Referindo-se à luta das mulheres de Malen e fazendo eco a muitas outras que lutam pelos seus direitos violados pela Socfin, Aminata Sowa afirma: Agora entendemos: a terra é vida. Estamos sendo punidos por defender essa verdade. As mulheres continuarão a lutar pelos seus direitos e pelos seus territórios, apelando aos investidores e financiadores internacionais da empresa para que políticas corporativas com vida e parem de financiar e lucrar com empresas que violam os direitos das comunidades, os direitos das mulheres aos seus corpos e o seu direito à terra. 

 

Secretariado Internacional da WRM
 
Referências:
(1)    O Grupo Socfin está presente, através de várias subsidiárias, nos seguintes países africanos: Camarões, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Serra Leoa, Libéria, República Democrática do Congo e São Tomé e Príncipe. E nos seguintes países asiáticos: Camboja e Indonésia. Para mais informações socfin.com/en/ 
(2)    Farmland Grab, 2026. Norwegian pension fund dumps Bolloré for human rights violations at plantations
(3)    WRM, 2024. Camarões: A resistência contra as operações de replantio da SOCAPALM é fértil!
(4)    WRM, 2023. Apoie as mulheres de Camarões que resistem às plantações de dendezeiros!
(5)    WRM, 2023. Camarões: Testemunhos de mulheres que reivindicam as suas terras  
(6)    Farmland Grab, 2023. Letter from the women neighbouring Socapalm Edéa to President Paul Biya
(7)    WRM, 2025. Comunidades se levantam contra a apropriação de terras e a violência do Estado
(8)    WRM, 2020. Violência e abuso sexual contra mulheres em plantações industriais de dendê
e Bloomberg, 2025. The Rubber Barons ;
e La responsabilité des multinationals, 2025. Exploitation sexuelle, expulsions et pollution autour des plantations de Socfin
(9)    Fian, 2019.  Land Grabbing for Palm Oil in Sierra Leone - Analysis of the SOCFIN Case from a Human Rights Perspective
(10)    Women´s Network Against Rural Plantations Injustice and Spaceman Media Consortium, 2026. Assista ao vídeo aqui
(11)    WRM, 2025. ONGS a serviço da pilhagem de territórios: o caso da Fundação Earthworm

Índia: o dendê está individualizando o uso da terra coletiva em Manipur

A introdução do dendê em novas áreas provoca mudanças no uso da terra que causam perturbações de longo prazo. O que muda não é apenas a saúde da terra, o que cresce nela, sua diversidade etc., mas também a propriedade e o controle. Este artigo explorará essa realidade no estado de Manipur, no nordeste da Índia, onde o dendê foi introduzido como parte do esforço do país para ter seu próprio cultivo e reduzir a dependência em relação ao que é importado da Indonésia e da Malásia.

Essa realidade já havia sido descrita em um artigo anterior do boletim do WRM intitulado “Plantações de dendezeiros em sistema de agricultura integrada e uma nova Emenda à Lei Florestal ameaçam as florestas do Nordeste da Índia”. (1) Escrito três anos após o estado de Manipur lançar o projeto Missão do Dendê em Manipur (OPMM, na sigla em inglês) em 2020, o texto contextualiza de forma clara essa proposta, “que visa converter mais de 66.500 hectares em plantações de dendê. Considerando que quase 70 por cento do território de Manipur ainda é coberto por florestas, essa é uma grande ameaça aos sistemas dos povos indígenas”.

Como explica o artigo, o que está acontecendo em Manipur faz parte de uma iniciativa política nacional: “A Índia importa mais óleo de dendê do que exporta, principalmente da Malásia e da Indonésia – cerca de 9 milhões de toneladas por ano. No entanto, em agosto de 2021, o governo anunciou a Missão Nacional de Oleaginosas e Dendê com o objetivo de aumentar a produção nacional de óleo de dendê. A meta é ampliar as plantações para 1 milhão de hectares até 2025-26 e para 1,65 milhão de hectares até 2029-30, com foco especial no Nordeste e nas Ilhas Andaman e Nicobar”.

Este artigo se baseia em uma visita a três aldeias no estado de Manipur onde o dendê foi introduzido recentemente: Chadong, Ramrei e Saram Tangkhul.

A aldeia de Chadong: entre a tradição e o capitalismo

Chadong, no distrito de Kamjong, é uma aldeia do povo Tangkhul. (2) Tem uma população total de cerca de 1.200 habitantes e, como a maioria das aldeias Tangkhul, ela está situada em uma imensa floresta. Como os limites da aldeia não são demarcados por agrimensores nem registrados no cadastro de terras do governo, as fronteiras tradicionais da comunidade são muito importantes. A área é delimitada por riachos, pedras e outros marcos naturais, que são defendidos de forma aguerrida quando a comunidade se sente ameaçada.

Quando representantes do governo contataram a comunidade com a proposta de uma plantação de dendê em Chadong, em agosto de 2025, organizou-se uma Sessão de Emergência da Assembleia da Aldeia. A resolução escrita afirma: “Esta Assembleia, após discussão aprofundada, decidiu por unanimidade não prosseguir com o projeto de plantação de dendê”.

A Assembleia da Aldeia é o principal órgão decisório em todas as questões importantes relacionadas à governança em Chadong. Os membros da Administração da Aldeia são responsáveis ​​por questões específicas. Por exemplo, a função de um deles é cuidar da floresta enquanto outro trata de questões relacionadas à educação, e assim por diante. No entanto, a Assembleia como um todo decide coletivamente sobre essas questões específicas.

O membro da Administração da Aldeia responsável por tratar de questões florestais explica posição contrária ao projeto de plantação de dendê: como não há terras privadas em Chadong, não pode haver plantação nas terras públicas. A única terra privada da aldeia era a fértil área agrícola às margens do rio Thoubal, submersa desde 2015 quando, apesar de décadas de resistência da comunidade, foi construída a barragem de Mapithel como parte do Projeto Multipropósito de Thoubal. Todas as demais terras, montanhas, riachos, árvores etc. de Chadong são públicas, com exceção dos terrenos destinados à residência de cada família. Isso significa que não pode haver plantação privada nem qualquer outra atividade que ponha em risco a vida coletiva. A Administração decide o que cada família pode retirar da vasta floresta, e esse limite não pode ser ultrapassado.

