A ‘transição energética’ deveria libertar o mundo da dependência dos combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, melhorar a relação entre o ser humano e a natureza. No entanto, em muitos lugares da Indonésia, de Gorontalo, na ilha de Sulawesi, a Merauke, na ilha de Papua, projetos impulsionados em nome dessa ‘transição’ vão na direção oposta. É o caso da produção de bioenergia, que ganha força no país com projetos de monoculturas que vendem ‘energia limpa’, mas entregam desmatamento e destruição.
O relatório “Legalizar a crise climática” (1), realizado pela organização WALHI, revelou que mais de um quarto de toda a área de floresta da Indonésia, cerca de 26,5 milhões de hectares, corre o risco de ser desmatada legalmente em nome da crise climática. Esse é o tamanho da área para a qual o governo concedeu diversas licenças para indústrias extrativas, como as indústrias madeireiras, as da mineração e as de plantações de monocultura. (2) Com essas licenças em mãos, as empresas têm permissão para destruir as florestas nessas áreas.
Segundo o relatório, essas áreas estão na mira de empresas que querem realizar projetos associados à ‘transição energética’, como indústrias de bioenergia – biomassa e bioetanol – e de mineração. Para alavancar seus projetos, as empresas aproveitam uma medida do governo de 2021 que permitiu que a licença destinada a atividades de ‘aproveitamento florestal’, a mais comum delas, pudesse ser usada para realizar mais de uma atividade ou negócio dentro da mesma área de concessão. (3)
Beneficiando-se disso, várias empresas começaram a investir em projetos de Plantações de Árvores para Energia (HTE, na sigla em indonésio). É o caso dos projetos de plantações de árvores para biomassa, que produzem os chamados pellets de madeira usados em usinas termelétricas como fonte adicional de energia.
Também se incluem nesse tipo de projeto as plantações de cana-de-açúcar para produzir bioetanol, além das plantações de dendê para produzir biodiesel.
Apesar de fazerem propaganda de que esses projetos contribuem para a descarbonização da matriz energética, o fato é que eles têm provocado muito desmatamento e, portanto, têm aumentado as emissões de gás carbônico, o tal do dióxido de carbono (CO2). Além disso, esses projetos têm destruído a biodiversidade e se apropriado de territórios de povos e comunidades tradicionais. No entanto, o próprio Ministério das Florestas legitima tudo isso classificando essa destruição como “desmatamento legal”.
Se todos os 26,5 milhões de hectares de florestas licenciados forem desmatados, será como se a Indonésia emitisse a mesma quantidade de gás carbônico que todo o setor de geração de energia desse país emitiu nos últimos 25 anos. Sem mencionar os danos imensuráveis que os Povos que dependem das florestas que estão dentro das áreas de concessão podem sofrer. Ironicamente, o desmatamento ocorre exatamente em nome de projetos que afirmam ser, eles mesmos, soluções para o caos climático.
De Gorontalo a Merauke, o padrão utilizado por esses projetos feitos em nome da ‘transição energética’ é o mesmo. Primeiro, são baseados no sacrifício de territórios e nos conflitos com os Povos da floresta. Em segundo lugar, o processo de licenciamento quase sempre ocorre sem uma avaliação ambiental e social adequada e sem uma verdadeira consulta à população que será impactada. Em terceiro lugar, o rótulo de ‘energia verde’ ou ‘energia limpa’ dado a esses projetos encobre o fato de que eles continuam dependendo da extração de recursos naturais em larga escala. Em quarto lugar, alguns grandes grupos corporativos concentram os benefícios econômicos desses projetos.
A seguir, alguns casos concretos que ilustram como esse padrão tem acontecido na prática.
Biomassa - o caso de Gorontalo: quando a floresta nativa se transforma numa plantação de madeira para energia
Na Indonésia, as plantações de monoculturas de árvores para biomassa estão em plena expansão. Até novembro de 2025, as terras visadas para implementar projetos de Plantações de Árvores para Energia já alcançavam 1,3 milhão de hectares, distribuídos em diferentes províncias do país. (4)
Por um lado, essa expansão tem sido incentivada pela demanda doméstica. No final de 2022, 35 usinas termelétricas da Indonésia já misturavam a biomassa de madeira com carvão mineral, principal combustível para essas usinas. A meta governamental tem sido aumentar drasticamente esse número, que chegou a 52 em 2026. (5) Mas essa prática não vai livrar a Indonésia da sua dependência do carvão mineral nem contribuir com o combate ao caos climático: a mistura nas usinas é 5 por cento de madeira versus 95 por cento de carvão mineral. (6)
Por outro lado, a exportação de pellets de madeira também cresceu, e de forma exponencial: de cerca de 100 toneladas, em 2021, para cerca de 120 mil toneladas, em 2023. Os principais destinos desse material são a Coreia do Sul e o Japão, que também o utilizam nas usinas termelétricas como fonte de energia adicional ao carvão mineral. Para atender essa demanda crescente, um estudo aponta que seriam necessários 2,3 milhões de hectares de plantações de árvores.