Esse modo de vida está sempre sob pressão. A construção da Barragem de Mapithel, por exemplo, forçou o deslocamento de parte dos moradores de Chadong (3) e de aldeias vizinhas. Desde então, a área principal de Chadong está submersa e agora se encontra basicamente em dois locais separados pelo reservatório. Com pouca ou nenhuma reabilitação e reassentamento adequados e sem alternativas de renda, os produtos da montanha continuam sendo a única fonte de subsistência.

Foi nesse período, posterior à construção da barragem, que o Departamento de Agricultura do governo de Manipur, no âmbito da Missão Nacional de Óleos Comestíveis-Dendê (NMEO-OP), contatou a Administração da Aldeia em Chadong. (4) Como mencionado anteriormente, a Administração rejeitou a plantação de dendê por se tratar de terras públicas, embora também tenha sido decidido, mas não formalizado por escrito, que os moradores poderiam iniciar plantações individualmente, caso tivessem terras privadas em outros locais. Foi nesse contexto que surgiram dois indivíduos, ambos de Chadong. Eles haviam comprado terras na vizinha Ramrei.

Mesmo assim, as terras privadas ainda são regidas pelas leis da aldeia e não podem ser transferidas a pessoas de fora nem usadas de maneiras que prejudiquem os interesses da aldeia. (5)

A aldeia de Ramrei: o cultivo de dendê beneficia interesses individuais enquanto destrói a floresta e a vida comunitária

Assim como Chadong, Ramrei também é uma aldeia habitada exclusivamente pelo povo Tangkhul que foi expulso pela mesma barragem de Mapithel. As terras que esses dois indivíduos de Chadong compraram em Ramrei são áreas florestais. Eles se reuniram com o representante do governo que promoveu as plantações de dendê, resultando na assinatura de um acordo, em outubro de 2025, que previa o fornecimento de viveiros um mês depois. Um dos indivíduos recebeu 180 mil rúpias (quase 2 mil dólares) para realizar o desmatamento. Também foram feitas várias promessas, como verbas para a escavação de quatro açudes, sistemas de bombeamento, e o pagamento, pelo governo, de 10 mil rúpias (cerca de 110 dólares) por hectare após o plantio, além de 12 mil rúpias (cerca de 132 dólares) por hectare para supervisão da área durante quatro anos. A expectativa é que haja frutos no quinto ano, que serão então comprados pelo departamento do governo estadual por cerca de 25 rúpias (0,27 dólares) o quilo. Foi dito aos dois moradores que cada planta produziria entre 70 e 200 quilos de frutos. Em fevereiro de 2026, um deles havia plantado 950 das 1.300 mudas fornecidas, e o outro, 500. Ambas as plantações estão em uma colina, e um dos moradores afirmou ter plantado pelo menos nove hectares até o momento.

Segundo a nossa investigação, a área destinada ao plantio em Ramrei era florestada e foi completamente desmatada, e já há dendê com cerca de um metro de altura brotando do solo na região. Acordos como esses não parecem ser exclusividade de Ramrei. Eles também foram realizados em diversas áreas florestais de Manipur, apesar de um folheto fornecido pelo Departamento de Agricultura do Governo de Manipur sobre a Missão do Dendê afirmar claramente que “os dendezeiros nunca devem ser plantados em florestas existentes ou em terras onde haja árvores de valor econômico”.

A cobertura florestal e arbórea corresponde a 77 por cento da área total do estado de Manipur, de acordo com dados oficiais. Essa área florestal total é dividida em terras florestais estaduais (como Reservas Florestais, Parques Nacionais, Florestas Protegidas, etc.) e florestas não classificadas. Cerca de 8 por cento da área florestal total são Reservas Florestais, incluindo a Rede de Áreas de Proteção da Vida Selvagem, e 24 por cento são Florestas Protegidas. Os restantes 68 por cento pertencem à categoria de Florestas Não Classificadas, (6) que estão dentro de um padrão de propriedade e controle diferente das tribos que habitam o estado. A porção de floresta de Ramrei pode estar na categoria de floresta não classificada, e seus usos serão decididos, em grande parte, pela Administração da Aldeia e/ou pelo ‘proprietário’ dessa porção de floresta.

Assim sendo, as questões que se colocam são: indivíduos do povo Tangkhul podem usar como quiserem as suas terras ‘privadas’, compradas em outra aldeia Tangkhul? Podem assinar contratos com o governo e/ou empresas, pincipalmente no caso do dendê, segundo os quais a terra ficará restrita à monocultura durante décadas?

Embora as plantas ainda sejam jovens e a maioria das promessas e problemas ainda não tenha se concretizado, a chegada do dendê já causou algumas mudanças. Essas terras destinadas a plantações ficarão inacessíveis a outros moradores e a outras atividades da aldeia, pois devem servir apenas às partes envolvidas. Além de prejudicar as leis e instituições de governança da aldeia, isso também estabelece um precedente perigoso, já que abre uma porta de entrada a empresas nas áreas que são bens comuns dos Tangkhul. (7)

Uma questão preocupante levantada pelos moradores das aldeias da região é que a expansão do cultivo de dendê irá consumir a área florestal. Moradores locais informam que, em muitos distritos de Manipur, as terras destinadas ao plantio de dendê eram de floresta. Como vimos em Ramrei, paga-se por 'desmatamento anterior ao plantio' em áreas florestais.

A perda de floresta não classificada não diz respeito apenas à perda de cobertura florestal, mas também a outros projetos de desenvolvimento, como a expansão de rodovias e o aumento da conversão de terras em plantações de papoula, entre outros. (8) Essa perda tem implicações mais amplas, como os impactos sobre os meios de subsistência das aldeias, o ressecamento de nascentes e a perda gradual de acesso às terras florestais, fatores que indicam a necessidade de repensar a adoção do dendê.

Além disso, com base no folheto intitulado “Programa Nacional de Óleos Comestíveis Financiado pelo Governo Central-Dendê (NMEO-OP)”, distribuído nas aldeias pelo Departamento de Agricultura do Governo de Manipur, já foi assinado um memorando de entendimento entre o governo e a Patanjali Foods Ltd., em março de 2025, para que a empresa opere nos distritos de Imphal Leste, Thoubal, Kakching, Ukhrul, Kamjong, Tengnoupal e Chandel. (9) Embora o memorando não esteja disponível ao público, as plantações de Ramrei estão vinculadas à empresa de óleo de dendê Patanjali Foods. Isso também significa que a terra onde estarão as plantações é posta indiretamente sob controle da empresa, enquanto o governo passa a ser o intermediário e o facilitador para outras empresas como ela.

A terra destinada a plantações de dendê fica restrita por até três décadas, considerando-se a vida útil de um dendezeiro. E já estão surgindo alguns impactos negativos. A escassez de água é visível na área da plantação de Ramrei. Os dois açudes escavados especificamente para irrigar os dendezeiros estão completamente secos: os responsáveis ​​pela instalação das plantações desconheciam a necessidade de grandes quantidades de água para o crescimento e a produtividade dos dendezeiros. É alarmante que os agricultores que assumiram o dendê não tenham sido informados sobre as possíveis implicações negativas, enquanto o folheto cita apenas os benefícios financeiros e os usos do dendê como produto de comercialização rápida, sem sequer mencionar as precauções que os agricultores devem tomar.

A aldeia de Saram Tangkhul: as plantações de dendê se aproximam

Saram Tangkhul é um pequeno povoado localizado no distrito de Thoubal, em Manipur (10) e, assim como Ramrei e Chadong, é um assentamento do povo Tangkhul. Tem aproximadamente 25 famílias e uma população total de cerca de 150 pessoas. Sua principal fonte de renda é a agricultura. Recentemente, os moradores têm presenciado a instalação de plantações de dendê.

Segundo um agricultor, diferentemente do que ocorreu em Chadong, a Agência para a Missão Orgânica de Manipur (MOMA), vinculada ao Departamento de Horticultura e Conservação do Solo, implementou o projeto de plantação de dendezeiros na aldeia em 2025, sem envolvimento da Administração da Aldeia. Os indivíduos tomaram suas decisões com base em interações com o órgão do governo para viabilizar as plantações de dendê.

Embora não haja nenhum documento ou acordo escrito disponível na aldeia, entendemos que aproximadamente 81 hectares (200 acres) de terras foram propostos para o cultivo de dendê e que cerca de mil mudas foram plantadas em 2025 por proprietários particulares em suas respectivas terras. Além disso, eles mencionaram que os custos iniciais de mão de obra foram subsidiados pelo órgão governamental responsável, com garantias de financiamento e assistência até a maturidade das plantas. Também contaram que foi prometida a instalação futura de unidades de processamento. No entanto, os moradores relataram que o apoio foi interrompido no meio do processo, supostamente devido ao surgimento de conflitos e objeções.

Sabe-se que o dendezeiro consome muita água e, se as plantas atuais crescerem até a maturidade e as plantações se expandirem ainda mais, isso só poderá significar o apocalipse, não apenas para Saram Tangkhul, mas para todas as aldeias ao redor, pois já há relatos de grave escassez de água potável. O serviço privado que traz água em pequenas vans abertas cobra 250 rúpias (2,75 dólares) por 500 litros, e todas as famílias da aldeia dependem desse abastecimento.

Desde a sua introdução no estado de Manipur, em 2025, as plantações de dendê em Saram Tangkhul enfrentam oposição em duas frentes principais: dos moradores de Langmathet e do Departamento Florestal de Manipur.

Em primeiro lugar, a objeção partiu da vizinha Langmeithet, uma aldeia do povo Meitei situada no sopé de Saram Tangkhul. O conflito surgiu depois que Langmeithet se opôs ao plantio de dendê, (11) o que ficou claro no comunicado de imprensa da aldeia, divulgado em julho de 2025. A nota, no entanto, não menciona o motivo dessa oposição. É a primeira vez em Manipur que um conflito fundiário surge em decorrência do que foi plantado por uma aldeia vizinha. Se as plantações de dendê se expandirem no estado, devem ocorrer conflitos no longo prazo, relacionados a terra, água e contaminação hídrica.

A segunda objeção importante veio do Departamento Florestal do Governo de Manipur, que alegou que a aldeia e a área de plantio estão localizadas na Reserva Florestal de Gwarok. (12) Os moradores foram instruídos a interromper as atividades de plantio de dendê, e algumas cabanas agrícolas construídas nas encostas também foram desmontadas pelo departamento florestal. Se analisarmos isso em conjunto com o que está acontecendo na aldeia de Ramrei, em terras florestais privadas ou nas não classificadas, teremos indícios de que as plantações de dendê podem estar se expandindo tanto em áreas florestais estatais quanto privadas.

Conclusão

A introdução de plantações de dendê em Manipur revela como elas podem prejudicar os sistemas coletivos de terras, causar perda de florestas, atender a interesses empresariais e corroer a governança da terra e as relações nativas. Nas aldeias de Chadong, Ramrei e Saram Tangkhul, a pressão pelo cultivo do dendê já causou desmatamento e conflitos. O que o governo e as empresas apresentam agressivamente como um caminho para ganhos econômicos, na prática, prejudica os bens comuns e ameaça os próprios fundamentos da vida comunitária.

As experiências dessas aldeias destacam uma verdade bem conhecida: as monoculturas amarram a terra a décadas de uso extrativista, destruindo a biodiversidade e enfraquecendo as garantias tradicionais. A resistência das autoridades locais e das comunidades vizinhas ressalta a importância de proteger a governança coletiva da terra e os ecossistemas florestais. Se não for controlada, a expansão do dendê acarreta o risco não só do colapso ecológico, mas também da desintegração dos sistemas culturais e sociais nativos no longo prazo.

O que vemos nessas aldeias de Manipur não se resume ao dendê; trata-se da defesa dos bens comuns, da preservação da água, das florestas e dos meios de subsistência, além de um futuro que não seja ditado pelos interesses de empresas e estados.