É o que podemos chamar de colonialismo energético. A matéria-prima está sendo extraída na Indonésia para que países industrializados sejam supostamente ‘descarbonizados’, sem levar em conta os danos sociais e ecológicos provocados no lugar de onde a matéria-prima é extraída.
Um dos centros atuais de expansão de monocultura de árvores para produção de biomassa para exportação é a província de Gorontalo, em Sulawesi. Segundo dados da Forest Watch Indonesia, entre os anos de 2021 e 2023, pelo menos 1,1 mil hectares de floresta foram derrubados nessa província para implementar Plantações de Árvores para Energia. E esse número pode aumentar drasticamente nos próximos anos.
Seis empresas estão em processo de licenciamento, o que pode vir a destinar mais de 180,6 mil hectares à expansão de monoculturas de árvores para biomassa. (7)
Outras quatro empresas já estão implementando projetos de Plantações de Árvores para Energia em uma área de concessão de cerca de 101,5 mil hectares. (8) Duas delas, a PT Banyan Tumbuh Lestari e a PT Inti Global Laksana, têm suas áreas de operação próximas às comunidades Lomuli e Butungale, no distrito de Pohuwato.
Para identificar os danos que esses projetos já estão provocando nessas duas comunidades, a WALHI Gorontalo realizou um estudo de campo. (9)
Impactos da produção de biomassa para as comunidades de Lomuli e Butungale
De acordo com o estudo, são muitos os danos ecológicos e sociais que as comunidades Lomuli e Butungale têm sofrido como consequência dos projetos de biomassa das empresas PT Banyan Tumbuh Lestari e PT Inti Global Laksana.
O desmatamento que provocaram já impactou o ciclo natural das águas nessas comunidades. Uma das consequências é que as chuvas não são mais absorvidas pela vegetação e isso causa escoamento superficial em excesso, redução de água nas reservas subterrâneas e aumento do risco (que já é considerável) de inundações e secas.
Além disso, a população denunciou que uma das empresas estava aterrando o leito de um afluente do rio para construir uma estrada para transportar madeira. Essa ação também destrói o ciclo natural das águas e aumenta ainda mais o risco de inundação nas áreas para onde o rio corre.
Outro impacto é que o plantio de monocultura faz com que a área fique mais vulnerável a pragas, a doenças e à degradação do solo. Além disso, as espécies que costumam viver nas florestas não conseguem sobreviver em áreas de monoculturas.
Em termos de danos sociais, as comunidades perderam o acesso à floresta que é sua fonte de água, alimento, lenha, mel, rattan, resina, castanha-de-caju e até seiva de palmeira-de-arenga. Com isso, as práticas culturais que dependem da floresta acabam desaparecendo.
Há tensão entre as pessoas das comunidades que esperam conseguir trabalho nas empresas e as que sofrem com a perda de suas terras. Entretanto, as pessoas que conseguiram trabalho atualmente se deparam com salários baixos e com a ausência de garantias trabalhistas adequadas. Longe de ser uma melhoria do bem-estar, a chegada das empresas resultou em uma nova vulnerabilidade estrutural.
E mais, as empresas ignoraram totalmente o princípio de Consentimento Prévio Sem Coação, uma adaptação do princípio chamado de Consentimento Livre, Prévio e Informado, como é conhecido em muitos outros países, usada na Indonésia. Todas as pessoas entrevistadas nas comunidades de Lomuli e Butungale afirmaram que não houve nenhum encontro para lhes informar de forma clara sobre o projeto das duas empresas. O último encontro nesse sentido do qual se lembram ocorreu em 2015, quando as empresas ainda afirmavam operar com plantações de monocultura do dendê para produção de óleo, e não no setor de madeira para energia.
Além disso, o estudo da WALHI Gorontalo apontou que mais de 90 por cento dos entrevistados nas duas vilas afirmaram categoricamente rejeitar a presença das duas empresas. Tudo isso indica que os projetos das empresas estão sendo implementados sem o consentimento livre das comunidades, que é um direito fundamental e deveria ser condição básica antes de se abrir um palmo de terra sequer em áreas que impactem essas comunidades.
Por fim, uma investigação sobre as empresas que atuam na região das comunidades Lomuli e Butungale aponta que os beneficiados por esses projetos seguem sendo as elites locais de sempre. Os documentos evidenciam a relação entre um dos principais exportadores de pellets de madeira, no distrito de Pohuwato, e várias figuras do mundo de negócios e da política nacional, incluindo a rede familiar de um conglomerado do setor de automóveis, grande e famoso na Indonésia, a Astra Internasional.