Ram Wangkheirakpam, da Indigenous Perspectives (IP).
A IP é uma organização não governamental sediada em Imphal, que busca compreender e fornecer perspectivas locais sobre a globalização. 


Referências:
    (1) WRM, 2023. Plantações de dendezeiros em sistema de agricultura integrada e uma nova Emenda à Lei Florestal ameaçam as florestas do Nordeste da Índia
    (2) Sobre Tangkhul Naga
    (3) Nei Water Talks, 2021. Tales of Two Villages: Upstream-Downstream
    (4) Home | National Mission on Edible Oils (NMEO)
    (5) A questão da terra privada ou da governança da terra em geral é tratada mais detalhadamente em “The Different Existing Patterns of Landholding System that Determine the Mode of Agrarian Change: A Case Study of Tangkhul Nagas”, de W. S. Machutmi.
    (6) Forest Department | Government of Manipur
    (7) Para outras leituras sobre a Governança Fundiária Tangkhul, veja:  The Different Existing Patterns of Landholding System that Determine the Mode of Agrarian Change: A Case Study of Tangkhul Nagas  
    (8) De acordo com dados do governo, a maior expansão de plantações de papoula ocorreu nessa categoria, com 20,40 km² somente em 2023-2024.
    (9) The Economic Times, 2025. Patanjali Foods partners with Manipur Government for oil palm plantation initiativeVeja, também o website da Patanjali.
    (10) É chamada de aldeia de Saram Tangkhul, pois existe outra com o mesmo nome, mas habitada por outra tribo.
    (11) Essa questão foi tratada em jornais locias
    (12) Reserva Florestal é uma categoria legal indiana de floresta protegida pelo governo, sujeita à mínima interferência humana e destinada à conservação da biodiversidade, a menos que haja permissão expressa do próprio governo. 

“O fogo passou por nós”: um relato do incêndio florestal no Chile

O relato a seguir nos permite sentir de perto o drama daqueles que vivem cercados por monoculturas de árvores quando veem o fogo “passando de pínus em pínus, como se fossem verdadeiros fósforos gigantes” e se aproximando de suas casas. Quem escreve é Verónica González Correa, ativista chilena que vive na comuna de Florida, na região do Biobío, centro-sul do Chile, onde há um histórico de incêndios florestais. Diretora do documentário “Chamas da desapropriação: incêndios do negócio florestal”, (1) ela vive em uma comunidade que recentemente foi vítima de incêndios florestais. Como muita gente na região, ainda não tem a dimensão exata das cicatrizes que o fogo deixou na terra onde vive e nela própria, mas sabe e explica que esses incêndios não são uma fatalidade.

Os cerca de 3 milhões de hectares de monoculturas de árvores no Chile são uma tragédia anunciada: pínus e eucaliptos são o combustível dos incêndios que se repetem periodicamente, devastando amplas áreas e deixando mortos e feridos. Esse cenário inflamável foi sendo estabelecido de forma violenta a partir da ditadura de Pinochet (1973-1990). Desde então, com apoio e financiamento do estado chileno, empresas do setor expropriaram territórios imensos e expulsaram povos indígenas e camponeses para estabelecer suas monoculturas de árvores. A maior parte dessas plantações está nas mãos de duas empresas: a Forestal Mininco, do Grupo Matte, e a Arauco, do Grupo Angelini. (2)

Foi assim, por exemplo, que o povo Mapuche da região viu seu território ser destruído e suas comunidades serem expulsas violentamente para dar lugar às monoculturas da Arauco, hoje uma das maiores empresas de celulose do mundo. Atualmente, os Mapuche lutam para recuperar parte desse território ancestral que lhes foi tomado, com o objetivo de preservar o pouco que resta de floresta intocada e de plantar para subsistência. (3)

Como Verónica deixa claro em seu relato, justamente as pequenas áreas de agricultura familiar, que resistem como ilhas em meio ao deserto verde de eucaliptos e pínus, que constituem os verdadeiros aceiros, ou seja, barreiras contra incêndios. E, se não fosse por ela ser vizinha de uma dessas áreas, pela organização comunitária para enfrentar os incêndios e por ter tecido uma rede comunitária de apoio solidária e rápida, o desfecho de sua história provavelmente teria sido outro. Fiquem com o relato.

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Na tarde de sábado, 17 de janeiro de 2026, começou o incêndio florestal na Fazenda San Lorenzo, na comuna de Florida, região do Biobío, centro-sul do Chile. Naquele dia, acordamos com a devastadora notícia da morte de 21 pessoas em decorrência de outro incêndio florestal, o de Trinitarias, o maior da temporada até então, que afetou áreas urbanas e periurbanas de Penco, Lirquén e Punta de Parra, comunas vizinhas ou muito próximas da nossa. Foram queimados 14.187 hectares, 800 casas foram destruídas e 20 mil pessoas foram danificadas. O nosso, agora, era mais um incêndio florestal que enxergávamos de casa.

No domingo, vimos o fogo avançar para o norte e passar paralelo à nossa casa, que ficava a nordeste de onde o incêndio começou. Para nossa 'sorte', do outro lado da rodovia o vento soprava de sul para norte. Já havia ocorrido um incêndio ali no ano passado, então, ingenuamente, achávamos que havia pouca biomassa disponível. Desta vez, vimos o combate aéreo ao incêndio, sentimos o calor aumentando, ouvimos o crepitar das chamas e ficamos cheios de fumaça. Mas o fogo estava ali, do outro lado. De qualquer forma, articulamos com os vizinhos um sistema de vigilância noturna por revezamento.

Naquele dia, como em muitos outros, o Sistema de Alerta de Emergência soou no telefone – uma intervenção violenta no espaço psíquico. Não é um toque de celular comum, e sim um som estridente, monótono e penetrante, que ignora se o telefone está no silencioso ou em vibração. É um bipe que acelera o pulso instantaneamente. No entanto, seu uso indiscriminado (ficou soando incessantemente por dias, devido a incêndios em outras regiões) acaba causando um pânico paralisante e uma exaustão profunda antes mesmo que o fogo chegue à porta.

Faz pouco tempo que moramos na zona rural de Florida, mas já ouvimos muitos relatos e advertências de pessoas que tiveram que defender suas casas ou as perderam em incêndios florestais, como os de 2017, 2023 e outros. Todos nos alertavam sobre a propensão da região a incêndios, pois tem 60 por cento plantados com monoculturas de árvores, verões muito quentes e pouca chuva. Vivemos na Cordilheira da Costa, então há muitas encostas e desfiladeiros. Tomando todas as precauções e ouvindo quem veio antes, conseguimos construir uma casa de barro. Temos um perímetro de 20 metros ao redor, feito de cascalho ou pequenas pedras britadas e sem árvores, bastante água disponível e equipamentos para molhar e  proteger a casa. Conseguimos priorizar a proteção da nossa morada, tanto material quanto financeiramente. Também temos parentes e amigos prontos para ajudar.

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Protection to cut fire around the house (Photo: Verónica González Correa)
Proteção para cortar o fogo ao redor da casa (Foto: Verónica González Correa)

Na segunda-feira, dia 19, o fogo mudou de direção, do norte para o sul, mas pelo leste, então estava literalmente vindo em direção à nossa casa. O acesso à propriedade era pelo norte, e tínhamos estabelecido um ponto de referência que, se fosse atingido pelo fogo, teríamos que sair ou pelo menos tirar o carro com as nossas coisas – nada de grande valor, só equipamentos de trabalho, documentos e algumas coisas que amamos e cuidamos, como as sementes da horta. Eu vi o fogo se aproximando tanto que senti pavor, a adrenalina e o estresse percorriam todo o meu corpo, as minhas pernas tremiam, e eu não aguentava mais a angústia. Ouvi e vi o rugido do fogo, o calor e o vento que ele traz. Tivemos que decidir que alguns de nós ficariam esperando o momento certo para molhar a casa. Não podia ser muito cedo, porque a água seca instantaneamente com o calor intenso. Saí para a estrada com minhas coisas e encontrei algumas famílias com seus carros carregados de pertences e animais, encorajando umas às outras. Vi bombeiros, membros da brigada com ferramentas e pessoas com tanques de água em suas caminhonetes, muito dispostas a ajudar. Também vimos o início do combate aéreo ao incêndio e a chegada de cada vez mais bombeiros, o que foi surpreendente, pois havia 12 focos de incêndio sendo combatidos simultaneamente apenas na região do Biobío. Naquele dia fomos salvos, como dissemos em conversa com as vizinhas: tivemos o privilégio de dormir em nossas próprias casas.

Na terça-feira, 20 de janeiro, os prognósticos eram desanimadores: à tarde, haveria muito vento de oeste para leste, e estava claro que não escaparíamos. Por volta das 5 da tarde, vimos o fogo se deslocar da rodovia em nossa direção. Felizmente, o vizinho cuja propriedade nos separa da rodovia é agricultor e sua terra é desmatada exclusivamente para cultivo e não possui pínus nem eucaliptos. O vizinho ao lado dele possui pínus e eucaliptos à beira da estrada, e por isso foi o ponto de entrada do fogo.

Entre o vizinho com os pínus e a nossa propriedade, existe uma divisa natural conhecida nesta zona como cárcava, um buraco ou vala profunda, de três metros em média, formada no terreno pela erosão hídrica (o impacto da água). Dizem que é resultado da superexploração do trigo no passado e, mais recentemente, do desmatamento para plantar monoculturas de árvores. A vala estava invadida por pínus gigantes, criando um tapete de acumulação histórica de acículas, que são as folhas perenes do pínus, em forma de agulha, e que, ao cair, demoram muito para se decompor devido ao seu alto teor de resinas e ceras, o que impede o crescimento de qualquer outra vegetação e deixa o solo propício à queima. A passagem do fogo pela vala cria o que é conhecido em incêndios florestais como um 'corredor de propagação vertical', já que, sendo uma depressão profunda no terreno, essa vala funciona como uma chaminé natural. O ar quente sobe com maior força, e as paredes concentram o calor, fazendo com que o fogo avance a uma velocidade explosiva, sendo ‘sugado’ para cima. Ou seja, o fogo entrou com pelo menos 30 metros de altura. Passando de pínus em pínus, como se fossem verdadeiros fósforos gigantes, uma enorme onda de fogo avançava em alta velocidade diretamente em direção à nossa propriedade. Uma cena dantesca. O fogo passou explodindo de pínus em pínus, mas bem em frente à nossa casa havia árvores nativas que não queimaram; apenas as mais próximas dos pínus sofreram.

Felizmente, com o fogo, vieram os brigadistas e nos disseram: “Tem que deixar passar; a casa de vocês não corre perigo, está isolada e molhada”. Nosso galpão, nossas árvores frutíferas e nossa horta estavam a salvo. Por rádio, conseguimos organizar a segurança dos moradores, com assistência dos brigadistas. Os parentes e amigos voltaram para controlar todos os focos de incêndio possíveis. Naquela noite, adormecemos apagando pequenas fogueiras, mas a nossa casa ainda estava lá, onde a havíamos construído.

Após o incêndio, passamos 22 dias apagando focos, com vários episódios importantes de combustão, que conseguimos controlar. O saldo do incêndio na Fazenda San Lorenzo foi de 4.300 hectares queimados, 30 casas destruídas e sabe-se lá de quantos agricultores que perderam suas plantações, pela passagem do fogo ou pela impossibilidade de irrigá-las. Ninguém na nossa região teve a casa completamente destruída, acredito que porque as nossas casas são relativamente próximas umas das outras, e a monocultura de árvores nos cerca, mas não está nas nossas terras. Porém, eu tenho certeza de que ninguém saiu completamente ileso. Minha família, nossos animais e a natureza em geral foram afetados, as cores ao nosso redor mudaram, com os diversos tons de verde substituídos por uma camada bege escuro, queimada. Ficamos devastados emocionalmente, e eu não acredito que nenhum ser humano conseguiria suportar isso todos os verões.