Esta estrutura de propriedade concentrada reproduz o modelo colonialista em nível local: extrair madeira da Indonésia para mandar para fora enquanto os benefícios econômicos se concentram nas elites político-econômicas e o fardo ecológico e social é carregado pela população das comunidades na região de extração.
Bioetanol em Merauke: perda de espaço de vida para comunidades indígenas
No distrito de Merauke, em Papua do Sul, comunidades indígenas sofrem os danos de projetos de bioenergia que fazem parte do Plano Nacional Estratégico (PSN) de Merauke, que, provavelmente, representa hoje o maior plano de desmatamento em curso no mundo - a previsão é desmatar cerca de 2 milhões de hectares de floresta.
Os projetos de bioenergia são plantações de monocultura do dendê para biodiesel e também plantações de monocultura de cana-de-açúcar para etanol. A plantação de cana-de-açúcar para bioetanol é um dos pilares desse Plano Nacional Estratégico. Dez empresas desse setor já receberam licenças, que totalizam os impressionantes 541.094 hectares distribuídos por todo o distrito de Merauke.
A monocultura de cana-de-açúcar está sendo projetada dentro do território tradicional dos povos Yei e Marind, onde estão 40 aldeias e mais de 40 mil habitantes. A implementação desse projeto foi ‘de cima para baixo’, não houve nenhum processo de consulta à população e, além disso, o envolvimento do exército fez com que as comunidades se sentissem coagidas. Diversos protestos por parte da população não tiveram nenhuma resposta do governo.
Enquanto isso, a população tem assistido à chegada de centenas de equipamentos pesados – incluindo mais de duzentas escavadoras – que destroem aldeias, hortas, pântanos e locais considerados sagrados pela comunidade Marind Maklew. Tudo isso com a supervisão direta do aparato militar.
O fato de que metade das áreas que foram licenciadas para cana-de-açúcar são áreas protegidas também viola o plano de ordenamento territorial local existente, uma vez que essas áreas nunca poderiam ser destinadas à agricultura. (10)
Tal como acontece em Gorontalo, as empresas de cana-de-açúcar em Merauke concentram riquezas e propriedades em um grupo restrito de grandes empresas. Estas, por sinal, são as que há muito tempo controlam a indústria de plantações de dendê e o comércio de óleo vegetal em nível global. (11)
Por que o direito de dizer ‘não’ deve ser respeitado?
O processo de licenciamento quase sempre ocorre sem uma avaliação ambiental e social adequada e sem uma verdadeira consulta à população que pode ser impactada. O princípio de Consentimento Livre, Prévio e Informado – direito conquistado pelas populações tradicionais para receber ou rejeitar projetos que causam danos a seus territórios – tem sido tratado como uma formalidade que pode ser ignorada, e não como uma condição que efetivamente pode impedir que um projeto seja implementado.
Quando uma população declara sua rejeição a projetos que causam danos severos a seus territórios e suas vidas - como aconteceu nas comunidades de Lomuli e Butungale, em Gorontalo, e com parte dos Povos de Yei e Marind, em Merauke -, essa voz é ignorada e, muitas vezes, reprimida com medidas de segurança.
Se existisse o respeito ao direito de veto da população indígena e comunidades locais, isso teria muitas consequências ecológicas positivas e concretas. Afinal, as áreas de floresta preservadas atualmente, na Indonésia e no mundo, são aquelas onde geralmente vivem as populações tradicionais e comunidades locais.
Em outras palavras, fortalecer o direito dos Povos das florestas a seus espaços de vida é uma questão de justiça social. Ao mesmo tempo, é também uma contribuição à conservação das florestas, e, portanto, ao enfrentamento da crise climática.
A suposta ‘transição energética’, no entanto, tal como é colocada em prática hoje, tem servido para fazer exatamente o oposto: acelerar o desmatamento, que também é uma das grandes causas do caos climático.
Nova embalagem para o velho colonialismo
De Gorontalo a Merauke, o padrão utilizado pelos projetos de ‘transição energética’ perpetua um velho padrão. Em vez de proporcionar uma ‘energia limpa’ que seja justa, continua sacrificando territórios que são espaços de vida de populações tradicionais e comunidades locais para enriquecer um punhado de empresas e elites locais.
Enquanto os projetos de bioenergia, como plantações para bioetanol, biodiesel ou biomassa, continuarem a ser implementados sem uma avaliação exaustiva da forma como as licenças são concedidas; sem respeitar o direito das comunidades atingidas de recusarem esses projetos; e sem uma avaliação dos danos ambientais e sociais comprometida com a justiça social e ambiental, a alegação de ‘energia limpa’ não passará de uma nova embalagem para o velho colonialismo.
Uma ‘transição energética’ realmente justa deve partir de uma questão fundamental: energia para quem e às custas de quem?
Uli Arta Siagian, Coordenadora de Campanhas da WALHI Nacional