Agora que a emergência passou, é urgente identificar as causas e os responsáveis ​​por colocar o material combustível ali e por autorizar ou financiar o que foi feito. Porque viver rodeado por 3 milhões de hectares de pínus e eucaliptos cria as condições para que o fogo se alastre como vimos passar e arrasar tudo. A responsabilidade por isso recai principalmente sobre o estado chileno, que promoveu e financiou o modelo de plantação de árvores, e sobre duas famílias que lucraram imensamente: a família Angelini, com 1,1 milhão de hectares de plantações de pínus e eucaliptos e 50 por cento da capacidade de produção de celulose do país, e a família Matte, com 700 mil hectares de plantações de monocultura.

Não é falta de brigadistas (vimos centenas chegarem, inclusive do México), nem apenas a mudança climática, pois esta região sempre foi quente no verão; o problema é o excesso de combustível. O modelo de plantação de árvores criou uma paisagem onde a rentabilidade das empresas se baseia no risco vital para as comunidades. Quando o fogo entrou na nossa terra com chamas de 30 metros de altura, não era a 'natureza atacando', e sim o resultado de décadas de abandono de resíduos, falta de aceiros adequados e evasão da responsabilidade de empresas e do estado.

Tomamos conhecimento da Declaração das Organizações do Biobío, que é inequívoca: “A vida, a água e os territórios estão sendo devastados”. (4) Apoiamos veementemente as 15 reivindicações descritas na Declaração e chamamos a atenção para a denúncia de que “o governo tem insistido em favorecer o modelo de plantação de árvores. Um exemplo disso é o Plano de Fortalecimento Industrial do Biobío de 2024, concretizado em uma estratégia de 32 medidas para ‘acelerar’ os investimentos de e para projetos públicos e privados, de modo que sejam ‘implementados com a maior celeridade possível’. Isso inclui uma ‘estratégia para aumentar as plantações de árvores no território’. Em outras palavras, o Estado continua aprofundando o extrativismo predatório sem levar em conta a vida nesses territórios”.

Minha experiência com o vizinho agricultor em comparação com o vizinho que planta pínus demonstra que a pequena agricultura é um verdadeiro aceiro. No entanto, o modelo exerce pressão para esvaziar o campo, deixando apenas árvores para exportação. Muitas pessoas na minha região sofrem por viver aqui, e enfrentar a ameaça real a cada verão lhes rouba o desejo de viver em paz no campo.

A Fundação Keule (5) denuncia com precisão e clareza o negócio das plantações de árvores: “Se uma atividade existe para gerar lucros, ela também deve assumir integralmente os custos e riscos que gera. (...) Do ponto de vista jurídico, o princípio da responsabilidade estabelece que quem exerce uma atividade arriscada deve responder pelos danos que ela venha a causar. O princípio da prevenção nos obriga a antever e mitigar os riscos previsíveis, em vez de reagir depois que o dano já ocorreu. O princípio de que o poluidor paga (internalização das externalidades) impede transferir para a sociedade os custos de uma atividade privada. As externalidades não podem ser transferidas para a população, nem justificadas como ‘eventos inevitáveis’. Se ocorre um dano, a responsabilidade recai sobre quem projetou, gerenciou e lucrou com o sistema de produção”. Segundo essa lógica, a responsabilidade pelo incêndio que se alastrou por aquela vala repleta de pínus não é do vento, nem do azar, nem do meu vizinho, e sim de quem concebeu essa paisagem visando o lucro e não a vida. Exigir que arquem com os custos não é apenas uma reivindicação econômica; é o direito fundamental de não viver em constante medo sempre que faz muito calor.

Vinte e dois dias depois, ainda estávamos apagando incêndios. Mas quem apaga o medo? O artigo intitulado “O luto invisível após o incêndio: saúde mental em meio à crise dos incêndios no Chile” trata sobre esse tema. (6) É esse esgotamento de não conseguir dormir, de olhar para o vento com desconfiança, de saber que o seu refúgio – sua casa, suas árvores frutíferas – fica por um fio a cada verão. Esse trauma não é individual; é um dano socioterritorial. Fomos forçados a viver em um corredor de incêndios. O luto não é apenas pelas casas queimadas ou pelas pessoas que morreram em Lirquén e Penco, não é só pela solastalgia (dor crônica causada pela destruição da paisagem familiar e cotidiana), mas também pela perda da biodiversidade, da água que não corre mais pelos riachos e da paz de espírito que o extrativismo nos roubou.

Depois que o fogo passar, o caminho continua sendo a organização comunitária e a ação sobre a paisagem. Não esperaremos por soluções daqueles que planejaram o desastre; hoje, avançamos na gestão de nossas terras por meio de ferramentas como a criação estratégica de cabras (7) e a implementação de mais obras de conservação de águas e solos, transformando biomassa em vida, em vez de combustível. Não há mais necessidade de convencer o vizinho sobre os perigos de suas plantações; a evidência ficou gravada na terra. Para ele, e para todos e todas, ficou claro que vivemos em um barril de pólvora que só precisava de uma faísca para explodir. Nossa resposta é e será a reconstrução comunitária de um território habitável.

Verónica González Correa é chilena. Há 15 anos, participa de diversos projetos socioambientais; trabalhou junto a comunidades locais e povos originários na defesa de territórios e ecossistemas. É diretora do documentário “Llamas del despojo”, entre outros.
 

Referências:
    (1) Resumen TV, 2022. Llamas del Despojo: Incendios del Negocio Forestal
    (2) WRM, 2018. Chile: megaincêndios florestais, crimes empresariais e impunidade
    (3) WRM, 2023. Chile: Resistência ao modelo florestal em Wallmapu, território mapuche 
    (4) Organizations from the Biobío region, 2026. La vida, el agua y los territorios están siendo devastados 
    (5) A Fundação Keule é uma organização que atua na região centro-sul do Chile, dedicada à proteção do ecossistema e de espécies ameaçadas de extinção, como a árvore Queule (Gomortega keule), que é um Monumento Natural. 
    (6) Revista Resumen, 2026. El duelo invisible tras el fuego: salud mental en medio de la crisis de los incendios en Chile
    (7) Buena Cabra. Prevención ecológica de incendios forestales
 

'Vale da Celulose': Cerrado brasileiro sob cerco do eucalipto

O Mato Grosso do Sul, estado brasileiro em que 83 por cento das propriedades privadas são latifúndios, o maior índice do país, (1) vem sendo projetado como vitrine do setor da celulose.  Nessa região de Cerrado – bioma conhecido por ser a ‘caixa d’água’ das bacias hidrográficas do país e por sua rica biodiversidade – a monocultura de eucalipto avança rapidamente. A cidade de Três Lagoas foi elevada ao título de 'capital mundial' da celulose. A região leste do estado, por sua vez, passou a ser promovida, inclusive na legislação, como o 'Vale da Celulose', (2) que inclui principalmente os municípios de Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas, Água Clara, Brasilândia e Selvíria. Juntos, esses municípios somam quase 1,5 milhões de hectares de monoculturas de eucalipto, que servem aos interesses de quatro corporações internacionais: Suzano, Eldorado, Bracell e Arauco. (3)     

O discurso é sedutor: emprego, modernização e desenvolvimento. Mas, para além do marketing, a realidade impõe perguntas incômodas.

O que se observa é uma forte concentração de investimentos voltada, principalmente, ao atendimento de uma demanda externa, em grande medida criada pelas próprias empresas. (4) Em contrapartida, muitos resultados em termos do dito ‘desenvolvimento local’ são ignorados pelo discurso disseminado de promoção do progresso. Persistem, nos municípios do 'Vale da Celulose', problemas estruturais como insegurança alimentar, crise hídrica e deficiências em saneamento básico, educação, habitação e infraestrutura urbana. (5)

Somam-se a isso impactos sociais e ambientais que nos obrigam a perguntar: a quem está servindo esse modelo de monocultivos e de indústria, que se empenha em se autopromover e esconde o fato de que gera concentração de terras, aumenta a concentração de renda, seca nascentes, diminui a biodiversidade e expulsa agricultores do campo? Ganhos para quem e para quê? Para investidores do mercado internacional, sem dúvida. 

As obras, as indústrias: quem ganha e quem perde?

Os municípios selecionados para instalação das unidades de processamento de celulose, desde a implementação da primeira fábrica — a Fibria, atual Suzano, em 2006 — foram conquistados pelas expectativas de aumento do PIB e de melhorias para suas populações. A realidade, porém, mostrou-se bem diferente. (6) Entre 2006 e 2012, o crescimento populacional abrupto, impulsionado pela construção das fábricas da Fibria (2006) e da Eldorado (2009) levou diversas reportagens a apelidarem Três Lagoas de 'cidade dos alojamentos', (7) mostrando as condições de trabalho precário, volátil e instável no complexo celulose-papel. A especulação imobiliária impulsionada pela alta demanda por moradia dos que chegavam para trabalhar nas fábricas, levou os aluguéis da região a valores próximos aos de grandes capitais, dificultando a permanência da população local. (8) Esse crescimento populacional, aliado à expansão das atividades de produção de eucalipto e de processamento de celulose, engendrou um colapso nos serviços de saúde e transporte. A BR-262 passou a ser conhecida como 'rodovia da morte', em razão dos graves acidentes, muitos deles com vítimas fatais, provocados pelo intenso fluxo de carretas e pela demora na duplicação da via.

Os governantes afirmam ter aprendido com os erros, mas, quase duas décadas depois, a situação não é muito diferente. A construção da terceira linha de produção da Suzano, no município de Ribas do Rio Pardo, a partir de 2021, reproduziu problemas já conhecidos pelo aumento populacional vertiginoso: sistema de saúde sobrecarregado, disparada dos aluguéis e aumento no preço dos alimentos.

Com a entrada da fábrica em operação, em 2024, o canteiro de obras e seus problemas apenas mudaram de endereço, pois no mesmo ano a papeleira chilena, a Arauco, passou a erguer, no município de Inocência, o que promete que será a maior fábrica de celulose do mundo. E os canteiros de obras já avançam também para o município de Bataguassu, onde outra papeleira de capital estrangeiro, a Bracell, obteve licenciamento ambiental em 2025, em tempo recorde, para mais uma planta industrial. 

O afrouxamento da legislação ambiental para plantações de eucalipto, vigente no estado do MS desde 2007 (9) e recentemente expandido para todo o país pela lei da 'boiada do eucalipto' (Lei nº 14.876/2024) (10) favoreceu diretamente as papeleiras instaladas no chamado 'Vale da Celulose', ao excluir as monoculturas do rol de atividades poluidoras. Trata-se do resultado direto do lobby corporativo na formulação de políticas públicas, beneficiando grandes empresas em detrimento de comunidades locais e da proteção das águas, solo e biodiversidade

Enquanto isso, no campo, os plantios de eucalipto avançam e dominam a paisagem. Fecham horizontes e cercam os poucos núcleos camponeses que ainda produzem alimentos em uma região historicamente marcada pelo latifúndio. A reforma agrária, já limitada, sofre pressão crescente, com os assentamentos de famílias camponesas vivendo situações de isolamento, asfixiados pelos ‘paredões verdes’. É raro encontrar quem consiga escapar do eucalipto como vizinho. 

Mas, os impactos estão longe de ser apenas visuais. Agrotóxicos das monoculturas frequentemente atingem hortas, pomares e quintais, comprometendo o sustento de famílias camponesas, muitas vezes baseado na produção agroecológica. Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente (APP), que pela legislação brasileira deveriam estar livres dos efeitos das monoculturas, tampouco são poupadas. Os venenos utilizados pelas empresas de produção de eucalipto contaminam espécies endêmicas do Cerrado e afetam a fauna que ali vive e se reproduz.

As abelhas estão entre as mais impactadas, com registros frequentes de mortandade. A recente denúncia de um apicultor da região é uma pequena mostra disso. Em vídeo divulgado pelo WRM e gravado em dezembro de 2025, o apicultor mostra que as abelhas de suas 20 colmeias estavam quase todas mortas depois da aplicação irregular do veneno fipronil, pela empresa Suzano, sobre árvores nativas em época de floração, como os camboatás mostrados no vídeo. Trata-se de um crime ambiental expressamente endereçado pelo principal órgão ambiental brasileiro, o IBAMA. (11) Segundo o apicultor, a Suzano pediu que ele calculasse o prejuízo, ao que ele respondeu: “Não, eu não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. [Seria] uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo”.   

Além dos prejuízos aos apicultores, isso ameaça o próprio Cerrado e sua biodiversidade, que depende dos polinizadores — sem eles, muitas espécies deixam de se reproduzir. A fauna silvestre, privada de alimento nos reduzidos fragmentos de vegetação nativa, busca sustento nas áreas camponesas, agravando as dificuldades da produção agrícola. É praticamente impossível encontrar alguma comunidade que conviva com a expansão do deserto de eucaliptos em que agricultores não relatem o aumento de insetos-praga e de animais invadindo suas hortas e roças. Assim, o sonho de viver e produzir da própria terra torna-se cada vez mais inviável.

Para quem convive diariamente com os monocultivos, a lógica do capital é evidente. O setor investe pesadamente em uma narrativa verde: a de que planta 'florestas' sustentáveis, tentando convencer a sociedade de que atua em nome do bem comum. Mas, quem vive no Cerrado sabe que monocultivo de eucalipto não é floresta. Florestas significam diversidade, equilíbrio e vida. Não exigem uso e agrotóxicos, não expulsam animais nem comunidades rurais.

A tentativa de maquiar os impactos não apaga a realidade: trata-se da exploração intensiva de terras consideradas 'disponíveis', impulsionada por uma demanda fomentada em grande parte pelo lobby das próprias empresas. Terra e água, tratadas como recursos abundantes, são sugadas em ritmo acelerado.

As consequências já são sentidas. Comunidades rurais relatam poços e nascentes secando, açudes e córregos com níveis drasticamente reduzidos - em pleno Cerrado, conhecido como o 'berço das águas' do país. Somente no município de Selvíria, que conta com mais de 100 mil hectares de eucalipto, a prefeitura identificou mais de 350 nascentes que precisam de recuperação devido à redução na infiltração da água no solo e ao consumo excessivo de água pelas monoculturas em expansão. (12) Ainda que defensores do setor neguem relações de causa e efeito, o eucalipto está associado à drenagem de áreas úmidas em diversas partes do mundo. Publicações científicas, além da experiência vivida pelas próprias comunidades afetadas, comprovam tal associação. (13) Também não é irrelevante que o próprio setor busque variedades menos consumidoras de água.

Nesse contexto, permanecer na terra, resistir e sobreviver tornam-se desafios cotidianos. Ainda assim, os povos do campo persistem e resistem contra o expansionismo do eucalipto-celulose e da sua lógica do campo sem gente. 

É nesse âmbito que criamos o Fórum de Enfrentamento aos Impactos do Eucalipto, no inverno de 2024, (14) que reúne camponeses, acadêmicos, sociedade civil e pessoas preocupadas com essa realidade, a fim de compartilhar e levar a público os impactos que o eucalipto provoca no Cerrado, no cotidiano de toda a região Leste de MS. O Fórum também se propõe a construir coletivamente estratégias de denúncia e mobilização social, dando visibilidade às contradições e consequências ocultadas pelo discurso de desenvolvimento associado ao chamado 'Vale da Celulose'.

Fórum de Enfrentamento aos Impactos do Eucalipto

 

Referências:
    (1) Brasil de Fato, 2017. 83% dos terrenos privados do Mato Grosso do Sul são latifúndios.
    (2) O título de Capital Mundial da Celulose foi conferido ao município de Três Lagoas (MS) por meio da Lei Estadual nº 4.336/2013. Posteriormente, o município recebeu também o título de Capital Nacional da Celulose, instituído pela Lei Federal nº 14.142/2021. Em maio de 2025, a Lei Estadual nº 6.404/2025 oficializou a denominação “Vale da Celulose” para a região de Três Lagoas e municípios vizinhos, como Ribas do Rio Pardo e Inocência.
    (3) O estado do Mato Grosso do Sul é o maior complexo industrial de celulose no Brasil, já que é lá onde estão as maiores indústrias do setor. Mas Minas Gerias ainda é o estado com maior área plantada de monocultura de celulose: são mais de 2 milhões de hectares. 
    (4) WRM, 2025. Quem precisa de mais papel e celulose?
    (5) AgFeed, 2023. Projeto de R$ 22 bi da Suzano faz cidade do MS explodir no bom e no mau sentido
Campo Grande News, 2025. Inocência tem explosão nos preços e aluguel da quitinete já custa R$ 3.500 ;
Campo Grande News, 2025. Prostituição segue dinheiro da celulose e migra de Ribas para a pacata Inocência
   (6) Mongabay, 2025. Fábrica de celulose com histórico de contaminação se instala em área prioritária para conservação do Cerrado
    (7) Jornal do Trabalho, 2012. O trabalho precário, volátil e instável no complexo celulose-papel em três lagoas (MS)
    (8) Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros, 2019. A especulação imobiliária versus o acesso à habitação: temos que fazer a luta pela terra, a luta pela moradia
Campo Grande News, 2013. Para driblar aluguel "astronômico", Três Lagoas vive boom imobiliário, Pelos quatro cantos, outdoors propagandeiam imóveis e terrenos para todos os gostos e bolsos ;
Midiamax, 2011. Explosão imobiliária torna o aluguel de imóvel em Três Lagoas o mais caro de MS.
    (9) Resolução SEMAC Nº 17 DE 20/09/2007.
    (10) Agência Pública, 2024. “Boiada do eucalipto”: ambientalistas apontam lobby em lei que facilitou silvicultura
    (11) O IBAMA chegou até mesmo a determinar que as empresas de veneno incluíssem a seguinte frase no rótulo do produto: “Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental.” Veja mais aqui.
    (12) Prefeitura de Selvíria, 2025. Estudo revela impacto ambiental do eucalipto em assentamentos
    (13) WRM, 2016. Impactos das plantações industriais de árvores sobre a água - Testemunhos locais e estudos científicos que desmentem as empresas 
    (14) Fórum de Enfrentamento aos Impactos do Eucalipto, 2024. Carta política do fórum de enfrentamento aos impactos do eucalipto